Investimento europeu cria emprego e inovação

06 Março 2018131

Produzir amêndoas ou vinho no Alentejo, criar um centro de tecnologia no interior do país ou desenvolver ideias inovadoras na saúde são exemplos de projetos made in Portugal com o apoio europeu.

O Plano de Investimento para a Europa, também conhecido por Plano Juncker, já disponibilizou 53 mil milhões de euros, montante que Bruxelas espera que mobilize 264,3 mil milhões de euros em investimentos na Europa.

A seguir à Estónia, Grécia e Bulgária, Portugal é o quarto maior beneficiário em percentagem do PIB deste plano criado no início da presidência de Jean-Claude Juncker, em 2014.

O financiamento destinado a Portugal ao abrigo do Fundo Europeu para Investimentos Estratégicos (FEIE), o principal instrumento financeiro do mesmo plano, atingiu já 2 mil milhões de euros, esperando-se que este valor gere 5,8 mil milhões de euros em investimentos. Do total, mil milhões de euros dirigiram-se a projetos de infraestruturas e inovação e 998 milhões a Pequenas e Médias Empresas (dados de fevereiro de 2018).

Apoiar ideias para melhorar a educação, modernizar os cuidados de saúde, estimular a ciência e tecnologia ou tornar as infraestruturas mais eficientes fazem parte do ADN dos investimentos no contexto do investimento europeu. E mesmo quando outros investidores hesitaram, a União Europeia interveio para dar oportunidades a quem acreditava que podia fazer a diferença.

É com o apoio da União Europeia que projetos únicos em Portugal têm conseguido crescer e solidificar-se, de Norte a Sul do País e em regiões interiores. Conversámos com os responsáveis por sonhos que se tornaram realidade e descobrimos as histórias por detrás do financiamento europeu.

Herdade do Rocim: Tradições familiares renascem no Alentejo

“Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce”. A frase do poeta Fernando Pessoa inspira o quotidiano da Herdade do Rocim, localizada entre a Vidigueira e Cuba, no Baixo Alentejo, com cerca de 120 hectares, dos quais 70 são de vinha e 10 de olival.

As tradições familiares conquistaram Catarina Vieira. Licenciada em Engenharia Agronómica e pós-graduada em Enologia, a empresária seguiu os passos dos avós da região de Leiria.

O maior desafio é conseguir reunir todos os ingredientes necessários para atingir o sucesso. Manter a constância na qualidade do produto, aliás produzir com cada vez mais qualidade.

Na viragem do século, a propriedade foi adquirida pelo grupo Movicortes, fundado por José Ribeiro Vieira, e nasceu um sonho de pai e filha para cruzar saberes novos e antigos com a missão de produzir vinhos de qualidade. Atualmente produzem-se cerca de sete castas de vinho brancas e dez tintas, aprimorando-se o terroir da região, caracterizado por vinhos frescos, elegantes e minerais. “O maior desafio é conseguir reunir todos os ingredientes necessários para atingir o sucesso. Manter a constância na qualidade do produto e produzir com cada vez mais qualidade”, sublinha Catarina Vieira.

O vinho produzido na Herdade do Rocim é exportado para 27 países, nos quais se incluem a Alemanha, a Suíça, a Bélgica, os Estados Unidos, Angola e Japão, entre outros. A empresária acredita que só com “empenho, dedicação, rigor e profissionalismo” se podem atingir bons resultados. No projeto foram investidos mais de oito milhões de euros, com o apoio de vários fundos da União Europeia.

Herdade das Amêndoas Doces: Modelo da Califórnia nasce no Alentejo

No Alentejo produzem-se amêndoas doces da Califórnia. “Sabendo que existem variedades da amêndoa californiana procuradas no mercado internacional foi fácil adaptar o modelo norte-americano ao Alentejo”, explica José Leal da Costa. “O clima é semelhante e faço tudo como fazia lá”, garante.

Uma vida dedicada às amêndoas, sete dias por semana, muitas vezes mais de 12 horas de trabalho. Esteve 20 anos na Califórnia, mas sempre sonhou com o Alentejo. “Os meus pais são de Évora e desejei desde criança viver em Portugal”, sublinha.

Sabendo que existe procura no mercado internacional das variedades da amêndoa californiana foi fácil adaptar o modelo americano ao Alentejo

Sem a água da barragem do Alqueva não teria sido possível concretizar esta aventura e nunca teria nascido o projeto de agricultura. “Neste momento, já temos abelhas no campo prontas para fazerem a polinização. Para se conseguir ter uma colheita de sucesso precisamos de água e de abelhas, que fazem uma grande parte no que respeita à quantidade de produto que conseguimos por hectare”, explica.

A primeira colheita dos 200 hectares de amendoal no Alentejo vai acontecer em agosto de 2018 e terá como destino apenas o mercado internacional. “Já tenho escoamento do produto para Inglaterra, Alemanha, Suíça, Índia e China, entre outros”, assegura.

A amêndoa californiana distingue-se por exemplo da espanhola. No sabor é mais adocicada e na aparência mais dourada. “A nossa amêndoa é muito apreciada a nível internacional, porque é apelativa visualmente. As pessoas muitas vezes compram com os olhos”.

Na Herdade das Amêndoas Doces o investimento situou-se acima dos três milhões de euros, financiados em 40% pela União Europeia.

BLC3: Tecnologia e Inovação impulsionam interior

Um jovem engenheiro sonhou com um centro de inovação no interior do país para transformar a floresta numa fonte de riqueza. João Nunes colocou mãos à obra e hoje com 35 anos lidera a BLC3, um Campus de Tecnologia e Inovação, com sede em Oliveira do Hospital.

Localiza-se numa zona fortemente atingida pelos incêndios florestais do ano passado. O jovem empresário, natural daquele concelho, considera que o problema dos fogos está relacionado com a falta de soluções para valorizar os recursos

A BLC3 localiza-se numa zona fortemente atingida pelos incêndios florestais do ano passado. O jovem empresário, natural daquele concelho, considera que o problema dos fogos está relacionado com a falta de soluções para valorizar os recursos, em particular a biomassa (giesta, carqueja, silva, acácias, etc).

É na área da biorefinaria que está a grande aposta da BLC3 com o objetivo de valorizar matos incultos que podem ser convertidos, por exemplo, num substituto do petróleo. “Existem três milhões de hectares de mato inculto, mais de 30% do território não tem atividade económica e esse é um dos grandes problemas relacionado com os incêndios florestais”, alerta.

Para concretizar a biorefinaria já existe uma pré-candidatura aprovada a fundos comunitários para o projeto de demonstração industrial, no valor de 125 milhões de euros. “O reconhecimento internacional da União Europeia é muito importante. A mentalidade de Portugal é desconfiada e não acredita que nas regiões do interior possa nascer um projeto como este”, considera o jovem empresário.

O centro tecnológico desenvolve também projetos agroalimentares inovadores e tem no campus uma incubadora que reúne 22 empreendedores. “Queremos fixar investimento, tecnologia e novas indústrias no interior. É uma das principais missões da BLC3”.

Biosurfit: Análises clínicas na hora

A Biosurfit está a revolucionar o mundo das análises clínicas. Com o recurso a alta tecnologia e a uma gota de sangue apresenta em apenas cinco minutos, ou menos, um diagnóstico médico rigoroso.

Percebi que a tecnologia na qual estava a trabalhar poderia ser utilizada para obter resultados de análise ao sangue de forma precisa, menos dolorosa e rápida. E assim nasce a Biosurfit.

A história da empresa surgiu de uma “necessidade real”. Um dos filhos do fundador estava com febres altas e uma infeção respiratória: “Com apenas dois anos não estava a ser nada fácil fazer a picada para colher a amostra de sangue que demoraria dois dias até obter o resultado”, explica João Fonseca, doutorado em Física, e que na época estava a desenvolver investigação num outro projeto. “Percebi que a tecnologia na qual estava a trabalhar poderia ser utilizada para obter resultados de análise ao sangue de forma precisa, menos dolorosa e rápida. E assim nasce a Biosurfit”, conta.

Estávamos no ano de 2006. Foram necessários vários anos de investigação até conseguir criar uma pequena máquina de diagnóstico registada como Spinit e atualmente exportada para os Países Baixos, Suíça, Áustria e Reino Unido.

Para concretizar o projeto, o investimento europeu foi essencial. “Na área da biotecnologia são necessários investimentos muito grandes com um retorno a longo prazo. Nesta fase de crescimento e expansão global, os investimentos em diferentes áreas de inovação permitiram a construção da nova unidade fabril e da nova linha de produção automatizada”, explica o fundador da Biosurfit.

Laboratórios Basi: nova unidade vai criar mais de 100 empregos

Com sede em Mortágua, os Laboratórios Basi, do grupo FHC Farmacêutica, marcam presença em 60 mercados internacionais, com destaque para os países africanos de língua portuguesa. Fundados em 1956, dedicam-se ao desenvolvimento, fabrico e comercialização de produtos farmacêuticos e soluções terapêuticas. A garantia da experiência alia-se às tecnologias inovadoras com o apoio do financiamento europeu.

Os Laboratórios Basi preparam-se agora para criar uma nova unidade de produção que permitirá implementar mais de 100 postos de trabalho no distrito de Viseu. O projeto tem um investimento que rondará os 40 milhões de euros e metade será financiado pela União Europeia.

A garantia da experiência alia-se às tecnologias inovadoras com o apoio do financiamento europeu.

O ano de 2012 foi um marco para os Laboratórios Basi na medida em que foi inaugurada uma Nova Unidade de Produção, com capacidade para produzir 45 milhões de unidades por ano, obedecendo a altos padrões tecnológicos e níveis de automação, com um investimento de 15 milhões de euros.

No terreno, o Laboratório de Controlo e Qualidade é já uma referência a nível internacional, agregando todos os recursos necessários para realizar qualquer tipo de análise a qualquer tipo de produto, material ou forma farmacêutica.

Para saber mais sobre as empresas dos 16 Estados-Membros reconhecidas pela Comissão Europeia como bons exemplos da aplicação de investimento europeu, consulte o site InvestEU.

Conteúdo produzido pelo Observador Lab. Para saber mais, clique aqui.
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