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O golpe de Rio apanhou (quase) todos de surpresa. Incluindo aliados

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

O golpe de Rio apanhou (quase) todos de surpresa. Incluindo aliados

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Golpe de teatro no PSD. O guião de Rio para adiar diretas e ser candidato a primeiro-ministro sem enfrentar Rangel

Direção quer adiar diretas e blindar Rio: com eleições antecipadas, PSD não pode discutir liderança. Críticos falam em desespero. Sinais de Marcelo e do PS fazem acreditar que Governo pode mesmo cair.

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Em menos de três horas, o jogo virou do avesso. Às 17 horas, os conselheiros nacionais do PSD receberam nas caixas de correio eletrónico a proposta da direção social-democrata (abençoada por Rui Rio, naturalmente) de marcar eleições internas para 4 de dezembro. Os jornais apressaram-se a dar a notícia. Sem que nada o fizesse prever, às 18h37, os jornalistas foram convocados pela assessoria do PSD para uma conferência de imprensa de Rui Rio, no Parlamento, para dali a sensivelmente 35 minutos. Tema? Nunca revelado.

Finalmente, alguns minutos depois das 19h15, o líder social-democrata dizia ao que ia: atendendo ao possível chumbo orçamental da esquerda e ao inevitável cenário de eleições antecipadas (Marcelo dixit), Rio tinha para propor ao partido o adiamento das eleições internas no PSD até que a situação política ficasse clarificada. Por outras palavras: o PSD suspendia as diretas até ver se o Governo de António Costa caía ou não.

O golpe de Rio apanhou (quase) todos de surpresa. Incluindo aliados. Uma hora antes da conferência de imprensa do líder social-democrata, quando os jornalistas não tinham sido sequer convocados, dois membros da direção de Rui Rio explicavam, separadamente e em conversa com o Observador, as vantagens de ir a votos a 4 de dezembro — os ventos favoráveis das autárquicas, a diminuição do espaço de manobra de Paulo Rangel, o mais do que provável adversário, e, vencidas as eleições, a devolução do foco ao partido em fazer oposição ao Governo de António Costa. Esses mesmos dois membros da direção de Rio desconheciam a existência de qualquer conferência de imprensa ou possível alteração de planos.

As tropas de Rangel foram apanhadas ainda mais desprevenidas. As suspeitas, aliás, começaram a surgir assim que souberam que Rui Rio ia dar uma conferência de imprensa, e logo na véspera do Conselho Nacional do partido. Quando perceberam o plano do líder social-democrata, os sinos tocaram a rebate e foi tempo de começar a estudar o contra-ataque, noite dentro, até bem tarde, por telefone e num grupo circunscrito, algures num hotel em Lisboa.

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A estratégia de Rio começou a ganhar forma assim que o PCP anunciou que votaria contra o Orçamento do Estado para 2022 se os socialistas nada fizessem. Inicialmente, tudo foi encarado como sendo o velho ritual orçamental: Jerónimo de Sousa dramatiza, António Costa oferece contrapartidas, os comunistas deixam passar o documento, o PS garante a estabilidade governativa, o PCP reclama os ganhos de causa, os socialistas seguram um parceiro instrumental.

Foi assim sempre, em particular no último Orçamento, já depois de o Bloco de Esquerda ter saltado para fora da ‘geringonça’. Baralhando e dando de novo: aos olhos do PSD, o PCP estava a fazer bluff, ainda que, pela primeira vez, tivesse usado a expressão “voto contra” — facto que não passara despercebido. No mínimo, julgava a direção social-democrata, a parada para o PS estava mais alta; mas António Costa ia acompanhar com naturalidade.

“Marcelo tem dados que nós não temos. Cheirou-lhe a alguma coisa. Não é de desconsiderar que tenha percebido que a crise é inevitável”, comenta com o Observador fonte social-democrata

Mas as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa vieram acender um rastilho: ao início da tarde, o Presidente da República disse, preto no branco, que, se o Orçamento fosse chumbado, não aceitava duodécimos, que o país teria de ir para eleições antecipadas, que essas legislativas aconteceriam teoricamente em janeiro, que o novo Governo só tomaria posse em fevereiro e que só haveria Orçamento em abril. Rio não precisou de fazer nada; foi Marcelo quem lhe deu o calendário.

Na direção de Rio, a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa foi interpretada como sendo mais do que uma análise política do “Presidente-comentador” em direto para todas as televisões. “Marcelo tem dados que nós não temos. Cheirou-lhe a alguma coisa. Não é de desconsiderar que tenha percebido que a crise é inevitável”, comenta com o Observador fonte social-democrata.

Não foi, todavia, o único indício recolhido pela São Caetano de que algo não estava bem à esquerda. Nas últimas horas, o núcleo duro de Rui Rio garante ter recebido sinais de figuras de relevo no PS, incluindo de elementos do Governo, de que a posição do PCP é mesmo para levar a sério e que um eventual chumbo do Orçamento não é de todo impossível. Afinal, desta vez, os comunistas podem não estar a fazer bluff — ou a preocupação do PS, pelo menos, parece bem real.

Estes três elementos — as verdadeiras intenções do PCP, as palavras de Marcelo e os sinais do PS — ajudaram a consolidar a ideia de que o cenário de eleições antecipadas na viragem do ano está realmente em cima da mesa e que, nesse caso, Rio terá de estar lá — na liderança do PSD, leia-se — quando isso acontecer. É aí que entra a estratégia de adiar as eleições internas no partido.

RUI RIO ELEIÇÕES DIRETAS PSD

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Congelar diretas até deixarem de fazer sentido

Quando se apresentar no Conselho Nacional desta quinta-feira, Rio vai apresentar o seu ponto de vista e tentar sensibilizar os conselheiros para a sua tese: até haver certezas de que há ou não eleições antecipadas, o PSD deve congelar o seu processo eleitoral interno.

Se Costa sobreviver para contar a história (e enfiar no bolso mais um Orçamento aprovado à esquerda), o tema desaparece — mais cedo ou mais tarde, o PSD terá de convocar eleições internas e Rio, se quiser continuar em jogo, terá de ir a votos.

Mas se o Governo de António Costa cair, tudo muda. Menos uma coisa: a direção de Rui Rio vai insistir na mesmíssima tese que está a usar para pedir o adiamento das eleições internas e argumentar que não faz sentido substituir o líder em funções quando o partido vai ter de disputar eleições legislativas num tão curto espaço de tempo. Ou seja, Rio vai defender que tem o direito natural de ser candidato a primeiro-ministro e que as ambições de Paulo Rangel terão de esperar.

De resto, o próprio assumiu esta posição de viva voz. “Se o Orçamento do Estado for aprovado, há condições para diretas; se não for, não vejo como é que o partido pode fazer internas e legislativas ao mesmo tempo”, sintetizou Rui Rio esta tarde, no Parlamento.

Rio ainda foi mais longe: desafiado a dizer se, em caso de eleições antecipadas, seria candidato, o líder social-democrata deixou pouca margem para dúvidas sobre o que lhe vai na alma. “Claro, isso é evidente. Sou o líder do partido, fui candidato a primeiro-ministro em 2019. Depois de sair das autárquicas, será ainda mais fácil.”

Tudo isto parte do pressuposto de que será possível sensibilizar os membros do Conselho Nacional do partido — onde os homens de Rio acham que as tropas de Paulo Rangel estão em maioria — para os méritos dos argumentos do líder social-democrata e, portanto, de que será possível convencê-los a desistirem de eleições diretas, deixando Rui Rio sem sombra de oposição interna.

Seria ouro sobre azul. Mas é altamente improvável. A direção social-democrata desconfia que o mais certo é perder esse debate e ter mesmo de ir a jogo. Os apoiantes de Rangel terão força para agendar as eleições internas e para impedir o líder social-democrata de cumprir o plano de adiar as diretas no PSD. Rio perderia essa batalha, mas não necessariamente a guerra: o calendário eleitoral gizado pelo insuspeito Marcelo Rebelo de Sousa pode ser a chave para desbloquear esta estratégia.

Os opositores internos, no entanto, desconfiam que Rui Rio possa estar a tentar criar um episódio de vitimização para bater com a porta e evitar o confronto direto com Paulo Rangel. Entre os mais próximos de Rui Rio, no entanto, ninguém considera a hipótese de o líder social-democrata apresentar a demissão caso veja o Conselho Nacional a forçar a realização de eleições internas no partido contra a sua vontade.

“Se o Orçamento do Estado for aprovado, há condições para diretas, se não for não vejo como o partido pode fazer internas e legislativas ao mesmo tempo”, sintetizou Rui Rio, em conferência de imprensa

Jogar com o calendário

Se o PCP chumbar o Orçamento a 26 de outubro, como ameaçou fazê-lo, se a consequência for a dissolução do Parlamento, como admitiu Marcelo, os prazos eleitorais fariam depois o seu caminho. O Presidente da República tinha 60 dias para convocar e realizar legislativas, que aconteceriam, segundo o próprio, algures em janeiro.

Ora, até no cenário mais otimista para a clarificação interna no PSD — que as diretas acontecessem já a 4 de dezembro –, o partido nunca teria um líder em funções até à realização do congresso do partido, agendado para os dias 14, 15 e 16 de janeiro, a poucas semanas dessas antecipadas eleições legislativas.

Se se confrontar com este cenário, a direção de Rio, sabe o Observador, antecipa um desfecho único: convocar um novo Conselho Nacional antes das diretas e tentar suspender de imediato o processo eleitoral interno, com o argumento do bom senso — em vésperas de legislativas, todo o processo prévio de elaboração de listas de deputados e de apresentação de candidaturas seria gerido e controlado pela direção atual, mesmo que Rio viesse a perder as eleições diretas no PSD no futuro. E tudo aconteceria muito antes de o país ir a votos, uma vez que estes processo têm de estar concluídos com relativa antecedência face à data das eleições.

Existe outra possibilidade que tornaria uma possível transição de poder ainda mais complexa. Isto porque, antecipando que as tropas de Rangel poderiam vetar a realização de eleições já a 4 de dezembro, a direção social-democrata decidiu apresentar como alternativa o agendamento de diretas apenas para 8 de janeiro.

Nesse caso, o potencial de conflito entre as duas datas — legislativas em janeiro e entrada do líder social-democrata em funções apenas em fevereiro — seria ainda mais insanável. Mais uma vez, em caso de eleições antecipadas, o PSD não teria tempo de se preparar para ir a jogo, vão argumentando os estrategos do líder social-democrata.

Tudo somado, o círculo mais restrito de Rui Rio põe as coisas nestes termos: seja qual for o estado de espírito, planos ou ambições dos opositores internos, seria um “erro monumental” provocar uma disputa de liderança antes de saber se o país vai a votos ou não. Pior: seria quase uma impossibilidade teórica. Portanto, se os apoiantes de Rangel insistirem, Rio acredita ter tudo ao seu alcance para impedir, mais à frente, uma disputa interna ainda antes desta começar.

Marcelo não tem margem para aguentar

Mesmo que a crise política seja passageira e que as diretas do PSD venham acontecer com naturalidade, o simples adiar das eleições internas já seria visto como vitória sobre Paulo Rangel.

“A candidatura dele ficaria ali a marinar, até se saber se o PCP aprova ou não, enquanto nós dávamos a cara pela oposição ao PS. Ia sofrer um grande desgaste”, analisa um dos fiéis de Rio. Em alternativa, pode dar-se o caso de, havendo eleições antecipadas, o Presidente da República esperar que exista uma clarificação interna no maior partido da oposição, manter um Governo de gestão e, aí sim, marcar legislativas, atrasando o calendário que ele próprio assumiu como sendo o menos mau ou a solução teoricamente mais rápida — o que frustraria por completo os planos dos homens do atual líder do PSD.

Na direção de Rio, há quem desvalorize essa hipótese. “Marcelo não poderia fazer isso. Alguém no país perceberia que adiasse as eleições até que os senhores do PSD se entendessem? Não tem força para isso”, defende outro alto dirigente social-democrata. O calendário teorizado por Marcelo pode ser o seguro de vida de Rio no PSD.

Paulo Rangel DIRETAS PSD

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Cheira a desespero”, dizem opositores

Rui Rio justificou (e vai justificar) este volte-face com a necessidade de defender o superior interesse do partido e do país. “Se este Orçamento não passar, como pode acontecer, o PSD é apanhado em plenas diretas e completamente impossibilitado de disputar as eleições legislativas taco a taco”, sugeriu na tarde de quarta-feira, durante a conferência de imprensa com os jornalistas.

Para os opositores internos de Rui Rio, a narrativa não colhe. “Está desesperado porque sente que perdeu o partido e tentou este último expediente”, contrapõe um dos apoiantes de Paulo Rangel. “Está a tentar ganhar tempo, mas de nada lhe serve”, acrescenta outro.

Nos corredores do PSD corre a tese de que Rui Rio recebeu nos últimos dias sinais relevantes. No que depender das estruturas do PSD, distritais e concelhias, as hipóteses de vitória do atual líder social-democrata estarão praticamente hipotecadas depois de ter perdido alguns dos apoiantes de sempre.

De resto, tudo terá ficado mais claro durante a tarde de quarta-feira. Segundo os críticos internos do líder social-democrata, terão existido vários contactos com as estruturas do PSD — contactos não assumidos pela direção de Rui Rio — que revelaram uma rede de apoio bem mais curta do que aquilo que imaginariam os operacionais do líder social-democrata.

Perante isso, juram os opositores internos, a direção social-democrata ensaiou uma fuga para a frente. “Rui Rio percebeu finalmente que não tinha apoios para voltar a ganhar o partido e inventou isto”, sumariza o mesmo apoiante.

Verdade ou não, a decisão de Rio teve o mérito de surpreender os homens de Rangel, que terão, desde logo, de decidir se querem eleições antes do desfecho no Parlamento, se as querem mais cedo, a 4 de dezembro, ou se as querem mais tarde, a 8 de janeiro, sabendo que, em caso de crise política, quanto mais tarde forem as diretas, menos forte será o argumentário de Rangel para exigir uma mudança de liderança tão em cima de legislativas. O que torna o Conselho Nacional do PSD desta quinta-feira muito mais imprevisível. E a campanha interna ainda nem sequer começou.

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