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Há obras musicais e literárias cuja vastidão e sofisticação requerem do ouvinte ou leitor uma disponibilidade de tempo que não é compatível com o ritmo da vida moderna. Agora que muitos estão, pelas circunstâncias da pandemia da covid-19, confinados ao recato do lar e está suspensa essa magna força de distracção que são os campeonatos nacionais e internacionais de ludopédio, é altura é altura de finalmente empreender o projecto tantas vezes adiado de ler Em busca do tempo perdido, de Proust, ou as peças de Shakespeare, ou de ouvir todas as cantatas de Bach ou todas sinfonias de Haydn.

“Composto enquanto dormia”

Estamos habituados a que duas mãos bastem para contar as sinfonias de um compositor: Brahms e Schumann compuseram quatro, Tchaikovsky seis, Sibelius e Prokofiev sete, Beethoven, Schubert, Bruckner, Dvořak e Mahler nove.

Mas nos alvores do período clássico era usual que os sinfonistas tivessem produções bem mais extensas: Mozart compôs 47 – as 41 “oficiais” mais seis obras de juventude incluídas posteriormente no catálogo. Mas mesmo para os padrões do período, a produção de sinfonias de Haydn é impressionante: as 104 da numeração oficial, mais duas obras de juventude que costumam ser denominadas “A” e “B” (compostas em 1757-60) e uma Sinfonia Concertante para violino, violoncelo, oboé e fagote (1792).

Se compor 107 sinfonias já é um feito extraordinário, é preciso ter em conta que Haydn foi igualmente prolífico noutros géneros, compondo 68 quartetos de cordas, 50 sonatas para piano, 20 ou 30 concertos (alguns são de atribuição duvidosa, outros estão perdidos), 14 missas, 29 trios com piano e 123 trios para viola, violoncelo e viola barítono, uma criatura rara e bizarra que era o instrumento de eleição do seu “patrão” Nikolaus Esterházy. No domínio da música dramática, foi autor de 15 óperas, mas é preciso considerar que entre as suas atribuições no palácio de Esterhaza estava também adaptar, ensaiar e dirigir as representações no teatro da corte, de óperas suas ou de outros compositores, o que implicou uma média de mais de 100 récitas por ano entre 1776 e 1790.

A soma de todo este trabalho parece suficiente para ocupar meia dúzia de compositores despachados e não admira que no manuscrito de um dos seus concertos para trompa Haydn tenha rabiscado “composto enquanto dormia”.

O pai da sinfonia?

Joseph Haydn (1732-1809) foi um dos mais prolíficos e influentes compositores de sinfonias e quartetos de cordas, moldando decisivamente a evolução de ambos os géneros, mas não foi ele que inventou nem um nem outro.

[Sinfonia n.º1 de Haydn, por The Academy of Ancient Music e Christopher Hogwood:]

O termo “sinfonia” teve significados diferentes ao longo da história da música. Na primeira metade do século XVIII designava as peças instrumentais em três andamentos usadas como abertura ou interlúdio nas óperas; a conjugação desta “sinfonia” com a música de câmara para cordas acabaria por gerar um novo género, cultivado sobretudo em Milão, por Giovanni Battista Sammartini (c.1701-1775) e Antonio Brioschi (fl. 1725-50), em Viena por Georg Christoph Wagenseil (1715-77), Karl von Ordoñez (1734-86), Leopold Hofmann (1738-93), Johann Baptist Wanhal (1739-1813) e Carl Ditters von Dittersdorf (1739-99), em Mannheim, cuja corte possuía, em meados do século XVIII, a melhor orquestra da Europa, por Johann Stamitz (1717-57), Franz Xaver Richter (1709-89), Ignaz Holzbauer (1711-83), Christian Cannabich (1731-98) e Anton Fils (1733-60), em Paris, por Jean-Joseph Cassanéa de Mondonville (1711-72), Antoine Dauvergne (1713-97) e François-Joseph Gossec (1734-1829), em Londres, por Carl Friedrich Abel (1723-87) e Johann Christian Bach (1735-82). Pouco a pouco, a estrutura em quatro andamentos prevaleceu sobre a “sinfonia italiana” em três e as obras tornaram-se mais extensas e elaboradas.

Quando Haydn começou a compor sinfonias, por volta de 1757-59, data em que se tornou Kappelmeister do Conde Morzin (Ferdinand Maximilian ou o seu filho Karl Joseph), em Dolni Lukavice (hoje na República Checa), já o género tinha, portanto, muitos praticantes.

O palácio dos condes Morzin, em Dolni Lukavice

Em 1761, o Conde Morzin viu-se em apertos financeiros e as medidas de contenção de despesas passaram por despedir a orquestra e o respectivo Kappelmeister, mas o príncipe Paul Anton Esterházy, um nobre de estirpe e posses bem superiores aos dos Morzin, logo propôs a Haydn emprego similar no Schloss Esterházy, em Eisenstadt, uma vez que o seu Kappelmeister, Gregor Werner (1693-1766), há 33 anos ao serviço dos Esterházy, estava enfermo e tinha dificuldade em assegurar os seus deveres.

Haydn ficou com as atribuições de Werner (com excepção da música sacra), o título de vice-mestre de capela e a promessa de ser promovido a Kappelmeister após o falecimento daquele. Para que se perceba melhor quão prodigiosa é a produção de composições de Haydn, é preciso considerar que no palácio dos Esterházy, ele tinha as seguintes incumbências: maestro, administrador da orquestra, responsável pela biblioteca musical (aquisição, reprodução e conservação de partituras), encarregado dos instrumentos, director de pessoal (tinha de assegurar que todos os músicos se apresentavam adequadamente vestidos e envergando as obrigatórias perucas empoadas) e professor de música. Era um funcionário da casa Esterházy e como tal, tinha de usar libré e acompanhar a família nas suas deslocações, para lhes providenciar entretenimento sempre que solicitado.

Em 1766, com a morte de Werner, Haydn foi elevado oficialmente a Kappelmeister.

Schloss Esterházy, a casa de família dos “patrões” de Haydn, em Eisenstadt

“Fui forçado a ser original”

A morte do príncipe Paul Anton, em 1762, e a sua sucessão pelo irmão Nikolaus (1714-90) trouxeram mudanças radicais à vida na corte.

Uma visita a Versailles deixara Nikolaus (Miklós, em húngaro) decidido a imprimir pompa similar à corte dos Esterházy, pelo que a dotação para a orquestra foi substancialmente aumentada e um pavilhão de caça nas margens do Lago Neusiedl, a 40 Km de Eisenstadt, serviu de ponto de partida para a construção de um imponente palácio rococó, com 126 divisões, inspirado por Versailles e pelo palácio imperial de Schönbrunn, em Viena, que seria baptizado como Esterháza.

[Sinfonia n.º 23 por The Academy of Ancient Music & Christopher Hogwood; gravação realizada numa sala do palácio de Esterháza:]

O príncipe começou a usar Esterháza como residência de Verão logo em 1766, antes de a construção estar concluída – o teatro de ópera, com capacidade para 400 espectadores, inaugurou em 1768 e o teatro de marionetas em 1773, mas os arranjos exteriores só foram concluídos em 1784. Nikolaus afeiçoou-se de tal modo à vida em Esterhaza que em certos anos o “Verão” se alargava por oito ou nove meses.

O palácio de Esterháza

Foi neste local relativamente remoto que Haydn passou boa parte da sua vida e compôs a maioria das suas sinfonias: “Todas as minhas obras proporcionavam satisfação ao meu príncipe. Eu era aplaudido e tinha liberdade para experimentar, observar o que reforça um efeito e o que o enfraquece, e assim introduzir melhoramentos, adicionar, subtrair, ousar. Estava isolado do mundo. Ninguém em meu torno me punha em dúvida ou me atormentava e, assim, fui forçado a ser original”.

Haydn por Ludwig Guttenbrunn, c. 1770

A partir de 1775, o príncipe Nikolaus perdeu interesse por tocar a viola barítono – não terá sido por falta de repertório, já que Haydn compôs 200 peças para o instrumento, entre as quais 123 trios – e deslocou o seu foco de interesse para a ópera. Haydn ficou dispensado de escrever para o pouco gracioso instrumento, mas ficou com um encargo bem maior ao ter de gerir o teatro de ópera de Esterháza, cuja temporada fazia inveja, em quantidade e qualidade, aos melhores teatros de ópera públicos da Europa – durante os 14 anos de actividade do teatro representaram-se 88 óperas diferentes. Ao mesmo tempo, Haydn ficou sem pretexto para compor sinfonias – é bom lembrar que os compositores não compunham aquilo que lhes ditava a sua inspiração mas o que os seus patrões e mecenas determinavam – e a sua produção sinfónica poderia ter parado aqui não fosse a fama de Haydn ter, apesado da reclusão forçada, irradiado dos confins da Hungria rural para toda a Europa.

Para lá dos muros de Esterháza

Em 1779, Haydn conseguiu pôr termo às cláusulas de exclusividade no contrato que o unia aos Esterházy e obteve autorização para aceitar encomendas “externas” e para fazer publicar as suas obras. Por “publicar” entenda-se “publicação autorizada”, já que, fazendo pouco caso dos direitos exclusivos dos Esterházy e dos direitos de autor em geral, expeditos editores pela Europa fora tinham tratado de assegurar a difusão das obras de Haydn em numerosas edições piratas.

Entre os admiradores de Haydn em França contava-se Claude-François-Marie Rigoley, Conde d’Ogny, Intendente dos Correios, violoncelista amador, maçon e animador dos concertos “maçónicos” conhecidos como Le Concert de la Loge Olympique, que era servida por uma orquestra bem fornida (40 violinos!), dirigida por uma das mais fascinantes figuras do mundo musical do século XVIII, Joseph Boulogne, Chevalier de Saint-George, natural da ilha de Guadalupe.

Joseph Boulogne, Chevalier de Saint-George, foi o maestro na estreia das “Sinfonias de Paris”, de Haydn, em Le Concert de la Loge Olympique; gravura de William Ward a partir de pintura de 1788 por Mather Brown

Foi para estes concertos que o Conde d’Ogny encomendou, em 1784-85 (na mesma altura em que Haydn aderia à loja maçónica Verdadeira Harmonia, em Viena), as Sinfonias n.º 82-87, que ficaram conhecidas como “Sinfonias de Paris”.

[Sinfonia n.º 87, pela Orchestra of the 18th Century e Frans Brüggen:]

O acolhimento caloroso dispensado às sinfonias da Loge Olympique, incitou Haydn a tentar a publicação em Paris de duas outras sinfonias suas, a n.º 88 e a n.º 89, mas cometeu o erro de confiar as partituras das sinfonias (e dos quartetos que ficariam conhecidos como op. 54 e op. 55) através de Johann Tost, que até então fora violinista na orquestra de Esterhaza e decidira tentar a sorte em Paris. Tost tratou de vender as sinfonias a um editor por sua conta, juntando-lhe uma terceira sinfonia, de Adalbert Gyrowetz, que fez passar como sendo de Haydn – estas sinfonias são hoje por vezes referidas como “Sinfonias Tost”, o que é um favor prestado a um burlão que nada fez para merecer ser assim imortalizado.

Entretanto, o Conde d’Ogny ficara tão agradado com as “Sinfonias de Paris”, que encomendou a Haydn mais três sinfonias – n.º 90, 91 e 92 – que a lógica ditaria que fossem também conhecidas como “parisienses” mas que são mencionadas como “Sinfonias d’Ogny”. A nomenclatura é ainda menos coerente na n.º 92, universalmente conhecida como “Oxford”, por, bem depois da estreia parisiense, ter sido tocada naquela universidade a 7 de Julho de 1791, quando da cerimónia do doutoramento honoris causa em música conferido ao compositor.

[Sinfonia n.º 92 “Oxford”, pela Orchestra of the 18th Century e Frans Brüggen:]

Poderia pensar-se que foi para compensar ter sido ludibriado por Tost, que Haydn cometeu por sua vez uma aldrabice: tendo recebido em Janeiro de 1788 a encomenda, pela parte do príncipe de Oettingen-Wallerstein, de três sinfonias com carácter de exclusividade, Haydn “vendeu” ao príncipe as mesmas três sinfonias que entregara ao Conde d’Ogny. Quando o príncipe se apercebeu da trapaça não só perdoou a Haydn como lhe encomendou mais três sinfonias, desta vez mesmo em exclusivo (que Haydn nunca chegou a compor).

Mas, na verdade, era esta a forma de actuação típica de Haydn, quer em relação a encomendas quer em relação à edição das suas partituras. Fazia propostas a editores e empresários de obras que não fazia tenção de escrever ou que já estavam comprometidas e vendia a mesma obra a editores diferentes em países diferentes, ou até no mesmo país, já que em 1788 foi chamado a arbitrar uma disputa entre dois editores londrinos, Forster e Longman, que autorizara a editar a mesma obra (Haydn tratou de empurrar as culpas para um terceiro editor com “práticas usurárias”).

Haydn, à direita, de azul, dirige um quarteto de cordas. Quadro anónimo, c. 1790

“Chamo-me Salomon e vim de Londres para o levar comigo”

O melómano Nikolaus Esterházy morreu em 1790 e foi sucedido pelo filho Anton, com escassa inclinação para a música e que, a fim de poupar dinheiro, dissolveu a orquestra da corte. Mas como Haydn era então o mais famoso compositor da Europa, entendeu que era benéfico para o prestígio dos Esterházy mantê-lo ao seu serviço, com um corte no salário mas sem obrigações.

Ainda Haydn não tinha decidido o que fazer com esta inesperada liberdade após décadas de reclusão e já estava a bater-lhe à porta Johann Peter Salomon (1745-1815), um violonista, compositor e empresário alemão radicado em Londres que, sem circumlóquios, se apresentou assim: “Chamo-me Salomon e vim de Londres para o levar comigo”.

E Haydn foi mesmo para Londres, para se apresentar na temporada de 1791-92 – ao despedir-se do seu bem mais jovem amigo Wolfgang Amadeus Mozart este expressou o receio de que a saúde de Haydn talvez fosse demasiado frágil para a provação da viagem.

Haydn por John Hoppner, retratado quando da sua primeira visita à Grã-Bretanha, 1791

Com efeito, Mozart e Haydn não voltariam a ver-se, pois quando Haydn regressou a Viena em 1792, após a triunfal tournée britânica, Mozart já falecera há alguns meses. Em Viena, Haydn aceitou como aluno um rapaz de 22 anos, talentoso mas muito casmurro e senhor de si, que acabara de chegar de Bona. O rapaz pouco beneficiou dos ensinamentos de Haydn – em boa parte porque os talentos pedagógicos deste eram muito inferiores aos seus dotes como compositor e instrumentista – e este deve ter ganho no processo alguns cabelos brancos. A isto se resumiu a convivência do velho Haydn e do jovem Ludwig van Beethoven, que tratou de deixar claro que “nunca aprendera nada com [Haydn]”.

Hanover Square Rooms, em gravura c. 1830: Foi nesta sala que tiveram boa parte dos concertos de Haydn nas suas duas estadias em Londres

De qualquer modo, em 1794 Haydn estava de partida para Londres, novamente a convite de Salomon, para mais uma série de concertos perante multidões em êxtase. As duas temporadas londrinas coincidiram com a composição e estreia de uma dúzia de soberbas sinfonias, que ultrapassavam tudo o que Haydn escrevera até então, e que são conhecidas (sem surpresa) por “Londrinas” (embora algumas tenham sido compostas na Áustria).

As sinfonia de Londres, de 1794-95 foram as derradeiras que Haydn compôs – ainda teria uma importante produção de missas, oratórias e quartetos de cordas nos restantes 14 anos de vida, mas não houve encomendas de novas sinfonias e Haydn não compunha o que lhe dava na veneta, como faria o seu ex-aluno Beethoven e a maioria dos compositores do século XIX.

Foi aqui que Haydn residiu em Viena, entre 1797 e o seu falecimento. Fotografia c. 1930

Galinhas, ursos, imperatrizes, surpresas e até um milagre

A numeração das sinfonias de Haydn não é do compositor, tendo sido estabelecida em 1908 pelo musicólogo romeno Eusebius Mandyczewski, seguindo a ordenação da data de composição, tal como reconstituída de memória por Haydn no fim da vida. Esta não era então muito fiável e gerou várias imprecisões – por exemplo, as primeiras sinfonias, compostas ao serviço do conde Morzin têm os n.º1-5, 10, 11, 16-19 e 37 – mas acabou, ainda assim por prevalecer. Os nomes atribuídos a algumas das sinfonias são, na maioria dos casos, também tardios e apócrifos, como apócrifas são as histórias que justificam o baptismo.

À medida que os números crescem as sinfonias registam, em geral um aumento da extensão e da complexidade. As n.º 6, 7 e 8 datam de 1761 e foram as primeiras compostas para Paul Anton Estyerházy e é possível que os nomes por que são conhecidas – “Le matin”, “Le midi” e “Le soir” – tenham sido dados pelo príncipe. São ligeiras, despretensiosas, de cores vivas e ainda deixam ouvir vínculos ao barroco (afinal, Handel falecera apenas dois anos antes).

[Sinfonia n.º6 “Le matin”, por The Academy of Ancient Music & Christopher Hogwood:]

A n.º 26 “Lamentatione” (1768-69) foi assim baptizada por uma das melodias empregues por Haydn provir de um cantochão associado à paixão de Cristo. É uma das primeiras sinfonias da fase Sturm und Drang (“tempestade e ímpeto”), assim baptizada pelas afinidades com o movimento literário e filosófico contemporâneo, que reagia ao que era percebido como os constrangimentos excessivos da racionalidade da Era das Luzes e que exaltava as emoções extremas – de certo modo é uma prefiguração do Romantismo. As sinfonias Sturm und Drang de Haydn (n.º 26, 35, 38, 39, 41-52, 58, 59 e 65, compostas entre 1766 e 1774) favorecem as tonalidades menores e são sombrias, agitadas e com reviravoltas inesperadas.

[Sinfonia n.º59 “Fogo”, por The English Concert & Trevor Pinnock:]

A n.º 31 “Toque de trompa” (1765) foi composta numa altura em que a orquestra dispunha de quatro trompistas, o que levou Haydn a dar papel proeminente ao instrumento. O nome da n.º44 “Fúnebre” (1771) provém de, supostamente, Haydn ter indicado que pretendia que fosse tocada no seu funeral.

A n.º45 “Do adeus” (1772), tem a particularidade de, no último andamento, os instrumentos se irem silenciando um a um, o que exprimiria a vontade dos membros da orquestra, retidos há muitos meses na remota Esterhaza, de voltarem a ver as suas famílias – reza a lenda que o príncipe Nikolaus terá percebido a mensagem e terá concedido as almejadas férias à orquestra.

[Sinfonia n.º45 “Do adeus”, por The Academy of Ancient Music & Christopher Hogwood:]

A n.º 48 “Maria Teresa”, teria sido composta por ocasião da visita da imperatriz Maria Teresa a Esterhaza em 1773 (descobriu-se depois que a sinfonia data de 1768-69, mas o nome ficou).

A n.º 60 “O distraído” (1774-75), ganhou o nome de ter nascido como música de cena para uma representação de uma versão alemã da peça Le distrait, de Jean-François Regnard.

[Sinfonia n.º 60, por The Academy of Ancient Music & Christopher Hogwood:]

A n.º73 “La chasse” (1782), terá obtido o nome de forma retorcida: o andamento final começou por ser a abertura da ópera La fedeltá premiata, que estreou o novo teatro de ópera de Esterhaza em 1781 (o anterior ardera em 1779) e tem entre as personagens principais Diana, deusa da caça, o que justificou que Haydn desse papel de destaque às trompas de caça.

A n.º82 “O urso” (1786), foi assim baptizada por incluir um efeito de imitação de gaitas-de-foles que alguém se lembrou de associar a música destinada a acompanhar ursos dançarinos.

[Sinfonia n n.º82 “O urso” pela Orchestra of the 18th Century & Frans Brüggen:]

A n.º 83 “A galinha” (1785) deve o nome a uma associação mirabolante entre um ritmo de um trecho da sinfonia e a movimentação nervosa da cabeça de uma galinha. A n.º 84 “A rainha” (1785-86), era, supostamente, a favorita da rainha Maria Antonieta.

Maria Antonieta por Jean-Baptiste Gautier Dagoty, 1775

A n.º 94 “A surpresa” (1791) inclui um inesperado acorde fortissimo no meio de um trecho calmo. As sinfonias de Haydn têm frequentes marcas humorísticas, que desagradavam aos melómanos que entendiam que a música deveria ser sempre grave e solene. Não é de excluir que Haydn quisesse com este fortissimo assarapantar aquele público de escassas inclinações melómanas que frequenta os concertos apenas para fins sociais e, maçado pelo que ouve, aproveita para dormitar um pouco.

A n.º 95 “O milagre” (1791) teria sido estreada num concerto em cujo final o público, eufórico, se aglomerou junto do palco para aplaudir o compositor, o que fez com que a queda de um pesado candelabro no meio da sala não tivesse feito vítimas, um “milagre” numa sala apinhada. O evento parece ter sido real, mas terá ocorrido com a Sinfonia n.º 102.

[Sinfonia n.º 95 “O milagre” pela Orchestra of the 18th Century & Frans Brüggen:]

A n.º 100 “Militar” (1793-94) dá papel de destaque à percussão “turca” e às trompetes, o que sugere música marcial. O Andante da n.º 101 “O relógio” (1793-94) recorre a ritmos regulares que evoca um mecanismo de relojoaria, ainda que sem rigidez e exibindo o desconcertante humor do compositor e o seu gosto em surpreender o ouvinte.

[Sinfonia n.º 101 “O relógio” pela Orchestra of the 18th Century & Frans Brüggen; o Andante tiquetaqueante começa aos 8’26:]

Os que chegaram ao topo da montanha (e os que ficaram pelo caminho)

Apesar de a empresa de gravar todas as sinfonias de Haydn ser intimidante, é também um desafio irresistível – algo como escalar o Everest para os alpinistas.

A primeira tentativa teve lugar em Viena mas foi obra de um maestro norte-americano, Max Goberman (1911-1962), com a Orquestra da Ópera Estatal de Viena, iniciada em 1960. Foi abortada pela morte do maestro, dois anos depois, com 51 anos, o que também interrompeu o ainda mais ambicioso projecto de gravar todas as obras de Vivaldi. Goberman deixou gravadas 45 sinfonias, utilizando a mais avançada tecnologia de gravação disponível na época e apoiada na investigação musicológica de H.C. Robbins Landon, um musicólogo que devotou a vida às obras de Haydn e Mozart, e a uma orquestra de dimensões reduzidas, mais condizente com a segunda metade do século XVIII. Inicialmente foram comercializadas mediante subscrição, pela editora de Goberman, a Library of Recorded Masterpieces, logo com difusão limitada, e foram depois reeditadas pela CBS – hoje estão disponíveis sob a forma de uma caixa de 14 CDs Sony Classical.

A caixa recentemente lançada com as 43 sinfonias de Haydn

O primeiro a completar o ciclo foi o maestro austríaco Ernst Märzendorfer (1921-2009), à frente da Orquestra de Câmara de Viena, na década de 1960; preencheu 49 LPs, que foram publicados pela Musical heritage Society, uma editora americana que comercializava os seus produtos apenas por via postal. A difusão foi limitada e mesmo hoje estão disponíveis somente em formato MP3.

A primeira integral a estar efectivamente disponível nas discotecas foi a gravada para a Decca em 1969-72 pelo maestro húngaro Antal Doráti com a Philharmonia Hungarica (formada em 1956 por músicos exilados na sequência da invasão soviética da Hungria). Foi reeditada, em 1996 e 2009, numa caixa económica de 33 CDs, que surge regularmente nas recomendações da crítica e a que o Penguin Guide (a bíblia dos melómanos) confere uma “Rosette” (a mais alta recomendação).

AS sinfonias completas de Haydn numa edição da Decca

O maestro húngaro Ádám Fischer fundou em 1987 a Austro-Hungarian Haydn Orchestra, reunindo músicos da Filarmónica de Viena, da Sinfónica de Viena e da Orqustra Sinfónica Estatal da Hungria, e nesse mesmo ano começou a registar as sinfonias de Haydn. Fischer recorreu a instrumentos modernos mas norteou-se por preceitos da “interpretação historicamente informada” e tendo o preciosismo de as gravações serem todas realizadas na Sala Haydn do Palácio Esterházy, em Eisenstadt.

A Sala Haydn do Palácio Esterházy

A tarefa só foi concluída em 2001, altura em que a editora que apadrinhara o projecto, a Nimbus, foi à falência, quando faltava ainda publicar um volume de 5 CDs. Em 2009, a Brilliant Classics, cuja principal (e meritória) actividade é a reedição em formato económico de obras descatalogadas, reeditou as gravações de Fischer numa caixa de 33 CDs.

As gravações da orquestra austro-húngara de Haydn

Entretanto, em 2012, a ressuscitada Nimbus usou a tecnologia MP3 para comprimir o máximo de sinfonias no mínimo de espaço e consegiu encaixar as 107 sinfonias em 8 CDs (que podem ser ouvidos em leitores de DVD ou qualquer outro dispositivo capaz de reproduzir ficheiros MP3, mas não em leitores de CD), uma jogada desconcertante, já que quem se satisfaça em ouvir música comprimida através das colunetas do computador não precisa de gastar um cêntimo, tem milhões de discos de borla na World Wide Web.

As sinfonias de Haydn com o carimbo da Nimbus

Em 2009, aproveitando o pretexto do bicentenário da morte do compositor surgiu a integral pela Orquestra de Câmara de Stuttgart, dirigida por Dennis Russel Davies (Sony, 37 CDs), gravada ao vivo entre 1998 e 2009, no âmbito de uma série de concertos intitulada “Haydn é divertido” (e é, com efeito, desde que se aprenda a gostar do seu humor).

Em 2008, a Naxos lançou uma caixa reunindo os 34 CDs individuais que tinha lançado ao longo dos anos recorrendo a diferentes maestros (Patrick Gallois, Nicholas Ward, Helmut Müller-Brühl, Kevin Mallon, Béla Drahos e Barry Wordsworth) e orquestras (Sinfonia Finlandia Jyväskylä, Northern Chamber Orchestra, Orquestras de Câmara da Suécia, de Colónia e Toronto, Nicolaus Esterházy Sinfonia e Capella Istropolitana), com resultados necessariamente desiguais.

Em 1999, a Hänssler Classics iniciou uma integral, com a Sinfónica de Heidelberg, dirigida por Thomas Fey, um protegido de Nikolaus Harnoncourt, que tem obtido boas críticas mas cujo último volume (o 22) foi publicado em 2014, o que sugere que também este projecto foi suspenso.

Entretanto, nos anos 80, as orquestras de instrumentos de época também se lançaram na aventura da “integral”, mas sem conseguir levá-la a cabo: foi o caso de L’Estro Armonico, dirigido por Derek Solomons (gravações CBS de 1981-83, reeditadas na Sony), da Tafelmusik dirigida por Bruno Weil (Sony Vivarte), que se ficou por 21 sinfonias, e de The Hanover Band, dirigida por Roy Goodman (Hyperion), que, em 1989-94, gravou mais de meia centena de sinfonias. The English Concert, com direcção de Trevor Pinnock, nunca fez tenção de gravar a integral, mas no final dos anos 90 deixou um excelente registo das 19 sinfonias ditas “Sturm und Drang” para a Archiv (hoje disponíveis numa caixa económica).

As sinfonias “Sturm und Drang”, pela Archiv

Entre os grupos de instrumentos de época, o que ficou mais perto de concluir a integral foi The Academy of Ancient Music, dirigida por Christopher Hogwood, que, entre 1983 e 1995, gravou para a Oiseau-Lyre, a etiqueta da Decca dedicada à música antiga, as sinfonias n.º 1 a 75 e ainda as n.º 94, 96, 100, 104, 107 e 108. A perda de vitalidade do mercado de música clássica ao longo da década de 1990 levou ao cancelamento do projecto e os volumes individuais foram sendo rapidamente descatalogados. Só em 2015, pouco depois do falecimento de Hogwood, regressariam ao mercado, sob a forma de uma caixa de 32 CDs.

As interpretações dirigidas por Christopher Hogwood

O primeiro ciclo completo em instrumentos de época

São os registos de The Academy of Ancient Music e Christopher Hogwood que constituem a parte mais substancial da nova caixa de 35 CDs da Decca que foi anunciada como a primeira integral em instrumentos de época.

O cravista e maestro britânico Christopher Hogwood (1941-2014), fundador de The Academy of Ancient Music e pioneiro da “interpretação historicamente informada”

A caixa recorre também a gravações dos anos 90 pelo maestro Frans Brüggen, provenientes do catálogo Philips, umas à frente da Orchestra of the Age of Enlightenment – “Sinfonias Stürm und Drang” (n.º 26, 35, 38, 39, 41-52, 58, 59, 65) – e outras à frente da Orchestra of the Eighteenth Century – “Sinfonias de Paris” (n.º 82-87), Sinfonias n.º88-92 e “Sinfonias de Londres” (n.º 93-104), estas últimas captadas em concertos ao vivo em diversas cidades holandesas.

O flautista e maestro holandês Frans Brüggen (1934-2014), fundador da Orchestra of the 18th Century e pioneiro da “interpretação historicamente informada”

Restou uma lacuna de quatro sinfonias – as n.º 78-81 – que foi colmatada em 2015 pela Accademia Bizantina, dirigida por Ottavio Dantone. Por estranho que possa parecer numa época em que o mercado está saturado de múltiplas gravações das obras dos grandes compositores, a gravação das Sinfonias n.º 79 e 81 por Dantone foi a primeira em instrumentos de época.

Como bónus há ainda três sinfonias – n.º 94, 100 e 104 – em arranjos para flauta e quarteto de cordas, da autoria de Johann Peter Salomon (não nos esqueçamos que, antes do advento do registo fonográfico, as transcrições de sinfonias para formações de câmara, piano a quatro mãos e piano solo eram uma importantíssima forma de difusão). A n.º 94 é tocada pelo Academy of Ancient Music Chamber Ensemble, as n.º 100 e 104 pelo Salomon Quartet. Outro bónus é a inclusão de duas versões da Sinfonia n.º 54, de que Haydn preparou orquestrações diferentes.

As notas que acompanham a nova edição resumem-se a 10 páginas, manifestamente escassas para dar conta de 107 sinfonias e do historial da sua gravação. Além de demasiado sintéticas, as notas cometem uma incorrecção ao declarar que o contributo de Haydn para o género sinfónico foi “certamente o mais prolífico”; a primazia na vertente quantitativa poderá pertencer ao obscuro František Xaver Pokorný (1729-94), um compositor natural da Boémia que esteve ao servio da corte de Regensburg e que terá sido autor de cerca de 150 sinfonias (embora 50 sejam de atribuição incerta).

Uma vez que cada volume original das sinfonias por Hogwood vinha acompanhado de uma análise detalhada, sinfonia a sinfonia, teria sido simpático da parte da Decca fornecer um link para download dos textos, já que se compreende que a sua reprodução num livrete oneraria uma caixa que tem também como trunfo o baixo custo.

[Sinfonia n.º 29 por The Academy of Ancient Music & Christopher Hogwood; gravação realizada numa sala do palácio de Esterháza:]

Nalgumas sinfonias mais antigas, Hogwood usa uma orquestra de pequenas dimensões, com apenas um instrumento por parte, o que foi alvo de alguma crítica – é difícil perceber este reparo quando se considera que a orquestra do Conde Morzin tinha muito provavelmente dimensão restrita e que a orquestra do seu segundo (e bem mais abastado) empregador, Paul Anton Esterházy, se ficava por uma flauta, dois oboés, dois fagotes, duas trompas, cinco violinos, dois violoncelos e contrabaixo, mais o cravo a partir do qual Haydn dirigia as operações. Destinando-se os concertos ao príncipe e aos seus convidados, não haveria necessidade de mais instrumentos – na verdade, na maioria dos concertos, o número de músicos excederia o dos espectadores.

[Sinfonia n.º 8 “Le soir”, uma das primeiras compostas para Paul Anton Esterházy, em 1761, por The Academy of Ancient Music & Christopher Hogwood:]

Algumas interpretações “historicamente informadas”, como as da Hanover Band & Roy Goddman e de The English Concert & Trevor Pinnock, adicionaram um “baixo contínuo” de pianoforte ou cravo (que, no caso das versões de Goodman, até é colocado em relevo inusitado pela engenharia de som), mas Hogwood, Brüggen e Dantone prescindem dele.

Três sinfonias – as n.º 96, 100 e 104 – surgem em duas versões, pela Academy of Ancient Music & Hogwood e pela Orchestra of the 18th Century & Brüggen, o que permite comparar a abordagem dos dois maestros.

[Sinfonia n.º 100 por The Orchestra of the 18th Century & Frans Brüggen:]

Hogwood é mais vivo e incisivo e, embora as suas gravações sejam mais antigas, beneficia de um som mais transparente e focado do que o de Brüggen – as sinfonias londrinas por Brüggen foram captadas em diferentes concertos ao vivo, quase todos com um som um pouco empastado, enquanto Hogwood tem a seu favor a esplêndida acústica do Walthamstow Town Hall, de Londres, um dos locais favoritos dos engenheiros de som da Decca.

A leitura destas três sinfonias por Hogwood caracteriza-se por gestos enérgicos e tempos lestos (que nem sempre se reflectem nas durações dos andamentos, por Hogwood observar todas as repetições) e por pôr em evidência o rendilhado da textura orquestral; embora a leitura de Brüggen seja estimável, é de lamentar que Hogwood não tenha podido completar a gravação integral.

A audição das Sinfonias n.º 78-81 pela Accademia Bizantina e Dantone suscita duas reacções: uma é de estranheza por obras tão sólidas e plenas de invenção, que precedem as famosas “Sinfonias de Paris”, serem ususalmente negligenciadas; a outra reacção é de pena por os italianos terem sido chamados apenas a “tapar o buraco”, pois a sua abordagem combina assertividade, energia, precisão e cordas calorosas.

[I andamento (Allegro spiritoso) da Sinfonia n.º 80, pela Accademia Bizantina & Ottavio Dantone:]

É uma gravação muito próxima e transparente, feita num espaço pouco reverberante e que permite apreciar a “relojoaria” interna das sinfonias em detalhe, embora tenha suscitado as expectáveis reacções adversas entre os detractores da “interpretação historicamente informada”.


Por coincidência, é também de um maestro italiano que se perspectiva a chegada de competição séria no campo dos “instrumentos de época”: provém de Giovanni Antonini, o fundador de Il Giardino Armonico, que, alternndo entre este seu ensemble ou com a Orquestra de Câmara de Basileia (Kammerorchester Basel), iniciou em 2016 a publicação na editora Alpha da gravação integral das sinfonias, empreendimento de que saíram até à data 8 volumes.

[Excerto da Sinfonia n.º 26 “Lamentatione”, pela Orquestra de Câmara de Basileia & Giovanni Antonini, incluída no vol. 6 da integral:]

Porém, a envergadura do empreendimento fará com que a sua conclusão esteja prevista apenas para 2032, coincidindo com o 300.º aniversário do nascimento do compositor.

Nos 12 anos que faltam, a caixa de Hogwood/Brüggen/Dantone proporcionará intermináveis horas de deleite musical.

[Sinfonia n.º 104 por The Orchestra of the 18th Century & Frans Brüggen:]