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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Gracinda ficou sozinha. O marido e dois filhos foram presos por crimes sexuais: durante 40 anos abusaram dela, das filhas, netas e sobrinha /premium

Numa moradia perto de Tomar, foram mantidos em segredo crimes de violência doméstica e de abusos sexuais contra as mulheres e meninas da família ao longo de 40 anos. Pai e dois filhos já estão presos.

— Nunca mais ninguém me telefonou. Nada. Fiquei sozinha, parece que fiquei abandonada. A única coisa que me resta são os pássaros e a televisão

A entrada parece a de uma casa inacabada. O longo corredor do piso térreo tem paredes toscas em tijolo e cimento e serve de armazém de coisas velhas. Só lá ao fundo se vislumbra uma Nossa Senhora de Fátima em azulejo e aquilo que parece ser o conforto da casa onde Gracinda, 68  anos, vive agora sozinha, na Venda Nova, perto de Tomar.

Há uma semana foi por aquele corredor que os inspetores da Polícia Judiciária irromperam à procura do marido e do filho mais novo, de 38 anos, deixando Gracinda confusa. Com eles levaram um outro filho dela, um pedreiro de 43 anos. Os três estão agora presos preventivamente e são suspeitos de, ali naquela casa, terem cometido crimes de violência doméstica, abuso sexual e violação ao longo das últimas quatro décadas. Crimes que a PJ acredita que foram perpetuados no tempo e transversais a várias gerações: à de Gracinda, à das suas filhas, e à das netas.

É ali, naquela entrada, que Gracinda fala ao Observador. Mulher baixa, cabelo grisalho desgrenhado com um gancho a apertar a franja e o avental posto para o almoço que estava a preparar. “Nunca vi nada, nada nada. Nunca”, garante de olhos postos no chão, embora, à medida que vai desfiando o novelo dos seus últimos 40 anos de vida, vá revelando que a prisão do marido e dos filhos não tenha sido assim tão surpreendente.

Os três estão agora presos preventivamente e são suspeitos de, ali naquela casa, terem cometido crimes de violência doméstica, abuso sexual e violação ao longo das últimas quatro décadas. Crimes que a PJ acredita que foram perpetuados no tempo e transversais a várias gerações: à de Gracinda, à das suas filhas, e à das netas.

O marido sempre foi um homem agressivo

Gracinda teve dez filhos, mas só cinco, três rapazes e duas raparigas, sobreviveram e cresceram entre aquelas quatro paredes aonde a maior parte deles recusou voltar nos últimos anos. Para Gracinda foi o marido, homem severo, que desuniu a família. Para a PJ, as mulheres não voltaram mais ali porque foram vítimas de abusos sexuais.

Gracinda no corredor de acesso à casa, onde a PJ entrou para lhe prender o marido e o filho

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

José, o companheiro e pai austero, agora com 71 anos, chegou a ir para a guerra, em Angola. Na altura Gracinda tinha com ela uma menina, que acabou por morrer aos três meses. Quando ele regressou a casa era outro. “Começou a tratar-me mal”, recorda. Os cinco irmãos e irmãs cresceram, por isso, num ambiente em que o pai chegava a casa, já com álcool a mais no sangue, e “partia tudo”. Depois batia-lhe. Gracinda, sem nunca ter trabalhado e com os filhos para criar, ia-se resignando.

Não foi só mau para um,  foi para todos. Eu para abalar, para onde é que ia? Para debaixo dos pés da irmã dele? Só se fosse para ser criada…

A viver numa casa colada às casas de outros familiares seus, foi procurando ombros amigos. Muitas vezes mantinha a sua dor em silêncio enquanto andava na horta a semear, a regar ou a colher legumes. Quando a filha, a mais nova das raparigas, agora com cerca de 40 anos, chegou à adolescência, começou porém a aperceber-se de um comportamento estranho.

— O pai levava-a para a boite e isso chateava-me!

Gracinda não sabe o que os dois iam fazer, ou prefere sequer não saber, mas ainda tem na memória a cara da filha a cada vez que o pai chegava e lhe ordenava que se despachasse para saírem. Na altura, os dois irmãos agora presos ainda viviam ambos lá em casa. E eles próprios deviam aperceber-se disso.

— Ele só dizia assim: ‘Oh menina prepara-te para irmos embora. E ela punha-se logo prontinha para abalar. Eu só desconfiava que havia ali qualquer coisa entre um e outro’.

Cansada de ver a sobrinha ser arrastada para a “boite”, uma cunhada de Gracinda, irmã do marido, sugeriu-lhe levar-lhe a menina, à data com 15 anos, para a Suíça. E foi a essa tia que a rapariga terá contado o que sofreu às mãos do pai. “Isso já foi há muitos anos”, ressalva Gracinda, como quem perdoa os crimes pelo tempo passado. Nunca ninguém se queixou, sequer, à polícia. E os anos passaram à medida que mais raparigas iam nascendo na família, tornando-se potenciais vítimas.

Cansada de ver a sobrinha ser arrastada para a "boite", uma cunhada de Gracinda, irmã do marido, sugeriu-lhe levar-lhe a menina, à data com 15 anos, para a Suíça. E foi a essa tia que a rapariga terá contado o que sofreu às mãos do pai. "Isso já foi há muitos anos", ressalva Gracinda, como quem perdoa os crimes pelo tempo passado.

Gracinda diz, porém, que esta filha não mais voltou àquela casa. Sempre que vem a Portugal encontra-se com a mãe no centro de Tomar. Nunca mais terá visto sequer o pai.

Foi um dos filhos que denunciou o caso

Além desta filha, Gracinda tem uma outra, a mais velha, que vive agora em Tomar e que tem um casal de filhos, ele adolescente, ela já adulta. Na sua cabeça, e como ela nunca lhe contou nada, não vai a casa dos pais há anos por causa de José. Para a PJ, será outra das vítimas do pai. “A filha dela quase não vem cá. Deixou de vir cá quando foi para a escola. Eu às vezes estou com ela em Tomar. O meu marido com o feitio dele conseguiu afastar todos”, constata a certa altura Gracinda, cada vez mais presa à solidão da sua casa.

A casa onde Gracinda vive agora sozinha é rodeada de casas de família

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A outra neta de Gracinda, a quinta (quarta ainda rapariga) é a filha de um dos agora detidos pela Polícia Judiciária. Também ela terá sido ouvida no processo e também ela terá sido vítima de abusos sexuais na casa do avô.

Mesmo ao lado da casa onde Gracinda vive agora sozinha mora o seu terceiro filho rapaz. Ao que apurou o Observador foi ele quem deu início a todo este processo. A sua filha, agora com 14 anos, estava a ser acompanhada por uma psicóloga quando lhe saiu a confissão: tinha sido abusada sexualmente na casa dos avós. Perante um possível crime, a especialista contactou os pais da adolescente que não hesitaram em avançar com uma queixa. Mesmo contra o próprio pai e dois irmãos. O avô e os tios. O marido e os outros dois filhos de Gracinda.

— Eu não vi nada. Não sei se faziam pouco das meninas ou não. Isto havia de se descobrir. Isto é uma coisa que não se faz ninguém. Se eles o fizeram, têm que pagar por aquilo que fizeram, diz Gracinda.

A sua filha, agora com 14 anos, estava a ser acompanhada por uma psicóloga quando lhe saiu a confissão: tinha sido abusada sexualmente na casa dos avós. Perante um possível crime, a especialista contactou os pais da adolescente que não hesitaram em avançar com uma queixa. Mesmo contra o próprio pai e dois irmãos. O avô e os tios. O marido e os outros dois filhos de Gracinda.

Quando o caso chegou à PJ, os inspetores pensavam estar perante “apenas” um crime de abuso sexual. Só depois perceberam que o caso não se ficava por ali. E que a trama era muito maior e mais grave. Às autoridades, a vítima começou a dizer que também uma prima (a filha de um dos detidos) tinha sofrido abusos. Os investigadores começaram a perceber estar perante um quadro familiar onde podiam existir mais vítimas. Entre elas a própria irmã da rapariga, que hoje tem 7 anos, mas que à data do crime teria apenas cinco.

Só me lembro de uma vez ter tirado a menina, tinha ela 5 anos, do colo do avô. Vi que ele tinha a mão na perna da menina e disse-lhe para não lhe fazer nada. Nunca mais deixei a menina ir para ao pé dele porque sabia da minha filha na Suíça. Nunca pensei que era tão grave.

Filhos seguiram as pisadas do pai

Nesta primeira investigação, a PJ falou com todas as mulheres da família para perceber o comportamento do marido e dos dois filhos de Gracinda detidos. E percebeu que na história da família o primeiro abusador terá sido José, com as filhas e com outras duas mulheres, uma delas uma cunhada já falecida. Que terá continuado a cometer crimes contra as netas e que os seus filhos seguiram-lhe os passos. E terão abusado de uma filha e sobrinha.

Os três foram presentes ao juiz como suspeitos de crimes vários (nem todos de índole sexual) contra oito vítimas, todas mulheres, algumas da família mais alargada. A PJ afirmou em comunicado que as oito vítimas são “todas do sexo feminino” com “idades compreendidas entre os 5 e os 68 anos de idade” e que “terão sido sujeitas a atos sexuais de relevo, bem como maus tratos físicos e psíquicos, pelos arguidos”.

Na história da família o primeiro abusador terá sido José, com as filhas e com outras duas mulheres, uma delas uma cunhada já falecida. Que terá continuado a cometer crimes contra as netas e que os seus filhos seguiram-lhe os passos. E terão abusado de uma filha e sobrinha.

Gracinda garante, porém, que o marido há cerca de dez anos mudou de comportamento. Com a diabetes a roubar-lhe-lhe a visão, José ficou cego e acabou completamente dependente dela para assegurar as suas necessidades mais básicas. Nunca mais lhe bateu. “Não perdoei porque não sou Deus, mas também não sei se ele fez isto tudo”, diz por fim Gracinda, sem conseguir conter as lágrimas.

Pouco tempo antes, Gracinda tinha recebido uma chamada do marido e dos dois filhos do Estabelecimento Prisional de Leiria. O marido disse-lhe para se “governar” com o dinheiro que irá receber e não pensar em mais nada porque “era tudo mentira”. Um dos filhos negou os abusos sexuais. Enquanto o filho mais novo, de 38 anos, terá dito ao juiz de instrução, segundo ela, não saber como tudo se passou.

— Agora vou ter que ir lá levar-lhes roupa. Já pedi a um casal amigo para lá ir. Da família não posso contar com ninguém.

A PJ anunciou há uma semana a detenção do pai e dos dois filhos pelos crimes de abuso sexual de crianças, violação e violência doméstica, agravados.

"Os abusos perpetuaram-se e acabaram por funcionar como uma normalidade dentro da anormalidade. Os filhos aprenderam com o pai e prolongaram os abusos que existiam no contexto familiar".
Carlos Poires, psicólogo criminal

“Os filhos aprenderam com o pai e prolongaram os abusos”

Para o psicólogo criminal Carlos Poiares, parece difícil entender que nenhuma das mulheres desta história soubesse o que se estava a passar. Surpreende-o neste caso “a duração temporal da gravidade deste comportamento”. É que havendo tantas vítimas, parece difícil que não tenham falado sobre isso. No entanto, diz, parece-lhe que terão sido toldadas pelo medo de partilharem ou falarem dessa informação umas com as outras.

O psicólogo lembra que, nesta família, os abusos parecem ter sido institucionalizados, ou seja o “patriarca começou a abusar das filhas e houve uma extensão disso para os filhos”, explica. “Os abusos perpetuaram-se e acabaram por funcionar como uma normalidade dentro da anormalidade. Os filhos aprenderam com o pai e prolongaram os abusos que existiam no contexto familiar”, constata.

O coordenador da PJ de Leiria, Fernando Jordão, que se encarregou do caso

PAULO CUNHA/LUSA

Grac

Carlos Poiares lembra, também, que neste caso poderá mesmo haver a chamada Síndrome de Estocolmo “em que as pessoas acabam por criar afeto ao agressor, o que faz com que não só o medo que impera de represálias possa calar as pessoas e silenciá-las, mas também haver uma carga afetiva que leva a que estas pessoas criem uma relação que já não devia existir”, diz. Dando ao agressor uma espécie de “livre trânsito” para continuar.

Há também situações que, por medo, “se cria uma cumplicidade negativa com  alguém que sabe que há abusos, como a mãe que sabe que a filha está a ser violada”.

Já do ponto de vista do agressor, poderá haver aqui um sentimento de propriedade privada em relação às mulheres da família enraizado na nossa história. Considerar que a mulher e as filhas são um bem e que por isso pode dispôr desse bem como quiser. “Ainda há pessoas que acham que as mulheres têm obrigações conjugais e que têm direitos sobre as filhas e as enteadas , uma vez que lhes dão educação”, diz.

“É uma ramificação do que existiu durante muito tempo na vida familiar das sociedades e que infelizmente ainda permanece nos tempos atuais”, disse.

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