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Reprodução do retrato de Hermínio e Cruz Magalhães pintado por José Malhoa. O pintor chamou-lhe "Os dois amigos"

Reprodução do retrato de Hermínio e Cruz Magalhães pintado por José Malhoa. O pintor chamou-lhe "Os dois amigos"

Hermínio: o Serra da Estrela que foi retratado por Malhoa e que envenenaram por “repugnante vingança” /premium

O cão do fundador do Museu Bordalo Pinheiro era o Serra da Estrela mais famoso de Lisboa. Foi pintado por Malhoa, apareceu nos jornais e em postais que esgotaram. Esta é a história da sua curta vida.

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Em 1904, durante um passeio pela região da Beira Baixa, Artur Cruz Magalhães apaixonou-se pela Serra da Estrela e pelos seus cães. O que os pastores lhe contaram sobre a bravura, lealdade e dedicação destes animais impressionou-o tanto que, muitos anos depois, deixou-o por escrito num livro sobre esta raça. Em 1908, depois de muita insistência, conseguiu que lhe dessem um cachorrinho, a que chamou Hermínio. Foi o primeiro de vários Serra da Estrela que Cruz Magalhães, provavelmente o primeiro criador urbano desta raça, teve. Mas, apesar do amor que tinha a todos os seus cães, nenhum o marcou tanto como o primeiro. Como o Hermínio.

Hermínio tinha nascido em agosto de 1908, em Unhais da Serra. Era ainda uma bola de pelo branco quando Cruz Magalhães o levou para Lisboa no seu automóvel. Intelectual, poeta, colecionador e também filantropo, Magalhães era uma figura bem conhecida na sociedade lisboeta — e o seu cão não o era menos. Hermínio apareceu em jornais, postais que esgotaram e foi até retratado pelo pintor José Malhoa. O seu retrato encheu a primeira página do jornal O Século e ganhou um prémio na 10.ª exposição da Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1913.

Foi também em 1913 que Hermínio morreu. Antes completar cinco anos, foi envenenado. Não se sabe porquê. A sua morte foi um duro golpe para o fundador do Museu Bordalo Pinheiro, que nunca se esqueceu do seu adorado cão. Em 1928, pouco antes de morrer, recordou Hermínio num dos seus livros: “Eu possuía um famoso cão da Serra da Estrela, que muito amava, e que um qualquer bandido, alma feita de lodo e de abjeção, não sei porque repugnante vingança, matou”.

Esta é a sua história.

Na fachada do Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, existe um painel de azulejo com a figura de Hermínio

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Um “floco vivo de beleza” no “alto da serra”

Artur Cruz Magalhães tinha-se apaixonado pela região da Serra da Estrela em 1904, durante uma viagem de três dias que lhe permitiu conhecer a paisagem serrana, onde “tudo é belo, incluindo os cães”. Alguns anos depois, viajando a partir de Coimbra, voltou a atravessar “o alto da serra”, passando por Manteigas. Aí avistou uma vez mais os cães da Serra da Estrela e meteu na cabeça que haveria de ter um. Perguntou ao dono do hotel onde estava hospedado, que ficava perto da estação telegráfica, “se seria fácil obter um cão daqueles”. “Impossível”, disse-lhe. Os pastores eram demasiado ciosos e dificilmente se desfariam de um dos seus cães.

A questão parecia encerrada, mas Cruz Magalhães não se esqueceu daqueles animais “de pelo comprido, com grandes malhas brancas, daquela alvura da neve, que envolve a serra tanta vez”. Em setembro de 1908, quando tinha 44 anos, regressou à serra e instalou-se em Unhais da Serra, uma “pitoresca terrinha”, a cerca de 20 quilómetros da Covilhã, que tinha ficado a conhecer quatro anos antes. Desde a viragem do século que funcionava nesta localidade, conhecida pelas suas termas, um hotel e um casino, o Grande Hotel de Unhais da Serra, que ajudou a impulsionar o turismo termal na região. Unhais e as suas termas ganharam tal fama no início do século XX que a localidade chegou a ser apelidado de “Sintra da Covilhã”.

Quando chegou ao hotel, Cruz Magalhães deparou-se com dois “cachorrinhos, como jamais vira dentro tantos”, “dois mimos”, “dois flocos vivos de beleza”. O poeta e colecionador perguntou logo se podia ficar com um, mas os cães já estavam prometidos.

Quando chegou ao hotel, Cruz Magalhães deparou-se com dois “cachorrinhos, como jamais vira dentro tantos”, “dois mimos”, “dois flocos vivos de beleza”. O poeta e colecionador perguntou logo se podia ficar com um, mas os cães, que pertenciam a Alexandre de Quental Freire de Calheiros, familiar do 2.º conde da Covilhã, já estavam prometidos a um amigo, que vivia em Lisboa. Magalhães insistiu, mas Alexandre Freire de Calheiros estava decidido a levá-los para a capital. “Não desanimei, e às minhas estâncias, por vezes impertinentes, talvez, o dono dos cachorrinhos (…) resistiu sempre”, admitiu o colecionador, anos mais tarde.

No dia da partida, talvez vencido pelo cansaço, Freire de Calheiros acabou por lhe deixar um dos cães, nascidos cerca de um mês antes, em agosto. Impôs apenas uma condição: que tudo ficasse em segredo. Magalhães não podia revelar que o Serra da Estrela lhe tinha sido oferecido, tinha de dizer que o tinha roubado, metido no carro e partido em direção à capital. O colecionador cumpriu o prometido e só, muitos anos depois, com autorização de Alexandre Freire de Calheiros é que revelou como tinha conseguido o cão, ao qual deu o nome de Hermínio, uma referência à lendária designação romana da zona, onde se acredita ter existido uma fortaleza chamada Cava Juliana ou Silia Herminia.

O cão “graciocíssimo” que adorava andar de carro

“Os cães da Serra da Estrela (…) são dotados duma inteligência superior, duma dedicação inigualável, duma beleza tentadora”, escreveu Cruz Magalhães. Hermínio não era exceção. “Graciosíssimo”, aprendia com rapidez e parecia compreender tudo o que lhe diziam. A ligação que criou com o dono era evidente, e Cruz Magalhães jurava que bastava um olhar para o Serra da Estrela compreender o que desejava. Ágil, Hermínio saltava obstáculos com facilidade e adorava andar de carro, “quem sabe se por ter feito a longa travessia de Unhais da Serra até Lisboa, com pouco mais de um mês”. Quando que se apercebia que o automóvel estava pronto para sair, apressava-se a ocupar o lugar do pendura à espera que Magalhães se sentasse ao volante.

O cão “fazia sempre todas as suas vontades”, que incluíam longos passeios noturnos que terminavam já de madrugada. Uma vez, o poeta e colecionador, que então morava na Ameixoeira, esperou pelo Serra da Estrela até às três da manhã.

Hermínio tinha uma saúde débil. Começou a ladrar tarde, comia pouco, e, segundo Magalhães, foi apenas “graças a mil cuidados, muita liberdade, meticulosa alimentação e vários medicamentos tónicos e fortificantes” que chegou à idade adulta. Talvez por isso o colecionador o mimasse tanto. No opúsculo de 1916, Hermínio e seus descendentes, admitiu isso mesmo, ao dizer que o cão “fazia sempre todas as suas vontades”, que incluíam longos passeios noturnos”, em que buscava as suas aventuras amorosas”, que terminavam já de madrugada. Já depois da sua morte, o colecionador descobriu que as aventuras de Hermínio o levavam muitas vezes até à Póvoa de Santo Adrião, a mais de 30 quilómetros de distância. Uma vez, o poeta e colecionador, que então morava na Ameixoeira, esperou pelo Serra da Estrela até às três da manhã. Era incapaz de lhe bater, mas dessa vez mostrou-se muito zangado, repreendendo-o e impedindo-o de se aproximar. Triste com a atitude do dono, Hermínio deixou de comer.

Quando o avisaram de que o cão tinha deixado a comida intocada, Cruz Magalhães respondeu “que ele comeria quando tivesse fome” e continuou “sem lhe fazer afagos e sem lhos consentir”. No dia seguinte, Hermínio continuou sem comer. “Chamei-o para junto da refeição, e disse-lhe que comesse, não obedeceu, foi preciso afagá-lo para se decidir”, contou Cruz Magalhães. “Desde então, todas as vezes que eu chegava a casa, o Hermínio vinha-me receber à porta, como sempre havia feito, mas ostentando na boca um osso, ou qualquer porção de alimento, para me mostrar que comia.”

Hermínio com quatro anos, em setembro de 1914. Esta fotografia foi usada para a produção de postais com a imagem do Serra da Estrela

O amor de Cruz Magalhães por Hermínio era conhecido de todos, e o cão tornou-se famoso, em parte graças à campanha levada a cabo pelo colecionador pelo reconhecimento da raça Serra da Estrela. Magalhães foi provavelmente o primeiro criador urbano da raça que, até Hermínio ter sido levado para Lisboa, existia essencialmente na região serrana. O animal chegou até a aparecer na imprensa e fez-se um postal com a sua fotografia, que esgotou rapidamente. A edição de 28 de outubro de 1912 da Ilustração Portuguesa — onde se contava como Artur Cruz Magalhães tinha “contribuído duma forma decisiva para o aperfeiçoamento de lindos exemplares desses animais [os Serra da Estrela], que, como o que reproduzido nesta página [Hermínio], têm beleza, cunho próprio, são duma aparência formosa” —, reproduziu uma fotografia sua.

Hermínio parecia gostar de ser fotografado. Cruz Magalhães dizia que “tinha uma intuição especial para se fotografar” — era capaz de ficar imóvel enquanto faziam o seu retrato.

Dois amigos e um quadro de José Malhoa

O mais famoso retrato de Hermínio foi feito pelo pintor José Malhoa, em 1913. Homem ligado às artes e letras, Artur Cruz Magalhães travou conhecimento com importantes personalidades da vida política e artística portuguesa, como José Malhoa e o irmão de Rafael Bordalo Pinheiro, o pintor Columbano. A relação com Columbano era, tanto quanto se sabe, formal. Com Malhoa, o convívio era regular, em festas, bailes e passeios. Era costume o colecionador visitá-lo no seu ateliê, no último piso da casa que tinha mandado construir em 1904 na então Avenida António Maria d’Avellar (hoje Avenida 5 de Outubro). Testemunho desta amizade de vários anos são os inúmeros postais e cartas que Malhoa enviou a Cruz Magalhães e algumas fotografias que hoje integram o espólio do Museu Bordalo Pinheiro.

Foi durante uma visita ao “Templo da Arte”, como Cruz Magalhães chamava ao ateliê de Malhoa, que o pintor mostrou o desejo de lhe fazer um retrato. Magalhães começou por recusar, mas Malhoa insistiu, acabando por convencê-lo por intermédio da mulher, Júlia: “Curvei-me reverente perante a excelsa senhora, e disse: ‘— O querido Mestre far-me-á o retrato… Quando quiser’”, relatou o colecionador e poeta no seu livro Vultos d’Ontem, Vultos d’Hoje: traços biográfico-anedóticos. O colecionador parece ter-se arrependido — na mesma obra, contou que estava convencido que Malhoa se esqueceria do combinado e que o retrato nunca aconteceria. Tinham-lhe dito que era hábito o pintor proceder assim. Enganou-se.

José Malhoa dá a boas vindas a Cruz Magalhães, que chega à sua casa na atual Avenida 5 de Outubro, em Lisboa. A fotografia é de 1913, ano da morte de Hermínio

Sabendo “quanta adoração” Magalhães tinha pelo seu cão Hermínio, o artista, que costumava visitá-lo na casa da Ameixoeira, decidiu dar-lhe “uma grande alegria” e retratar o cão. “Até já tenho nome para ele”, confessou José Malhoa. “Os dois amigos”. Cruz Magalhães ficou “sensibilizado ao extremo” e não voltou a recusar posar para o pintor, que começou a trabalhar no quadro pouco depois. Já segundo O Século, o poeta teria sido levado a pousar porque Hermínio não parava quieto sem o dono ao pé de si (uma versão que não coincide com a de Cruz Magalhães, que jurava que Hermínio era capaz de estar “três quartos de hora na posição que se lhe exigia”). “Foi o que Malhoa quis”, contou o jornal. “Ao passo que reproduzia o Hermínio, ia tracejando, às furtivas, o sr. Magalhães, que, quando deu por isso, não teve remédio senão conformar-se.”

O quadro é um retrato da cumplicidade entre os dois amigos, que o pintor procurou acentuar através do colorido e da técnica a pastel — Cruz Magalhães, com um grande laço preto de pintor que Malhoa o obrigou a colocar, tem a mão direita sobre Hermínio, como que a aproximá-lo de si. Não é uma obra muito comum em Malhoa, mas não é um caso único, como explicou ao Observador Maria de Aires Silveira, curadora do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado (MNAC) e especialista em José Malhoa. Existe um outro, uma pintura que mostra uma velha senhora com um gato ao colo, que se assemelha ao de Cruz Magalhães e Hermínio. “É a mesma situação”, apontou Maria de Aires Silveira. “Eventualmente teria também uma relação especial com o gato”, disse a especialista.

Sabendo “quanta adoração” Cruz Magalhães tinha pelo seu cão Hermínio, José Malhoa, que costumava visitá-lo na casa da Ameixoeira, decidiu dar-lhe “uma grande alegria” e retratar o cão.

Não se sabe a data exata em que o retrato terá sido terminado, mas terá sido certamente antes de 14 de maio de 1913, quando já ocupava o seu lugar na sala de pintura da 10.ª exposição da Sociedade Nacional das Belas Artes, inaugurada no dia seguinte. O espaço onde foi executado ainda existe e é possível visitá-lo na atual Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves. Malhoa vendeu a casa da Avenida António Maria d’Avellar em 1919, após a morte da sua mulher, tendo tido dois proprietários até ser adquirida por Anástácio Gonçalves, oftamologista e colecionador, em 1932. Algumas das obras de pintura que integram a sua vasta coleção, algumas da autoria de José Malhoa, estão hoje expostas nas paredes do antigo ateliê, uma das poucas zonas que não sofreu alterações depois de ter sido comprado pelo médico. Anastácio Gonçalves foi também retratado por Malhoa em 1932. O quadro decorra um recanto da casa-museu.

A 10.ª exposição da Sociedade Nacional das Belas Artes assinalou a abertura da nova sede do organismo, na Rua Barata Salgueiro, perto do Marquês de Pombal. Dedicada às várias artes, incluía peças de estreantes e artistas consagrados, escultura, desenho, pintura e caricatura, “desde o bizarro ao sóbrio”, como descreveu a Ilustração Portuguesa. Entre os pintores representados, contavam-se José de Brito, Abel Manta ou Carlos Reis (cujo quadro Raios de sol ardente recebeu os maiores elogios por parte de O Século), mas foi o retrato de Hermínio e Cruz Magalhães, desenhados lado a lado sobre um fundo verde, que chamou a atenção do jornalista de O Século, que a visitou a 14 de maio.

Uma reprodução a preto e branco de Os dois amigos, de José Malhoa. O quadro pertence ao Museu Nacional de Arte Contemporânea

Segundo o repórter, tratava-se de “uma obra de genial execução”, cuja triste história a tornava ainda mais impressionante. Uma reprodução do desenho figurou na primeira página da edição de 15 de maio do jornal, onde se lia: “Não há quadro que não tenha a sua história mais ou menos interessante ou a que, pelo menos, não ande ligada à sua génese, uma nota de particular encanto para o autor e para o modelo. (…) Fixemos os olhos naquele belo quadro a pastel de Malhoa, Os dois amigos, exposto na Sociedade Nacional. É uma obra de genial execução. Só quem conhece o distinto escritor sr. Cruz Magalhães e conheceu o pobre Hermínio, que encosta, meiga e confiadamente, a cabeça ao peito amigo, é que pode avaliar da exatidão pasmosa com que ambos são reproduzidos. Fica-se horas inteiras a sentir e a admirar diante do quadro, tantas e tais são as belezas que se lhe estão sempre a descobrir”, afirmou o jornalista, relatando como Cruz Magalhães se mostrava então contente com a insistência de Malhoa porque, graças a ele, “ficaram ali unidos na imagem, de uma maneira afetuosa e perdurável, os dois grandes amigos”. Hermínio tinha morrido oito dias depois de o quadro ter ficado pronto.

A Capital, num artigo sobre os trabalhos de intitulado “Pastel e Aguarela”, também chamou a atenção para o desenho de Malhoa, que considerou muito superior aos outros em pastel que integravam a mostra (“Dois amigos” acabaria por receber a primeira medalha na secção de Pastel da exposição). “Malhoa realizou um admirável quadro, retratando magistralmente essas duas criaturas que tão bem, no cartão como na vida, aliam as suas existências”, declarou o jornalista, sugerindo que o Museu Nacional de Arte Contemporânea procurasse integrar na sua coleção “esse pastel de tão perfeita contextura que é uma flagrante obra prima”. O apelo não passou despercebido — numa carta dirigida ao jornalista, Cruz Magalhães prometeu que doaria a obra em testamento. “O sr. Cruz Magalhães não oferece já esse quadro ao museu porque deseja guardar junto de si essa obra que constitui para ele um tesouro e para a sua saudade o lenitivo de contemplar o seu fiel amigo de cinco anos”, contou o mesmo diário, numa notícia de 12 de junho.

Sabendo “quanta adoração” Cruz Magalhães tinha pelo seu cão Hermínio, José Malhoa, que costumava visitá-lo na casa da Ameixoeira, decidiu dar-lhe “uma grande alegria” e retratar o cão.

Enquanto não fazia um novo testamento, Artur Cruz Magalhães pedia ao jornalista que ficasse “depositário” da “categórica declaração”, que poderia tornar efetiva caso morresse “antes de poder cumprir tão imperioso dever”, já que não tinha “herdeiros forçados”. Por uma qualquer razão, Cruz Magalhães decidiu antecipar a doação e o quadro entrou para o espólio do MNAC em novembro de 1915. O retrato ainda pertence ao museu lisboeta, mas encontra-se atualmente em depósito no Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos (MCA), onde costuma integrar as exposições temporárias. Figueiró dos Vinhos é uma localidade importante na história de José Malhoa, e também do naturalismo português, de que o pintor é um dos principais representantes.

Apesar de ter nascido nas Caldas da Rainha, o pintor costumava passar grandes temporadas nesta localidade do distrito de Leira, desde que o tempo começava a ficar mais quente, na primavera, até setembro. A ida de Malhoa para Figueiró, onde tinha uma casa, o Casulo, deveu-se ao escultor Simões de Almeida Júnior, seu professor, que o convidou, e também ao pintor Henrique Pinto, a visitarem a sua terra. “A geração romântica, mas sobretudo os naturalistas, partiam à descoberta do país para fazer o registo da paisagem, ao ar livre, como faziam os naturalistas franceses”, explicou Maria de Aires Silveira, curadora do MNAC e especialista em Malhoa. Em Figueiró, havia “tudo”, e os dois pintores não precisariam de se deslocar para outras regiões.

O espaço onde ficava o ateliê de José Malhoa na atual Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, em Lisboa

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Figueiró dos Vinhos convenceu os dois artistas, que encontraram na região o que procuravam para o seu projeto artístico. A eles, juntaram-se depois outros pintores, que se deixaram inspirar pela paisagem da região. “A maior parte da das paisagens de Malhoa foram feitas naquela zona, como se fosse representativa da paisagem verdadeiramente portuguesa”, apontou a curadoria do MNAC. “É uma zona de imensa importância para os naturalistas.” Malhoa acabou por ficar e foi em Figueiró que acabou por morrer, em 1933, cinco anos depois de Cruz Magalhães. “No final da vida, teve problemas respiratórios e houve um ano em que ficou mais tempo, ficou até outubro, e foi fatal. Acabou por morrer”, contou Maria de Aires Silveira ao Observador. Cruz Magalhães chegou a visitá-lo na sua casa em Figueiró, em outubro de 1913.

Uma “repugnante vingança” com “uma guloseima envenenada”

Quando ainda não tinha completado cinco anos (celebra-los-ia em agosto de 1913), Hermínio foi envenenado. Uma “mão criminosa” deitou-lhe uma “guloseima envenenada”, como descreveu o jornal O Século. Desconhecem-se as razões — em Vultos d’Ontem, Vultos d’Hoje, Cruz Magalhães fala num “qualquer bandido, alma feita de lodo e de abjeção”, motivado “não sei porque repugnante vingança”, sem sugerir qualquer explicação.

Foram várias horas de agonia. As dores começaram de noite e prolongaram-se até às oito da manhã do dia seguinte. Apesar das “mais lancinantes dores, ao corroerem-se-lhe os intestinos, que em grande parte expeliu, não soltou um único gemido até ao derradeiro alento”. Para Magalhães, o silêncio de Hermínio na hora da morte foi a derradeira prova de dedicação: “Nunca pude explicar este extraordinário estoicismo em dores inarráveis, senão pelo motivo de me conservar constantemente junto dele”, confessou, anos mais tarde. A notícia da morte de Hermínio espalhou-se depressa e foram vários os conhecidos de Cruz Magalhães que se dirigiram à casa da Ameixoeira para lhe dar as condolências pela morte do seu “lealíssimo companheiro”. O colecionador recebeu também 16 cartas, algumas enviadas a partir do estrangeiro, do Brasil, Moçambique e França.

Por altura da exposição das Belas Artes, a dor de Cruz Magalhães pela morte de Hermínio era ainda evidente. No artigo de 15 de maio, o jornalista de O Século, que esteve oportunidade de ver o quadro Os dois amigos ainda no ateliê de Malhoa, comentava o “contraste” que Magalhães “oferecia com a sua figura no quadro”. “Na sua atitude e nos olhos que lhe fez o pintor havia um certo desvanecimento, uma pontinha de altivez, naturalmente por estar sendo tratado — ele e o seu cão — com amor não menos sublime do que a arte.” Durante aquela visita, enquanto olhava para o retrato do seu fiel amigo, Cruz Magalhães ficou com os olhos marejados de lágrimas, “contidas a custo”. “E o mestre, o sr. José Malhoa, relançou severamente a vista pela sua obra, como a assegurar-se de que no grande carinho como tratou os dois amigos, já havia a intuição compadecida àquela grande dor.”

José Malhoa no seu ateliê com o retrato de Hermínio e Cruz Magalhães

Museu Bordalo Pinheiro

Os descendentes de Hermínio e a homenagem de Cruz Magalhães

Apesar da morte precoce, Hermínio deixou uma vasta descendência — filhos, netos e até bisnetos —, descrita ao pormenor num opúsculo que Cruz Magalhães lançou em 1916, chamado Hermínio e os seus descendentes. Limitado a uma tiragem de 300 exemplares, autografados pelo colecionador e por Joaquim Parra, que assinava uma primeira parte dedicada aos cães da Serra da Estrela, o livro, que custava 50 centavos e cujas vendas revertiam para a Cruz Vermelha e Estrela Vermelha (estava-se em plena Guerra Mundial), relatava a vida de Hermínio e o que tinha acontecido aos seus descendentes, como Apolo e Fidèle, nascidos de uma cadela chamada Mora, que pertencia a Carlos Correia da Silva, que vivia no n.º 10 da Avenida António Augusto de Aguiar. Apolo tinha ficado com Cruz Magalhães, mas Fidèle tinha sido oferecido ao médico Belo de Morais. A edição incluía inúmeras fotografias, algumas das quais tinham sido transformadas em postais, então esgotados.

Cruz Magalhães garantia no opúsculo que todos os descendentes eram “robustos e saudáveis”, ao contrário de Hermínio, que sempre tivera uma saúde frágil. Do seu antecessor, os cachorros teriam herdado “a nobreza de espírito e inteligência”. “Ainda há pouco tempo o Fausto, apanhando aberto um local, que sempre lhe é defeso, e onde estava uma galinha com pintos, correu para lá. Pode calcular-se o reboliço e sobressalto da mãe e dos filhos. O Fausto estacou surpreso e retrocedeu discretamente, não seguindo para um recinto onde gosta imenso de estar”, contou o colecionador.

As referências a Hermínio são muitas. Além de histórias curiosas, Magalhães relatou e lamentou a sua morte, um duro golpe que parecia ainda não ter conseguido ultrapassar. Voltaria ao incidente outras vezes, em outros volumes, nomeadamente em Vultos d’Ontem, Vultos d’Hoje: traços biográfico-anedóticos, que reúne histórias divertidas sobre várias figuras públicas com as quais se cruzou, incluindo os irmãos Bordalo Pinheiro e o seu grande amigo Luís Calado Nunes, que lhe sugeriu que abrisse o museu no Campo Grande. Publicado em 1928, o ano da sua morte, Vultos d’Ontem, Vultos d’Hoje revela muitos pormenores sobre a vida e personalidade dos retratados, mas também do próprio Artur Cruz Magalhães, que recordou Hermínio no capítulo dedicado a Malhoa.

Os dois painéis de azulejos que adornam a fachada do Museu Bordalo Pinheiro, pintados José António Jorge Pinto, foram retirados de obras de José Malhoa

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Mas talvez a maior homenagem tenha sido aquela que fez na sua própria casa. Quando em 1913 mandou construir a moradia 382, no fim da antiga Rua Oriental do Campo Grande, onde viria instalar a sua coleção e a abrir o Museu Bordalo Pinheiro em 1924, Cruz Magalhães decidiu incluir dois painéis de azulejo na fachada, dedicados a duas das suas grandes paixões: Camões e os cães da Serra da Estrela. Os esquemas dos painéis, pintados por José António Jorge Pinto, foram retirados de obras de Malhoa. O primeiro é uma reprodução do famoso retrato de 1907 do autor de Os Lusíadas, que integra a coleção do Museu Militar, em Lisboa; o segundo, que se encontra logo abaixo, reproduz o rosto de Hermínio em Os dois amigos. Os dois painéis ainda lá estão. Quem passar hoje pelo Campo Grande, poderá ver Hermínio de olhos postos na rua e língua de fora.

Fotografias de Cruz Magalhães, José Malhoa e Hermínio: Museu Bordalo Pinheiro

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