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Heidi, Sarah e Anna. As três mulheres que querem travar o Brexit — e a estratégia que têm para o conseguir /premium

Deputadas conservadoras juntaram-se ao grupo de dissidentes do Labour, na esperança de provocar mudanças dentro dos partidos. O objetivo é só um: impedir que o Reino Unido saia da UE. Conseguirão?

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Foi a segunda conferência de imprensa numa semana onde se ouviu deputados a dizer “demitimo-nos do partido”. Se, na segunda-feira, sete membros do Partido Trabalhista (a que se juntou uma oitava na terça-feira à noite e um possível nono que declarou intenções de o fazer na sexta-feira) deram uma pedrada no charco ao anunciar a solidez do seu desentendimento com Jeremy Corbyn, o anúncio de quarta-feira foi bem mais surpreendente pela rapidez e determinação com que três deputadas do Partido Conservador divulgaram a sua saída. “Vocês já conheceram ‘Os Sete Magníficos’, provavelmente ouviram falar da ‘Cavaleira Solitária’… Suponho que isso faz de nós ‘Os Três Amigos’”, disse Heidi Allen, a abrir as hostilidades com humor e referências cinéfilas.

Anna Soubry, Heidi Allen e Sarah Wollaston são as três deputadas conservadoras que bateram com a porta esta quarta-feira. Entre si, reúnem várias anos de experiência parlamentar e, no caso de Soubry, até governativa. A deputada, ex-advogada e ex-jornalista, é uma conhecida política do Partido Conservador, famosa por ser desbocada, e uma europeísta convicta. É o rosto mais conhecido deste trio (Allen chegou ao Parlamento apenas em 2015, por exemplo) e foi ela quem tomou a dianteira nas críticas: “Como disse o meu amigo Chuka Umunna — e ele é meu amigo —, uma pessoa não entra num partido para lutar contra ele e não se permanece num partido para ter escaramuças à margem”, resumiu, referindo-se ao rosto mais conhecido dos dissidentes do Labour. “Não estou a abandonar o Partido Conservador, ele é que nos abandonou”, rematou.

Em causa, explicou, está a deriva dos conservadores à direita, a incompetência do Governo na questão do Brexit e a influência desmesurada sobre o Partido por parte de pequenas fações, como o European Research Group (ERG) de Jacob Rees-Mogg (fortemente eurocético) ou os norte-irlandeses unionistas do DUP (parceiros parlamentares do Executivo de Theresa May).

Chuka Umunna (à esquerda) e Anna Soubry (à direita) são os dois deputados mais mediáticos do Grupo Independente. Ao centro, Heidi Allen (Leon Neal/Getty Images)

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O desacordo das três deputadas com a sua própria força política não surgiu ontem, como relembrou ao Observador Alan Wager, investigador da King’s College que tem analisado os efeitos do Brexit na política nacional: “Se tivéssemos de adivinhar que três pessoas iriam abandonar o partido, seriam estas três”, declara. “Mas, olhando para a questão com uma perspetiva mais geral, este é um acontecimento muito relevante.”

Por um lado, pelo facto de, em poucas horas, o Grupo Independente formado por todos estes dissidentes se ter tornado um grupo parlamentar maior do que o DUP e tão grande quanto o dos Liberais Democratas, com 11 deputados. Depois, porque a saída destas três tories efetiva uma redução na maioria de que Theresa May dispõe na Câmara, ficando agora, em tese, com apenas oito votos de vantagem face à oposição, segundo as contas do Guardian.

Sete respostas sobre os dissidentes do Labour e sobre o que a sua saída representa

E, por fim, porque embora os rumores abundassem, pouco fazia prever que as três avançassem tão rapidamente e de forma tão determinada: “A saída dos dissidentes do Labour era previsível. O trio tory demonstrou um timing brilhante e teve um elemento de choque e de surpresa”, resumiu Jon Craig, jornalista da Sky News. “Anunciaram-no apenas uma hora antes do debate quinzenal com a primeira-ministra, o que se traduziu numa atmosfera estranha no debate, com Theresa May e Jeremy Corbyn a evitarem atormentar-se um ao outro com referências às cisões nos seus partidos.” A saída dos 11 foi o grande elefante na sala dos Comuns, esta quarta-feira, nunca mencionado. E, por vezes, o silêncio fala mais alto.

Um partido: Remain

Se até aqui havia dúvidas sobre qual o principal propósito do Grupo Independente, a entrada dos Três Amigos veio deixar claro qual será o primeiro objetivo político deste grupo, que espera, no futuro, vir a constituir-se como partido: “Este é o Partido Remain”, resume Wager, utilizando a expressão para se referir aos que defendem a permanência na União Europeia (UE) e que é usada pejorativamente por vários colunistas do Daily Telegraph para se referir aos que gostariam de ver um novo referendo. “Eles esperam mesmo conseguir exercer influência sobre o processo do Brexit durante o próximo mês.” Essa é a sua missão, o seu credo e a única coisa que une para já os 11 insubmissos.

Os 11 deputados do Grupo Independente: Chris Leslie, Gavin Shuker, Chuka Umunna, Mike Gapes, Angela Smith, Luciana Berger, Ann Coffey, as três ex-tories e Joan Ryan

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Simon Fitzpatrick, analista da consultora Cicero especializado no Partido Trabalhista, sublinha ao Observador o papel diferente que o Brexit teve para os dissidentes trabalhistas e para as tories: “No caso do Labour, creio que o problema era mais a liderança de Corbyn que os incomodava. Quanto às conservadoras, não tenho dúvidas de que tudo se deve ao Brexit. Para elas, o Brexit foi um ponto de viragem; no caso dos trabalhistas acho que foi mais um catalisador, algo que acelerou um afastamento que já existia.” Mas, sem um Brexit a acontecer, o mais provável é que nunca ouvíssemos falar sequer num tal Grupo Independente.

Para muitos analistas, o facto de Soubry, Allen e Wollaston se terem juntado à festa retira alguma pressão dos ombros de Jeremy Corbyn, já que pode ajudar a estancar uma possível sangria de membros do Labour, como avisava esta quarta-feira Katy Balls, vice-editora de Política da Spectator. Wager, contudo, crê que pode acontecer precisamente o contrário: “Corbyn tem estado focado em agarrar os eleitores do Labour que são a favor da saída [da UE], como os do norte de Inglaterra. Agora talvez tenha de se focar em agarrar os eleitores do Labour que votaram a favor da permanência, já que este grupo centrista pode ter influência sobre eles.” Com 11 deputados apenas se pode influenciar a política de um grande partido, afinal.

Uma estratégia: inspirar as tropas

Há pressão sobre os trabalhistas de Corbyn, é certo, mas também sobre o Partido Conservador. E esse será o principal trunfo do Grupo Independente: capacidade de pressionar e influenciar, dando o primeiro passo para que outros se juntem, numa espécie de “rebelião coletiva” no que diz respeito ao Brexit.

“No caso do Labour, creio que o problema era mais a liderança de Corbyn que os incomodava. Quanto às conservadoras, não tenho dúvidas de que tudo se deve ao Brexit. Para elas, o Brexit foi um ponto de viragem; no caso dos trabalhistas acho que foi mais um catalisador, algo que acelerou um afastamento que já existia.” 
Simon Fitzpatrick, consultor sobre o Labour para o Cicero Group

Do ponto de vista da estratégia, ela foi deixada clara pelas três ex-deputadas conservadoras esta quarta-feira: Allen afirmou que esperava que mais deputados tories lhes seguissem o exemplo; Wollaston e Soubry foram ainda mais longe e disseram que esperavam que os membros do Governo tivessem a coragem de se demitir, para poderem, assim, furar a disciplina de voto governamental e opor-se a Theresa May. O propósito dessas demissões, explicou Wollaston, seria o de que “se ergam pelo que sabem ser a coisa certa para este país e não permitam que uma saída sem acordo aconteça”.

“O grupo não consegue alterar nada sozinho, até porque eles votarão da mesma forma que têm votado, quer se mantivessem dentro dos seus partidos, quer fora. A aritmética é a mesma”, alerta Fitzpatrick. “O que acho que pode acontecer é que eles esperam ter deixado um grito de alerta e ter talvez espoletado uma reação dentro dos dois principais partidos para que evitem novas saídas.” Se membros do Governo como Greg Clark (ministro da Ecoomia), David Gauke (ministro da Justiça) ou Amber Rudd (ministra do Trabalho), que têm repetido publicamente a sua oposição à possibilidade de uma saída sem acordo, seguirem o repto e se demitirem — porque não apoiam o acordo de May, mas também não querem uma saída de no deal —, podem, a partir da bancada dos conservadores, influenciar as votações de emendas parlamentares que podem alterar o rumo do Brexit.

“Atualmente, há uma maioria que está contra uma saída sem acordo, mas não há uma maioria a favor de mais nada [no Parlamento]”, destaca o professor Wager. “Se eles alinharem nesta estratégia, pode passar a haver uma nova maioria. É certo que já tanta gente se demitiu do Governo que o impacto parece ser reduzido, mas isto teria um efeito político, porque pode afetar a matemática nos Comuns.”

Se os apelos das três tories forem ouvidos, Theresa May pode em breve enfrentar mais demissões do seu partido e até do seu Governo (NIKLAS HALLE'N/AFP/Getty Images)

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Há a realidade sólida e fria dos números, que pode alterar-se. E o facto de ter havido tories a dar o primeiro passo, a exporem-se e a arriscar, pode provocar um outro efeito — menos palpável, é certo, mas com mais potencial de inflamar ânimos: o de inspirar e provocar mudanças numa dinâmica velha e ressequida como a do Brexit. “As saídas mudam não apenas a aritmética oficial do Parlamento, mas a sua alquimia e a sua atmosfera”, resumiu Laura Kuenssberg, editora de Política da BBC. “Apesar de todos os que saíram já irem provavelmente votar contra o acordo da primeira-ministra, existe agora um novo bloco com quem o Governo e a bancada do Labour se pode bater — esses votos são de quem os apanhar e o mais certo é que o número de deputados [do Grupo Independente] venha a aumentar nos próximos dias.”

Um objetivo: cancelar o Brexit — ou, pelo menos, adiá-lo

O principal desejo de todos estes Remainers dentro do Grupo Independente não é um sonho mantido em segredo — é sabido que, de Chuka Umunna a Anna Soubry, todos eles gostariam de evitar que o Brexit acontecesse e têm, por isso, defendido a realização de um novo referendo.

Na votação da próxima semana nos Comuns, a 27 de fevereiro, será mais fácil compreender como se irão posicionar e o que pretendem fazer para o conseguir, mas os especialistas ouvidos pelo Observador arriscam algumas previsões.

“Creio que eles estão a falar em apoiar uma emenda que pretende apoiar completamente o acordo da primeira-ministra, com a condição de ela se comprometer em referendar o acordo”, diz Simon Fitzpatrick, referindo-se à emenda proposta pelo trabalhista Peter Kyle e que já tinha contado com a luz verde de Wollaston e Soubry. Essa é uma hipótese que está a ser discutida, mas não é certo que venha a ser votada ou sequer apresentada, para já.

Outra possibilidade é a de “apoiar um adiamento”, se isso ajudar a impedir uma saída sem acordo, explica o consultor, referindo-se ao adiamento do Artigo 50, que tem sido discutido por alguns. Para Fitzpatrick, uma coisa é certa: “O foco está colocado em impedir uma saída sem acordo, em primeiro lugar, e depois em conseguir um segundo referendo.”

“As saídas mudam não apenas a aritmética oficial do Parlamento, mas a sua alquimia e a sua atmosfera. Apesar de todos os que saíram já irem provavelmente votar contra o acordo da primeira-ministra, existe agora um novo bloco que com quem o Governo e a bancada do Labour se pode bater — esses votos são de quem os apanhar, e o mais certo é que o número de deputados [do Grupo Independente] venha a aumentar nos próximos dias.”
Laura Kuenssberg, editora de Política da BBC

Alan Wager, por seu turno, crê que a forma para impedir essa saída sem acordo que reunirá mais consenso na Câmara será precisamente a de adiar o Artigo 50: “Eu diria que há 80% de hipóteses de que o próximo evento político imediato será o da formação de uma maioria clara a favor de adiar a saída para impedir uma saída sem acordo”, afirma, sem reservas. “É claro que Theresa May se pode virar e dizer que prefere uma saída sem acordo. Mas acho que aquilo a que ela assistiu nas últimas 24 horas a ajudou a compreender que a sua maioria pode desaparecer rapidamente… Não creio que arriscaria um no deal, podendo depois vir a enfrentar uma moção de censura do Parlamento.”

No meio dos ziguezagues da política britânica nos últimos meses, das moções falhadas, retiradas, reescritas e rasuradas, há até quem defenda que May pode estar dois passos à frente de todos e a sorrir com os últimos desenvolvimentos. É o caso da colunista Janet Daley, do Telegraph, que defende que um adiamento do Artigo 50 “é o que a primeira-ministra e a sua equipa querem mesmo” e que as movimentações desta semana, que parecem apontar nessa decisão, podem ter sido “um favor” à chefe do Governo. “Talvez por isso é que a senhora May estava, de forma quase sobrenatural, tão calma no debate quinzenal”, aponta. 

Um efeito colateral: o redesenho do sistema político britânico

No meio do caos político, há cada vez menos certezas em terras de Sua Majestade. Mas, no meio do nevoeiro, uma realidade parece ganhar cada vez mais forma e os seus contornos tornaram-se mais visíveis esta semana: a de que o Brexit está a levar a um realinhamento do panorama político do Reino Unido.

O Grupo Independente pode pressionar Jeremy Corbyn, líder trabalhista, a repensar a sua estratégia para o Brexit (Leon Neal/Getty Images)

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Basta olhar para o Grupo Independente e para a cola que o une para perceber que será difícil encontrar pontos de contacto entre, por exemplo, uma deputada como Berger, que em 2012 alertava para o problema da fome no Reino Unido e exigia ao Governo que fizesse mais, e uma política como Soubry, que ainda esta quarta-feira defendeu a política de austeridade aplicada pelo Governo de que fez parte (de David Cameron), por ser “absolutamente necessária à altura”. Estas deputadas podem estar nos antípodas em termos de pensamento económico e de contas públicas, mas, em tempos de Brexit, isso pouco importa. “Estamos a assistir a um realinhamento da política que se baseia não em questões económicas, mas em questões sociais como o Brexit. Mesmo que haja uma solução para o Brexit nos próximos seis meses, isto continuará a fazer parte de uma tendência mais lata que já está a acontecer na política britânica, a da divisão política por temas sociais e não económicos”, prevê Alan Wager,

“Estamos a assistir a um realinhamento da política que se baseia não em questões económicas, mas em questões sociais como o Brexit. Mesmo que haja uma solução para o Brexit nos próximos seis meses, isto continuará a fazer parte de uma tendência mais lata que já está a acontecer na política britânica, a da divisão política por temas sociais e não económicos.”
Alan Wager, investigador da King's College

O facto de as três mosqueteiras Heidi, Sarah e Anna se terem juntado ao Grupo Independente só dá mais força a esta ideia: “Aquilo que sabemos hoje e que não sabíamos ontem é que isto é algo que também apela aos tories. Quando o Partido Social Democrata se formou a partir do Labour, em 1981, só houve um conservador a juntar-se. Agora, houve três. Isto tem potencial para ser mais do que uma fragmentação da esquerda e para ser um movimento inter-partidário. E o Brexit foi o gatilho para isto”, assegura Simon Fitzpatrick.

“O Labour teve de lidar com o facto de ter eleito um líder muito à esquerda, o que criou problemas internos, e o Brexit chegou e acelerou esses problemas. Mas, para os tories, isto é ainda mais claro: nada disto teria acontecido se não fosse o Brexit.” Elas que o digam.

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