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AFP/Getty Images

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Há 12 anos que a bolsa de Lisboa não fechava o ano tão pequena

Só as bolsas da Rússia e Grécia tiveram um ano de 2014 pior do que a bolsa de Lisboa. As cotadas valem 51 mil milhões de euros, um valor de fecho de ano que é o mais baixo, pelo menos, desde 2002.

Às 13 horas desta quarta-feira, quando a bolsa portuguesa fechou o ano, as ações cotadas valiam, em conjunto, 51.220 milhões de euros. O valor de mercado das ações da bolsa de Lisboa nunca foi tão baixo num fecho de ano desde 2002. Em 2007, antes de a crise financeira global estalar, as ações nacionais valiam quase 213 mil milhões de euros, cerca de quatro vezes mais do que hoje. A bolsa nacional está cada vez mais pequena, em valor e também em número de empresas.

A desvalorização média de 24,98% das cotações portuguesas em 2014, apenas atrás da Rússia e da Grécia a nível internacional, reforçou a reduzida dimensão do mercado. A praça financeira portuguesa é cada vez mais marginal no panorama internacional: as 50 ações nacionais que compõem o índice PSI Geral representam 0,1% do valor de mercado das bolsas em todo o mundo, um terço da importância que tinham em 2007, segundo dados da Bloomberg.

A bolsa portuguesa vale agora um quarto da capitalização bolsista em 2007.

A bolsa nacional vale hoje menos de um quarto do que era a capitalização total de mercado em 2007. Lisboa não foi a única bolsa a encolher neste período marcado pela crise financeira global e pela crise do euro, mas as perdas das bolsas congéneres não foi comparável. Madrid, por exemplo, perdeu 12% em capitalização de mercado e Paris caiu 11%. Por outro lado, a bolsa de Londres aumentou 18% em valor total de mercado e Nova Iorque cresceu 12%.

O colapso do Banco Espírito Santo e do Espírito Santo Financial Group (ESGF) é apenas a face mais recente do desaparecimento de valor da bolsa portuguesa. A saída de firmas espanholas dos boletins de cotações nacionais teve um impacto mais profundo. O Banco Popular Español deixou a Euronext alfacinha em 2013, mas, nos cinco anos anteriores, outras fizeram o mesmo: Banco Santander, a construtora Sacyr e a papeleira Europac. Estas companhias entraram para a bolsa portuguesa após terem adquirido sociedades lusas cotadas (Banco Totta, Somague, Gescartão), retirando-as do mercado acionista.

Outras empresas nacionais saíram da bolsa depois de terem sido alvo de compra. A Brisa deixou o mercado em abril de 2013, após uma oferta pública de aquisição (OPA) iniciada cerca de um ano antes. O Finibanco foi adquirido pelo Montepio em 2010. Mais recentemente, a Fidelidade conseguiu 96% do capital da Espírito Santo Saúde numa OPA, mas a dona do Hospital da Luz ainda permanece na bolsa. A Espírito Santo Saúde foi para a bolsa de Lisboa em janeiro, no encalço dos CTT – Correios de Portugal, que tinham cotado o capital cerca de um mês antes. Antes disso, é preciso recuar a 2008 para ver uma empresa nacional a tornar o capital disponível ao público: a EDP Renováveis.

Em 2014, houve, na verdade, mais uma empresa portuguesa além da Espírito Santo Saúde a ir para a bolsa. Mas não foi para a bolsa portuguesa. A Mota-Engil cotou na bolsa de Amesterdão as operações em África no final de novembro. Porque não em Lisboa e porquê em Amesterdão? “Por ser a segunda maior praça europeia e uma das cinco maiores do mundo em IPO [estreia em bolsa] ao longo de 2014, Amesterdão assegura-nos uma expectativa de liquidez e de visibilidade junto de uma comunidade de investidores que nos posiciona na primeira linha das empresas com exposição a África”, justificou, na altura a empresa.

"Por ser a segunda maior praça europeia e uma das cinco maiores do mundo em IPO [estreia em bolsa] ao longo de 2014, Amesterdão assegura-nos uma expectativa de liquidez e de visibilidade junto de uma comunidade de investidores que nos posiciona na primeira linha das empresas com exposição a África"
Mota-Engil, em comunicado relativo à estreia na bolsa de Amesterdão

Um ano que começou tão bem

Uma bolsa deprimida significa que, em média, não estão a ser rentáveis as aplicações de quem tem poupanças investidas nas empresas cotadas na bolsa de valores. Mas significa, também, que é menor a capacidade das empresas de investir, financiar a expansão das atividades e a contratação de funcionários. Se o seu valor de mercado for baixo, é menor a capacidade de um banco de emprestar à economia. Se as ações de uma empresa industrial estão em queda, é mais difícil obter o financiamento para comprar maquinaria pesada. No fundo, este é um sinal de que os investidores – nacionais e estrangeiros – estão pouco otimistas em relação às perspetivas de resultados das empresas ou, pelo menos, que estão ainda a recuperar de traumas recentes: com o colapso do BES e as dificuldades da PT SGPS à cabeça.

Até março de 2014, o índice de referência das ações da bolsa de Lisboa – o PSI-20 – acumulava nove meses consecutivos de ganhos. No início do ano que hoje termina, as ações portuguesas eram vistas como estando entre as que mais tinham a ganhar com a retoma europeia em torno da qual existia grande otimismo nos mercados. O PSI-20 fechou o primeiro trimestre de 2014 a ganhar 16%. Este era o cenário no início do ano, porque a partir da primavera, o conflito entre a Ucrânia e a Rússia subiria de tom, numa altura em que a Reserva Federal dos EUA estava a retirar os estímulos monetários e a zona euro se deparava com o risco de deflação e um regresso à estagnação económica. Mas, em Lisboa, foi a partir do verão, com o colapso do Banco Espírito Santo, que a bolsa de Lisboa partiu para o pior ano desde 2011.

O índice PSI-20, atualmente com apenas 18 cotadas, teve em dezembro o seu nono mês consecutivo em queda. Uma sequência negativa que lhe conferiu o estatuto de terceira pior bolsa de valores a nível mundial em 2014, com uma desvalorização de 27% (excluindo efeito de dividendos). Só as bolsas da Rússia e da Grécia tiveram um ano ainda mais negativo, dois países que estão envoltos em grande incerteza económica e política. Na Rússia, Vladimir Putin enfrenta sanções económicas, uma grave recessão, risco de fuga de capitais e um preço do petróleo em queda acentuada. Em Atenas, o governo caiu depois de ser incapaz de eleger um novo Presidente da República no parlamento e estão agendadas novas eleições para 25 de janeiro, o que garante à zona euro um início de ano agitado. As melhores bolsas do ano, em moeda local, foram a Argentina, a China (Xangai) e a Venezuela.

As melhores bolsas do ano, em moeda local, foram a Argentina, a China (Xangai) e a Venezuela. Pior que Lisboa, só Moscovo e Atenas.

As ações dos CTT foram uma das poucas notas positivas no índice PSI-20 em 2014. Foram para a bolsa em dezembro de 2013 a valer 5,52 euros e, pouco mais de doze meses volvidos, termina o ano de 2014 a valer mais de oito euros por ação. Isto apesar de ter havido uma segunda fase de privatização, em que mais ações chegaram ao mercado. O retorno anual, incluindo dividendos, foi de 51,5%. Ano positivo tiveram também as ações do grupo EDP, que beneficiam entre outros fatores de custos de financiamento mais baratos no mercado de dívida, e também as papeleiras. A Portucel subiu 14,27% e a Altri ganhou 12,89% (retorno total, com dividendos).

Do lado das perdas, a principal foi, sem dúvida, a ação do Banco Espírito Santo. A negociação das ações foi suspensa indefinidamente a 1 de agosto, quando os títulos perdiam 87% e valiam 12 cêntimos. O banco viria a ser alvo de um processo de resolução, que daria lugar à transferência dos ativos “saudáveis” para uma nova instituição, a que se deu o nome de Novo Banco. O colapso do BES arrastou consigo, também, a Portugal Telecom, empresa que investiu quase 900 milhões de euros em papel comercial do Grupo Espírito Santo no início do ano e que ainda não viu reembolsado esse valor.

Na bolsa de Lisboa, o que está cotado é a PT SGPS, que além de uma participação da empresa resultante da fusão da Portugal Telecom e da Oi tem essa dívida da Rioforte e uma opção de compra de ações da empresa resultante da fusão. Essas ações fecham o ano de 2014 a perder 71,66%, um ano que também ficou marcado pelo processo de venda da “telecom” portuguesa por parte da Oi. Os franceses da Altice parecem estar em boa posição para garantir o concurso da empresa. Entre as maiores perdas no PSI-20 em 2014, estiveram, também, as ações da Mota-Engil, dos bancos BCP e Banif, e a Jerónimo Martins, que tem enfrentado dificuldades crescentes no crucial mercado polaco.

Além dos CTT, também as ações do grupo EDP tiveram um 2014 positivo. As piores foram as ações da PT SGPS, além das do BES.

2015 pode, contudo, ser um ano bem mais positivo para a bolsa de Lisboa. Segundo estimativas da Bloomberg a partir das recomendações médias dos analistas de ações, a bolsa portuguesa tem um potencial de valorização de 27,9%. É o potencial mais expressivo em todas as principais bolsas mundiais, segundo estas estimativas. O ano de 2015 será, contudo, um ano repleto de riscos para as bolsas mundiais, ainda que com elevado potencial para surpresas positivas.

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