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Isabél Zuaa. "Achava que no mundo das artes não ia encontrar preconceitos" /premium

A atriz portuguesa é uma das protagonistas de "Um Animal Amarelo", filme que chegou agora às salas. Em entrevista, Isabél Zuaa fala do Brasil como aprendizagem, de Portugal como desafio e do futuro.

“Um Animal Amarelo”, filme de Filipe Bragança, é um conto que desafia e descontrói os esterótipos (e as dores) criados pelo colonialismo português, há uma voz que nos guia. Que nos provoca, que inquieta mas que também nos condena. Porque mesmo que esta coprodução luso-brasileira seja ficção, não quer dizer que não seja real. É a mesma voz, mas agora mais suave, relaxada — e sobretudo resolvida — que surge do outro lado do telemóvel em conversa com o Observador. Pertence a  Isabél Zuaa, atriz portuguesa, com ascendência africana e que viveu no Brasil e que é uma das protagonistas deste filme que se estreia agora nas salas portuguesas.

Houve uma ideia transversal em toda a entrevista: a de que Isabél Zuaa anda, feliz, a descobrir quem é, mesmo já contando com uma sólida carreira na área — acabou de vencer o prémio de melhor atriz pelo seu trabalho neste “Um Animal Amarelo” no Festival de Cinema do Gramado, no Brasil, e foi protagonista da peça “Aurora Negra”, no Dona Maria II. E nunca esquecendo de onde vem — da periferia de Lisboa, em Loures, a sua “principal formação”, onde jogou à bola, fez kickboxing, cantou, dançou e contactou com a sua história africana — ou por onde passa, que pode ser do outro lado do Atlântico ou mesmo na Europa.

Foi para o Brasil, quando tinha apenas 22 anos, depois de ter passado pelo Conservatório em Lisboa e no Chapitô, à procura de mais. Cinco meses duraram oito anos. “Não me contentei com o que as pessoas achavam que era o melhor para mim”. Foi lá que pôde partilhar a sua cultura “sem constrangimentos”, com auto-estima, trabalhando as questões da identidade com as crianças ou explorando partes da sua história ou dos seus pais que nem sequer viveu. Acabou por regressar a Portugal, a sua casa, com saudades da família e dos sobrinhos. E mesmo tendo já ganho todo este reconhecimento, feito inúmeros trabalhos em cinema, televisão e teatro, continua a ser parada no aeroporto de Lisboa por ser negra. “Mesmo depois de todas as viagens que fiz, continuo a ser parada no ‘Declaro/Não Declaro’. Mesmo tendo nascido aqui. Estou a chegar a casa e estas são as boas vindas que recebo sempre. Já filmei, já os chamei de racistas, mas agora prefiro rir e olhá-los nos olhos”, conta.

A “Aurora Negra” destas três mulheres chegou finalmente: “Aquilo que achas que eu sou não existe”

Mesmo no meio dessa revolta, Isabél Zuaa mantém-se positiva, ao contrário de Catarina, a sua personagem em “Um Animal Amarelo”, mulher moçambicana poderosa, que transporta as mágoas de um país destruído, violado, que o império explorou e esqueceu. É na ficção que a atriz estabelece o seu limite, porque além de ser um dever o artista refletir os seus tempos, como defende Nina Simone, uma das suas inspirações, “é também um privilégio”. Fora dos palcos e das telas, prefere perdoar. Reconhecer a pequenez do outro, a sua limitação. Tudo graças à meditação. “Há 4 anos que pratico  Oponopono, uma meditação do Hawai. Ajuda para quem te odeia e para quem te ama”, diz.

Isabél Zuaa, além do que já fez e ganhou, tem projetos por estrear, continua a escrever porque não consegue existir sem ser para criar. Porque sente que é preciso continuar a quebrar preconceitos. A sua luta não está nas redes sociais. Está, sobretudo, no seu trabalho. Confessa que não o faz por ela, mas pelos que vêm a seguir: os mais novos, miúdos e miúdas negros/as que precisam de ter a oportunidade de sonhar. Mas, já agora, que o prestígio e reconhecimento que vai conseguindo lhe permitam sentar-se à mesa com mais contemporâneas suas, como Michaela Cohen (“I May Destroy You”) ou Issa Rae (“Insecure”). “É surpreendente perceber que temos pensamentos que se cruzam, que estão ali lado a lado. A minha vida tem-me dado oportunidade de trabalhar com pessoas que nunca pensei dentro da minha pequenez. Espero mesmo trabalhar com elas. Que a HBO ou a Netflix organizem um encontro entre atrizes e guionistas contemporâneas. Fica a ideia para o universo”, termina.

[o trailer de “Um Animal Amarelo”:]

Vi muita gente revoltada porque o prémio que venceu agora no Festival de Cinema de Gramado, no Brasil, com este “Um Animal Amarelo”, passou despercebido nos media portugueses. Isso incomoda-a? Não é isso que me interessa nem no que estou focada. Sensibilizei-me com os meus colegas que ficaram muito indignados, e nem é a primeira vez que acontece. Faz parte do meu dia-a-dia. De alguma forma, no Brasil tenho tido um maior fluxo de trabalho nos últimos anos e talvez, por isso, o reconhecimento seja um pouco maior lá do que aqui. Mas, muito sinceramente, não me foco nisso. Prefiro focar-me nas concretizações e realizações e não nas frustrações ou ausência de. Não tenho nem tempo, confesso.

Está sempre a olhar para a frente.
Sem dúvida. É uma honra incrível ser reconhecida por um trabalho. Por este não estava à espera. É muito simbólico e importante num ano tão complexo estrear uma peça no D. Maria II [“Aurora Negra”]. Ganhar prémios. Poder fazer as minhas coisas. Isso é muito mais importante do que o reconhecimento da comunicação social portuguesa. Não sabem quem eu sou, também não sei quem são. Sem ressentimentos, a sério, mesmo. Até porque quando partilharam essa indignação, não me sentia prazerosa de o fazer. Gosto de partilhar coisas boas ou denúncias, mas não me sentia à vontade para replicar esta partilha. Fico feliz por ter amigos e amigos de amigos sensibilizados para isso, mas não é isso que quero para mim.

Prefere que a sua luta se espelhe no seu trabalho. Que a sua presença se faça nos palcos ou atrás das câmaras e não tanto nas redes sociais.
Sim. É isso que tem acontecido. Quando fiz cá o Conservatório fui fazer um intercâmbio para o Brasil em 2010. Queria trabalhar e não via possibilidades aqui. Ainda tenho essa garra. Criei essa possibilidade. Partilhar coisas, escrever, dirigir e tem acontecido. Sou um ser muito criativo, preciso de fazer algo criativo todos os dias, seja cantar ou dançar, mesmo estando de férias. Muitas vezes não partilho, mas fazem sentir-me muito bem.

Olhemos para o seu percurso no Brasil. Eram só para ser uns meses e tornaram-se muitos anos. Muita gente diz que pode ser um país mais racista que o nosso. A Isabel deu de caras com essa encruzilhada mas deu a volta, não?
Nós adquirimos estratégias de sobrevivência. As convenções vão mudando nos lugares, mas os efeitos são quase os mesmos. O Brasil tem uma herança racista, sim, mas como nasci em Lisboa, tinha algumas propostas, queria mais. Não me contentei com o que as pessoas achavam que era o melhor para mim. Tenho uma intuição de que gosto de trabalhar dentro das minhas escolhas. Tive uma professora brasileira de teatro no Chapitô que me falava dos espectáculos de teatro lá. E quando saímos do nosso lugar de conforto, ou de desconforto também, e viajamos é a melhor forma para nos conhecermos. Percebemos o que estamos a perpetuar. Sinto muito isso a cada vez que viajo. Às vezes penso que quero mesmo voltar para Portugal. Mas lá partilhei a minha cultura sem constrangimentos, talvez por ser fora do meu país. Na faculdade, dei aulas de kuduru e funaná, que foi algo que aprendi na infância. A professora de dança disse: “uau, por favor, todas as quartas-feiras podes dar aula à turma?”. Respondi que nunca tinha dado aulas, que só aceitava se fosse uma partilha, uma troca onde vou dar uma parte da minha história, destes estilos e danças, e de como as aprendi dentro da diáspora africana em Portugal. Foi muito rico. Dava aulas para mais de 40 pessoas, era incrível. Tinha 22 anos. Pude partilhar a minha cultura com alguma auto-estima. Não que aqui não tivesse oportunidade, mas foi um olhar diferente perante a cultura do outro.

"Quero fazer todo o tipo de personagens. Não tenho qualquer constrangimento em fazer de mulher escravizada mas também quero fazer a rainha. E tenho capacidades. Também quero fazer de advogada. As pessoas não sabem o que é isso para uma atriz negra: poder ser natural, ter o seu cabelo natural."

Também porque é um país que tem outra relação com o corpo.
Também. Mas porque o Brasil busca a sua intensidade, porque é um cruzamento de várias histórias e relações. Está constantemente nessa busca.

É o que a motiva?
Sim. Na verdade, foi lá que comecei a desenvolver trabalho sobre a identidade com as crianças, para resgatar a auto-estima das que eram não brancas, não só nas artes, mas também socialmente. Era uma coisa que questionava já aqui em Portugal nos meus tempos de rebeldia. E que depois lá pude desenvolver com mais tempo e maturidade. O facto de estar a viver sem a minha família, amigos, e, de repente, tinha de trabalhar. Sempre fui um pouco precoce dentro das minhas escolhas intelectuais e profissionais e no Brasil tive mesmo de dar o salto. Não estava a meia hora da minha mãe e do meu pai. Tinha de confiar em mim e estabelecer essa maturidade. Cresci imenso. Comecei a fazer trabalhos biográficos que nunca tinha feito porque não achava pertinente, a fazer solos onde cantava, ou contava histórias da minha infância e dos países dos meus pais sem nunca ter lá ido. Da Lisboa rural africana  de que faço parte. Falava em português de Portugal, do Brasil ou de África.

Estar em construção constante.
É. Aproveitei a minha riqueza cultural por um lado positivo.

Olhando para filmes onde entra, como “Um Animal Amarelo”, “Boas Maneiras” (2017) ou “Joaquim” (2017), existe essa herança cultural nas suas personagens, onde procura pegar nisso e dar-lhes a tal auto-estima.  É aí que acha que se desenvolve um diálogo mais interessante?
Sim. A Nina Simone é uma grande inspiração para mim. Tem uma frase que diz que “o dever de um artista é refletir os seus tempos”. Acho que não é só um dever, é também um privilégio. Trazer a minha história, outras perspetivas de narrativas. A questão da representatividade… quando era criança questionava muito os meus professores de história, os meus pais ou catequistas. Tive de passar por vários catequistas porque não me davam resposta às muitas perguntas que fazia. Lia tudo. Eles próprios tinham limitações dentro das suas formações. Diziam-me que tinha de ser política porque ninguém me conseguia convencer e, por outro lado, conseguia convencer toda a gente. Isto passou-se na minha pré-adolescência. Porque um dos motores para mim, dentro das questões históricas e de trazer essas dramaturgias, é perguntar: quem seria  no século XV? quem seria nos anos 70? Isso é o que me impulsiona a escrever. Acabei agora um guião de uma série que quero muito desenvolver cá. Fui convidada pelo Marcelo Gomes, que fez o “Joaquim”,  para fazer um spin-off sobre a minha personagem nesse filme. Escrevo com as “minhas auroras”, Cléu Tavares e Nádia Yracema…

A peça “Aurora Negra” foi uma explosão para muita gente, nesta reabertura do D. Maria II. O que diz ainda muito sobre a nossa sociedade, quando o tema é o racismo ou a igualdade de género, quando se junta o nosso passado e a nossa memória coletiva, ainda é suposto que nos choquemos e surpreendamos com o que vemos em palco?
Na verdade, para mim esta peça foi só uma partilha de multiplicidade e diversidade sobre os nossos corpos e histórias, sem preconceitos. É pelo que luto. Durante muito tempo, enquanto jovem criada na periferia de Lisboa, no Zambujal de Loures, que jogava futebol, fazia kickboxing, era maria-rapaz, mas era também vaidosa, que queria cantar e nos intervalos ensaiava números de canto e de dança. Aliás, obrigava a minha prima e outra amiga de infância a dançarem comigo porque dizia que tínhamos de estar preparadas. Hoje em dia elas riem-se imenso porque me dizem que levei a sério essa brincadeira que tínhamos. Que é tão lindo como levei o número de criar tão a sério. A minha principal formação vem desses bairros periféricos de maioria africana, brasileira e de imigrantes, que é muito rica. Chocava-me não ter essa representatividade aqui em Portugal ou por onde andasse. Queria que isso fosse feito com respeito e auto-estima. Mesmo quem não tenha formação académica. Mas o que é isso? Penso muito, enquanto mulher, se quiser ser mãe, se quero que o meu filho ande numa escola onde só seja comparado, que não seja preparado emotivamente para se relacionar com as pessoas. Acho que é muito mais importante aprender a respirar, a meditar e a relacionar-se com os outros com respeito do que aprender a tabuada. Talvez seja muito brutal o que estou a dizer, mas é um pensamento que tenho. O que é realmente essencial nesta vida? Dentro da minha jornada artística, é trazer narrativas com perspetivas diferentes. Acho que é errado os artistas utilizarem os “factos históricos”, com muitas aspas agora, para justificarem as suas opções de dramaturgia. Não está certo. Quem contou a história, fê-la na sua perspetiva, ficando a perpetuar estigmas e convenções imagéticas que depois acabam por fazer parte da nossa vida social. Ssomos muito diversos e potentes, mas não somos super-heróis. Ninguém é. Temos resiliência e uma intuição. E não devemos ficar constrangidos com aquilo que somos.

"Criar uma auto-estima para um corpo negro no mundo é muito complexo, tem de se ter uma estrutura muito boa. O mundo está constantemente a dizer que não"

Em tempos disse  “ser negra não é a minha profissão”. Que é uma frase desconcertante, no mínimo…
Fico feliz por ficar desconcertado porque é sinal de que está aberto a refletir sobre isso. Enquanto ser criativo, penso em algumas estratégias, não que seja algo frio, nem tenho tempo. Faço-o de forma intuitiva. Durante muito tempo questionei os órgãos, os diretores, os castings que quando solicitavam uma atriz para casting e quando escreviam “atriz de 30 anos”, que é a minha idade e profissão, sabiam que era para uma atriz branca. Que não podia ser para uma atriz negra nem asiática ou indiana. Nada. A normatividade sempre me chocou. Todos percebermos a convenção e não fazermos nada. A passividade do oprimido e do opressor. E então comecei a responder a castings para atrizes e respondiam-me que não estavam à procura do meu biótipo ou que achavam engraçado porque não tinham pensado no meu tipo de atriz, mas que ficavam alerta. Isso fez com que as pessoas pensassem. Quando é atriz negra ou com o meu biótipo, dizem que precisam de uma atriz negra. Questionei sempre até nos guiões. Comecei a perguntar: o branco é a norma, os outros são os outros? E ninguém faz nada. Daí dizer que ser negra não é a minha profissão. Quero fazer todo o tipo de personagens. Não tenho qualquer constrangimento em fazer de mulher escravizada mas também quero fazer a rainha. E tenho capacidades. Também quero fazer de advogada, algo que fiz agora para uma série brasileira que ainda não se estreou. Foi incrível, fiquei feliz com todo o processo. Pude fazer uma advogada com o cabelo natural. As pessoas não sabem o que é isso para uma atriz negra: poder ser natural, ter o seu cabelo natural. Ui… complexo! É complexo porque não é o estereótipo de beleza criado. Eu sou o meu próprio padrão, não me quero comparar com ninguém. O meu cabelo, os meus dentes e olhos é o meu padrão. O meu padrão é o meu brazão, há quem tenha o de família, eu tenho o meu. Criar uma auto-estima para um corpo negro no mundo é muito complexo, tem de se ter uma estrutura muito boa. O mundo está constantemente a dizer que não.

Quanto mais natural for termos atores e personagens negros, menor vai ser o choque. E menos celebração também. Passa a ser normal.
Exato. Vai dar a possibilidade das crianças sonharei, é esse o meu objetivo. Sou fascinada por crianças. Adoro-as, adoro os meus sobrinhos. Foi por isso que voltei para Portugal, aceitei o convite da Mala Voadora para vir fazer o espectáculo “Moçambique”. Não queria voltar, mas o meu núcleo duro está todo aqui. E também tenho direito de vir fazer estas coisas no meu país.  Foi por isso que voltei. Queria que essas crianças tivessem a oportunidade de sonhar. Sempre o fiz, mesmo com todas estas adversidades.

Viremo-nos para o público. Há ainda uma ideia de que quem vai ao teatro pertence a uma certa elite, de classe média, que tem dinheiro para o fazer. Quando e como é que será possível trazer, de forma mais frequente, quem está nas periferias para os grandes teatros? Ou essa ideia já mudou um pouco?
Vou-lhe dizer uma coisa: um dos objetivos da “Aurora Negra” por parte das três foi que outros corpos pudessem habitar o público e o espectáculo. Foi o primeiro objetivo. Por causa da Covid-19, os lugares foram reduzidos, mas felizmente tivemos um público diverso, que não ia ao teatro. E não são só os meus amigos e familiares negros. São também amigos brancos que não se sentem convidados. As elites que têm a possibilidade de ir a espectáculos têm as suas necessidades básicas supridas. Aprendi isso muito cedo com a filosofia no liceu. Se as pessoas não têm as suas necessidades básicas supridas, não têm tempo para o entretenimento. Estão sempre a correr atrás de as suprir. Se não conseguem pagar a luz vão pensar em ir ver um espectáculo de teatro? Não. Principalmente de peças onde não se sentem convidados a ir. É uma coisa tão longe e o mundo das artes é tão elitista. Tinha uma inocência desde criança, de quem se arma em esperto e é apanhado na curva, porque achava que no mundo das artes não ia encontrar preconceitos.

Achava que os seus pares não lhe iam dizer e fazer o mesmo do que aquilo que encontrava na rua.
Achava que não. Percebi que estava iludida e que só perpetuam ainda mais convenções histórico sociais.

"Gosto de brincar com a imagética. O que gosto mais na Catarina [personagem de 'Um Animal Amarelo'] é o poder do cinema: uma mulher negra vai contratar um homem branco para fazer negócios. O primeiro encontro é ele a beijar o pé dela. Durante muito tempo o cinema perpetuou estigmas do corpo negro submisso. E não é verdade."

Quando é que percebeu?
Foi no Conservatório quando decidi ir para o Brasil. Achava que era circunstancial. Pensei que era muito amada, porque os meus amigos do Conservatório são meus amigos irmãos, passamos férias juntos, jantamos quase todos os meses, temos vários núcleos que se vão juntando. Conhecemos a família e sabemos o que cada um anda a fazer. Só que na verdade não me sentia contemplada de todo naquela formação. Mas isto tem a ver com as escolhas, com a academia, com as referências  e estereótipos de corpo que vão sendo criados. Se é gorda, baixa, magra, se tem as mamas para cima ou para baixo. Achei que não ia encontrar isso no meio artístico. Voltando às questões do público. Lembro-me que passamos um filme brasileiro cá onde entrei, o “Cabela”, num festival queer na Cinemateca e as pessoas não sentiram que pertenciam àquele lugar. Nem eu, que faço teatro e cinema. Ficaram muito chocados, disseram-me que tinham colocado os bilhetes a um preço acessível. Respondi que as pessoas não se sentiam. Tem haver com uma estrutura física de arquitetura e desse “apartheid-película” que vivemos. Está presente. Porque eu, Isabel, mesmo com todas as viagens que já fiz, continuo a ser parada em Portugal pela emigração mesmo tendo nascido aqui. No outro dia cheguei de Frankfurt, fui a única parada no “Declaro/ Não Declaro”. Respondi: “bem vinda a casa não é?”. Perguntei qual era o critério. Vinha num voo com 50 pessoas e era a única negra, todas passaram menos eu. Qual é o critério? Disseram que era aleatório. Como é que têm coragem de dizer isso? Estou a chegar a casa e estas são as boas vindas que recebo sempre. Já filmei, já os chamei de racistas, mas agora prefiro rir e olhá-los nos olhos.

Esperava que por estes dias as coisas tivesse mudado mais, é isso?
Sim. Se for a uma loja tenho constrangimentos de mexer no telemóvel  porque as pessoas vão pensar que vou roubar. E não tenho de passar por isso em 2020. Não quero que os meus sobrinhos passem por isso. Não quero chegar ao Lx Factory e ir comer um crepe com um amigo e, de repente, uma criança dizer: “mãe está ali uma menina de cor, ela pode entrar aqui?”. E ter de responder: “olha, meu querido, pode fazer o que quiser como tu, mas a culpa não é tua, é da tua mãe”. Prefiro brincar com a criança, dói-me muito bem perceber que vai crescer repleta de preconceitos. Perco a esperança aí, quando vejo os preconceitos refletidos em alguém com quatro anos. Mas depois recuperamos e seguimos.

E opta por usar esses episódios de uma forma artística ou prefere resolver logo e seguir em frente?
Posso até fazer das duas maneiras. A minha experiência reflete-se em muita coisa positiva.

E não pode haver neste processo uma espécie de ricochete?
Esta é uma onda resiliente, de transformação. A minha personagem no “Um Animal Amarelo”, a Catarina, é resistente. Já eu, sinto que sou resiliente, que tenho descoberto ferramentas para encontrar essas resiliências dentro de toda a minha trajetória. Há uma frase incrível, que não sei quem é o autor, que diz: “o que fazes com aquilo que te fizeram?”. Essa é a única escolha que podemos ter.  Só que preciso de transformar, porque qualquer coisa que sinta, sou eu, seja bom ou mau. Se sentir raiva, dor ou amor, sou eu. Essa é uma frase da minha mãe. Porque com 12 anos, queria, de alguma forma, que se fizesse justiça pela minha mãe por causa de uma história complexa. Disse-me: “Cuida do que tu sentes, porque o que sentes é teu”. Isso para uma miúda, que tem uma relação muito boa com os pais, foi muito importante. Sou o que sou pela minha essência e educação, mas também por essa frase. Faço sempre meditação antes de sair de casa e se passo na rua e oiço piropos dos homens das obras ou “preta vai para a tua terra”, eu é que tenho de significar aquilo que oiço e que impacto tem em mim. Tenho de diluir o que pensam e acham sobre mim.

"A Catarina é o reflexo dessas relações político-sociais e históricas, que são desequilibradas", explica Isabél Zuaa sobre o seu papel em "Um Animal Amarelo"

Mas há quem já não consiga diluir. Isso começou a ser mais visível para todos este ano com as manifestações nos Estados Unidos da América depois da morte do George Floyd…
Não sou nada perfeita, tenho os meus momentos. Fui ouvir uma palestra sobre racismo, não consegui parar de chorar. Porque às vezes dá-me uma revolta muito grande. Não tive a possibilidade de ter um avô paterno, que cuidasse de mim ou que me ensinasse coisas porque era um homem preto e teve de morrer. Foi assassinado. Ainda por cima tinha terras em Angola. Como é que se lida com isso? Fi-lo porque a minha mãe o fez. Também posso utilizar essa memória como fiz num filme da Maria Clara Escobar que vai estrear agora em Portugal. Mas não tive a possibilidade de ter um avô porque teve uma doença ou porque caiu da escada, não. Foi porque foi assassinado por ser um homem, teve de cavar a própria sepultura. Foi algo que condicionou a vida da minha avó Zuaa, da minha mãe e a minha também. Sempre tive a questão da justiça muito presente na minha vivência e nas coisas que queria fazer, mas tenho trabalhado muito sobre mim. Não é egocêntrico, é para ter saúde mental e permanecer com ela. Para não a perder. Sempre fui para as ruas, sempre que havia um preto na SIC nós gritávamos que “estava um preto na SIC” porque precisávamos de nos ver. Estas questões de mortes de negros da praça pública não são de agora. Talvez a razão seja a de estarmos todos a passar por uma pandemia complexa que mexeu com toda a gente.

Deixámos de estar dormentes.
Ainda continuamos. Mas aquilo que nos afeta começou a ser mais abrangente. Aquilo que nos comove é totalmente manipulado. Como conseguimos ver as mortes em direto? Aquilo mexe connosco… Que frieza é esta? É 2020 e não podemos deixar que isto aconteça. Há pandemias muito concretas que estão aqui há anos e destroem muito. E não é só a morte física, pode ser cultural ou emocional. Não é uma morte que vá para o cemitério, mas que deixa alguém com um síndrome social qualquer.

Olhando agora para o outro lado, o da extrema direita. Teria capacidade de perdoar alguém que a odeia? Já se deparou com esse dilema? Ou não é pelo perdão.
Acho que tem de ser. Faço uma meditação que se chama Oponopono, do Hawai. Pratico diariamente há 4 anos. Ajuda para quem nos odeia e para quem nos ama. A questão do perdão é muito mais complexa. É reconhecer a limitação do ser humano, a sua pequenez. Não se pode dizer que somos nobres e não encontrar nobreza no outro. Não pode dizer que já foi ao Brasil, Praia Angola, Moçambique, que já foi um conquistador e que isso não fez chorar de dor, que foi um violador. Essa é uma limitação. É as coisas estarem aqui completamente escancaradas e nós não pararmos para observar. É só estarmos atentos, sairmos do nosso umbigo e colocarmo-nos no lugar do outro. Esse é o lugar mais incómodo do mundo.

Vamos ao “Um Animal Amarelo”. Entendo o filme como uma sátira, apesar de falar sobre o nosso passado colonial, que é um tema pesado e de difícil discussão. Acha que a Catarina, que é uma personagem dominante, que precisa do homem branco, do brasileiro, para fazer negócios, é mais inquietante por ser alguém que ocupa um lugar tradicionalmente masculino, de poder, ou se é uma mulher negra, africana que domina, nesse papel?
As duas coisas. Acho que se as pessoas ficaram desconcertadas, agora não sei o que vai acontecer no meu novo filme. Gosto de brincar com a imagética. O que gosto mais na Catarina é o poder do cinema: uma mulher negra vai contratar um homem branco para fazer negócios. O primeiro encontro é ele a beijar o pé dela. Durante muito tempo o cinema perpetuou estigmas do corpo negro submisso. E não é verdade. Também existe. O meu pé já foi beijado muitas vezes… Estou a brincar. Mas a imagética é muito importante. É tudo linguagem. A arte tem de existir para nos questionarmos. O “gosto, não gosto” é muito raso para mim. Se intrigou ou se fez pensar é muito mais interessante. O que é que acho sobre os negros, Moçambique ou Brasil. E é um recorte, como se diz no fim: é um zoom out e acaba o filme. Depois é um zoom in para nós, para as nossas relações. A Catarina só existe porque tem uma parceria com outros dois [a Lucília Raimundo, o Seixas, e o Matamba Joaquim, que é o Cesarino]. Só ganhei o prémio por esta troca com estas duas pessoas. Ou pela troca com o Filipe Bragança ou com o o ator principal, o Higor Campagnaro. Ninguém faz nada sozinho. Para mim, é muito importante tocar as pessoas. Tinha receio porque a Catarina é uma pessoa muito inflexível e reflete toda a vivência de um pós-guerra, de um país completamente violado e explorado. Tem essa auto-estima porque os seus corpos e territórios são ricos. E essa riqueza interessa ao mundo. Tanto que interessa que existe uma mulher em Portugal [Catarina Wallenstein como Susaninha] que quer substituir o seu coração por pedras preciosas. Só que as pedras não existem no seu país. Os nossos territórios são tão ricos que as pessoas se sentem no poder de o explorar de forma completamente leviana. De dizer que o corpo lhes pertence. É muito surreal na ficção e na realidade.

"Estou apaixonada por essa mulher [Michaela Coel, da série 'I May Destroy You']. Ela e a Issa Rae ['Insecure']. Espero mesmo trabalhar com a Issa Rae. Que a HBO e a  Netflix organizem um encontro contemporâneo de atrizes e guionistas. Fica a ideia para o universo."

Isso talvez seja a ideia mais interessante do filme: parece ser algo surrealista mas depois olhamos e percebemos que é uma interpretação da história. Ou seja, não é assim tão ficção, é real. Será que com estes géneros cinematográficos, de fantasia e horror, conseguimos ter um melhor diálogo sobre o colonialismo e sobre racismo?
Talvez tenhamos mais dificuldade dentro de um realismo de imaginar outras coisas, sem ser uma reflexão mais chapada. Quero fazer muitas coisas com o realismo porque as convenções, na verdade, permitem-nos pensar outra camadas não tão óbvias. Fico a refletir, se for preciso um dia, no que acontece no “Um Animal Amarelo”. Estou agora a ver uma série, o “I May Destroy You” da HBO, estou apaixonada por essa mulher [Michaela Coel]. Só no outro dia é que fui pensar nas outras camadas da série, e comentei com amigos que foram ver outra vez porque não tinham pensado em coisas que tinha pensado. É minha contemporânea, fez agora 33 anos. Ela e a Issa Rae, que faz o “Insecure”…

Também sou muito fã dessa série.
Sim, sim. Para mim que sou uma atriz que escreve, filha de africanos, nascida em Portugal, que viveu oito anos no Brasil, é muito importante ter estas referências. Que temos pensamentos que se cruzam, que estão ali lado a lado. É surpreendente. A minha vida tem-me dado oportunidade de trabalhar com pessoas que nunca pensei dentro da minha pequenez. A Zezé Mota, o António Pitanga, pessoas que conheço desde sempre. Ter uma troca tão incrível e verdadeira. Espero mesmo trabalhar com a Issa Rae. Que a HBO e a  Netflix organizem um encontro contemporâneo de atrizes e guionistas. Fica a ideia para o universo.

“Insecure” acaba por nos mostrar que andamos todos com as mesmas preocupações e angústias, quer sejamos negros, brancos ou seja o que for. Para aquela personagem, cair no chão antes de sair de casa significa o mesmo para mim, mas o que faz ou pensa sobre o seu corpo não.
É perceber a nossa humanidade e o que nos une. “Muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa” como diz a música. Temos a nossa essência, as experiências que vamos adquirindo, mas só queremos estar bem. Também somos múltiplos e diversos. A vida é tão curta para andarmos aqui a apontar o dedo. Queremos ter razão ou sermos felizes? Tenho muita esperança no ser humano. Há uma essência que permanece, vejo mudança nos meus amigos, no meu companheiro. Estamos nessa jornada. E a Catarina é o reflexo, dentro da construção, de todas as questões dessas relações político-sociais e históricas, que são desequilibradas. A relação dela com o corpo branco é de revolta, que se entende. Estive naquele grande hotel da Beira, construído no império português, que agora está em ruína, onde famílias e famílias que nunca mais acabam, que vivem em condições sub-humanas, onde uma piscina cheia de glamour dos teus áureos do império, servem para lavar a roupa e as pessoas fazerem a sua higiene. Se tivesse nascido aqui podia ser eu a Catarina. E a riqueza daquele país… é a maldade humana. Por isso é que esta personagem é um reflexo dessa desumanidade. Até podia ser mais incisiva. É na ficção que vou encontrar lugares onde não posso ir na realidade, mais extremos. Não me quero permitir a chegar lá.

"Quero que jovens tenham acesso à boa cultura, diversificada e não completamente manipulada que perpetua estigmas sobre o corpo delas"

Não quer perder esse desequilíbrio.
Sim, não quero. Não se mata alguém sem que o assassino morra também.

Última pergunta, voltando à conversa sobre as crianças: quer criar uma casa da cultura na periferia de Lisboa. Para quando?
Pensei nisso ontem! A Viola Davis diz que o que distingue as pessoas negras das brancas é a oportunidade. Quero que toda a gente tenha a mesma oportunidade. Que aquilo que tive de correr atrás, a nível da pesquisa e das referências, também possa ser mais facilitado. A diversidade dos corpos em Portugal não é refletida na nossa formação. O nosso país estabeleceu ligações com vários países e quando já não interessavam as pessoas não foram incluídas. Isso é muito feio. Foram para esses territórios, fizeram o que quiseram, depois as pessoas que lá estavam, quase sem respirar, vêm para cá à procura de um pouco de conforto e ouvem com três anos, “és preta, vai para a tua terra”. Então? Estás a ser muito mal agradecido, não venho para aqui para ficar de braços cruzados. O que se quer é que cuidemos dos filhos, limpemos a casa, que lhes sirvamos e tu  tratas-me mal. Mas não vou… enfim, voltando à casa da cultura.

Estou a perceber… sim, a casa da cultura.
Quero que jovens tenham acesso à boa cultura, diversificada e não completamente manipulada que perpetua estigmas sobre o corpo delas. Fui obrigada, enquanto criança, adolescente e adulta, a ter de escrever na mesma frase no teste de história para ter boa nota as palavras “ouro, marfim e escravos”. Isso é muito cruel. Sabia que aquilo era um sequestro. Quero que os jovens tenham uma oportunidade de sonhar. Não me importo que outras pessoas realizem esse sonho. Seria um privilégio.

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