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Jon Beavis, Adam Devonshire, Lee Kiernan, Mark Bowen e Joe Talbot: os Idles, provavelmente numa das fotos em que aparecem mais bem vestidos

Jon Beavis, Adam Devonshire, Lee Kiernan, Mark Bowen e Joe Talbot: os Idles, provavelmente numa das fotos em que aparecem mais bem vestidos

Idles: "Mudar o mundo? Não. Queremos fazer rock'n'roll sem preconceitos. Será pedir de mais?" /premium

"Ultra Mono" é mais um estaladão-punk em forma de disco. Mas mesmo com tanto alerta social que Joe Talbot grita, é o próprio vocalista que nos diz, em entrevista, que não é messias de coisa nenhuma.

A frase é antiga e na maior parte das vezes não tem qualquer significado, é só ruído em forma de cliché. Mas volta e meia acerta e há vezes de facto em que “as aparências iludem”. Com os Idles, cinco ingleses que há uns 12 anos decidiram fazer uma banda em Bristol, o que parece pode não ser. Um grupo de rock’n’roll que recicla o punk e o hardcore de setentas e oitentas para uma garagem forrada a guitarras e amplificadores em pleno século XXI; fazem dos concertos noites de distorção disparada a partir do palco como se fossem estaladões; têm um vocalista que grita, uiva, grunhe e, em alguns momentos, canta; e tem canções como a que abre Ultra Mono, o novo álbum: o tema chama-se “War” e os primeiros versos seguem assim:

“That’s the sound of the sword going in
That’s the sound of the gun going bang-bang”

Misture-se isto com apelos à transformação política, manifestos claros e inequívocos pelo feminismo, pela consciência de classe e a oposição a qualquer tipo de exploração económica e social. Foi com toda esta bagagem que, entre 2017 e 2018, fizeram dois álbuns, Brutalism e Joy as an Act of Resistance. Conquistaram epítetos como “banda manifesto” ou “salvadores do rock” — todos merecidos, diga-se — e finalmente regressam com um conjunto de canções que fazem o mais tímido dos inconformados querer sair para a rua em tronco nú para lutar por uma revolução.

[o vídeo para “War”:]

E perguntam vocês: “e aquela parte das aparências que iludem?”. Muito bem. Em conversa ao telefone com Joe Talbot, o líder desta matilha, o tal vocalista que ao vivo parece estar sempre entre a festa e o exorcismo pessoal, esclarecemos que afinal esta gente não quer mudar o mundo, não é essa a missão dos Idles. Na verdade, eles não têm qualquer missão:

O que é que é mais importante, o que tem para dizer ou a forma como o diz, fazer parte de uma banda? É a música ou é a mensagem que o move?
O que mais me interessa é a expressão. Expressar tudo o que tenho cá dentro. E para isso preciso tanto das letras, como da música, como da banda. É um conjunto que é impossível desfazer. É isto que eu sei fazer, é a única maneira que tenho para me expressar de forma completa e preciso desesperadamente de o fazer. Além disso, tenho vindo a aprimorar isto ao longo dos últimos 12 anos. Só quero ser fluente nesta linguagem artística, que não dá para dividir. Não há como escolher, é impossível. É como ser um artesão e aprender um ofício, cada dimensão é como uma parte da técnica desse ofício.

Aprimorar tudo isso para, de alguma forma, conseguir mudar as ideias das pessoas, a forma de agir e de pensar sobre determinados temas, é isso?
Não, nada disso. Este disco é sobre o que eu penso. O que eu sinto. Como é que eu ajo. É tudo sobre mim. Todas as letras que escrevo e canto são sobre mim e sobre o meu crescimento pessoal. O que é importante é que eu consiga progredir. E depois levo essa progressão para a minha música. Quem ouvir estas canções pode retirar delas o que quiser. Pode não retirar nada. Mas isso não me preocupa, não é o meu objetivo. Como é que poderia ter esse objetivo? Não, não tenho esse direito. Mudar o mundo? Não. Queremos fazer rock’n’roll sem preconceitos. Será pedir de mais?

A capa de “Ultra Mono”, o novo disco dos Idles (Partisan; Pias)

Mas quem ouvir este disco, ou qualquer outro dos Idles, pode eventualmente pensar nas suas próprias vidas e sobre o que anda aqui a fazer, pode decidir mudar graças às vossas canções. Ou pelo menos pode ponderar fazê-lo, tomando a banda como porta voz de uma mudança, ou de uma vontade de mudança…
Claro. Até porque é isso que acontece quando ouço este disco. Penso na minha vida. E foi por isso que o fiz assim, tal como está. Não posso forçar ninguém a agir ou a pensar ou a sentir seja o que for. Só posso mudar a forma como eu ajo, penso e sinto. Não controlo mais nada nem ninguém nem quero. Quando alguém ouve estas canções, elas passam a ser dessas pessoas, já nada disto é meu ou da banda.

Que ninguém tome isto como uma desilusão. Contas feitas, o que importa é sempre o que se leva de um banda como esta, de um disco como este novo Ultra Mono. E isso é fácil de explicar: se gostaram dos anteriores, vão gostar deste na mesma medida. A mesma pose de cabrõezões contra o mundo, ninguém os pisa, ninguém os encosta à parede, com guitarras que arrumam fascistas e preconceituosos e exploradores da vida alheia no geral onde é suposto. O mesmo baterista a marcar passo de gigante, como se anunciasse a marcha de um exército de cinco que vai à luta com quantos forem, esta gente não tem medo de nada nem de ninguém.

"Esta catarse final faz-se ao vivo, pelo menos para nós. E agora? Agora não sei. Agora esperamos que isso aconteça. Aguentamos firmes e esperamos que isso aconteça. Temos muita sorte, agradecemos todos os dias a quem nos ouve, todos os dias."

Se esperavam uma qualquer mudança no trabalho dos Idles, esqueçam. A não ser uma mudança técnica, um cuidado maior na produção. Substituíram a terra batida por alcatrão em algumas curvas mais apertadas, mas sem as transformar em retas largas, isso nunca foi hipótese. E talvez isso faça com que quem nunca os ouviu ou não lhes deu mais do que uma audição involuntária, agora se preste a querer descobrir o que por aqui se passa:

Quando gravaram este “Ultra Mono”, procuraram mudar algo face ao que tinham feito anteriormente? Ou apenas deixaram que as coisas acontecessem?
Todos os álbuns que fazemos têm um plano. Começam com um título e depois trabalhamos o tema em volta desse título. Com este foi precisamente assim, tudo começou com o título, “Ultra Mono”, e depois com a o significado deste título: um sentimento de consciência total sobre o que somos e aquilo que nos rodeia e o impacto que isso tem nas nossas vidas, no sentido de aceitarmos aquilo que somos de facto, para podermos progredir.

Assim que concebi esta ideia e afinei o conceito, que foi de alguma maneira uma reação ao lugar em que estava nessa altura, trabalhámos a música e as canções em volta desse conceito. E desta vez foi a primeira que trabalhámos com uma ideia concreta de som e produção, com essa parte técnica também envolvida no plano. Tudo para criar uma espécie de ser holístico, mas na música.

[“Model Village”:]

Por ter sido a primeira vez que juntaram todas essas dimensões num plano tão elaborado, foi mais difícil, mais complexo?
Na verdade, talvez tenha sido o álbum mais fácil de fazer. Mais fácil no sentido de enfrentar obstáculos e adversidades inesperadas. Foi mais difícil para o Jon [Beavis], o Lee [Kiernan] e o Adam [Devonshire]. Eu e o Mark [Bowen] tínhamos ambos sido pais há pouco tempo, por isso estivemos menos tempo no estúdio, nos ensaios. Mas quando estivemos todos juntos, o álbum apareceu com muita rapidez, tornou-se tudo muito simples muito fácil. Como sabíamos muito bem o que queríamos das canções, e como encaixavam na perfeição na nossa filosofia de vida, tudo aconteceu muito rápido.

Joe Talbot diz-nos que está bem. O homem não gosta de falar dele próprio. Logo ao início do telefone, diz que está “bem”, que está em casa, em Cardiff, no País de Gales. Mas não explica mais: “Não vamos por aí, pode ser”. Claro que pode, Joe, assunto encerrado.

No passado, fez um disco na ressaca da morte da mãe, com quem sempre teve uma relação atribulada, com dependências e violência à mistura. Fez um outro álbum após a morte da filha, à nascença. E agora? Agora, nada. Foi pai outra vez. Enfrentou as fases mais complicadas do isolamento motivado pela pandemia de Covid-19 com um equilíbrio invejável e reconhece-se “privilegiado”, no meio de tudo o que tem acontecido. Nem a incógnita sobre o futuro da música ao vivo, que para os Idles (como acontece com quase todos os músicos) é demasiado importante, mais importante que os discos, nem isso parece abalar a confiança do senhor Talbot num presente bem resolvido e num futuro que não tem como não ser bom:

Os vossos concertos levam as canções a um outro nível, transformam-nas em momentos com uma existência física. Mas não podem acontecer com pessoas sentadas em cadeiras, separadas por lugares vazios. E agora?
Bom… não sei… os concertos são como terapia. Quando escrevemos e gravámos estas canções, entre junho e agosto do ano passado, estávamos a trabalhar uma ideia de isolamento, mas com o objetivo de nos sentirmos livres dentro de nós próprios, na vida imediata. Aceitar quem somos a cada momento. Isto não tem preço, este sentimento de aceitação de nós próprios. E agora isto… por um lado, é como se este disco tivesse surgido na altura certa, porque nunca passámos por um momento de diálogo individual como este. Por outro lado, a conclusão desse diálogo faz-se no mundo. E no mundo existem pessoas. No mundo, esta catarse final faz-se ao vivo, pelo menos para nós. E agora? Agora não sei. Agora esperamos que isso aconteça. Aguentamos firmes e esperamos que isso aconteça. Temos muita sorte, agradecemos todos os dias a quem nos ouve, todos os dias.

"Todos os fundamentalismos nascem da falta de empatia. E a cura para tudo isto começa em cada um, na forma como cada um tem paciência e cuidado para lidar consigo próprio. Quem trabalha a política tem primeiro de trabalhar a sua própria política."

Assim à distância parece que está a lidar bem com tudo isto. Ou pelo menos que não está a lidar mal… porquê? Porque está num sítio bom, num bom momento? Porque conseguiu fazer o que queria, chegar onde queria, e isso dá-lhe uma paz especial?
Bom… Talvez. Acho que estou melhor equipado do que muita gente, sim. Também porque já passei por dias demasiado difíceis que não desejo a ninguém. E estou num bom sítio e num bom momento porque aprendi muito com isso. Mas é uma luta constante. Até posso estar aqui nesta entrevista com um discurso tranquilo, seguro e articulado. Mas isso não quer dizer que daqui a uma horas continue com essa tranquilidade. Tenho os meus momentos de “e agora, o que é que vai ser de nós?”, mas tenho conseguido sair deles e voltar cá acima. É uma sorte, sei bem.

Com a graça do rock’n’roll, Joe Talbot mantém aquele spoken word angustiado que nos mostrou antes, talvez o tenha elevado a um patamar dramático ainda mais intenso. Porque, entre filosofias de vida, dias bons e maus, mais produção, menos produção, para lá da conversa orgulhosa de quem acaba de lançar um novo álbum, o que importa são as canções e só essas vão ter vida longa. E Ultra Mono continua a suportar a ideia dos Idles de que o que vale mais são as combinações verso-refrão, uma chapada, um beijo e sigamos em frente, sem medos.

“War” abre o disco e esclarece logo qualquer incauto: isto não é para gente de ouvido fraco e coração preguiçoso; “Mr Motivator” vai ser o hino festivaleiro da revolta rock’n’roll, quando um dia os festivais voltarem a acontecer, uma canção que, nos altifalantes de um carro, é um atentado à condução segura. “Kill Them With Kindness” começa com um piano gentil, metáfora para o que se segue: se Ghandi fosse punk rocker talvez tocasse assim e apregoasse desta maneira a luta pacífica; “Model Village” e a crítica à forma como todos nós (sim, todos nós) olhamos para o nosso vizinho e apontamos o dedo em menos de nada, tudo com uma bateria a cavalgar, como quem dá uma corrida noite, jogging mas vestido de cabedal. Ou “Ne Touche Pas Mois”, dois minutinhos e meio dedicados ao consentimento, onde começa e acaba a jurisdição relativa a cada corpo, com Jehnny Beth das Savages a fazer dupla de combate com Joe Talbot.

[“Mr. Motivator”:]

O amor-próprio como princípio para um amor maior e mais abrangente; a compreensão, o respeito, a democracia e a recusa de qualquer tipo de preconceito. São estes os princípios de Joe Talbot para escrever as letras que escreve. Diz que não há mais ciência do que esta, que se trata apenas de “bom senso”, partilhado pelos cinco músicos que forma a banda, cinco que, pelo menos entre eles, estão numa plataforma de fraternidade difícil de encontrar, mas bonita de manter e alimentar. Mesmo quando as notícias não ajudam.

O “sítio bom” em que está e de que fala é um sítio pessoal e particular, mas há um lado global que é mais difícil de enfrentar e que acaba sempre por entrar na vida privada. Seja a pandemia, sejam os fenómenos populistas, nacionalistas e discriminatórios contra os quais canta. Nem tudo é controlável, nem tudo depende de nós…
Mas o populismo que vemos por toda a parte, que se vê no Reino Unido, que se vê em Portugal, tem a ver com conflito interior, tem a ver com dúvida, com as dúvidas que temos sobre nós próprios, o medo que temos de nós próprios. É raiva transformada em egoísmo. Todos os fundamentalismos nascem da falta de empatia. E a cura para tudo isto começa em cada um, na forma como cada um tem paciência e cuidado para lidar consigo próprio. Quem trabalha a política tem primeiro de trabalhar a sua própria política. Só depois pode fazer política para os outros no sentido certo, só depois pode ser um agente produtivo para a sociedade.

Os Idles são a maior banda rock do mundo. E querem salvar-nos: um estaladão de cada vez

Entre vocês, na banda, essa empatia de que fala, existe? São mais do que uma banda que faz discos em conjunto em concertos em conjunto? São mais do que um grupo de trabalho?
Esta banda existe há 12 anos, somos como irmãos. Não é trabalho, não posso classificar isto como trabalho, eu sei o que é trabalho. Há uma amizade muito forte entre nós, uma confiança muito grande. Cada um de nós é livre para ser quem é neste grupo, é isso que a palavra “comunidade” quer dizer. Precisamos de muito tempo para aprender, atenção. Isto não é uma coisa que surge do nada, sem esforço e compromisso, mas conseguimos atingir esse ponto. 

[“A Hymn”:]

Isso não é muito rock’n’roll, pelo menos não é o estereótipo de rock’n’roll a que estamos habituados.
Em parte não é, mas o rock’n’roll é o que fazemos dele. Eu percebo… somos cinco homens brancos, temos a imagem típica de uma banda de rock, por isso é importante questionar o papel que temos na construção ou desconstrução desse estereótipo.

Joe Talbot diz-nos adeus, tem outra entrevista já a seguir e é preciso respeitar a agenda deste pregador. Explicações dadas, canções a caminho do mundo e sabe-se lá o que virá depois. Joe conhece bem o calendário, lembra que a 7 de junho os Idles têm uma visita marcada ao Coliseu dos Recreios em Lisboa. Recusa conspirar a favor da pandemia e deixa aquela nota final simpática: “vemo-nos lá”.

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