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Gonçalo Villaverde

Gonçalo Villaverde

Guia de sobrevivência para os Santos Populares /premium

Entre Santo António e a Madonna, trolleys e manjericos – Lisboa tem mudado muito, mas esta continua a ser a sua noite mais longa. Como sobreviver-lhe em sete passos (mais ou menos) simples.

O que vestir / Quoi porter

Do urban wear comum a conjuntos tigresse, da camisola da selecção ao corpete pontiagudo da Madonna na esperança de uma selfie com a própria (ou – ainda melhor – com a Celeste Rodrigues), desde que seja descontraído, está tudo bem. O único ponto que o/a deve preocupar é a subquestão: o que calçar (quoi porter, insiste o tradutor do Google).

Não sucumba ao estilo; a verdade é que ninguém vai conseguir ver os nossos pés – nem nós próprios. Podíamos ir de pantufas com o Egas e o Becas que ninguém notaria. O que interessa é o conforto porque, na noite dos Santos, pode não se conseguir comer, pode não se conseguir sentar, pode não se conseguir apanhar um táxi, pode não se conseguir lembrar do próprio nome, mas uma coisa é certa: vai-se andar como nunca o Forrest Gump andou.

Portanto, pegue naqueles sapatinhos ou sapatilhas confortáveis que tinha para passear em Nova Iorque ou ir a Fátima e dê-lhe uso. Não precisam de ser bonitos nem novos; só têm de prometer aguentar muitas horas de pé e muitos quilómetros entre arraiais. Ai, sente-se mesmo confortável é de chinelinho de enfiar no dedo? Está a ver aquela malta nas Filipinas que se crucifica na Páscoa? É mais ou menos a mesma ideia. Vai dar e levar pisadelas de gente de todo o mundo. Se os pés fossem um passaporte, chegariam a dia 13 com mais carimbos do que os documentos dum espião russo. É melhor ser conservador e optar por uma coisa mais fechadinha. Mas quem somos nós para o impedir de se oferecer em sacrifício para redimir os pecados da espécie?

Para onde ir / Dove andare

Benfica, Carnide, Campolide, Sete Rios, Santo Amaro, Olivais, Marvila, Pedrouços, Alcântara, Penha de França, Areeiro, Alvalade… Lisboa ainda é grande e o Observador já aqui contou, pelo menos, 79 arraiais à volta da cidade este ano – é mesmo preciso ir sempre para a Bica ou para Alfama na noite de 12 para 13, quando e onde a densidade populacional compara com o metro de Tóquio, mas sem ar condicionado?

Cada um gosta do que gosta e é verdade que é preciso ir a Meca uma vez na vida e que não se pode sair de Roma sem ver o Papa (não sabemos se acabámos de ser muito inclusivos e multiculturais ao pôr estas duas expressões na mesma frase ou de cometer uma grave heresia em pelo menos duas religiões), mas há santos todos os anos e durante 30 noites. De 12 para 13, iríamos explorar os bairros de que menos nos lembramos e deixaríamos os óbvios para noites em que se consiga, efectivamente, sentar nalgum lado a jantar, de preferência sem enfiar um cotovelo no olho da nossa companhia e outro no dum turista francês de cada vez que vamos dar uma trincadela na sardinha no pão. Mais: os Santos não são o lugar nem o tempo para ser hipster.

Os Santos são o momento em que a grande cidade mostra o coração de pequena aldeia que tem e que é, na verdade, o que a torna diferente de todas as outras. Não são a urgência de publicar uma fotografia no MAAT na inauguração e, depois, nunca lá mais meter os pés.

O que comer / Qué comer

Isto é como o bacalhau com todos (bacalao com todos, merluzzo com tutti, cod with everyone) na consoada: nos Santos, come-se sardinha com batata cozida e aquela salada de pimentos que podíamos pedir todo o ano, mas de que só nos lembramos nesta altura, como se fosse fruta de época ou a temporada da lampreia.

Para o conseguir, porém, precisa de um lugar sentado e isso, nesta noite em particular, das duas uma: ou reserva antecipadamente mesa num sítio onde lhe façam esse favor porque gostam de si como um filho (e uma mesa reservada na noite dos Santos é mais ou menos o equivalente ao camarote de época de um milhão de dólares no Madison Square Garden) ou, lá está, garimpando entre os bairros com menos hashtags.

Sente-se pesado, mas, ao mesmo tempo, mexe os pés sem tocar em absolutamente nada e há luzes muito fortes e coloridas rodando à sua frente. Solução: Levante-se. Acabou de cair no chão do arraial.

Em alternativa, é lutar por um prego, bifana, febra ou sardinha no pão e seguir viagem. Sabendo de antemão que, para pagar duas sardinhas nesta noite, vai ter de arrendar a casa durante 15 dias a um grupo excursionista de finalistas ingleses.

O que beber / Was zu trinken

Dizem que, nas grandes festas, para fazer render a sangria, colocam-se lá dentro mais produtos do que os que podemos encontrar na secção de detergentes de um pequeno supermercado – e, quem sabe?, mais eficazes na limpeza de azulejos e fogões. Pelo sim, pelo não, tendemos a ficar pela cerveja. Mas isso são cá coisas nossas.

O que fazer quando sentir que os seus pés não estão a tocar no chão / Co to kurwa?

Há várias soluções para vários cenários:

Cenário a) Sente-se pesado, mas, ao mesmo tempo, mexe os pés sem tocar em absolutamente nada e há luzes muito fortes e coloridas rodando à sua frente. Solução: Levante-se. Acabou de cair no chão do arraial.

Cenário b) Estava na Bica, foi descendo, descendo, e agora perdeu-se de toda a gente e sente-se como se estivesse a caminhar no ar. Solução: Desceu de mais e acabou de chegar ao rio. Está naquele breve instante em que o desenho animado percebe que está a caminhar sobre o abismo e congela no ar. O que se segue não será agradável, mas não se preocupe: a última pessoa que mergulhou no Tejo acabou Presidente da República. (Splash!)

Cenário c) Jura que está de pé e em plena cidade, uma vez que está cercado de pessoas e vê edifícios a toda a volta, mas, ainda assim, não sente o chão. Solução: Consumiu demasiadas substâncias demasiado estimulantes, ou de forma consciente ou na sangria. É procurar um sítio onde se sentar e esperar que passe.

Cenário d) Jura que está de pé e em plena cidade, uma vez que está cercado de pessoas e vê edifícios a toda a volta, não consumiu substâncias ilegais nem pediu sangria, mas, ainda assim, não sente o chão. Solução: Está, simplesmente, a viver um clássico dos pontos mais quentes da noite dos Santos. Há demasiada gente para tão pouco metro quadrado. No aperto e com cada vez mais nórdicos espigadotes entre nós, o jogo de ombros acaba por, ocasional e momentaneamente, nos levantar do chão. Não entre em pânico e deixe-se conduzir. Também isto passará e, com sorte, até o deixam mesmo em frente ao bar.

Então e bailarico? / Melhor que saudade

Não há Santos sem pezinho de dança (little foot of dance; petit pied de danse; kleine voet dansen), mas procure um sítio de verdade. Não vá em “Despacitos” nem “Charlie Browns”. Mas também não em Beyonces nem Daft Punks. Os Santos não são o Carnaval nem o Ano Novo, mas também não são a discoteca cool.

Não se deixe levar pela homogeneização do arraial em curso. Exija o seu Nel Monteiro, a sua Cândida Branca Flor, a sua Ruth Marlene, o seu Dino Meira, a sua família Malhoa, o seu fado castiço – o mais longe que pode ir na música estrangeira é Tony Carreira. Os Santos, recuperamos, são a revelação da alma saloia da capital, o momento em que todo o habitante que veio doutro sítio para aqui e fez esta cidade se sente na festa da terra.

Espere pelo nascer do dia, quando a tarifa do uber já estiver menos dinâmica que uma aula de zumba e puder ver derramar-se o sol sobre a cidade a partir da colina do Castelo ou da Graça.

Lute pelo poder catártico do bailarico, que é o altar que transforma em má a boa música e em boa a má, o baile em que até dança o que não sabe dançar, a pista em que o tímido consegue efectivamente bambolear-se com outras pessoas, a auto-ironia de um povo de melancólicos, o termo que, ademais, não tem tradução. Melhor que saudade, que até se pode dizer “longing” e é bem mais tristonha.

Como ir para casa / Porquê ir para casa / Defina “casa” / Ich bin ein lissaboner

No início disto tudo, esperemos que não tenha levado carro. E porquê? Por causa deste fim. Porque ao princípio é sempre tudo muito bonito: “Eu sei que não há lugar, mas não me importo de estacionar longe e caminhar um bocado – até faz bem.” Isso é quando se está fresco e caminha em linha recta; não depois de 6 a 14 horas de folia e caminhando aos “W” – para já não dizer que, provavelmente, se soprar num balão, vai marcar números de fazer inveja à pontuação de uma ginasta olímpica.

Vá a pé e de transportes e, mais uma vez, quanto mais alternativo for o bairro, provavelmente mais fácil será encontrar um – e sem fila de espera. Ou então, espere pelo nascer do dia, quando a tarifa do uber já estiver menos dinâmica que uma aula de zumba e puder ver derramar-se o sol sobre a cidade a partir da colina do Castelo ou da Graça. Há sempre algo de realmente santo nisso. Aquela banal bênção da luz fazendo o milagre de deixar começar tudo de novo. Tudo de nuevo. Tout recommencer. All over again.

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal)

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