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"Não tenho medo da morte, tenho é pena de morrer porque deixo cá muita gente", diz Germano Silva
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"Não tenho medo da morte, tenho é pena de morrer porque deixo cá muita gente", diz Germano Silva

(Rui Oliveira/Observador)

"Não tenho medo da morte, tenho é pena de morrer porque deixo cá muita gente", diz Germano Silva

(Rui Oliveira/Observador)

Germano Silva: “Fui contactado por todos, do Sá Carneiro ao Mário Soares, mas disse sempre não”

Fez 90 anos, tem um novo livro sobre o "seu" Porto e vai inaugurar uma exposição com o arquivo pessoal. Fala-nos do medo da morte, dos convites políticos e da vontade em aprender a fazer sopa.

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“Pode ser no Piolho? Vou lá tomar café muitas vezes.” Estava assim combinado o local da entrevista, numa conversa rápida ao telefone e numa agenda que por estes dias está preenchida ao milímetro. No emblemático ponto de encontro no Jardim da Cordoaria, Germano Silva está sentado numa mesa da madeira onde se fala espanhol. “Estas senhoras trabalham em duas bibliotecas nas Astúrias, compraram alguns dos meus livros para conhecerem a cidade e estou agora a assiná-los”, explica. Os seus dias são quase sempre assim, cheios de coincidências, surpresas e descobertas.

Não fossem os cabelos brancos ou as rugas vincadas no rosto e poucos diriam que conta 90 anos. “Sinto que fazer anos é subir mais um degrau na escada da vida, mais nada.” Sem lamentos ou maleitas, o jornalista, investigador e historiador não carrega aos ombros o peso da idade, mas a urgência de olhar o futuro com o fascínio e a curiosidade de menino.

Lê poesia ao adormecer, come fruta tropical ao acordar, sabe que não sabe tudo e diz que lhe falta conhecer o Algarve e o Alentejo, aprender a fazer sopa e voltar à China pela 16ª vez. De sorriso fácil, Germano parece guardar doses generosas de afetividade, tanto nas palavras, que lhe saem com a pronúncia do Norte, como nas mãos, marcadas pelo tempo, com que gesticula os sentidos. É dono de uma memória intocável e de um passo ligeiro capaz de levar a bom porto uma energia contagiante e quase desconcertante.

Germano Silva: “Às vezes sinto-me um homem rico”

Garante não pensar na morte, embora reconheça que ela lhe levou muitos dos seus melhores amigos e a mulher com quem esteve casado durante 60 anos. “Não temo a morte, tenho é pena se morrer.” Como herança, revela que não deixará dinheiro ou bens materiais, mas livros e documentos que juntou ao longo de 70 anos sobre o Porto, a cidade onde mergulha todos os dias e onde as pessoas “são o maior património”.

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Aprendeu a identificar os pássaros pelo canto com a avó analfabeta de Penafiel, descobriu que gostava de contar histórias ouvindo os vizinhos a partilhar episódios da II Guerra Mundial na rua iluminados por um lampião e foi no jornalismo que deu nas vistas. Recorda a adega onde falava com fontes da polícia, o crime que lhe valeu um prémio de mil escudos ou o incêndio em Santa Catarina que lhe deu uma lição para a vida. À boleia do ofício, tornou-se num dos maiores conhecedores da história do Porto e hoje é conhecido e reconhecido por isso, seja através das crónicas que escreve ou dos passeios que organiza.

A cidade mudou e Germano Silva parece nunca se cansar dela, principalmente de olhar o Douro a partir de Massarelos, o seu lugar de eleição. Sem nostalgias ou saudosismos tatuados no discurso, fala das varandas de Miragaia e da Ribeira sem roupa a secar, sinal de que já não vive lá ninguém, critica a perda de restaurantes típicos no Porto e alerta para uma falta de identidade generalizada. Nada que o faça aventurar-se pelos caminhos da política. “Fui contactado por todos, do Sá Carneiro ao Mário Soares, mas nunca fui. Costumo dizer que cartões só tenho dois, o do Futebol Clube do Porto e o do Sindicato dos Jornalistas.”

O doutor Honoris Causa da Universidade do Porto acaba de lançar As Histórias que Faltavam, um livro onde reúne algumas das suas crónicas publicadas no Jornal de Notícias, e no fim deste mês inaugura uma exposição na Casa do Infante com parte do arquivo que doou à cidade.

O novo livro de crónicas de Germano Silva foi lançado esta semana na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto

Acabou de fazer 90 anos, está cansado?
Não, nada. Sinto que fazer anos é subir mais um degrau na escada da vida, mais nada.

Nunca pensou chegar aos 90 ou tinha essa meta?
Não, nunca pensei. Quando tinha uns 18 anos trabalhava numa fábrica em Lordelo do Ouro e via muitos dos meus colegas a caírem mortos no chão com tuberculose, nessa altura pensava que um dia aquilo também me podia acontecer, mas sobrevivi a isso e a muitas coisas.

Não lhe conhecemos problemas de saúde, já apanhou algum susto?
Nos anos 50 apanhei uma gripe asiática, mas debelei-a com facilidade, tinha vinte e poucos anos. Mais tarde, já casado e com uma filha, também tive um problema semelhante, um quadro de pneumonia, e aí tive receio. A minha filha era muito pequenina, temi as consequências, mas graças à medicina fiquei bem, sem sequelas. A partir daí, nunca mais tive nada, nem apanhei Covid. Não tenho limitações, não sinto dores, nada.

Pensa na morte?
Não, não está nos meus horizontes, embora saiba que ela é uma realidade. Não tenho medo da morte, tenho é pena de morrer porque deixo cá muita gente. Alguns dos meus melhores amigos já foram embora, o Manuel António Pina, o Fernando Assis Pacheco, o José Saraiva e outros, eu continuo por cá. Tenho pena de deixar o convívio, temer a morte, sinceramente, não temo.

Como lida com essas perdas e como é continuar a viver sem os melhores amigos?
Convivo muito mal com isso. A maior perda foi a minha mulher, estivemos casados 60 anos e ela não queria casar comigo. Quando era jornalista, o meu horário era das 22h às 4h, e por isso ela considerava-me um vadio e um boémio, tive de gastar muita saliva para a convencer. Com a morte dela senti um abalo muito grande, faltou-me uma companhia.

Nunca mais se voltou a apaixonar?
Não, nunca. Com esta idade não penso mais nessas coisas, penso é em andar para a frente. Tenho a companhia da minha filha.

Tem netos?
Não.

Gostava de ter?
Gostava, seriam os meus herdeiros, mas não estou muito preocupado com isso. Não tenho dinheiro nem bens materiais, os livros e a documentação que fui arrecadando durante mais de 70 anos em alfarrabista, leilões e antiquários é tudo o que posso deixar. Sei que estarão protegidos e ficarão ao serviço da cidade e de quem os quiser estudar.

"Aos domingos de manhã levanto-me cedo, ando muito pelas ruas de Miragaia e há sempre alguém que vem à janela perguntar se estou à procura de alguém. Esta disponibilidade é difícil de encontrar noutro sítio."

Se há coisa que não tem é problemas de memória. Qual é a lembrança mais antiga que tem?
Talvez de em miúdo viver na zona do Carvalhido, onde não tínhamos água canalizada, e de existir uma espécie de aterro, onde os soldados de cavalaria iam fazer exercício para se adaptarem ao cavalo. Muitas vezes caíam do cavalo e riamo-nos com aquilo. É a memória mais antiga que guardo.

Nasce em Penafiel, mas chega ao Porto com um ano. É como se tivesse nascido aqui?
Sim, vim com um ano, mas depois como o meu pai teve problemas na companhia de caminhos de ferro do Porto, porque deixou de ser efetivo, a minha mãe deixou-me em casa da minha avó materna Júlia em Penafiel, mais precisamente em S. Martinho de Recezinhos, e fiquei lá até aos 7 anos. A minha avó era analfabeta e tinha um conhecimento geral da Natureza, das árvores, das aves e de tudo o que a rodeava, falava com os animais, tinha vacas, ovelhas e um pequeno burro. Aprendi muito com ela, ensinou-me a reconhecer um pássaro pelo canto, os cucos, as pegas, os gaios, as rolas, os melros… Devo-lhe muito. Depois era uma cantora improvisada, cantava muito nas lides do campo, era muito religiosa, ia todos os dias à missa e eu ia com ela. Naquela época, as missas eram todas em latim e ainda hoje sei de cor algumas falas do padre.

Ainda vai à missa?
Vou, não com a regularidade que devia, mas vou.

E ainda consegue distinguir os pássaros pelo canto?
Sim, isso ficou-me para sempre. Aqui no Porto agora há muitas rolas nos quintais e nos jardins públicos, elas que fogem do campo por causa da caça.

No Porto teve vários empregos, trabalhou numa fábrica e até na secretaria no Hospital de Santo António, até se tornar jornalista. Quando é que descobriu que gostava de contar histórias?
Vivi na ilha do Cruzinho, na zona do Campo Alegre, e aquilo era uma comunidade. Hoje quando se fala nas ilhas do Porto associa-se logo à miséria, mas naquela época era uma autêntica comunidade, muito unida, com um grande sentido de partilha e de solidariedade perante as dificuldades que existiam. A maioria dos homens eram operários e à noite apagavam as luzes de casa, para não gastar, e reuniam-se na rua à volta de um lampião para conversar. Ouvia-os a contar coisas daquele tempo, principalmente sobre a II Guerra Mundial, faziam relatos sobre como os alemães entravam e como chegaram os aliados. Ficava deliciado com os episódios que eles contavam, aquela narrativa fascinava-me e para mim aqueles homens eram sábios. Depois comecei a ler as histórias do escritor italiano Emilio Salgari e é com as descrições dele que começa a minha paixão pelo Oriente.

Como jornalista passou por vários jornais, pela ditadura e pela censura. Qual foi o trabalho que deu mais gozo fazer?
O crime da Rua do Sol para o Jornal de Notícias, em 1968. Uma mulher que vendia solas e cabedais vivia por cima do estabelecimento sozinha e durante alguns dias os vizinhos deram pela falta dela, chamaram a polícia e acabaram por encontrá-la morta em casa. Não houve roubo, havia muito dinheiro na loja, ninguém sabia o que tinha acontecido e eu andei à procura daquilo. Fazia uma reportagem todos os dias com o que havia de novo e o jornal aumentou a tiragem e teve uma maior expansão por causa deste crime. Cheguei a ganhar um prémio de mil escudos com este trabalho, mas o crescimento do jornal foi para mim o mais importante.

Gostava de fazer crimes ou nem por isso?
Quando apareciam, tinha de os fazer. Tinha bons contactos na Polícia Judiciária, não havia gabinetes de imprensa, entrávamos nas salas dos agentes, conversávamos com eles, sabíamos dos assuntos que não podíamos falar para não espantar a caça, havia um respeito mútuo. Lembro-me que havia uma adega ali junto aos Aliados, onde é hoje o hotel Intercontinental, e quando os agentes tinham alguma coisa para me contar diziam-me ao telefone em código para nos encontrarmos lá.

"Tudo o que havia em alfarrabistas sobre o Porto eu trazia. Entendi que isso devia ficar disponível para a comunidade"

(Rui Oliveira/Observador)

Por falar em adegas, era aquele jornalista boémio que bebia e fumava muito?
A minha infância foi muito difícil, nunca passei fome, mas o pouco dinheiro que entrava em casa era para o pão e não havia vinho. O pouco vinho que vinha da aldeia que a minha avó mandava era o meu pai que tomava conta dele. Não fui habituado a beber, aliás, a primeira vez que bebi foi nos anos 40 depois de um jogo do Futebol Clube do Porto com o Arsenal. O Porto ganhou e foi uma euforia tremenda, fui com um amigo a uma tasca e bebi meio copo de vinho, quando cheguei à Praça da República deu-me uma soneira que me sentei num banco e adormeci. Fui acordado de madrugada com um toque nas pernas de um cassetete de um polícia. Experimentei um cigarro e engasguei-me todo, depois quando fui para o jornalismo começou-se a beber muito whisky, mas logo pelo cheiro percebi que não gostava nada daquilo, portanto, fiquei o homem que pedia sempre um copo de água.

Porque é que diz que trabalha mais hoje do que quando era jornalista?
Quando era jornalista tinha um horário, embora às vezes não fosse respeitado, mas tinha um horário. Reformei-me em 1996, por opção minha, a direção do jornal ia mudar e aproveitei a onda para me retirar. Já tinha 40 anos de serviço e quando fizeram as minhas contas o saldo não era mau. Hoje ando mais na rua, as pessoas pedem-me para fazer uma palestra numa escola ou num lar de terceira idade, tenho uma vida muito mais preenchida, o que é bom.

Como são normalmente os seus dias?
Levanto-me cedo, entre as 7h30 e as 8h, tenho sempre uns livros de poesia na mesa de cabeceira para me embalarem o sono. Tomo o pequeno almoço em casa, sempre com frutas tropicais, como papaia ou mamão, um iogurte e às vezes uma torrada e um chá. Vou ao café Bugatti ler o jornal, combino um café com antigos colegas, encontro outros pelo caminho, depois tenho um vizinho que como eu tem um lugar anual no Estádio do Dragão e falamos muito sobre futebol. Depois almoço normalmente em casa, a minha filha prepara-me sempre qualquer coisa, mas quando não pode vou a um restaurante.

Não sabe cozinhar?
Não, nunca aprendi. Quer dizer, sei estrelar um ovo e fazer uma omelete, não morro à fome. Gostava de aprender a fazer sopa, adoro sopa, tenho um amigo que já aprendeu e disse-me que era fácil, vamos ver se consigo. Da parte da tarde ponho-me a escrever e na televisão ponho sempre a dar música clássica ou jazz, vejo pouca televisão, só futebol, campeonatos de bilhar, um filme e música.

"Não tenho dinheiro nem bens materiais, os livros e a documentação que fui arrecadando durante mais de 70 anos em alfarrabista, leilões e antiquários é tudo o que posso deixar."

Quando começou a interessar-se pela história do Porto?
Um dia fui fazer reportagem sobre um incêndio na rua de Santa Catarina, cheguei lá e não havia história para notícia, não chegou a haver incêndio. Não escrevi nada, mas no dia seguinte O Primeiro de Janeiro trazia um artigo sobre a casa que supostamente estava a arder, foi lá que nasceu, viveu e morreu um escritor da cidade, o Arnaldo Gama. O meu colega sabia isso, mas eu não. O meu chefe de redação disse-me: “Não saber é desculpa, se não quiseres saber é que é mau. Para seres um bom repórter da cidade, tens de conhecer a cidade, a começar pelo nome das ruas. Porque é que a Rua da Firmeza se chama assim?” A partir daí fui procurar, comecei pelo anuário que existia no Jornal de Notícias, que tinha um roteiro sobre ruas que mudaram de nome, depois visitei alfarrabistas e livrarias, comecei a adquirir livros e documentos sobre o Porto, muitos deles originais.

O que mais o fascina na história do Porto?
As pessoas, as pessoas são o maior património que a cidade tem, são pessoas especiais, de caráter. Não uso o termo bairrista porque não gosto, mas são pessoas com um grande sentido de partilha. Aos domingos de manhã levanto-me cedo, ando muito pelas ruas de Miragaia e há sempre alguém que vem à janela perguntar se estou à procura de alguém. Esta disponibilidade é difícil de encontrar noutro sítio. Muitas vezes ficamos à conversa, perguntam-me se sou doutor, digo-lhes que não.

Qual foi a maior descoberta que fez sobre a cidade?
Há muitas, não me ocorre uma. Surpreende-me chegar a um sítio, como a Rua de S. Miguel, as pessoas conhecerem-me e convidam-me a entrar nas suas casas, nas traseiras dizem-me que há uns símbolos que não entendem e querem que eu lhes explique. Naquela zona havia uma judiaria e há estrelas de David gravadas na pedra. Nas crónicas que escrevo e nos passeios que organizo tento dar um sentido pedagógico para que as pessoas que vivem no Porto preservem a sua rua e as suas casas. É importante conhecerem a cidade onde vivem, até para terem esse sentimento de pertença.

Agrada-lhe que as pessoas o reconheçam na rua?
Sim, acho piada. Há quatro anos cruzei-me com um candidato à Câmara do Porto, o Manuel Pizarro, e uma senhora na janela disse muito alto que eu é que devia ser candidato, foi lisonjeiro.

Nunca pensou em aventurar-se na política?
Não, nem pensar, a política não me seduz nada. Fui contactado por todos, do Sá Carneiro ao Mário Soares, mas disse sempre não. Costumo dizer que cartões só tenho dois, o do Futebol Clube do Porto e o do Sindicato dos Jornalistas.

"O Porto é hoje uma atração turística, este setor é necessário, mas a perda da população a viver na cidade entristece-me"

(Rui Oliveira/Observador)

Como olha para a cidade hoje?
O Porto é hoje uma atração turística, este setor é necessário, mas a perda da população a viver na cidade entristece-me. Não sou uma pessoa nostálgica nem saudosista, mas adorava ver aquelas varandas de Miragaia e da Ribeira cheias de roupa a secar, com moradoras a cantar, hoje não vemos isso porque já não mora lá ninguém. Deviam ter mantido as pessoas onde nasceram. Na gastronomia estamos a perder restaurantes típicos do Porto com pratos tradicionais, como o Bacalhau à Gomes de Sá ou as nossas tripas. Agora servem comida do mundo, coisas de chef e essa identidade culinária está a morrer, o que é uma pena.

Durante a governação de Rui Rio foi bastante crítico. Rui Moreira está agora a entrar no terceiro e último mandato, como avalia o seu trabalho?
Foi muito diferente de Rui Rio para melhor, não tenho dúvidas disso. Apesar de termos perdido o Paulo Cunha e Silva, antigo vereador da Cultura, que era um homem extraordinário, o nível cultural da cidade não se perdeu, manteve-se. A cidade tem evoluído e avançado, acho que o balanço é positivo.

O que poderia ser diferente?
Questões relacionadas com a animação social, onde há uma desorganização muito grande, e penso que o Porto não consegue ter regras de trânsito e de estacionamento que são fundamentais para o dia a dia das pessoas.

Depois de Rui Moreira, quem acha que lhe pode suceder?
Não faço a mínima ideia.

E no futebol, quando Pinto da Costa for embora, quem gostava de ver na presidência do seu clube?
Ah, gostava muito de ver lá o Rui Moreira, acho que tem perfil para isso.

E ao Germano, o que ainda lhe falta fazer?
Voltar à China. Fui 15 vezes à China e três vezes ao Tibete, a primeira vez fui em trabalho, para acompanhar um ministro, depois em lazer, até aos anos 80. Quero muito voltar e fazer a viagem de comboio que vai de Pequim até ao Tibete. Deixei de fazer tantas viagens por causa da doença da minha mulher, depois comecei a ter muitas solicitações por aqui e fui adiando sempre, mas a minha próxima viagem vai ser em Portugal.

Onde?
Nunca fui ao Algarve, nunca fui a Chaves, nem aos Açores, nem à Madeira, há imensas coisas que não conheço. Tenho uma paixão pelo Alentejo, li muitas coisas sobre o Alentejo, mas nunca lá fui. Tenho lá amigos, que me dão casa, por isso tenho de ir.

"Não sou uma pessoa nostálgica nem saudosista, mas adorava ver aquelas varandas de Miragaia e da Ribeira cheias de roupa a secar, com moradoras a cantar, hoje não vemos isso porque já não mora lá ninguém. Deviam ter mantido as pessoas onde nasceram."

No dia 28 de outubro vai doar o seu acervo documental ao Arquivo Municipal da Casa do Infante, com a abertura de uma exposição. Que importância tem este momento?
Sou um homem da partilha e ao longo dos anos fui acumulando documentos muito interessantes. Tenho cartas do Almeida Garrett, um diário de uma família do Porto que em 1850, em pleno romantismo, ia passar férias na Foz, documentos dos séculos XI ou XVI, pergaminhos, atas da câmara e até um manual para escrever cartas de amor. Tudo o que havia em alfarrabistas sobre o Porto eu trazia. Entendi que isso devia ficar disponível para a comunidade, para que alguém que queira estudar ou saber mais sobre a história da cidade tenha aqui uma oportunidade.

Fale-me deste novo livro As Histórias que Faltavam. Depois de em 2019 escrever sobre as profissões quase desaparecidas do Porto, o que lhe apeteceu fazer agora?
A Porto Editora desafiou-me a fazer alguns livros temáticos sobre o Porto e parei com a publicação das minhas crónicas que eram publicadas no Jornal de Notícias. Nas visitas guiadas que organizo, algumas pessoas queixavam-se disso e então decidi reunir aqui, tal como título indica, as histórias que faltavam.

Consegue escolher um lugar favorito no Porto?
Massarelos, ali bem o pé do rio. Vivi naquela zona alguns anos, sempre que tinha tempo descia a rua D. Pedro V e sentava-me junto ao rio. Ainda hoje quando passo de carro estaciono e dou comigo no mesmo sítio de sempre, ali junto ao pescadores. Hoje já não vejo as toninhas a subir o rio, os barcos com lampreia ou com sável, as traineiras que saíam da Afurada, mas continua a ser o meu sítio de eleição. Até o meu endereço eletrónico é Germano Massarelos qualquer coisa.

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