"Houve uma redução nas agressões a árbitros mas até junho foram 23". A entrevista com Luciano Gonçalves, líder da APAF /premium

Luciano Gonçalves, presidente da APAF, esteve no "Nem tudo o que vem à rede é bola" da Rádio Observador e falou de VAR, agressões, profissionalização e da linha de apoio criada para os árbitros.

Nasceu em Alcanadas, uma aldeia na Batalha, jogou futebol em escalões inferiores, passou pelo dirigismo numa equipa de futsal, enveredou por outra carreira paralela como árbitro, foi líder do Núcleo de Porto de Mós, tornou-se presidente da APAF (Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol). Na antecâmara de novas eleições no órgão, onde voltará a ser candidato, Luciano Gonçalves esteve no “Nem tudo o que vem à bola é rede” da Rádio Observador e falou de VAR, agressões, uma linha de apoio para os árbitros ou o caminho para a profissionalização com uma garantia: “Ser árbitro em Portugal ainda vale a pena, continua a ser uma atividade aliciante”.

O VAR é o melhor amigo do árbitro nesta altura?
Sim, é. O VAR é o melhor amigo da verdade desportiva. E, naturalmente, se é o melhor amigo da verdade desportiva, é o melhor amigo do árbitro. Como tudo, precisa de continuar a ser trabalhado de forma a que se chegue à perfeição ou se tente acertar o número de vezes possível, que é isso que nós pretendemos e é para isso que trabalhamos.

E vale a pena ser árbitro em Portugal?
Sim, vale. A arbitragem continua a ser uma atividade aliciante. E quando digo aliciante, falo em várias situações, desde o espírito de grupo à amizade, desde estar ligado ao futebol noutra variante que não jogar, que é aquilo que todos os jovens sonham… E ser árbitro também é muito isso. E vale a pena, apesar de tudo aquilo que acontece de mau. O futebol continua a ser a nossa paixão. E sim, vale a pena ser árbitro de futebol.

E como é que olha para o processo de profissionalização dos árbitros? Que avanços é que existiram nesse sentido e para onde é que estamos a caminhar?
O Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, ao longo dos anos, tem vindo a dar cada vez maior espaço para que se consiga ter uma verdadeira profissionalização da arbitragem, para que existam cada vez mais árbitros de futebol profissionais e estejam envolvidos nesse processo de profissionalismo. A Federação também tem demonstrado desde sempre essa vontade e é isso que nós também defendemos. Os árbitros que atuam numa competição profissional, em que todos os agentes são profissionais, também têm de ser profissionais, de forma a que possam estar só focados naquilo que é verdadeiramente uma atividade que acaba por dar muita visibilidade. Precisam de tempo para poder trabalhar e focar-se no desempenho das suas funções.

E com tantas críticas que são feitas à arbitragem, com tantas guerras que surgem à volta dos árbitros, compensa ser árbitro profissional em Portugal?
Sim. Para já, o árbitro tem de ter a paixão. Um árbitro, quando chega a um patamar de futebol profissional, já tem atrás de si, no mínimo, dez a 15 anos de futebol, de arbitragem. Portanto, quando se chega lá, já se sabe aquilo que se quer. A progressão na arbitragem tem vários patamares que vão fazendo com que – e por isso é que muitos acabam por ficar pelo caminho e não atingem o profissionalismo – quando os árbitros chegam ao futebol profissional, já sabem o que querem. Ser árbitro profissional em Portugal, atualmente, é gratificante. Agora, se tudo é como desejamos? Não, naturalmente que todos nós, e tal como em qualquer atividade profissional, desejamos ter o máximo de tranquilidade possível para desempenharmos as nossas funções. E nós, por vezes, não conseguimos ter isso, tendo em conta todo o ambiente que é criado à volta do futebol. Agora, se é gratificante e se, efetivamente, os árbitros querem ser profissionais, claro que sim.

O Campeonato começou e praticamente não se ouviu falar nem da APAF nem do Luciano Gonçalves. Agora, à mínima coisa, aparece logo – aqui, em específico, a questão com o Tiago Martins [alegou ter sido atingido com uma moeda depois do Benfica-V. Setúbal] – o seu nome e o nome da APAF. Como é que é gerir a presidência da APAF sabendo que à mínima coisa aparece sempre o seu nome ao barulho?
Se me perguntarem se eu preferia estar focado na outra parte das minhas funções, que é defender os árbitros e estar à procura de melhores condições e proporcionar os momentos de formação e tudo aquilo que é necessário, naturalmente que preferia que o meu tempo fosse dedicado a isso. Tendo em conta que, infelizmente, por vezes, em alguns momentos, teimamos em levar a parte do futebol profissional para estes ambientes e para estas desculpas, naturalmente que é a minha função ter de defender estas situações e falar delas e criticá-las. Faz parte da minha função. Agora, claro que acho que era preferível eu estar focado e usar o meu tempo com a valorização da arbitragem e não com a defesa de situações em que estão constantemente a pôr em causa o bom nome dos árbitros.

Os árbitros que atuam numa competição profissional, em que todos os agentes são profissionais, também têm de ser profissionais, de forma a que possam estar só focados naquilo que é verdadeiramente uma atividade que acaba por dar muita visibilidade. Precisam de tempo para poder trabalhar e focar-se no desempenho das suas funções.

Existiu também uma questão de que se falou muito no ano passado – ainda que este ano esteja a passar um bocadinho ao lado. Tem a ver com as agressões a árbitros, fosse no futebol distrital ou mesmo no futsal. Tem números deste ano? Existiu uma diminuição deste tipo de casos? E o que é que se fez desde o ano passado para estancar aquilo que estava a ser um problema, sobretudo, a nível distrital?
Efetivamente, existiu, de várias entidades, e tem existido de várias entidades, um esforço na tentativa de encontrarmos algumas soluções para minimizarmos estes casos. Houve uma redução – a nível de época, ainda é muito cedo, temos pouco tempo – a nível de ano civil. De janeiro a junho, tivemos 23 agressões. Apesar de, este ano, os campeonatos a nível distrital terem começado ainda recentemente. Já tivemos uma situação na Associação de Futebol de Setúbal, com uma agressão a um árbitro, mas temos estado a trabalhar para que isto aconteça cada vez menos. Desde a Federação Portuguesa de Futebol, com o lançamento da campanha #DeixaJogar, que é uma campanha muito interessante para valorizarmos o fair play e passarmos a ter mais respeito pelos atletas e pelos filhos, principalmente. Porque a maior percentagem dos problemas que temos – e temos de destacar isto – é nos jogos de formação e muitos até são proporcionados que estão a ver os jogos dos filhos. Acabam por ter estas atitudes à frente dos filhos. Mas também através da Secretaria de Estado do Desporto, que também tem feito muita coisa, incluindo a alteração à Lei da Violência, que vem ajudar. Torna-se mais dissuasor. E também através das Associações de Futebol, que começam a ser mais exigentes naquilo que é a segurança nesses jogos, fazendo a reposição do policiamento mais vezes. Naturalmente, tudo isto acaba por ajudar a minimizar. Mas ainda temos um longo caminho pela frente para tentarmos aniquilar este problema que também ajuda a matar o futebol distrital.

Tendo havido já essas 23 agressões relatadas do ano passado mais uma este ano, sabe se existem condenações para estes agressores?
Sim, também há…

O que é que lhes tem acontecido? Ficam afastados dos estádios?
Vou dar dois ou três exemplos para se perceber a falta de ligação que vai existindo neste tipo de situações. A nível desportivo, temos algumas associações que, tendo em conta a situação, e como estamos a falar de um agente em si, conseguem castigar logo mas são muito díspares os castigos que são dados – em alguns casos são meia dúzia de jogos, noutros são meses de suspensão. A nível de pais, complica-se mais. Porquê? Porque muitos dos jogos de formação não têm policiamento e ao não terem não se consegue identificar o agressor ou pelo menos torna-se mais difícil identificar. Depois, ninguém tem essa autoridade e até ajudam a que saia do recinto de jogo para evitar problemas antes de chegar a força policial.

Luciano Gonçalves na nova sede da APAF, um dos objetivos concretizados no mandato

Álvaro Isidoro / Global Imagens

E quando existe a força policial?
Nesse caso, consegue-se identificar o agressor, apresenta-se queixa mas começa aí um longo processo que leva inclusive anos até se resolver no tribunal. Na época de 2018/19 tivemos dez sentenças mas que são também elas muito díspares. Estamos a falar em coimas de 500 ou 700 euros, temos outras situações diferentes… Por exemplo, um pai agrediu um árbitro num jogo de iniciados, a sentença foi multa pecuniária e a proibição de entrada em recintos de jogo no escalão de iniciados mas foi passado dois anos… Ou seja, ficou proibido de ir ver os jogos do escalão de iniciados daquele clube mas o seu filho já é juvenil. Cai qualquer lógica na sentença e acontece muito isso, de falta de sensibilidade de quem julga sobre o que é o futebol e o movimento associativo…

Tendo em conta que quem é árbitro nesses escalões é mais por paixão ao que faz do que propriamente por questões financeiras, já teve casos de quem desistisse por estas situações?
Sim, infelizmente vamos tendo situações destas… E aqui é muito importante o papel dos dirigentes e dos árbitros que são referências para eles no sentido de tentar demover dessa ideia, tentar provar que foi uma incidência, que não volta a acontecer, que a arbitragem é mais do que isso. Fazemos isso: dar todo o apoio que necessite e tentar demover dessa ação porque se desistem quase que dão razão a quem teve esse comportamento. Ao mesmo tempo, perceber também o porquê de isto acontecer, de pensar que podíamos ter feito qualquer coisa diferente para que não acontecesse. Mas o princípio é sempre esse: tentar demovê-lo da ideia de abandonar.

Referiu recentemente que o futebol português continua a ser chacota em termos internacionais por não ter sabido acompanhar a evolução do desporto e como se criticam as arbitragens quando as coisas correm pior. O que se pode fazer para mudar e quais são os planos da APAF para isso?
Existe uma série de temas que estão a ser trabalhados mas que não conseguimos só nós alterar. Uma delas é a sensibilização, para tentarmos cada vez mais fazer perceber que existem situações que não fazem sentido no nosso futebol e o espaço que se vai dando a alguns intervenientes que não acrescentam nada ao futebol. Depois, tentarmos também junto da ERC [Entidade Reguladora para a Comunicação Social] que alguns comportamentos que existem em programas televisivos não são corretos, vão muito além do que é a liberdade de expressão e que são faltas de respeito que fazem com que sejamos banalizados. Esses comportamentos têm de começar a ser punidos e se há alguém que faz isto nos jornais ou nas televisões, a única entidade que pode ajudar aí é a ERC para que possa começar a punir este tipo de comportamentos e evite alguns espetáculos degradantes.

Por exemplo, um pai agrediu um árbitro num jogo de iniciados, a sentença foi multa pecuniária e a proibição de entrada em recintos de jogo no escalão de iniciados mas foi passado dois anos... Ou seja, ficou proibido de ir ver os jogos do escalão de iniciados daquele clube mas o seu filho já é juvenil...

Ainda hoje os árbitros de Primeira Liga são anunciados no próprio dia do jogo. Concorda com isso? Houve mais medidas “invisíveis” de proteção aos árbitros, depois de terem existido ameaças de morte e pinturas junto de residências de alguns árbitros?
Concordo com a atitude e a decisão do Conselho de Arbitragem da Federação em anunciar os árbitros apenas no dia do jogo, por entender que os árbitros estão mais salvaguardados naquilo que é a preparação para o jogo. O seu escrutínio é menor, logo ficam mais dias focados naquilo que é o seu jogo. Sobre a proteção aos árbitros, a Federação criou desde essa altura uma linha de apoio para os árbitros sempre que necessitassem e sabem que têm ali uma salvaguarda para que a sua tranquilidade seja a maior possível.

Vamos agora ao desconto de tempo, minutos finais para respostas curtas: a APAF vai ter eleições daqui a três meses, preferia concorrer sozinho ou ter um adversário?
Gostava de ter um adversário…

É mais fácil gerir um clube ou gerir uma classe?
É mais fácil… gerir um clube.

Prefere comunicar pessoalmente, nas redes sociais ou por email?
Por email.

Mesmo depois de ter visto um email seu tornado público, no caso dos emails?
Continuo a preferir o email.

É mais fácil em Portugal assumir-se um clube ou um partido?
Assumir um partido.

Preferia uma carreira mais longa do que teve como jogador ou como árbitro?
Como árbitro.

Se Luciano Gonçalves árbitro arbitrasse Luciano Gonçalves jogador, quais eram as probabilidades de ser expulso?
90%…

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