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Inês Henriques. "Este era o meu objetivo: motivar as mulheres para fazer 50 km. E consegui" /premium

Inês Henriques foi responsável pela criação dos 50 km marcha para mulheres. Foi campeã mundial e europeia, teve o recorde mundial. Mas falta algo: fazer a prova nos Jogos. E concorrência vai aumentar.

Cresceu em Rio Maior e parece querer morrer em Rio Maior. Da “infância bonita” no Ribatejo, lembra-se dos piqueniques com as primas, do pão que a avó cozia, da apanha do tomate, do trabalho a carregar lenha. Com apenas seis anos andava a pé oito quilómetros todos os dias para ir para a escola, ou não fosse Inês Henriques uma das melhores marchadoras do mundo.

Fala dos pais como quem fala de gente de muito trabalho, eles que sempre lhe “deram a cana” mas nunca lhe “deram o peixe”. E compara o esforço da marcha ao esforço de “muitos portugueses que fazem trabalhos muito difíceis, mas porque precisam verdadeiramente para levar o dinheiro para casa para se sustentarem”. Conta que em casa “nunca houve diferença entre ser homem ou ser mulher”. E foi mesmo pelas mulheres que a caminhada foi longa: Inês Henriques bateu o pé entre a Federação de Atletismo e a Justiça para que existisse pela primeira vez a prova feminina de 50 km marcha, quando já existia para homens, e conseguiu cortar a meta com sucesso – no tribunal e na prova.

Foi até maio de 2018 recordista e campeã do mundo dos 50 km marcha, registo que perdeu para a chinesa Liang Rui. Inês consegue fazer em pouco mais de quatro horas e cinco minutos uma distância equivalente à do percurso entre Lisboa e Torres Vedras e que conheceu nova melhor marca esta fim de semana, com outra chinesa, neste caso Liu Hong, a baixar pela primeira vez a barreira das quatro horas. Agora espera pela resposta do Comité Olímpico para ver se pode concorrer em 2020 nos 50 km. A “formiga atómica”, como chegou a ser chamada, é pequena mas quer  “coisas grandes” e promete o melhor até que o corpo ceda.

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A Inês cresceu e vive em Rio Maior. Quando era pequena andava todos os dias oito quilómetros para ir e voltar da escola. Fazia o caminho mais rápido do que os outros “cachopos” todos?
Eu ia com uma prima e às vezes lá nos íamos distraindo um bocado no caminho, porque íamos a brincar com tudo o que encontrávamos. Mas íamos a brincar, íamos a caminhar e nessa altura nem pensava.

Quando era pequena ainda não se notava o talento?
Não, não, não…

E estamos a falar de uma criança de que idade a fazer este percurso?
Seis, sete anos. Porque foi quando eu entrei para a escola. Os meus pais não tinham condições em termos logísticos de nos irem pôr à escola e não havia meios de transporte para lá, então íamos a pé.

O que é que se lembra da sua infância?
Foi uma infância bonita. Os meus pais tinham as dificuldades deles. Não éramos uma família nada de extraordinário: pessoas humildes que trabalhavam muito para me dar a mim e à minha irmã o melhor que podiam. Nós vivíamos num lugar que é a Estanganhola, onde os meus pais ainda vivem hoje. Éramos as quatro primas [Inês, uma irmã e duas primas] e brincávamos as quatro juntas, íamos para a escola juntas, fazíamos muitos piqueniques, andávamos a subir as árvores… Tudo normal daquela altura, em que não havia o que há hoje. Então brincávamos com o que havia porque estávamos mais retiradas da aldeia onde nós íamos para a escola, que era S. Sebastião. Nós vivíamos a quatro quilómetros lá do centro da aldeia e éramos as únicas crianças que lá havia. Então brincávamos umas com as outras. Fazíamos de tudo.

Por aquilo que me está a dizer, brincavam muito ao ar livre e tinham muito contacto com a natureza.
Sim. Sempre, sempre, sempre, sempre! Depois também íamos a casa dos meus avós, que ficava a dois quilómetros. Uma das coisas que adorávamos era quando a minha avó cozia pão e depois nós íamos lá com açúcar. O pão saído do forno… Púnhamos açúcar lá dentro e era assim uma coisa “maravilhástica” [risos] Então sempre que a minha avó cozia, que normalmente era no sábado à tarde, íamos para casa dos meus avós para comermos o pão logo saído do forno. Era uma coisa fantástica. E recordo-me de uma infância muito bonita, na qual não tínhamos tudo, mas tentávamos fazer as coisas de outra forma.

E gostou tanto do sítio onde cresceu que nunca saiu lá e continua a treinar lá.
Exatamente.

Inês, numa prova de marcha, com 12 anos

Chegou a trabalhar no campo?
Sim. Aos 12 anos fui para a apanha do tomate. A minha irmã foi. Ela é 22 meses mais velha do que eu e também fui experimentar. Trabalhava tanto como as mulheres, então recebia tanto como as mulheres. Sempre recebi o mesmo que as senhoras recebiam. E andei na apanha do tomate dos 12 anos aos 18. Isso nas férias. E depois disso os meus pais, como têm uma empresa própria de venda de lenha de carvão, eram ajudados por mim e pela minha irmã. Passámos a ajudar no negócio deles. Ajudávamos lá no carvão. Eu só ficava fora, não ia para dentro dos fornos. Ajudava a atar as sacas e depois eu e a minha irmã íamos levar a lenha aos clientes. A minha irmã já tinha carta. Os empregados lá em casa ajudavam a carregar e nós íamos descarregar a lenha aos diferentes lugares. A minha irmã já conhecia as terriolas todas onde nós íamos levar lenha e no sábado, basicamente, quando não tinha prova, fazia a distribuição da lenha, ou então treinava de manhã e à tarde ia ajudar a minha irmã. E muitas vezes os meus pais também forneciam lenha a padeiros, então de manhã carregávamos uma camioneta de lenha e depois à tarde ia treinar. Já tinha o reforço muscular feito [risos] Lá em casa, sempre foi assim: deram-nos a cana, nunca nos deram o peixe.

Ensinavam-vos a trabalhar e não vos davam tudo de mão beijada.
Exatamente! Sempre foi o lema dos meus pais e ainda bem que o fizeram. E educaram-nos de forma a que nós não dependêssemos de nada nem de ninguém. Eu vivo sozinha, faço tudo em casa. Há coisas para as quais não tenho tanta força, mas desenrasco-me. Às vezes dizem que o facto de fazer 50 km era algo só de homens. Em minha casa nunca houve diferença entre ser homem ou ser mulher. A minha mãe fazia trabalho de homem, que às vezes os empregados dos meus pais não queriam fazer e a minha mãe fazia. Por isso nunca houve ali diferenças de ser mulher ou deixar de ser mulher. Eu e a minha irmã éramos as únicas miúdas da escola com lambretas. Sempre fomos diferentes nesse aspeto, pela educação que nos deram. Os meus pais ofereceram-nos a mota, mas nós tivemos de trabalhar para as ter.

Numa entrevista ao jornal Público disse: “O que fiz foi muito duro, mas o que a minha mãe fez todos os dias é muito mais”. Porque é que disse isto?
Essa frase saiu com a maior naturalidade. E é verdadeiramente o que eu penso. Foi de alguma forma a frase pela qual as pessoas quiseram conhecer a Inês Henriques. O porquê? Porque uma ‘gaja’ que acaba de fazer cinquenta quilómetros e depois diz que o que a mãe faz todos os dias é que é verdadeiramente duro… Os meus pais, como já disse, têm um negócio de venda de lenha e de carvão. Eu andei lá e aquilo é verdadeiramente duro. E a minha mãe já com 60 anos continua a trabalhar. Ela não é uma mulher de se queixar. E é uma mulher que nunca consegue estar parada. Faço o que faço por muito prazer. É óbvio que isto foi algo que fui mantendo ao longo dos anos de carreira que tenho, mas continuo a ir fazer marcha porque gosto, porque me dá prazer. A minha mãe às vezes tem de andar lá porque é necessário, tem de ganhar o dinheiro. E eu sei que é duro porque estive lá. Essa minha frase foi sem pensar mas foi o que eu sinto e é para demonstrar que há muitos portugueses que fazem trabalhos muito difíceis, mas porque precisam verdadeiramente para levar o dinheiro para casa para se sustentarem.

E não ganham medalhas de ouro por isso.
Exatamente! Eu fiz o meu trabalho. Agora [n.d.r. na altura da entrevista] estou em estágio. Quem me paga este estágio são os contribuintes portugueses. Por isso nós temos de ser responsáveis naquilo que estamos a fazer. E levanto-me todos os dias para fazer mais e melhor porque são as outras pessoas que me estão a pagar isto. Por isso, tenho de ser responsável pelo que faço. Lá está, como os meus pais, que tinham de pagar os impostos e essas coisas todas e eu via a dificuldade deles. Sempre valorizei esse aspeto e nunca gostei de brincar com o dinheiro dos outros, com o esforço dos outros.

No princípio só corria, depois comecei a marchar. E de alguma forma, como não me sentia tão boa em termos escolares e era uma pessoa como outra qualquer, senti que me podia destacar das outras miúdas. Mas como algo que podia ser para a minha vida, foi muito rápido – entrei para o atletismo em 1992 e em 1996 já estava num Campeonato do Mundo de juniores.

Lembra-se do dia em que percebeu que podia fazer da marcha a sua profissão?
Inicialmente, comecei [com 12 anos] na brincadeira. Comecei por ir às provas das freguesias. No princípio só corria, depois comecei a marchar. E de alguma forma, como não me sentia tão boa em termos escolares e era uma pessoa como outra qualquer, senti que me podia destacar das outras miúdas. Mas como algo que podia ser para a minha vida, foi muito rápido – entrei para o atletismo em 1992 e em 1996 já estava num Campeonato do Mundo de juniores. Mas, verdadeiramente, fui criando esta coisa de querer ser mais e melhor e destacar-me mesmo em termos mundiais no atletismo quando fui aos Jogos Olímpicos de Atenas, em que fui a 24.ª, e foi uma frustração. Primeiro queria lá estar, depois senti-me frustrada porque não queria apenas estar. Quero estar nas melhores do mundo e a minha dedicação foi desde sempre essa.

Mas começou por correr?
Normalmente em Rio Maior fazíamos de tudo. Como a Susana Feitor tinha sido campeã do mundo em 1990, de alguma forma nós começávamos a correr e o Jorge Miguel [treinador] perguntava se queríamos marchar e basicamente todos passávamos pela marcha na brincadeira. Mas eu, como em 1993 fui logo campeã de infantis, pronto… E tinha jeito. Adquiri logo o aspeto técnico muito facilmente. Às vezes os miúdos não conseguem fazer.

Aquele gingar de anca?
Há duas regras que temos de cumprir e rapidamente adquiri o gesto. Nos infantis e nos iniciados comecei logo a ter bons resultados. E na altura tinha um grupo grande, pelo facto de a Susana ter sido campeã. É normal que onde exista um atleta de referência os outros tentem ir fazer o percurso e havia muitos jovens na altura a fazer marcha. E era uma forma de nós sairmos de Rio Maior, porque existiam várias provas em termos nacionais de marcha e era uma forma também de conhecer o país. Eu e a minha irmã não tínhamos assim grandes coisas, grandes passeios, e assim íamos conhecendo e íamo-nos divertindo também.

Inês, numa prova de marcha, com 15 anos

E quais é que são essas duas regras da marcha?
Temos de ter sempre um pé em contacto com o solo e quando entramos com a perna de apoio temos de ter o joelho esticado. Podemos dar duas faltas. À terceira o juiz chefe mostra-nos a placa vermelha e temos de sair.

Quando vi os seus vídeos no Youtube e fazer marcha, a Inês parecia uma mulher muito alta. Pensei “Esta mulher tem pelo menos 1,70m”. E depois vi na internet que a Inês tinha 1,56m.
[Gargalhada] Eu sou a mais pequena delas todas!

Deve dar mais passos do que as outras.
Havia um amigo meu que já faleceu, mexicano, que me chamava “formiga atómica” [Gargalhada] Porquê? Porque tenho de ser muito rápida em termos de pernas. Agora já estou melhor, mas tinha um problema técnico porque era pequena mas queria fazer uma passada enorme. Entrava em suspensão com facilidade. Agora digo que sou pequena, mas que quero coisas grandes. Nunca pensei pequeno. Pequeno só de tamanho mesmo. Tenho de ser bastante rápida em termos de movimento da anca para conseguir andar mais depressa, mas, pronto, as pequenas também conseguem. Sou maior que o meu pai dois centímetros.

A Inês é pequena mas é grande, como já vimos, e é praticamente a embaixadora dos 50 km marcha. Não só por ser campeã do mundo, mas também por ser a responsável por esta competição existir. Como é que isso aconteceu?
Inicialmente quem começou a lutar pela introdução dos 50 km foi uma americana [Erin Taylor]. E ela conseguiu, pela primeira vez, que as mulheres tivessem os 50 km, no Campeonato do Mundo de Equipas, em Roma, em 2016. Foi um advogado que a ajudou. Com pressão, a Federação Internacional, no final de 2016, disse que iria certificar o primeiro recorde do mundo em 2017 e que as mulheres poderiam estar no Campeonato do Mundo, mas os mínimos eram iguais aos dos homens e era uma prova mista. Isso não acontece em desporto nenhum! E o meu treinador [Jorge Miguel] percebeu, depois dos Jogos Olímpicos, em que eu tinha sido a 12.ª, o meu melhor resultado nos Jogos Olímpicos, os meus terceiros Jogos Olímpicos, com 36 anos… Percebeu “Esta gaja precisa de algo diferente, caso contrário vai acabar a terminar a carreira”.

E o que fez?
Primeiro andou a mandar emails para ver se poderia ser mesmo assim, se poderiam estar no Mundial, mas numa prova mista sem direito a nada. Disseram-lhe que sim  e ele posteriormente chamou-me à parte… Iria existir uma prova de 35 km no Campeonato de Portugal, dia 15 de janeiro. Isto era final de novembro. Ele chamou-me à parte e perguntou: “Ouve lá, tu queres ser a primeira recordista do mundo dos 50 km?”. E eu: “Então mas isso é para quando?”. “Tens 24 anos de trabalho. Depois começamos a treinar, vemos como é que tu reages e, se tudo correr bem, lançamos para a comunicação social que tu vais tentar o primeiro recorde do mundo dos 50 km”. E depois disse-me: “Mas tem de ser melhor do que a melhor marca de registo, que é 4 horas, 11 minutos e 59 segundos, de uma bielorrussa. E também vamos tentar que tu faças os mínimos dos homens”. O mínimo para eu poder estar no Campeonato do Mundo, que era quatro horas e seis minutos…

Inês Henriques e o seu treinador, Jorge Miguel.

Eram as tais exigências que tinham feito para a prova mista?
Exatamente. Ainda disse: “E vais ao Mundial, nem que seja sem direito a nada, para provar que as mulheres conseguem fazer 50 km, tu no meio dos homens”. Fui para casa e no fim de uma hora e meia ou duas horas disse-lhe: “Ok. Faça o plano de treino.” Sem pensar muito [risos] Para fazer 50 km não se pode pensar muito. No dia 15 de janeiro lá estava a Inês. Primeiro quando anunciámos, toda a gente estava a dizer que era louca, que uma prova de 50 km era só para homens. E aquilo só me motivou mais. Pensei: “Porque é que as mulheres  não fazem?” Sempre treinei com homens e muitas vezes são eles que não acabam o treino. Faço da minha forma, faço mais lento, mas faço. E, de alguma forma, tive muita gente a chamar-me louca, mas muita gente a incentivar-me em termos internacionais. Quando eu aceitei o desafio falámos com a Federação para estar tudo legal, porque o recorde do mundo para ser certificado tinha de ter várias regras que nós tínhamos de cumprir em termos de circuito, em termos do doping, em termos do número de juízes internacionais, etc. Então tivemos sempre em cima desses aspetos para posteriormente marca ser certificada como recorde do mundo. E pronto! Fui para a prova, inicialmente muito bem. Diverti-me. Convidei as pessoas de Rio Maior para irem assistir. Começaram a chegar quando á tinha 20 quilómetros. Mas depois dos 25 para os 30 comecei-me a entusiasmar e aumentei muito o ritmo. O meu treinador estava em pânico e depois comecei a ceder aos 38 km. E os últimos seis foram muito duros e fiz a prova em 4.08.26.

Mas bateu o recorde da última nessa altura?
Exatamente. Fiz o recorde do mundo. Fui melhor que a melhor marca que existia. Não era certificada. E a minha foi a primeira que foi certificada. Fica na história para sempre. Mas não fiz os mínimos, que era as quatro horas e seis minutos. Se não me tivesse entusiasmado tanto, ia para as quatro mas pronto, foi o que foi. Tinha de fazer uma marca para manter a participação olímpica os 20 km, porque os 50 km não sendo olímpicos não me davam nada. E então, por outros problemas, só consegui fazer isso na Corunha em junho [de 2017]. Só posteriormente é que pedi à Federação Portuguesa de Atletismo para falar à Federação Internacional para poder estar no Campeonato do Mundo. E depois percebi que só a Federação não chegava e fui falar com o responsável do comité de marcha da IAAF. E ele disse que me ia ajudar, mas depois não me dizia nada.

E treinou mesmo sem saber se ia fazer os 50 km?
Treinei para o Campeonato do Mundo de 2017, para os 50 km, sempre sem saber que ia fazer 50 km. Mas posteriormente fui tendo feedback do italiano. A Federação dizia “Esquece, eles não te vão deixar” e eu dizia “Mas já têm uma resposta negativa?”. Fui teimosa, muito teimosa! Queria estar no Campeonato do Mundo e já tinha o trabalho todo feito, aguentava mais três semanas e ia aos Estados Unidos. E entrei em contacto com ela. O advogado, que é o Paul DeMeester, disse-me que ajudava porque já estava a tentar introduzir os 50 km com essa atleta americana. Pelo facto de ela não ter uma marca de referência, não estava a ser suficientemente forte; quando entrou o meu processo, já teve mais força. Porquê? Porque era a recordista do mundo. Então só a duas semanas do Campeonato do Mundo é que tive a resposta de que podia estar nos 50 km. Porquê? Porque o Paul conseguiu alterar o mínimo de quatro horas e seis minutos para quatro horas e 30 minutos e uma prova só para nós [mulheres]. Em que nós fazíamos todos juntos [homens e mulheres] mas que existia classificações separadas com direito a tudo como as outras todas. Quando recebi o email pensei “Não, isto não é verdade”! Não estava a acreditar que a Federação Internacional cedesse tanto.

A Federação Internacional cedeu muito mais que o que estava à espera porque o advogado pôs sempre as questões de género e nós temos ganhado sempre todas as causas pela questão de género. E então todas as mulheres que tinham menos de 4 horas e 30 minutos podiam estar no Campeonato do Mundo.

E qual foi a estratégia?
Cederam muito mais que o que estava à espera porque o advogado pôs sempre as questões de género e nós temos ganhado sempre todas as causas pela questão de género. E então todas as mulheres que tinham menos de 4 horas e 30 minutos podiam estar no Campeonato do Mundo. E por isso é que éramos só sete à partida. Porque isto foi duas semanas antes da prova. Foi no dia seguinte a fazer o meu treino longo de 40 km! Fiz um treino longo de 40 quilómetros  sem saber que ia fazer a prova. Psicologicamente, tive de interiorizar que ira lá estar. Algo me dizia que iria conseguir lá estar. E interiorizei isso de forma tão forte na minha cabeça que estive. E consegui todos os meus objetivos, que eram ser campeã do mundo, com recorde do mundo, e menos de quatro horas e seis minutos. Para provar à IAAF que sim, que nós mulheres conseguíamos fazer menos do que quatro horas e seis minutos. Porquê? Porque eles colocaram o mínimo de quatro horas e seis minutos para nenhuma mulher conseguir lá estar. E eu queria fazer menos de quatro horas e seis minutos!

Nos Jogos Olímpicos vai haver 50 km de marcha?
Eu e mais quatro atletas estivemos no congresso da Federação Internacional, no Mónaco, no início de dezembro [de 2018]. Porque a questão dos 50 km não estava na agenda, mas o advogado preparou tudo para nós lá estarmos. Foi ele que nos convidou e que nos pagou tudo, para que a nossa estadia lá fizesse pressão para que a questão dos 50 km fosse introduzida no congresso. E nós conseguimos que a Federação Internacional recomendasse ao Comité Olímpico Internacional (COI) a introdução dos 50 km marcha femininos. Sei que é em março que vai haver uma reunião do COI e essa questão vai ficar resolvida. Só falta o parecer do COI. Mas o COI já tinha dito ao Comité Olímpico Equatoriano, que tinha solicitado a introdução dos 50 km, que isso estava nas mãos da Federação Internacional. Por isso, se eles dizem que vão na recomendação da Federação Internacional, tem toda a lógica aprovarem. E o COI é sensível às questões de género. De qualquer forma, o meu advogado mandou uma carta a dizer quem era, com quem trabalhava e se não fosse a bem de uma forma, iria ser a mal.

20 km marcha, Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.

Então está mais uma vez à espera de saber se vai poder fazer os 50 km naquela que provavelmente é a maior prova de desporto do mundo?
Os Jogos Olímpicos é sem dúvida a mais importante de todas.

A Inês já foi a três Jogos Olímpicos, a fazer 20 km. E disse que o seu treinador reparou que talvez se estivesse a desmotivar. De qualquer forma, foi sempre progredindo.
Fui 24.ª [Atenas, 2004], 14.ª [Londres, 2012], porque houve desclassificações de doping, e depois 12.ª [Rio de Janeiro, 2016].

Se o COI ceder e houver os 50 km, que é a prova da qual é embaixadora, acha que vai conseguir trazer o ouro para casa?
É assim: tenho a noção de que agora mais atletas vão surgir, com mais qualidade e tudo vai ser mais difícil. Mas de certa forma estou a trabalhar para isso. Vou trabalhar o melhor que puder e vou tentar fazer o meu melhor. Não prometo medalhas, não prometo ouro, mas vou fazer o meu melhor. E é óbvio que vou lutar para lá estar e para trazer o melhor lugar possível, mas tenho consciência de que a cada altura que se passa mais atletas de qualidade que estão nos 20 km, e que também acham que nos 20 km  já não conseguem resultados tão bons, vão passar para os 50 km. E vou ter luta, mas esse era o meu objetivo: era motivar as mulheres para fazer 50 km. Dei o exemplo e estou feliz por outras mulheres verem que verdadeiramente era possível e que também estão a apostar. Essa era a minha intenção. Fiquei feliz por no Campeonato do Mundo de equipas estarmos mais de 30 atletas, no Campeonato da Europa também. Este era o meu objetivo: motivar as mulheres para fazer 50 km. E consegui. Agora tenho de ir à luta, tenho de trabalhar mais e melhor, para conseguir os mesmos lugares.

E também provou que as mulheres conseguiam fazer a marca das 4.06.00.
Sim, fiz 4.05.56.

Inês, na chegada ao aeroporto Humberto Delgado depois de ter conquistado o ouro e batido o recorde do mundo nos 50 km marcha, em Londes, 2017.

A Inês tem 38 anos e ainda compete. O que para alguns desportistas não é muito comum. Quando o seu corpo não for capaz de prosseguir, o que é que pensa fazer?
Sou licenciada em enfermagem. Neste momento tenho um apoio em termos do Complexo Desportivo de Rio Maior. Sou embaixadora do complexo e de Rio Maior, porque representei sempre o meu clube de origem, que é Clube de Natação de Rio Maior. Mas mais do que representar o clube, é representar a minha cidade. Depois do Campeonato do Mundo podia ter tido a opção de mudar de clube, mas não fazia sentido. Já representava o meu clube há 25 anos, a minha terra. E quero sempre que o nome Inês Henriques esteja associado a Rio Maior. O meu objetivo é esse. E vou fazer um contrato com o Complexo Desportivo de Rio Maior, para que quando terminar a minha carreira desportiva tenha a opção de ficar lá a trabalhar nas funções para as quais sou licenciada.

Como enfermeira?
Como enfermeira ou massagista, porque tenho o curso de massagem terapêutica desportiva. É óbvio que prefiro estar a trabalhar no desporto do que ir para um hospital ou um centro de saúde.

Então já é certo que quando acabar continua em Rio Maior, na terra onde sempre esteve e sempre gostou de estar?
Exatamente. Há que aproveitar, não é?

Justamente. A Rosa Mota venceu há pouco tempo a mini-maratona de Macau, aos 60 anos, três décadas depois de vencer o ouro na Coreia do Sul. Imagina-se a fazer algo parecido aos 60 anos, não em maratona mas em marcha?
[RisoS] Ai, não sei! Não faço a mínima ideia. É óbvio que vou sempre praticar desporto. agora estive lesionada sete semanas sem poder marchar e estava com umas saudades imensas de correr e marchar. E é algo que como fiz durante tantos anos… Tenho mais anos de atleta do que anos sem ser atleta. Comecei isto aos 12 anos. Por isso é algo que vou fazer sempre. Agora, se vou competir ou não vou competir, não faço a mínima ideia agora. Pelo menos vou fazer para ter prazer.

Houve uma frase que o professor Queiroz disse ao meu treinador há muitos anos: "O português tem mais inveja do que admiração pelo nosso sucesso". Senti muito isso nos últimos tempos.

Tal como falámos no começo, a Inês cresceu num meio pequeno, em Rio Maior, e nota-se que tem uma ligação bastante forte com a sua terra. De que forma é que ter nascido nesse local contribuiu para a pessoa que é e para a sua formação?
Rio Maior era uma terra que não tinha nada a ver com o desporto, mas  o Presidente da Câmara, o doutor Silvino Sequeira, tinha o sonho de criar uma cidade do desporto. E através dos resultados que a Susana Feitor obteve também teve a oportunidade de conseguir dinheiro para a construção da pista e da piscina. E sem dúvida alguma sou o que sou porque Rio Maior também me deu as condições para tal. O doutor Silvino Sequeira é o homem que revolucionou Rio Maior e deu condições de excelência aos atletas. Neste momento estou fora de Rio Maior mas normalmente toda a minha preparação, exceto altitude, é em Rio Maior. Porque tudo o que necessito em Rio Maior. E sem dúvida nenhuma que nós em Rio Maior temos vários atletas de grande referência em termos da marcha, pelo Jorge Miguel, o meu treinador, que nos formou a todos, e pelas condições que temos para podermos treinar.

O que é que diria àqueles que diziam que as mulheres não eram capazes de marchar 50 km?
Que nós conseguimos [risos] De alguma forma eu provei isso. Está feito. Está demonstrado. E quando fiz em Porto de Mós, a 15 de janeiro de 2017, em termos nacionais porque… Houve uma frase que o professor Queiroz disse ao meu treinador há muitos anos: “O português tem mais inveja do que admiração pelo nosso sucesso”. Senti muito isso nos últimos tempos.

Ouviu muitas críticas?
De alguma forma houve muita gente que questionou o que tinha feito em termos do resultado. “Aquilo não valeu nada”. Houve pessoas a dizer isso e duvidaram do que fiz. E então isso deu-me ainda mais força para tentar lutar para estar no Mundial. Queria estar no Mundial e o mundo inteiro estava a ver que iria fazer 50 km com grande qualidade e que ninguém poderia duvidar do que eu fiz. E isso consegui.

Inês Henriques exibe a melhada de ouro durante a cerimónia dos 50 km Walk of Atlhletics 2018 em Berlim, 2018.

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