Gostas do Luiz Pacheco? Mas o Luiz Pacheco não gosta de ti

14 Maio 2016983

Luiz Pacheco morreu há 8 anos. Por inércia dos herdeiros as obras estão esgotadas e não há reedições mas ainda este ano será publicada uma coleção de 150 cartas do autor para o filho Paulo.

Luiz Pacheco, escritor, editor e crítico que teria feito 91 anos a 7 de maio (morreu em janeiro de 2008), foi durante décadas “o maldito” de serviço da nação. Guerrilheiro desde os anos 40, filho de uma geração combativa que praticava uma espécie de teologia da negação, onde o importante não era tanto alimentar o próprio ego procurando no meio em redor elogios pessoais (coisa que eles, os surrealistas e arredores, abominavam nos Neorrealistas e nos Presencistas), mas sim praticar uma literatura maior.

Ora isso implicava que fossem implacáveis uns com os outros e, sobretudo, consigo mesmos. Eram também de uma generosidade hoje perdida: passavam mais tempo a editar-se uns aos outros, a traduzir autores estrangeiros, a procurar financiamentos para criar revistas e publicações onde dessem a conhecer aqueles que eles consideravam os melhores. Repare-se que muita da vida de Luiz Pacheco e muito do que dele fica para a posteridade foram aqueles que deu a descobrir e não as provocações, as embirrações e até as maldades que espalhou por aí.

O grande sátiro Luiz Pacheco

A foto mais conhecida e replicada de Luiz Pacheco, aqui a encarnar a sua persona de “maldito”

Luiz Pacheco deixou muitos admiradores (sempre os teve, afinal, mesmo quando não parecia), sobretudo nas novas gerações. São os que adoram partilhar nas redes sociais as fotos do editor e crítico, a fazer manguitos com ar de velhaco, mais do que fazerem eles mesmos os seus próprios os seus manguitos, dizerem eles mesmos o que não é politicamente correto.

O que faz com que tantos gostem, cultivem e queiram colar-se à aura de libertino e maldito da figura de Luiz Pacheco? Fomos falar com João Pedro George, o biógrafo, e um dos principais divulgadores da obra de Pacheco desde os anos 90, e com Paulo Pacheco, o filho mais novo do escritor e aquele que durante anos foi o seu “carregador oficial de sacos de plástico” como o próprio conta com uma gargalhada.

Mas é apenas em 1992, que uma entrevista saída na revista Kapa, conduzida por Rui Zink e Carlos Quevedo, dá a Pacheco uma dimensão nacional e o coloca no Olimpo dos malditos (titulo que Pacheco rejeitou umas vezes, explorou outras em que lhe dava jeito, mas que foi sempre um forma de o meio literário e intelectual menorizar a importância de Luiz Pacheco, como defende João Pedro George).

Luiz Pacheco: há décadas a dizer o que mais ninguém tem coragem

Durante décadas, Luiz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco era bem conhecido no meio literário, sobretudo lisboeta. Publicou textos iconoclastas, como O Libertino passeia por Braga a Idolátrica, o Seu Esplendor, Carta-Sincera a José Gomes Ferreira, Caca, Cuspo & Ramela (com Natália Correia e Manuel de Lima), Critica de Circunstância, Pacheco Versus Cesariny. Publicou outros tantos panfletos (como O Cachecol do Artista, ou o Caso do Sonâmbulo Chupista), revistas literárias, as obras de Sade, de Herberto Helder, antologias literárias.

Foto e legenda que acompanham a recensão de Alexandre Pinheiro Torres ao LIBERTINO (Diário de Lisboa, Junho de 1970)

Foto e legenda que acompanham a recensão de Alexandre Pinheiro Torres ao LIBERTINO (Diário de Lisboa, Junho de 1970)

Claro que não era apenas conhecido pelo seu trabalho literário mas também pelas circunstancias tragicómicas da sua vida pessoal e social: a bissexualidade assumida, o interesse por efebos e ninfetas de 12 ou 13 anos, a miséria, a mendicidade, os filhos entregues à Casa Pia, o alcoolismo…

Mas a sua descoberta pelas novas gerações aconteceu nos anos 90 depois de uma grande entrevista saída na revista Kapa (do jornal O Independente), feira por Rui Zink e Carlos Quevedo. “Esta entrevista foi aquela, creio, que deu um novo fôlego à imagem pública de Pacheco”, escreve George no prefácio do livro O Crocodilo que Voa, “A comoção que essa entrevista causou foi tanta ou tão pouca, que o jornal Se7e estimou-a, na área da cultura, como ‘um dos acontecimentos culturais do ano de 1992′”. Mas, num postal a um amigo, o escritor classificava-a como “uma merda de entrevista”. Para quem não sabe, Pacheco tinha o saudável hábito de morder a mão que lhe dava esmolas. Era uma forma de se manter livre.

Revista Kapa de 1992 onde a sua entrevista o deu a descobrir às gerações dos anos 90

Entrevista de 1992 à mítica revista Kapa, que foi considerada um dos acontecimentos culturais do ano

A partir daqui Luiz Pacheco tornou-se uma figura de culto. E não se pode dizer que foi maltratado ou ignorado pelos media. Ou, pelo menos, não o foi de forma óbvia, como diz George. Depois da entrevista à Kapa, Pacheco dá outra a Clara Ferreira Alves e Torcato Sepúlveda. Como conta Paulo Pacheco: “Ele não queria nada dar esta entrevista e tentou furtar-se-lhe de várias maneiras mas acabou por ceder. Era muito ingénuo em relação aos jornalistas. Deixava que eles o usassem para que ele dissesse o que os próprios jornalistas não tinham coragem de dizer/escrever. E, como era um conversador nato, com opiniões sobre tudo, dizia o que lhe vinha à cabeça, sem moderação, de forma suicidária”.

Além dos muitos jornalistas que, diz George “iam entrevistar Pacheco, para assim ganharem eles próprios uma certa aura de malditos, como se isso se ganhasse por contágio”. Os outros, os alvos dos ataques pachecais temiam de tal maneira a língua impiedosa de Pacheco que, quando eram “metralhados”a sua única reação era “rirem”, dizerem “lá está o Pacheco…”. Na verdade todas esas reações tinham como único objetivo “menorizarem, ou anularem o impacto das criticas que ele fazia”. Aí o titulo de “maldito” foi-lhe fatal, pois aquilo que ele dizia ou escrevia, em vez de abrir uma discussão no meio literário, era “desclassificado”.

“Porque o extravagante não questiona o sistema, simplesmente simula-o com a sua desobediência em relação às regras secundárias, as quais, com efeito, podem ser desobedecidas por alguns sempre e quando ofereçam uma contrapartida que se considere valiosa [leia-se: divertir-se]”, escreve João Pedro George no livro O que é um escritor Maldito? (Verbo, 2013).

Uma colectânea de 12 entrevistas de Luiz Pacheco saídas na imprensa portuguesa entre 1977 e 2018. Org. João Pedro George.Tinta da China

Uma coletânea de 12 entrevistas de Luiz Pacheco publicadas na imprensa portuguesa entre 1977 e 2018. Org. João Pedro George. Tinta da China, 2015

Passou pois a ser uma “figura divertida” e que “divertia” . Mesmo não ignorando ao que ia, Luiz Pacheco deixou que fizessem dele o maldito. Participou no circo mesmo não acreditando nele. Assumiu o papel e fez de conta que acreditava na superioridade daqueles que o questionavam. Chamava uns quantos de “filhos da puta”, fazia manguitos a outros, mas nunca, se esqueceu que o superior era ele. Parecia até que gostava do palco que lhe estavam a dar, mas no fundo ele só estava no palco porque dali podia desprezar melhor. Porque, como dizia Clarice Lispector, “a diferença entre mim e vocês é que eu sei que existo e vocês não”. E essa era, provavelmente, a grande qualidade de Luiz Pacheco: saber, radicalmente, que existia.

[Aqui um excerto de um documentário da RTP de 1981]

Uma obra para levar a sério

João Pedro George, autor da biografia de Pacheco Puta que os Pariu, 2009, Tinta da China, do livro de entrevistas O Crocodilo que Voa, 2015, Tinta da China, e de outros livros ainda não editados devido à não resolução das questões relativas aos herdeiros (que têm impedido que, desde que o escritor morreu em 2008, nada seja reeditado e quase nada seja editado) explicou ao Observador em que estado está a obra de Luiz Pacheco.

“Depois da morte do escritor houve um pico de interesse por tudo o que era do Luiz Pacheco. Há um interesse grande por parte das novas gerações, precisamente porque ele era uma figura ímpar e não tanto pelo interesse pelos seus livros”. Esta posição é corroborada por Paulo Pacheco, que detêm o espólio do pai, “guardado no sótão lá de casa”. Reconhece que a posição dele e dos restantes 7 irmãos relativamente à obra do pai tem sido de “pura inércia”.

Paulo Pacheco nega que existam quaisquer conflitos entre os irmãos devido aos direitos de autor. “Se calhar, se fosse um bem material que valesse muito dinheiro já nos tínhamos organizado. Assim, uma coisa imaterial como são direitos de autor é mais difícil”, explica mostrando que herdou de Pacheco o sentido de humor.

Obra de 1971

Obra de 1971, há muito esgotada.

“Quando o Luiz Pacheco morreu a Babel chegou a fazer um projeto de edição das obras completas na Ática”, conta George, “houve advogados que tentaram resolver as questões legais junto dos filhos, mas na altura não se conseguiu nada e o projeto acabou por morrer também”.

“Falta fazer a habilitação de herdeiros”, diz Paulo Pacheco, “e entretanto já passaram oito anos. Somos filhos de três mães, dois moram no estrangeiro. O que é penalizador porque, de facto, tem havido interesse de várias editoras em (re)editarem a obra, desde a Tinta da China, a Estampa, a Abysmo, a Assirio & Alvim… Até já se fizeram edições piratas de obras dele”, conta. E lembramo-nos, claro, de que o próprio Pacheco fez várias edições piratas, entre elas a de Cobra de Herberto Helder. “O que as pessoas não sabem é que ele fez essa edição mais para provocar o Herberto do que para fazer dinheiro para si mesmo. Era como quem diz: ai tu não queres fazer outra edição de um livro tão bom? Então faço-a eu e agora amanha-te com esta.”

Aproveitando esta entrevista ao Observador, Paulo Pacheco anuncia que vai sair ainda este ano, na Tinta da China, um volume de 150 cartas de Luiz Pacheco para ele (Paulo). "Como as cartas são minhas, aqui não entra a questão dos herdeiros", explica, "e também é a minha tentativa de desbloquear o processo com os meus irmãos"

Como defende George, “se não fosse a ditadura do Romance, o talento de Luiz Pacheco como escritor era muito mais reconhecido. Ele nunca foi um romancista mas foi um extraordinário escritor de cartas e de diários. Curiosamente a parte mais substancial da sua obra está ainda por divulgar. Ele escrevia cartas e postais todos os dias, era uma forma de exercer a liberdade (porque as cartas eram menos vigiadas pela Pide), uma forma de sobrevivência (muitas destinavam-se a pedir dinheiro), mas eram também um exercício literário onde ele praticava o seu melhor estilo coloquial. Muitas destas missivas destinavam-se a duas figuras que tiveram uma grande importância na vida de Pacheco: Laureano Barros, um bibliófilo que lhe guardava tudo o que ele escrevia, nomeadamente as cartas (já que Pacheco fazia de todas uma cópia usando papel químico) e o empresário Manuel Vinhas, que foi o maior mecenas de Pacheco, mas também de Cesariny.”

 Textos Malditos, pela editora Montag

A história da edição dos “Textos Malditos”, contada por Pedro Piedade Marques, na editora Montag

Destas cartas a Laureano Barros, há pelo menos um conjunto de 100 que foram compradas em leilão e o atual dono está disponível para as publicar mal haja uma editora interessada. “Como são cartas pessoais aqui não entra novamente o problema dos herdeiros”, explica George. O interesse desta correspondência que vai de 1966 até aos anos 90 é não só a escrita epistolar de Pacheco mas também o retrato satírico que contém do meio literário português, explica o biógrafo.

Quanto ao livro de cartas e postais trocados com o filho Paulo Pacheco, (o único dos 8 que viveu com o escritor até aos 13 anos, altura em que foi acolhido por uma família com a qual ficou até à idade adulta), contou, “é um itinerário de três fases da nossa relação: a primeira fase em que eu era o seu ajudante renitente, ou seja carregava os sacos plásticos e vinha para Lisboa fazer-lhe recados. A segunda quando, por volta dos 18 anos, me torno seu leitor, depois de ultrapassar muito do ódio que lhe tinha. É a fase em que deixo de ser filho e passo a ser leitor e admirador. Depois de ler A Comunidade passei a compreender melhor aquele percurso de vida. E a terceira fase que é já a de dois adultos, em que eu o contratei, por exemplo, para fazer trabalhos para as revistas institucionais da Câmara Municipal de Palmela, onde trabalho e passei a ajudá-lo na edição dos seus livros”.

Gostas do Luiz Pacheco? Mas o Luiz Pacheco não gosta de ti

Tanto João Pedro George, biógrafo e amigo de Pacheco (que durante anos conviveu com ele e lhe aturou muitas maldades e gentilezas para escrever a biografia deste homem fascinante), como Paulo Pacheco concordam que há um renovado fascínio que vem sobretudo da geração que está hoje entre os 20 e os 30 anos e que desconhece combatividade dentro do meio literário, a crítica, provocação. Ora, para a geração que conhece apenas o virtuosismo sem fim do meio literário português, a existência de uma personalidade que não cabe em rótulo nenhum, mas à qual se convencionou chamar “maldito” é um polo de atração sem igual. Assim, as suas fotografias, as suas boutades, excertos das suas entrevistas, as suas frases mais pícaras, a sua maldade, tantas vezes a raiar a psicopatia, fazem um enorme sucesso entre aqueles que querem parecer malditos mas não têm coragem. (É favor não confundir psicopata com assassino muito menos com serial killer. Um psicopata é, essencialmente, uma pessoa com uma forte insensibilidade, incapacidade de empatizar ou compreender o sofrimento dos outros. E há mesmo entrevistas em que Pacheco assume a sua psicopatia).

Aqui com o filho Paulo e o poeta António José Forte

Aqui com o filho Paulo e o poeta António José Forte, inicio dos ano 70

Apesar deste fascínio, que se traduz também nos cerca de 5 mil exemplares esgotados da autobiografia Puta que os Pariu, Luiz Pacheco não deixou discípulos. Continua-se a procurá-lo mais pelo riso do que pela vontade de aprender, ou replicar o seu comportamento combativo, a solidão que isso acarretou, as zangas, a inimizades, a pobreza. Quantos dos que gostam de o partilhar nas redes sociais seriam capazes de lhe seguir o exemplo? Quantos escritores que gostam de cultivar um certo ar de enfant terrible vêm à liça criticar-se uns aos outros nas crónicas de jornais e revistas? Quantos escreveriam o que Pacheco escreveu sobre Namora ou sobre Cesariny?

Carta trocada entre duas figuras impares das margens do nosso meio literário: Vítor Silva Tavares e Luiz Pacheco

Carta que junta três figuras impares das margens do nosso meio literário: Vítor Silva Tavares, Luiz Pacheco e o editor Ribeiro de Mello, da chancela Afrodite

“Havia o Miguel Esteves Cardoso”, lembra Paulo Pacheco, “o meu pai gostava de algumas coisas dele, nos anos 80 ele teria sido um herdeiro. Depois apagou-se. E depois dele não há mais ninguém, nem há a construção de uma crítica. Continua a ser aquela coisa que o meu pai gostava de gozar: Sempre que sai um novo livro de um escritor, o jornalista escreve’ é o seu melhor livro de sempre'”.

Terminamos citando o prefácio de João Pedro George em O Crocodilo Voa:

“…não porque quisesse ocupar o palco a qualquer preço, mas porque lhe estava no sangue e porque conquistara há muito, esse direito, essa liberdade de dizer o que lhe dava na gana. Era rude? Era torcido? Era cruel? Talvez. Era inconveniente? Rompia em excessos? Descambava nas indelicadezas? Dava respostas chulas? Melhor! Quando há nossa volta o clima mental é lúgubre e estéril; quando o meio literário em que vegetamos não promove o espírito crítico, antes o comércio escuro e as mútuas mesuras (…) abençoado Pacheco!

*A fotografia principal de Luiz Pacheco usada neste artigo é da autoria de Margarida Araújo, em 2007

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