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O Benfica voltou a não ganhar qualquer título no futebol oito anos depois, teve uma época desastrosa nas modalidades, voltou a fechar um exercício da SAD com contas negativas sete temporadas depois. 2020/21 trouxe poucos motivos para recordar aos encarnados mas nem por isso a posição de Luís Filipe Vieira, que tinha sido reeleito em outubro com cerca de de 62,5% dos votos, estava ameaçada. Havia ainda uma onda de contestação que se fazia sentir nos resultados menos conseguidos ou nas Assembleias Gerais do clube, surgiam algumas tarjas e mensagens nos arredores da Luz visando o número 1 do clube, chegaram até a ser organizadas manifestações junto à rotunda Cosme Damião, mas o lugar estava tudo menos em risco.

Pensou, preparou as cartas, enviou ao final do dia: Vieira demite-se de presidente de Benfica e da SAD (e todas as participadas)

Em julho, tudo mudou num par de dias: Luís Filipe Vieira foi detido de forma preventiva no âmbito da operação Cartão Vermelho, o Benfica começou a arrumar a casa passando ao lado nos comunicados que ia fazendo daquele que tinha sido presidente do clube durante 18 anos, uma missiva do Conselho Fiscal e Disciplinar da SAD para a CMVM precipitou a demissão do clube, da SAD e de todas as participadas, com Rui Costa a assumir a liderança dos encarnados. Logo nessa fase ficou acertado que o clube voltaria a ir a eleições para legitimar qualquer que fosse o elenco diretivo escolhido. Mas que cenário terá pela frente?

“Saiu pela porta pequena.” As reações à saída de Luís Filipe Vieira do Benfica

Os órgãos sociais demissionários conseguiram estabilizar a situação depois do terramoto provocado pela queda da figura que comandou os destinos do clube durante quase duas décadas: aproveitaram os dois meses de mercado para melhorar o plantel como era pretendido por Jorge Jesus, o futebol conseguiu a qualificação para a fase de grupos da Champions (começando o Campeonato sempre na frente e com uma série de sete vitórias seguidas como não acontecia há 39 anos), o empréstimo obrigacionista que estava em curso fechou com os 35 milhões de euros pretendidos subscritos, o damage control dos principais parceiros foi conseguido. No entanto, existem situações que podem constituir problemas ou que obrigarão a especial cuidado por parte do novo presidente eleito, seja nos casos de Justiça, seja no capital social da SAD.

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Um arranque quase perfeito depois do pior ano de Vieira no futebol

O arranque da nova temporada, já sem Luís Filipe Vieira, teve o condão de apagar aquilo que se passou na última época – a pior do antigo líder dos encarnados no clube, juntando o binómio resultados desportivos-investimento. Os 100 milhões de euros em contratações, a que se acrescentou o “resgate” de Jorge Jesus ao Flamengo, não tiveram correspondência em campo, com o Benfica a ficar sem títulos oito anos depois. Esse foi um dos fatores de maior pressão junto de Vieira, que até depois da derrota na final da Taça de Portugal garantiu a continuidade do técnico. A par disso, e do crescimento da massa salarial, a ausência na fase de grupos da Liga dos Campeões e os estádios vazios foram contribuindo para acentuar esse mau momento que teria reflexos na parte financeira, apesar do saldo positivo no primeiro semestre.

Jesus prometeu equipa a jogar o triplo, tornou-se o técnico com mais finais da Taça perdidas e Benfica acabou sem títulos oito épocas depois

Hoje, a realidade é diferente. Aliás, foi no meio da instabilidade institucional criada no seguimento de todo o processo que levou à saída de Luís Filipe Vieira que Rui Costa, entretanto promovido a número 1 interino dos encarnados, conseguiu equilibrar o barco: mantendo o seu trabalho no mercado entre entradas e saídas, viu o Benfica assegurar a entrada na fase de grupos da Liga dos Campeões com um jogo de gigantes frente ao PSV em Eindhoven com menos um durante mais de uma hora. Em paralelo com uma realidade nacional que colocou sempre a equipa no topo da classificação só com vitórias (algo que já não acontecia há 39 anos) até à derrota com o Portimonense, o Benfica começou a Champions com quatro pontos em dois jogos, incluindo um triunfo histórico frente ao Barcelona que abriu mais possibilidades de apuramento.

Bayern matou uma ideia, Rafa matou uma equipa (a crónica do histórico Benfica-Barcelona)

As contas que voltaram a ser negativas (como reflexo do que correu mal no futebol)

A Benfica SAD ainda conseguiu apresentar um resultado positivo no primeiro semestre do exercício de 2020/21 de 8,2 milhões de euros, com aqueles que foram os segundos melhores seis meses iniciais de sempre na sociedade a nível de rendimentos, mas o passivo já tinha aumentado cerca de 30% em relação ao período homólogo e a dívida líquida subiu 25%, mas terminou a época com um prejuízo de 17,4 milhões de euros, quebrando uma série de sete anos consecutivos sempre com lucro. A sociedade justificou esse trajeto, depois de um exercício com 41,7 milhões positivos em 2019/20, com o impacto da pandemia e com a ausência da Liga dos Campeões, mas as políticas desportivas seguidas também justificaram a quebra. O clube teve também um prejuízo de nove milhões de euros, explicado pelas mesmas razões da SAD.

Benfica passa de lucros a prejuízo de 17,4 milhões de euros

Nesta fase, o primeiro trimestre e sobretudo o primeiro semestre deverão apresentar uma realidade mais “aliviada”: o público voltou ao Estádio da Luz agora sem limitações de lotação (o mesmo se aplica aos pavilhões), a equipa entrou na fase de grupos da Champions com os mais de 40 milhões de euros que isso significa de forma direta, a diferença entre compras e vendas foi mais equilibrada do que na derradeira temporada. No entanto, permanece em aberto a procura/necessidade de novas receitas, como se percebeu na “parceria comercial exclusiva” com a WME Sports, que faz parte do grupo norte-americano Endeavor, assinada a meio de março deste ano para a procura de propostas para o naming do Estádio e do Campus.

Benfica assina acordo exclusivo com a WME Sports para procurar parceiros para venda do naming do Estádio e do Campus

As ações de Vieira, os 25% acordados por John Textor e a maioria da SAD

A questão da estrutura acionista da SAD tornou-se premente desde a saída de Luís Filipe Vieira, quando até aí tinha sido apenas assunto na sequência da OPA lançada e posteriormente refutada pela CMVM. Manter a maioria do capital social é uma promessa de ambos os candidatos à presidência mas o ponto que ainda se coloca é a percentagem que continuará a ser sua pertença – que tanto pode manter-se nos valores atuais abaixo dos 70% como aumentar, mesmo que não chegue aos 91% que estaria previsto na OPA de 2019.

Oficial: Benfica deixa cair OPA e explica como quer manter sustentabilidade da SAD

Nesta altura há duas questões em cima da mesa e que são do domínio público via CMVM: 1) Vieira pretende vender a sua participação de 3,28% por quase seis milhões de euros, tendo comunicado a vontade ao clube que tem direito de preferência mas que adiou qualquer decisão para depois das eleições pedindo mais esclarecimentos como por exemplo quem é o comprador dessa percentagem; 2) existe já um acordo entre José António dos Santos e o empresário norte-americano John Textor para a compra de 25% da SAD, no culminar de uma série de operações com pequenos acionistas que chegam depois a esse montante, um negócio que acabou por ser congelado pelo sufrágio eleitoral mas que foi recusado de imediato pelo clube, neste caso sem demonstrar vontade de assegurar essa participação ao contrário do que acontece com Luís Filipe Vieira, onde existe uma cláusula que dá sempre o direito de preferência ao Benfica.

Benfica confirma à CMVM que “Rei dos Frangos” tem acordo para vender 25% da SAD a John Textor

O que acontece com os casos de Justiça e a ligação dos sócios ao clube

Menos de duas semanas depois da última reeleição de Luís Filipe Vieira como presidente, em outubro de 2020, a Unidade de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária voltava a fazer buscas na Luz (assim como na sede da SAD do Santa Clara) num processo que envolvia negócios por três jogadores líbios que passaram por Portugal mas também suspeitas de corrupção no caso Mala Ciao. “Nos inquéritos investigam-se factos suscetíveis de integrarem crimes de participação económica em negócio ou recebimento indevido de vantagem, corrupção ativa e passiva no fenómeno desportivo, fraude fiscal qualificada e branqueamento”, explicou o Ministério Público através de um comunicado. No início de janeiro, o Observador escrevia que o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) e a Polícia Judiciária (PJ) investigavam a dependência económica de pequenos clubes, como o Santa Clara e o Desportivo das Aves, face ao Benfica.

Benfica e Vieira investigados por domínio económico e desportivo de clubes pequenos. Os detalhes por detrás do alegado esquema

A questão dos casos de Justiça envolvendo os encarnados foi um dos assuntos mais falados na campanha de 2020 e continua ainda hoje latente, depois de se juntar mais um processo no âmbito da operação Cartão Vermelho que coloca Luís Filipe Vieira como suspeito de ter desviado do Benfica 2,5 milhões de euros de direitos económicos de três jogadores em seu benefício através de um esquema com o agente de atletas Bruno Macedo. Ambos os candidatos colocaram o enfoque na transparência e na ligação aos sócios para que estejam sempre a par de tudo mas ninguém sabe ao certo que desfecho poderão ter todos estes casos nos próximos meses e até que ponto podem envolver mais ou menos a SAD e o clube.

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O setor feminino disfarçou uma das épocas menos conseguidas das modalidades

Uma das críticas mais vezes ouvida nas duas últimas Assembleias Gerais do Benfica, primeiro para aprovar alguns pontos sobre o Regulamento Eleitoral e depois para votar o Relatório e Contas do clube no exercício de 2020/21, foi a falta de títulos na última época nas modalidades de pavilhão. Neste caso, e fazendo uma distinção que nem sempre é feita, nas modalidades masculinas, tendo em conta o sucesso que por exemplo hóquei em patins, basquetebol e futsal feminino tiveram no Campeonato e não só. Houve apenas uma exceção, o voleibol, que confirmou a superioridade nacional e ganhou ao Fonte Bastardo em três jogos a final. Foi por isso que, neste verão, foram promovidas várias alterações nas equipas, tendo Fernando Tavares como principal responsável desse pelouro que se alarga também ao futebol feminino.

A gasolina acabou mas o ponto ficou: Benfica consegue travar Bayern numa estreia histórica na fase de grupos da Champions

O basquetebol trocou de treinador e mudou grande parte dos norte-americanos, numa aposta em Norberto Alves pelo trabalho feito na Oliveirense; o andebol manteve no comando Chema Rodríguez mas voltou a reforçar o plantel com alguns atletas internacionais incluindo o luso-cubano Alexis Borges; o hóquei em patins trouxe Nuno Resende de Itália para Portugal para liderar uma equipa melhorada com nomes como Pablo Álvarez do Barcelona; o futsal apostou no treinador espanhol Pulpis, que nos últimos anos foi o selecionador da Tailândia, e assegurou Rômulo e Bruno Cintra. Só mesmo o voleibol manteve a principal estrutura com alguns retoques no plantel, tendo conquistado já a Supertaça. Com as equipas femininas em destaque e o Projeto Olímpico a ser reforçado, é nestas modalidades que se centram as atenções.