Indecoroso. Da sanita à noite de núpcias: a vida das mulheres no glamoroso século XIX

01 Novembro 2016831

Não, o mundo requintado dos tempos de Jane Austen não era tão cor-de-rosa como sonhamos. No século XIX, as cuecas não eram precisas e os esgotos eram uma invenção futurista. Quem sofria? As mulheres.

Ao contrário do que se possa imaginar, o século XIX não era o tempo das princesas para a maior parte das mulheres da nossa sociedade. Não havia nada de sedutor e de charmoso num universo feminino onde as cuecas não eram necessárias, em que o período menstrual era um assunto tabu e em que uma mulher doente era histérica. Ah, e não esqueçamos o fétido cheiro a fezes e transpiração que dominava as ruas.

“Indecoroso – O Guia da Dama Vitoriana para o Sexo, Casamento e Conduta” é o primeiro livro de Therese Oneill e procura levar as mulheres e os homens de agora até aos anos 1800 para abrir os nossos olhos: somos mesmo sortudos em viver num tempo em que os tampões existem e em que as sanitas são as nossas melhores amigas.

O Observador pré-publica a introdução e o segundo capítulo da obra.

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“Indecoroso”, de Therese Oneill (Guerra & Paz)

Olá, Galdéria

“Obrigada por teres vindo. Não me queres fazer o favor de te sentares comigo por uns instantes, minha amiga?

Espero que perdoes a minha familiaridade, mas eu insisto num certo nível de conforto e franqueza com as minhas companheiras de viagem. Uma jornada destas é um evento íntimo.

Vieste ver-me pois ouviste falar daquilo que sou capaz. Dos lugares para onde te posso levar.

És fã devota de tempos mais simples, desconfio. Não consegues resistir a nenhum filme onde a heroína usa anáguas, deixa os seus lindos e longos cachos soltarem-se do seu apertado carrapito em momentos dramáticos, e chama o pai «Pa-PÁ!» ao desafiar a sua escolha de marido para ela.

Julgas conhecer bem o século XIX, como um lugar de cavalheirismo e honra, beleza dourada e criadas divertidas. Já lá estiveste muitas vezes, mas apenas como visitante, como observadora.

Heathcliff, com os seus olhos negros, tornou-se obsessão da tua alma levada pelo vento num universo onde nunca ninguém precisa de fazer cocó. Foste aos salões de baile com luzes radiantes e remoinhos de sumptuosos vestidos de seda; viste homens jovens de barba feita a conter as suas ardentes paixões e damas a defenderem-se dos seus galanteios com respostas engenhosas.

E julgas-me capaz de remover o véu do tempo? Pois bem, minha querida, tens toda a razão. Posso de facto levar-te até lá. Posso tornar o passado tão real que até te virão lágrimas aos olhos.

Mas não posso prometer que serão lágrimas felizes. Uma dama chora por muitas razões. Frustração. Desilusão. O fedor penetrante do matadouro quando o vento muda.

A maioria das coisas que adoras no século XIX não são reais, miúda. São salvaguardas dos graciosos anfitriões que fazem uma limpeza à época sempre que a visitas através de arte, livros, ou filmes. Só vês o mundo que eles querem que vejas.

Mas, se fizeres a tua própria viagem a esse mundo, como eu proponho que façamos, a verdade não poderá ficar escondida por muito tempo.

E a verdade, minha cara, é ainda melhor.

Vem comigo e suprimiremos este mito. Eu serei a tua guia turística para o verdadeiro século XIX.

Dir-te-ei aquilo que precisas saber para sobreviver. Ensinar-te-ei sobre sanitários, ou melhor, sobre a desesperante escassez dos mesmos, e, o que é mais importante, o que fazer a respeito disso. Mostrar-te-ei como segurar e encobrir as partes do teu corpo que têm tendência para tremer para não seres presa por solicitação, e como te deves comportar em sociedade para não seres enviada para os banhos gelados de um manicómio. E temo que o mundo moderno te tenha permitido esquecer como interagir devidamente com o sexo oposto. Uma vez que o modo como te relacionas com homens vai ser basicamente a parte mais importante da tua vida aqui (quer gostes, quer não), gostaria de te oferecer um curso de actualização.

Porque se viajares por este mundo com a tua pessoa do século XXI, vais sofrer.

Se te vestires confortavelmente, falares livremente e ficares os 5 a 20 minutos do costume a preparar a tua aparência pessoal todos os dias, serás aquilo que no século XIX chamamos «galdéria». Um preguiçoso, grosseiro e miserável desperdício de feminilidade.

E não queremos isso, pois não?

Oh, podes tentar imitar aquilo que te lembras de livros e filmes, seguindo as sugestões da Menina Scarlett ou da Menina Bennett. Mas elas só te mostraram o quarto de hóspedes do seu mundo; um mundo onde um homem só precisava de fitar os olhos de uma mulher para ficar apanhadinho por ela para toda a vida, e onde nunca ninguém tinha dias de maior fluxo. Imitá-las não te ajudará a descobrir onde as empregadas domésticas guardam a versão do século XIX de tampões super plus. Não estarão ao lado da sanita, minha cara, porque agora levantas o traseiro sobre uma fossa, ou penico, para fazer as tuas necessidades. Pensos higiénicos também serão complicados, pois, por alguma razão, nenhuma das tuas peças de roupa interior tem entre- pernas. Já viste todas as versões de Jane Eyre alguma vez feitas e nunca houve uma única cena que te explicasse aquilo.

Mas eu explico.

Claro, terás de te submeter a algumas simples regras de viagem.

Regra número um: sou caprichosa e omnipotente! E pronto, acho que isso basta.

Transportar-te-ei geográfica e temporalmente, e através de fases da vida e níveis da sociedade sem continuidade ou advertências. Dessa forma, poderemos absorver a máxima quantidade possível das partes divertidas e importantes.

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“Para onde estás a olhar?”. Créditos: Library of the Congress

Chegarás ao século XIX com o aspecto de uma jovem mulher com alguma riqueza e ascendência europeia, que vive ou na América ou na Europa Ocidental. Isto não reflecte minimamente a experiência da maioria das mulheres durante este período. Pobreza, guerra e exploração atormentavam a Terra, e as mulheres ficavam com a pior parte. Em fantasias de tempos de outrora, costumamos todas imaginar-nos como a heroína, gerindo o nosso drama cobertas em xailes de seda e camisas de noite de linho bordadas à mão. Na realidade, era muito mais provável nasceres como a escrava que apanhava a fibra do linho, a nativa americana desalojada que a plantava, ou a costureira esfomeada e quase cega que costurava os adornos à luz de uma vela moribunda.

Embora esta jornada vá geralmente manter-se dentro das fronteiras dos finais da era vitoriana, irei ocasionalmente incluir informação e imagens que vieram antes ou depois do reino de Sua Majestade, 1837 a 1901, para alargar a tua experiência. Ou simplesmente porque me agrada.

Queres saber o que acontece às tuas majestosas e espirituosas heroínas quando as cortinas se fecham; quando o ecrã fica preto? Queres explorar o mundo que fica do lado de fora do enquadramento desse ecrã? Queres, querida. Vê-se logo. A maioria dos livros e filmes dão-te a espuma, deleitosa e aromática. Eu trago-te a amarga bebida fermentada que fica por baixo. É forte. Mas quando ganhares o gosto, nunca mais voltarás a ficar satisfeita só com a superfície.

Baldes para evacuação intestinal, porque a natureza é obscena

Quero que vejas os teus sapatos do século XIX. Hoje em dia não lhes chamaríamos sapatos.

São botas justas, feitas de cabedal preto, que geralmente sobem até ao meio da pantorrilha e possuem uma dura sola de madeira. Assim que as calças, são apertadas por meio de botões pouco espaçados, que, se alguma vez estiveres na infeliz posição de teres de te vestir sozinha, são bizarramente difíceis de manipular. Tão difíceis que tiveram de inventar uma presilha especial para o conseguir.

Indo pelos padrões modernos, estes sapatos deveriam ser postos ao lado de algemas felpudas na montra do tipo de loja que vende óleo de massagem comestível

Por isso, porque é que não vês se não consegues arranjar algo um pouco menos intimidador de calçar por hoje? Oh, ali está um par encantador! Cor delicada, pequenos e agradáveis. A tua criada insiste que são apenas chinelos para usar dentro de casa, mas eles parecem ser a coisa mais próxima de sapatos a sério disponível. Mas quem é que teve a ideia de fazer chinelos de pelica e cetim? Nem sequer são fofinhos.

Muito bem, toca a marchar em direcção à cidade, nos teus empertigados mas chiques sapatinhos fáceis de pôr e tirar.

Olá! Já voltaste? Tão depressa?

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Chiques, mas suficientemente desconfortáveis para prevenir que a tua miúda ande por aí a passear. Créditos: Pinterest.

Oh céus. Desceste as escadas da entrada e puseste os pés mesmo em cima de uma poça de «lama», que estás bastante segura que consiste em 90 % de fezes de cavalo? Oh, pobre criança! No fundo, sabes bem que não foram só cavalos a contribuir para a poça. Vá. Não te iludas, querida, isso só tornará a viagem mais difícil.

O século XIX é tão, mas tão sujo. Quer sejas rica ou pobre, quer vivas numa fazenda ou na cidade, vais ter porcaria até aos tornozelos onde quer que vás.

Século. Mais imundo. De sempre.

Há quem argumente que o século XIX foi um dos períodos mais sujos de toda a História ocidental, particularmente em qualquer zona urbana desenvolvida. Pior do que quando os humanos se agachavam em cavernas para tirar os piolhos uns dos outros. (Já agora, provavelmente terás de fazer o mesmo de vez em quando. É daí que vem o termo «coca-bichinhos». Mas, podes ficar descansada, não será numa caverna, e agachares-te ou não ficará à tua discrição. Ao menos isso!)

Porcaria até aos tornozelos, disse eu, mas peço desculpa, pois equivoquei-me. Quem te dera que a porcaria se ficasse pelos tornozelos. A imundice está em todo o lado. Sujidade e podridão colam-se ao próprio ar, aos edifícios, às pessoas; até o sabão é feito de gordura e veneno.

Não existe nada que se pareça a «ar fresco» nas grandes cidades, a menos que o vento o esteja a trazer de outros locais, geralmente com uma velocidade tão gélida que o ar fresco acaba por ser uma ameaça maior do que a miasma que substituiu. Não há electricidade, nem muita coisa disponível na linha de combustíveis «limpos» (óleo de baleia arde excepcionalmente bem, mas como ainda possuis uma consciência de século XXI, és um monstro desnaturado se o usares). No entanto, todas as habitações e empresas precisam de energia, logo tens de queimar alguma coisa, como madeira ou carvão. Queimar para obter calor, luz e energia a vapor. O resultado é a fuligem e fumaça de centenas de milhares de fogos a saturar o céu.

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Flea Crush (Esmagar Pulgas). Bem melhor do que jogar Candy Crush.

E esses fogos não produzem um cheiro agradável de fogueira. E mesmo que o fizessem, não serviria de nada pois nem isso chegaria para camuflar os outros cheiros. Lembras-te da tua extensa rua, cheia até ao horizonte com esgoto, sobras de comida em decomposição e outros tipos de lixo? A vida requer que as pessoas realizem acções que criam lixo. E tal como o fumo que paira sobre a cidade, a poluição mais sólida está lá porque não tem outro sítio para onde ir.

Um cirurgião francês receberá o Prémio Nobel por descobrir que a doença é causada por mosquitos que se congregam em volta de água estagnada — mas isso é só em 1907, já demasiado tarde para ti. Por isso presta bem atenção aos mosquitos

Relativamente ao lodo fétido que teremos de chamar lama: uma das razões pelas quais é tão mau é porque a maioria dessas ruas não foram planeadas; simplesmente apareceram à medida que se foram tornando necessárias. Muitas ruas americanas começaram como trilhas de veados, e os veados não são conhecidos pela sua previdência ecológica. Essas ruas carecem de todos aqueles pequenos pormenores de concepção e manutenção que poderiam enviar o escoamento para sarjetas e valas para ser levado embora. Ao invés disso, o escoamento forma poças e acumula-se em buracos com «água» estagnada e poluída.

Quando chegar o Verão, a lama já não será tão problemática, a menos que seja um Verão húmido. Nesse caso, enfim, malária.

No Verão haverá pó, pó asfixiante infindável, levantado por todos os cavalos e carruagens que passarem. Chiu! Não. Não vale a pena perguntares por calçadas. Sim, elas existem, e ajudam ligeiramente a evitar pó e lodo, mas não te vou deixar numa, pois a maioria dos lugares não as têm e francamente já tiveste direito a demasiadas ajudas nesta viagem.

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Ruela particularmente limpa em Boston, na década de 1890

Voltando à imundice geral na tua nova vida romântica. Há coisas que contribuem mais violentamente para o problema. Como, por exemplo, a questão de tratamento de esgotos.

Não existe tratamento de esgotos.

Às vezes há condutas que se parecem mais ou menos com esgotos. Canos de ruas e alguns municípios largam todo o tipo de lixo ensopado para dentro destes túneis, e os túneis por sua vez levam estas coisas nefastas para bem, bem longe.

Bem, não assim tão longe.

Na verdade, até à massa de água de grande dimensão mais próxima. Que geralmente se encontra mesmo no meio da cidade. Como o Tamisa, o Sena ou o Hudson. Por volta de 1860, o Tamisa, por exemplo, recebia todos os dias a visita de milhares de toneladas de matéria fecal, vinda de todos os canos e escoamentos que desaguavam no rio. Imagina o cheiro num dia de calor. E depois esquece isso porque o cheiro não é nada.

O problema não é o cheiro. O problema é que estas massas de água e o seu lençol freático são também onde os residentes urbanos vão buscar a sua água de consumo. Durante grande parte do século XIX nem mesmo os médicos sabiam o que eram germes, e nem lhes passava pela cabeça que animais invisíveis e mortíferos poderiam existir na água em quantidades letais, como um bando de unicórnios minúsculos e raivosos.

Pessoas morreram por causa disto. Morreram aos milhares, de cólera, disenteria, tifóide. Doenças que acontecem quando o teu corpo tenta desesperadamente livrar-se de bactérias indesejadas no tubo digestivo, geralmente matando-te de desidratação no processo. Principalmente quando os teus entes queridos tentam aliviar-te a sede dando-te mais água envenenada.

Ninguém considerou a hipótese de água suja como uma causa destas doenças. Todos acreditavam que era o ar poluído que as causava, o que ao menos já significava algum progresso em relação à obsessão do século anterior com remover «sangue mau» de pacientes moribundos ao litro. E alguns médicos vitorianos ainda o fazem, por isso escolhe bem o teu médico. Ou, pensando bem — não vás a médicos simplesmente.

És demasiado esperta para isso, querida. Sabes que seria prudente ficares pelo café e pelas bebidas alcoólicas durante a tua visita, pois os seus métodos de preparação matam bactérias. E agora deixa-me dizer-te porque é que sabes isso.

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A Morte patrulha o Tamisa, que está repleto de lixo.

Houve um homem, lindamente citado pela sua influência no nosso mundo. O Dr. John Snow. Ele tratava vítimas de cólera diariamente, respirava o mesmo ar contaminado, mas nunca ficava doente. Respirava o mesmo ar, mas não bebia a mesma água. Ele desenhou um mapa de todas as vítimas de cólera num determinado bairro de Londres e reparou que os piores surtos giravam em torno de uma coisa: um único poço, sujo e contaminado pelos esgotos. Ainda mais estranho era o facto de haver um lugar nesse mesmo bairro sem quaisquer casos de cólera: a cervejaria, onde aparentemente deixavam os empregados servir-se da própria reserva como a sua principal bebida do dia.

O Dr. Snow voltou a ensinar ao mundo algo que em tempos devia ser sabido instintivamente, mas que as pessoas tinham sido obrigadas a esquecer para sobreviver à sobrepopulação.

Não faças cocó ao lado do sítio onde bebes.

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«A casa de banho externa fica ali, a água derramada fica ali… para mantermos as coisas sanitárias, é melhor cavarmos o poço no meio delas.»

E assim, a meio do século, a Reforma Sanitária começou na maioria das principais cidades do mundo ocidental. Melhores esgotos, melhor tratamento do lixo. As cidades começaram a empregar forças-tarefa enormes para prevenir que as ruas se tornassem abismos infernais de doenças e sordidez. O que… hum… ajudou?

Mas os nossos sentidos de século XXI ainda seriam assaltados. As opções de tratamento do lixo ainda eram limitadas, e fumos infindáveis continuavam a deixar o ar asfixiante. A Reforma Sanitária também não conseguiu mudar o facto de a maioria das pessoas continuar a precisar de usar casas de banho externas, fossas sanitárias e latrinas para as suas evacuações diárias. Algo a que tu também vais ter de te habituar.

A toalete da dama e o seu vaso de noite

Sei que percorreste um longo caminho, e sem dúvida uma das tuas intenções expressas era estar num lugar onde as pessoas não falassem das suas funções corporais em companhia casual. E agora aqui estás novamente, a ouvir a tua mãe (versão século XIX) a reclamar da «sua ida ao toalete» ter demorado uma quantidade extraordinária de tempo hoje. Mais valia teres ficado no século XXI a aturar as mesmas discussões com ela via telemóvel.

Vá, coragem. «Ir ao toalete» não significa «ir à casa de banho» aqui. Nós apropriámo-nos da palavra francesa, «toilette», para nos referirmos ao vaso sanitário moderno. «Toilette» provém de uma palavra semelhante à palavra inglesa «toil», que significa trabalhar ou um trabalho a ser feito. Uma «necessidade», portanto, como hoje falamos em «fazer as necessidades».

Oh, céus. Perdoa-me. Trocadilhos são a forma mais baixa de humor e eu peço desculpa.

Até ao século XX, «a toalete de uma dama» era a sua rotina de beleza, o trabalho que ela fazia para estar apresentável antes de enfren- tar o mundo. Até que, um dia, isso passou a incluir fazer cocó dentro de casa numa bacia lavável, mas, como nenhuma dama queria ter de dizer isso, essa actividade passou a fazer parte da sua «toalete». Mais tarde, o êxito do vaso sanitário causou um movimento tão grande e pode- roso, que acabou por conquistar o mundo. 

(Peço desculpa. Estou muito zangada comigo mesma.)

Ao longo da sua história, a humanidade sempre se esforçou para remover os seus resíduos corporais em locais afastados das áreas onde viviam o resto do tempo (excepto quando a sobrelotação — ver acima — tornava isso impossível). Esta remoção era quase sempre feita, de uma maneira ou de outra, pelo acto de enterrar. Tecnicamente uma casa de banho externa não passa disso: cavas um buraco, enche-lo com os horrores indizíveis que saem do teu corpo, e então, quando está quase cheio, tapa-lo com terra e mudas o próprio edifício de lugar, de modo a ficar sobre um novo buraco. A Natureza concordava com este processo: numa questão de meses, os dejectos humanos ficavam quase indistinguíveis do solo que os rodeava.

Ninguém gostava de casas de banho externas, principalmente mulheres orgulhosas das suas casas. As damas faziam o melhor que podiam, dentro do possível, para tornar as suas idas à casa de banho toleráveis. Ainda assim, o «Necessário» exibia tudo aquilo que uma mulher do século XIX queria fingir que não estava lá, desde fossas fedorentas às desagradáveis manchetes nos jornais que ela cortava aos quadrados para a sua família limpar o rabo e ao mesmo tempo borrá-lo com tinta.

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Duas casas de banho externas por detrás de uma escola em Virgínia Ocidental. Consideradas «mal situadas».

Pessoas muito abastadas passaram séculos a arranjar maneiras de fazer cocó dentro de casa. Mesmo pessoas normais tratavam das solicitações nojentas da Natureza dentro de casa quando podiam, geralmente à noite.

Há séculos que «penicos», também conhecidos como bacios, potes, bispotes, calhandros, viascos, vasos de noite (e mais uma dúzia de descritores encantadores que contêm linguagem que uma dama respeitável deve tentar evitar neste século), eram deixados debaixo das camas. Na verdade, nunca nos livrámos totalmente deles. Simplesmente agora são feitos de plástico e têm personagens animais felizes que cantam «You’re a Super Duper Pooper!» quando são usados. A propósito, traseiros pequeninos foram a principal causa da misteriosa casa de banho externa «de dois lugares». Buracos com o tamanho adequado para adultos podiam ser fatais para crianças.

Ademais, famílias rurais tinham um número significativamente maior de filhos do que temos agora, e os pais não sentiam qualquer compunção em enviá-los em massa para usar as instalações antes de irem para a cama, que, já agora, eles também partilhavam

Muitos de nós ainda empreendemos interacção pessoal com fezes. Qualquer pai ou mãe conhece a apneia silenciosa necessária ao processo de ir despejar os minúsculos mas ofensivos cocós de uma criança de dois anos do penico para a retrete. Mas imagina ter de fazer isso com uma família inteira, com homens que bebiam mais cerveja do que água e numa altura em que as condições alimentares eram de tal maneira que era garantido haver surtos de diarreia à escala familiar algumas vezes por mês.

E imagina não despejares essa mesma diarreia numa fonte mágica e cintilante que fazia com que todo o horror desaparecesse numa única lavagem purificante. Não, imagina teres de a levar para fora de casa e pelo monte acima, até à casa de banho externa, com todo o cuidado que terias em transportar dinamite a transpirar, e teres de a despejar naquele penoso buraco, ponderando se este seria o dia em que o depósito teria atingido um nível suficientemente elevado para causar salpicos ao despejares. Antes da Guerra Civil Americana, algumas famílias de donos de escravos achavam a tarefa tão repugnante que chegavam a pagar ao escravo encarregado com essa tarefa tão odiosa, entre as quais se inclui a família de Thomas Jefferson.

Os mais sofisticados colocavam os penicos dentro de cadeiras pequenas e baixas com uma tampa que se podia fechar, obtendo assim mais uma camada de decência e protecção contra o odor do acto sujo e secreto. Eram chamadas close-stools. Porque eram assentos com tampas que podiam ser fechadas. Agora, da próxima vez que o teu médico te pedir uma stool sample, podes dar-lhe algumas, juntamente com uma fascinante lição de história etimológica.

Gente chique chegava a colocar estes assentos em pequenos armários separados, por questões de conveniência e privacidade. Mas esses armários não eram novidade. Se visitares as ruínas de castelos europeus, verás frequentemente um afloramento do tamanho de um armário no lado de fora das paredes das divisões onde dormiam a maioria dos membros mais velhos da família. Isso chamava-se um garderobe, e hás-de reparar que a pedra por baixo deste afloramento demonstra padrões de erosão diferentes do resto da parede, resultado de séculos de urina e fezes a caírem junto da parede do castelo e para dentro da latrina ou fonte de água aberta que havia em baixo. É assim que quase todas as tuas princesas da Disney favoritas teriam feito as suas necessidades.

Quando regressares ao século XXI, quiçá possas usar esta informação para fazer com que a tua filha ultrapasse mais depressa a sua tragicamente iludida «fase de princesa». E depois diz-lhe que a Bela Adormecida e a Branca de Neve e a Cinderela também teriam pendurado os seus melhores vestidos nesse mesmo quartinho, crendo que a combinação do seu velho e acre xixi e o «ar fresco» vindo do assento da sanita mataria os animais daninhos. Talvez assim ela se apresse a passar para a infinitamente mais agradável «fase de cavalos e Harry Potter».

Ganhar o direito de ser/receber o número um

As pessoas raramente faziam cocó junto das paredes na era vitoriana. Contudo, a ideia de um quarto privado e separado para essas asquerosas expulsões tinha reaparecido, e era aqui, neste pequeno quartinho, que a grande batalha era travada. Nos finais do século XIX, dois tipos populares de vaso sanitário estavam a conquistar o mundo. Mas apenas um sairia vitorioso. Os dois candidatos: sanitas com autoclismo e sanitas secas.

Sanitas secas foram inventadas por um homem chamado Henry Moule. Ele abominava casas de banho externas e recusava-se a ter uma, exigindo que todas as pessoas da sua família usassem penicos, cujos conteúdos eram enterrados todas as noites num fosso longínquo. Moule patenteou a sanita seca, um aparelho criado para acrescentar conforto e saneamento a esse mesmo processo de tratamento.

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A sanita «combinação» de Lambeth

Sanitas secas eram uma opção sensata — económicas, construídas de maneira simples, e não requeriam uma rede de esgotos ou sequer uma fossa a sério. Uma pessoa fazia simplesmente as suas necessidades, que caíam para dentro de um balde grande. Depois puxavam uma alavanca, tal como se puxa o autoclismo, só que esta puxadela fazia cair uma camada de terra, cinzas ou cal viva, que cobria completamente tanto a vista como o odor dos conteúdos do balde. Ao final do dia, levavam o agradável baldinho de lixo humano para fora de casa e despejavam os seus conteúdos num buraco apropriado (no qual eles rapidamente se tornavam terra segura e razoavelmente fértil). Pode parecer desagradável para nós, mas as pessoas do século XIX estavam habituadas a lidar com dejectos humanos, pelo que cobri-los agradavelmente com terra a meio do processo era bastante aceitável.

Para quê gastar dinheiro em algo que só servia para limpar a retaguarda e mandar fora? Se tirarmos o passo intermédio, estamos literalmente a mandar dinheiro pela sanita abaixo

Mas enfim. Assim que os vitorianos sentiram a emoção de contemplar uma descarga de água purificante a cair da cisterna e a levar para bem longe todos os indícios da sua humanidade animalesca, deixando ficar apenas porcelana branquinha e brilhante, a pobre sanita seca deixou de ter a menor hipótese. A possibilidade de, fora um ligeiro agachar e esfregar, nunca mais terem de lidar com as suas próprias fezes era simplesmente demasiado apelativa. E foi assim que a sanita com autoclismo, que foi rapidamente expandida de modo a conter todas as novas instalações de saneamento inventadas para tornar os humanos menos nojentos, veio ao mundo.

Papelada

Há milhares de anos que os humanos produzem excremento, logo houve mais do que tempo para aprimorar a ciência de limpar o rabo. Mas papel higiénico, na sua primeira incarnação reconhecível (suave, descartável, próprio para a manutenção da subestrutura) só foi comercializado em 1857, e não foi um sucesso imediato.

Papel higiénico como nós o conhecemos — enrolado, perfurado e a esforçar-se imenso para não parecer um punhado de aparas de casca de árvore — foi lançado pela Scott Paper Company em 1890. No entanto, como eles queriam que ninguém soubesse que eram eles, venderam o produto directamente às farmácias e lojas através de subsidiárias, que por sua vez vendiam o vergonhoso produto à socapa. É preciso coragem para ser a primeira família com o nome estampado num produto concebido para traseiros sujos.

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Este complicado anúncio servia como uma espécie de vale, que uma pessoa podia entregar ao seu farmacêutico e receber papel higiénico em troca sem qualquer tipo de contacto visual.

Coragem essa que a família Scott finalmente demonstrou no início da década de 1900.

Portanto, como o papel higiénico ainda mal existia no século XIX, o que é que as pessoas usavam? Nos Estados Unidos, espigas de milho e papel de jornal eram os meios predilectos. A maioria dos estadunidenses tinham fazendas, ou pelo menos hortas onde plantavam milho.

As espigas eram guardadas, geralmente postas de molho para ficarem mais moles, e postas na latrina. Eram porosas e tinham o formato ideal para a função que desempenhavam. Páginas de catálogos e jornais também eram boas opções; o papel era fino e abundante. As pessoas costumavam martelar pregos nas paredes da casa de banho externa, nos quais penduravam todo o tipo de papel puído para uso posterior.

O continente europeu foi mais na direcção de lavar do que esfregar, pondo jarros e esponjas próximos da bacia onde as pessoas se escarranchavam e mergulhavam as suas partes obscenas até estas ficarem limpas. Uma raça já extinta de um tipo de cavalo pequeno e robusto chamado Bidet poderá ter sido a inspiração para o nome que acabou por ser atribuído a este aparelho.

O que mais usavam os vitorianos para se limpar depois de evacuações? Qualquer coisa que servisse. Folhas, trapos e até mesmo paus. Nenhum dos quais, eu prometo, terás de usar durante a tua visita. Posso ter-te tirado a calçada, mas deixo-te ficar com as macias páginas do catálogo anual da Sears, Roebuck.”

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