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Na maioria dos casos, os homens passam 20 a 30 anos a sofrer em silêncio até procurar apoio

kieferpix/Getty Images/iStockphoto

Na maioria dos casos, os homens passam 20 a 30 anos a sofrer em silêncio até procurar apoio

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Homens que foram vítimas de abusos sexuais demoram 20 a 30 anos a pedir ajuda. "Décadas mais tarde, lembrei-me do que me tinham feito" /premium

Só este ano, 99 homens pediram ajuda à associação Quebrar o Silêncio por terem sido abusados sexualmente. As vítimas têm uma média de idades de 30 a 40 anos, embora o abuso tenha ocorrido na infância.

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Só em adulto é que Filipe conseguiu “dar um nome” àquilo que lhe tinham feito em criança: “Fui vítima de três agressões sexuais por parte de pessoas conhecidas e mais velhas, em diferentes etapas do meu desenvolvimento”. Foi abusado sexualmente por “dois homens, em situações distintas” e por “uma mulher, de forma continuada”. “Conhecia-os a todos. Uma destas pessoas é família próxima“, adianta. A história foi contada na primeira pessoa num texto publicado no verão do ano passado na página da Quebrar o Silêncio, uma associação que apoia homens que foram vítimas de violência e abuso sexual.

Filipe tem agora 34 anos, mas só pediu ajuda pelos abusos de que foi vítima em criança décadas mais tarde — e não é raro. “Muitas vezes, o abuso acontece na infância ou pré-adolescência, mas só é falado depois. Na maioria dos casos, os homens passam 20 a 30 anos a sofrer em silêncio até procurar apoio”, conta ao Observador Ângelo Fernandes, diretor da associação, exemplificando que ali chegam casos de “homens com 40 anos que foram abusados com 5, 6 ou 7 anos”.

Como o de Filipe, por exemplo. “Os episódios com os homens, esqueci-me deles, literalmente”, relata. Só se lembrou “décadas mais tarde”, quando estava “sozinho na cozinha”. O outro caso — “o pior”, o primeiro e “com uma mulher da família” — não esqueceu. Não contou a ninguém por vergonha, mas também por ter sido “criado em ambiente religioso” e acreditar que “se alguém soubesse desse segredo, esse pecado iria, mais cedo ou mais tarde”, mandá-lo “para o inferno”.

Filipe tem agora 34 anos, mas só pediu ajuda pelos abusos de que foi vítima em criança décadas mais tarde

Getty Images/iStockphoto

Não acontece só num beco escuro ou na casa de banho de uma festa. Nem só nas prisões. E nem todos os abusadores de homens e rapazes são homossexuais. “As pessoas pensam que o abusador é um homem homossexual que está preso num casamento heterossexual e que [o abuso] é um escape” , explica Ângelo Fernandes. Há homens vítimas de violência sexual em Portugal em contextos que não são estes — e que não passam de mitos.

Só no ano passado, a Quebrar o Silêncio recebeu 99 pedidos de apoio de homens vítimas de violência sexual — uma média de oito novos casos por mês. Os dados foram revelados esta sexta-feira pela associação — que tem já três anos de existência.

Ângelo Fernandes define a realidade portuguesa da violência sexual em homens como “um território por desbravar” e repleto de mitos associados. “À medida que vamos fazendo sessões de sensibilização e formação e que vamos partilhando alguns novos testemunhos no site, vamos registando também o aumento na procura de ajuda por parte das vítimas”, diz ainda ao Observador.

“Estamos a falar de crime. A orientação sexual não se coloca”. Maioria dos homens que abusam tendem a ser heterossexuais

“Será que vou fazer o mesmo a outros? Será que sou pedófilo? Será que sou gay? Será que me vou transformar numa má pessoa?”. Durante anos, na adolescência e na vida adulta, Filipe questionou-se com “dúvidas estranhas” — mitos, na verdade. Um dos mais frequentes diz respeito à orientação sexual das vítimas e dos abusadores — e que Ângelo Fernandes desconstrói: “É preciso deixar claro que isto não se trata de sexo. Estamos a falar de crime. Estamos a falar de violência. Estamos a falar de uma forma de violação dos direitos humanos, que não depende da orientação sexual do abusador nem da vítima”.

"É preciso deixar claro que isto não se trata de sexo. Estamos a falar de crime. Estamos a falar de violência. Estamos a falar de uma forma de violação dos direitos humanos, que não depende da orientação sexual do abusador nem da vítima"
Ângelo Fernandes, diretor da associação Quebrar o Silêncio

É um facto que, na maioria casos que chegam à Quebrar o Silêncio, os agressores são homens, embora existam também mulheres abusadoras. Mas também é um facto que “a maioria dos homens que abusam tendem a ser heterossexuais” — e não homens homossexuais presos a um casamento heterossexual. “Se um homem que esteja casado com uma mulher quiser ter o contacto com outro homem não precisa de abusar de ninguém. Há formas de conhecer outros homens“, alerta Ângelo Fernandes, que explica que muitas vezes o abuso “é uma questão de poder e de dominação”.

Os mitos são tantos que a Quebrar o Silêncio tem até uma lista deles no seu site. Questionado, o diretor da associação aponta os mais frequentes: “Os homens não podem ser vítimas, só agressores. Ou um homem que tenha tido uma ereção, ejaculado ou atingido o orgasmo já não foi vítima. É preciso perceber o que leva fisiologicamente a uma ereção”. Ângelo Fernandes lamenta que a falta de conhecimento seja “um obstáculo à procura de apoio”.

Em 85% dos casos, o abusador tem uma relação de proximidade com a vítima — a maioria é da sua família

Normalmente, o abusador não é um desconhecido da vítima. “Aquela ideia do violador de rua, num beco escuro, também acontece, mas é uma minoria”, explica o diretor da associação, que detalha que, em 85% dos casos, o abusador e o abusado têm uma relação de proximidade, sendo que a maioria é da família.

A ideia de que a violação é a única forma de violência sexual está errada

Getty Images/iStockphoto

A ideia de que a violação é a única forma de violência sexual também está errada. “Há outras formas que não a violação ou atos penetrativos, que são um ato traumático para a vítima“, explica Ângelo Fernandes. Esta falta de conhecimento é muitas vezes um obstáculo a um pedido de ajuda: “Quando alguém é abusado sexualmente e, por exemplo, não há uma violação como as pessoas pensam — de forma agressiva e com recurso à força —, a vítima sente que o caso dela não foi de violência sexual porque não foi violada, então não pode procurar apoio”.

Além deste, há vários outros fatores que contribuem para o silêncio das vítimas. Por exemplo, o facto de um homem — como Filipe — ter sido abusado quando era criança e que não ter tido perceção daquilo que lhe aconteceu. Muitas vezes pode também ser o abusador a contribuir para esse silêncio, pedindo segredo, fazendo chantagem emocional e recorrendo à manipulação. “Envolvem a criança de tal modo que é levada a acreditar que esteve numa relação consentida e quase que ela é a responsável. A criança vai ter uma perceção negativa de si própria, que se vai prolongar para a vida adulta”, clarifica Ângelo Fernandes.

Pior: à medida que as vítimas vão crescendo, a probabilidade de procurarem apoio vai diminuindo. Porquê? “Porque aquelas ideias tradicionais de que um homem não chora ou não pode procurar apoio ou que um homem tem de saber resolver os seus problemas sozinho começam a ficar cada vez mais interiorizadas”.

Mais de metade dos pedidos de ajuda chega pela internet. “É mais fácil escrever porque não implica uma resposta direta”

Outro obstáculo é também a vergonha que as vítimas sentem por terem passado, na sua perceção, por uma “situação que não é falada” e em relação à qual há “um tabu muito grande”. “O facto de não saberem que este é um crime que acontece também contra homens e contra rapazes faz com que sintam que estão sozinhos, que o caso deles foi isolado e até que foram quase a exceção à regra“, justifica o diretor da Quebrar o Silêncio, lamentando: “Temos uma sociedade que responsabiliza as vítimas e um contexto que não é favorável à denúncia”.

"O facto de não saberem que este é um crime que acontece também contra homens e contra rapazes faz com que sintam que estão sozinhos, que o caso deles foi isolado e até que foram quase a exceção à regra"
Ângelo Fernandes, diretor da associação Quebrar o Silêncio

Daí que não seja de estranhar que 64% dos homens que pediram ajuda em 2019 o tenham feito por email, através das redes sociais ou do site da associação. “É mais fácil escrever porque não implica uma resposta direta em tempo real. Se ligarem para a associação, há alguém que fala do outro lado e que pode fazer uma pergunta. Por email, podem dedicar o tempo que sentirem seguros para escrever a mensagem”, justifica Ângelo Fernandes, dizendo que já chegaram à associação casos de homens que demoraram meses a escrever um email ou que escreveram e não enviaram logo. Dos restantes contactos recebidos em 2019, 31% foram feitos por telefone, para a linha de apoio da associação, e 5% chegaram por outros canais.

Mas o que faz um homem pedir ajuda passado tanto tempo? Muitas vezes porque veem alguma notícia sobre a associação e percebem que há outros homens que passaram pelo mesmo. Outras porque estão num estado de rutura. “Vêm à procura de resolver e ultrapassar o impacto e retomar o controlo da sua vida”, responde Ângelo Fernandes, adiantando que, mesmo homens que foram abusados em criança, continuam a ter “constantemente memórias indesejadas do abuso, pensamentos intrusivos e até desejos suicidas”.

Em 2019, duplicaram os pedidos de ajuda de familiares. “Uma partilha inesperada pode mexer na dinâmica do casal”

Não são só os homens que procuram ajuda. Muitas vezes, esse pedido parte da família. Só em 2019, a associação recebeu 75 contactos de familiares — quando no ano anterior esse número tinha sido 35. Nestes casos, pedem conselhos sobre o que dizer ou o que fazer. “Quando os familiares nos procuram, é porque houve uma partilha: o marido que conta à mulher que foi abusado, por exemplo. Uma partilha inesperada não é fácil e pode mexer na dinâmica do casal”, detalha o diretor da associação.

Ângelo Fernandes alerta, no entanto, que é preciso “respeitar o tempo interno de vítima”. “O homem pode ter visto uma notícia que teve um efeito desencadeador, partilha com alguém, mas ainda assim não quer dizer que esteja preparado para fazer um pedido de apoio”, explica. Se Filipe, por exemplo, esperou décadas para falar, significa que esse foi o tempo dele. “É complicado para um homem falar destas coisas. É tabu. Dos mais complexos e mais fechados na nossa sociedade: um homem tem de ser forte e, se foi vítima, é porque sempre foi maricas, se deixou, é porque gostava. E isso faz-nos viver vidas de solidão”, conta ainda Filipe no seu testemunho escrito.

Como pedir ajuda à Quebrar o Silêncio?

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Através de uma chamada telefónica para o +351 910 846 589, de um email para apoio@quebrarosilencio.pt ou usando o formulário disponível no site. Ou ainda, através da página de Facebook.

A Quebrar o Silêncio presta serviços gratuitos e confidenciais, desde apoio psicológico, a grupos de ajuda mútua ou apoio de pares. Ângelo Fernandes considera que é preciso acabar com alguns mitos “para que os homens sintam que podem procurar o apoio que merecem”. O diretor lamenta que os homens não tenham quase direito ao estatuto de vítima. E exemplifica: “Uma professora que abusa um rapaz normalmente nunca é vista como suspeita ou alegada abusadora. É vista como uma docente que manteve relações sexuais com o jovem ou que se envolveu com ele”.

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