Dark Mode 132kWh poupados com o Asset 1
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Hoje é um bom dia para mudar os seus hábitos. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia
i

Andreia Reisinho Costa

Andreia Reisinho Costa

Hop, skip, jump. A história do triplo salto

Estudante de Harvard, futuro escritor e jornalista venceu a 1ª edição, em 1896. Um brasileiro inventou "a volta olímpica". Nelson Évora agarrou o ouro em 2008. Veja a evolução do triplo salto nos JO.

Estudante de Harvard, atleta olímpico, futuro jornalista e escritor. Esta é a história do primeiro campeão olímpico da era moderna de triplo salto em menos de dez palavras. James Connolly é o seu nome. A prova chamava-se então “hop, skip, jump”, como que descrevendo a lógica dos três saltos. Tudo (re)começou no dia 6 de abril de 1896, em Atenas, na Grécia. O norte-americano saltou 13,71 metros e garantiu o ouro, mas não foi fácil chegar ao palco maior do desporto mundial…

Enquanto estudante de Harvard, há registos de que James Connolly pediu uma licença para se ausentar da universidade para disputar a competição na qual reinava nos Estados Unidos. O campeão nacional queria ser campeão olímpico, mas viu-lhe negada a chance. Harvard sugeriu que ele abandonasse o curso e voltasse a candidatar-se. Ele voltou à carga, pediu uma dispensa especial, e desta vez conseguiu.

Connolly ganhou o ouro — saltou mais um metro que o francês Alexandre Tufferi — e mais duas medalhas: prata em salto em altura e bronze em salto em comprimento. Era um atleta de altos e longos voos. O seu nome ficou cravado na história olímpica. Em 1900, nos JO de Paris, perdeu o trono para Meyer Prinstein, que saltou 14,47 metros. Game over, James. Quatro anos volvidos, o norte-americano cobriu os JO enquanto jornalista, reportando sobre mais uma medalha de ouro de Prinstein na mesma categoria. Mais tarde tornou-se escritor de romances e a Universidade de Harvard ofereceu-lhe o grau de Doutor Honoris Causa, mas o ex-atleta rejeitou.

Estados Unidos, Suécia e Japão, as primeiras potências do triplo salto

O triplo salto nos Jogos Olímpicos da era moderna, entre 1896 e 2012, conheceu 23 campeões olímpicos — as mulheres começaram a competir apenas em 1996, registando assim quatro campeãs da prova. Em nove ocasiões foram conquistados recordes mundiais e/ou olímpicos. Portugal teve seis atletas nestas andanças do triplo salto na sua história, sendo que Nelson Évora é o mais bem-sucedido, com o ouro em 2008 e a sétima melhor marca de sempre em Jogos (17,67m). Rui Ramos e Eugénio Lopes estrearam o país em 1952, terminando em 12º e 27º, respetivamente. Em 1988, quando o búlgaro Khristo Markov fixou os recordes mundial e olímpico em 17,61m, José Leitão registou 15,60m.

Rui Ramos e Eugénio Lopes estrearam Portugal em 1952, terminando em 12º e 27º, respetivamente. Em 1988, quando o búlgaro Khristo Markov fixou os recordes mundial e olímpico em 17,61m, José Leitão registou 15,60m.

Oito anos depois, foi a vez de José Calado participar, com um 19º lugar, graças aos 16,65m. Neste ano, nos Jogos de Atlanta, em 1996, o norte-americano Kenny Harrison colocou a fasquia muito alta, com um salto de ouro de 18,09m. Foi a última vez que se mexeu no livro dos recordes olímpicos no triplo salto. O recorde mundial pertence a Jonathan Edwards: 18,29m.

Nas mulheres, Patrícia Mamona e Susana Costa representam Portugal na prova. Patrícia Mamona é a campeã europeia em título. A estreia em Jogos aconteceu em 2012, em Londres. A atleta do Sporting acabou em 13º lugar, com um salto de 14,11m. A atleta do Cazaquistão Olga Rypakova venceu o ouro (14,98m). Há aqui um dado novo interessante que a história olímpica (ainda) não prevê: Mamona é campeã europeia em 2016, cortesia de um hop, skip, jump de 14,58m.

Voltemos às histórias e marcas que ousam honrar a Grécia Antiga. Em 1908 começaram a registar-se num caderninho as melhores marcas, olímpicas e mundiais. O britânico Tim Ahearne é, por isso, o primeiro recordista de triplo salto, com 14,92 metros, superando consideravelmente as marcas de Connolly (13,71m) e Meyer Prinstein (14,47m e 14,35m).

Em 1912 aconteceu algo que nunca, mas nunca, mais se veria neste desporto: um pódio com os três homens da mesma nacionalidade. Em Estocolmo foi isso mesmo que sucedeu, com os três finalistas a pertencerem ao país organizador. Os obreiros desse caso raro foram os suecos Gustav Lindblom (14,76m), Georg Aberg (14,51m) e Erik Almlöf (14,17m). No regresso dos Jogos, em Antuérpia (1920), a Suécia colocou dois homens no pódio, confirmando que era uma potência da modalidade na altura — o ouro para os suecos só voltaria em 1948, por Arne Åhman (15,40m).

O Japão brilhou entre 1928 e 1936, com a sua geração de ouro do triplo salto a conquistar três medalhas de ouro. Em 1928, Mikio Oda saltou 15,21. Quatro anos depois, Chuhei Nambu imitou o compatriota (15,72m). Em 1936, na última edição antes do final da Segunda Guerra Mundial, foi Naoto Tajima quem voou (16,00m) e juntou mais uma medalha dourada ao palmarés nipónico. Estas duas últimas marcas foram recordes olímpicos e mundiais.

A volta olímpica do canguru do violão

Em 1952, em Helsínquia, a cantiga foi outra, com cheirinho a samba e língua portuguesa. E foi aqui precisamente que se conheceu pela primeira vez “a volta olímpica”. Tem a palavra Adhemar da Silva, o primeiro bicampeão olímpico brasileiro: “Um dos juízes disse: ‘O público quer que você dê uma volta’. E eu com muito prazer o fiz, porque eu queria encontrar um meio de agradecer àqueles que me ajudaram a ganhar a medalha de ouro. Foi essa volta que ficou conhecida como ‘a volta olímpica'”, contou nesta entrevista na TV brasileira.

Adhemar da Silva, que se tornaria no único medalha de ouro brasileiro naquela categoria, chegou à capital da Finlândia e surpreendeu toda a gente, cumprimentando os jornalistas em finlandês. Como a reação foi esquisita e enfadonha, da Silva ficou desconfiado: “Acho que os finlandeses de São Paulo me ensinaram palavrão. Do jeito que eles me olharam, ‘tou falando besteira…”

"Um dos juízes disse: 'O público quer que você dê uma volta'. E eu com muito prazer o fiz, porque eu queria encontrar um meio de agradecer àqueles que me ajudaram a ganhar a medalha de ouro. Foi essa volta que ficou conhecida como 'a volta olímpica'"
Adhemar da Silva

E lá tentou outra vez, questionando a temperatura no país. Os jornalistas sorriram e responderam que estava bom. Para fechar o seu show, sacou do violão e cantou uma música em finlandês.

“No seu dia triunfal, a 23 de Julho de 1952, no estádio olímpico da capital finlandesa, bateu quatro vezes o recorde olímpico e duas vezes o seu próprio recorde mundial, que fixou nos 16,22m”, contou Bruno Vieira Amaral no Observador. “Era a primeira medalha de ouro do atletismo brasileiro nos Jogos Olímpicos e a segunda da história do país. A primeira tinha sido conquistada em 1920, em Antuérpia, por Guilherme Paraense, na prova de pistola rápida.”

O “canguru brasileiro” participou pela última vez em JO em Roma, em 1960, quando Muhammad Ali, ainda Cassius Clay, foi coroado rei do boxe. Os resultados não foram positivos, “mas aí, debilitado por uma tuberculose (fumava um maço de cigarros por dia desde os 16 anos), nem sequer passou das eliminatórias”, contou Amaral Vieira.

O homem que se tornou campeão paulista dois meses depois de ter experimentado o triplo salto — “porque era bonito” — morreu em 2001

Adhemar da Silva teve muitas vidas numa e, depois de ter frequentado uma escola paulista de escultura, participou no filme “Orfeu Negro” — ver trailer aqui –, ainda nos anos 50, que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes. O atleta, aos 29 anos, representou a morte.

O homem que se tornou campeão paulista dois meses depois de ter experimentado o triplo salto — “porque era bonito” — morreu em 2001. Nesse ano foi criado o Troféu Adhemar Ferreira da Silva, que homenageia atletas e ex-atletas que sigam os valores que pautaram na carreira de Adhemar.

Um soviético triplo ouro e o recorde que ainda alto vive desde 1996

Em Roma, em 1960, Jósez Szmidt conquistou o ouro, roubando o recorde olímpico de Adhemar: o polaco saltou 16,44m. Entre 1968 e 1980 a União Soviética dominou a categoria, sendo que três dessas edições foram conquistadas por Viktor Sanyev, o único que conseguiu o triplo ouro no triplo salto: 17,39m; 17,35m e 17,29m.

Em 1988, 1992 e 1996 derrubaram-se três recordes olímpicos e mundiais, demonstrando que não havia céu nesta categoria. Primeiro foi o búlgaro Khristo Marko (17,61m), depois o norte-americano Mike Conley (17,63m) e, finalmente, Kenny Harrison (18,09m), outro norte-americano que ainda hoje detém a melhor marca olímpica. O recorde do mundo pertencia então a Jonathan Edwards (18,29m), que venceria os Jogos Olímpicos de 2000 — a sua marca mantém-se como a melhor de sempre.

Em 1988, 1992 e 1996 derrubaram-se três recordes olímpicos e mundiais, demonstrando que não havia céu nesta categoria. Primeiro foi o búlgaro Khristo Marko (17,61m), depois o norte-americano Mike Conley (17,63m) e, finalmente, Kenny Harrison (18,09m), outro norte-americano que ainda hoje detém a melhor marca olímpica. 

Em Atlanta arrancou o triplo salto feminino. A primeira rainha olímpica foi a ucraniana Inessa Kravets, que estabeleceu o recorde olímpico em 15,33m — o recorde mundial era igualmente seu: 15,50m. Em 2000 foi a búlgara Tereza Marinova a medalha de ouro, enquanto em 2004 e 2008 a camaronesa venceu em dose dupla (15,30m e 15,39m). A última campeã olímpica da categoria foi Olga Rypakova, atleta do Cazaquistão, com 14,98m — Patrícia Mamona estreou-se em JO com um 13º lugar (14,11m).

Nos homens, o último campeão olímpico, o norte-americano Christian Taylor, meteu o ouro no bolso (17,81m), confirmando os Estados Unidos da América como a maior potência: sete medalhadas de ouro, sete de prata e duas de bronze. Nas mulheres, com um historial muito curtinho, são os Camarões quem habitam no trono da categoria.

BEIJING - AUGUST 21: Nelson Evora of Portugal competes in the Men's Triple Jump Final held at the National Stadium during Day 13 of the Beijing 2008 Olympic Games on August 21, 2008 in Beijing, China. (Photo by Jed Jacobsohn/Getty Images)

Nelson Évora na final do triplo salto dos JO de Pequim, em 2008 (Jed Jacobsohn/Getty Images)

Voa, Nelson…

“Tudo o que ganhamos, pagamos com o nosso corpo”, dizia em entrevista à Visão, antes dos JO de Londres, que faltou devido a uma lesão. “Aqui, nesta perna, está o melhor exemplo de quem se arrisca todos os dias, de quem tem de aguentar pesos de uma tonelada nas pernas, cada vez que salta, e isso 15 a 20 vezes por treino. Eu não me arrependo. É isto que eu gosto de fazer e voltarei a fazê-lo. Se calhar, para muitos, é uma loucura mas, para mim, é uma paixão.”

Nelson Évora ganhou uma cadeira no Olimpo em 2008, quando agarrou o ouro com os dentes. Antes, na qualificação, até ficou atrás do britânico Phillips Idowu, que saltou 17,44m (contra os 17,34m do português).

No primeiro salto da final, Évora ficou a 20 centímetros de Idowu. A seguir saltou mais 25 centímetros, mas o terceiro salto foi nulo e permitiu à concorrência ganhar terreno. À terceira tentativa, Phillips Idowu e Leevan Sands registavam 17,62m e 17,59m, respetivamente. Ou seja, ainda estava no pódio, mas o ouro estava a escapar-lhe das mãos. Até que…

Fez isto. Acelerou, fez a chamada no sítio certo e desatou a bater no chão com um intervalo impressionante. A seguir olhou para a areia, os olhos ganharam a força de mil homens, cerrou a boca com aquela pinta de quem sabe que fez exatamente o que queria fazer. E acenou, triufante, orgulhoso. Foram 17.67 metros de ouro, que lhe valiam o recorde nacional. O resto do pódio ficou entregue a Idowu e Sands, com as marcas já referidas. Portugal não vencia uma medalha de ouro desde 1988, altura em que Fernanda Ribeiro venceu os 10.000 metros, em Seul.

“A alta competição nunca trouxe saúde a ninguém”, disse Évora numa entrevista à Visão

A vitória de 2008, a caminhada até lá, o pós, tudo isso saiu-lhe do corpo. “A alta competição nunca trouxe saúde a ninguém”, dizia na mesma entrevista à revista. “Simplesmente, acho que as pessoas têm de ter a noção de que ser o número um não é tão fácil como pensam. As pessoas invejam o Cristiano Ronaldo, por exemplo, mas não têm a noção das dores que ele sente, dos problemas físicos que ele tem para se manter no topo. É que, se tivessem noção dessas dores, talvez pensassem duas vezes antes de o invejar. E o mesmo se passa comigo.”

Oito anos volvidos, Nelson Évora volta à luta. Nessa entrevista à Visão, o atleta admitiu que ainda pensa na marca dos 18 metros. “Sem dúvida. Alguns podem achar que as lesões me afastaram dessa meta, mas eu acredito. Eu sou uma pessoa bastante persistente nos meus objetivos. Este problema vai ser ultrapassado e tenho a certeza de que regressarei mais forte, como sempre sucedeu, depois de uma lesão. E quero defender o meu título olímpico, em 2016, no Rio de Janeiro. Não tenham dúvidas sobre isso.” Aqui está um ponto interessante: Nelson Évora nunca pôde defender o título de 2008. Uma coisa é certa: os 17,67m de Évora só não venceriam o ouro em quatro das 27 edições dos JO desde 1896…

Nelson Évora, Patrícia Mamona e Susana Costa partiram dia 27 de julho para o Rio de Janeiro. Costa vai estrear-se em JO, mas já foi recordista nacional da categoria, conseguindo ainda um oitavo lugar no Europeu de 2014. No Campeonato da Europa deste ano alcançou a quinta posição e melhorou o seu recorde pessoal, fixando-o em 14,34m.

Patrícia Mamona sonha ouvir o hino, enquanto Susana Costa prefere só pensar na qualificação para a final no mítico Maracanã. Já Nelson Évora sente-se especial: “A sensação de estar em muito boa forma é espetacular, é quase como a de um Super-Homem. (…) Em 2008 também fiz uma época em que não me evidenciei muito, e cheguei e as coisas correram da melhor forma. Tenho algumas boas referencias do passado, agora é mostrar dentro da pista. Espero que corra bem…”

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.