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Itália. No jogo do caos político, Matteo Salvini traz uma carta na manga /premium

O impasse político italiano continua e os mercados estão em pânico. Salvini, que transformou a Liga de partido anti-Roma em força anti-Bruxelas, arrisca tudo para ir a votos — e pode sair por cima.

“Matteo Salvini é um jogador.” É assim que Alessandro Franzi, jornalista italiano e autor da biografia de Salvini #ilMilitante (sem edição em português, co-autoria de Alessandro Madron) descreve numa palavra o político italiano e líder do Liga ao Observador. O jogo, a avaliar pelos últimos acontecimentos numa Itália em turbulência, pode ter-lhe corrido bem — depois de encabeçar uma primeira negociação falhada para formar Governo, Salvini está à beira de ou fazer parte de um Executivo ou de se tornar o líder partidário que pode ganhar mais com uma nova ida às urnas em Itália. Quase três meses depois das últimas eleições, esse não é um cenário de todo improvável.

Desde que assumiu a direção do seu partido, Matteo Salvini levou a Liga dos 4% registados nas eleições legislativas de 2013 para os 17% em março deste ano. Nos seus quase 30 anos de existência, a antiga Liga do Norte só tinha conseguido ultrapassar a barreira dos 10% uma vez, nas legislativas de 1996. Agora, para além do bom resultado eleitoral, Salvini conseguiu ir ainda mais longe: apesar de encabeçar apenas o terceiro partido mais votado — atrás do Movimento 5 Estrelas (M5S) e do Partido Democrático (PD) de Matteo Renzi —, foi capaz de formar uma aliança com o M5S para tentar formar um Governo. Mas isso não lhe chega: Salvini gostaria de ter um mandato ainda mais claro para governar.

Mattarella “na linha de fogo” e o bluff de Salvini

No passado domingo, o Presidente italiano, Sergio Mattarella, pôs um travão a essas ambições ao chumbar o nome proposto pela Liga e pelo M5S para o cargo de ministro da Economia e das Finanças — Paolo Savona, um ex-ministro e experiente economista com conhecidas posições eurocéticas. A decisão abriu uma crise política profunda, que alguns não hesitam em apelidar de crise constitucional. O nome escolhido por Mattarella para liderar um Governo de transição, Carlo Cottarelli, não reuniu consenso. As reuniões com Mattarella no Palácio de Quirinal sucederam-se, mas não houve forma de acertar nem um Governo nem uma data para eleições — que começaram por ser previstas para janeiro, caso Cottarelli tomasse posse, e foram entretanto apontadas para outubro ou até já para julho. Por fim, o M5S jogou uma última hipótese de consenso: avançar com o Governo dos dois partidos anti-sistema, caso Salvini aceitasse abdicar de Savona para o lugar de ministro das Finanças. De acordo com o La Stampa, tal veio a suceder, com Savona a passar para o cargo de Assuntos Europeus. Mas a instabilidade ameaça a situação italiana.

Mural com retrato de Luigi di Maio e Matteo Salvini a beijarem-se (TIZIANA FABI/AFP/Getty Images)

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Os mercados demoraram a reagir à incerteza em Itália, mas quando o Presidente italiano nomeou Carlo Cotarelli, o receio dos investidores fez-se sentir em força. Aqueles que há mais de um ano aceitavam pagar para emprestar dinheiro a Itália a 2 anos, começaram finalmente a exigir juros a partir de dia 16. Desde então a escalada foi constante até que na terça-feira os juros triplicaram, passando de 0,9% para 2,76%, um valor especialmente elevado considerando a dimensão da economia italiana e o baixo risco associado à dívida a curto prazo. Por exemplo, no mesmo dia, mesmo com os receios em Itália, a taxa de juro da dívida pública portuguesa a dois anos era de apenas 0,36%.

2,3

Biliões de euros. Valor da dívida pública italiana, que corresponde a 131,8% do PIB. É a segunda dívida mais elevada da União Europeia (em percentagem do PIB) e a terceira maior do mundo.

Comissão Europeia/Eurostat

Já na bolsa italiana, só nos últimos 15 dias (já contando com a recuperação desta quarta-feira), os investidores retiraram mais de 57 mil milhões de euros do principal índice bolsista. Isto significa que Itália, o país habituado a abalos políticos, está a braços com um dos maiores terramotos de sempre.

Com Salvini inicialmente inflexível na sua vontade de voltar às urnas — e com as sondagens a darem uma subida à Liga tão grande que permitiria outro tipo de acordo, desta vez com o Força Itália de Silvio Berlusconi — parece apenas uma questão de tempo até Itália voltar a ir a votos. A campanha eleitoral, prevê-se, será quente. “Esta eleição será vista como um referendo ao Euro e à União Europeia (UE)”, diz ao Observador Francesco Galietti, analista político e fundador da consultora Policy Sonar. “Está tudo a postos para um duelo entre o sistema versus os anti-sistema. E o chefe de Estado — numa atitude bastante rara na política italiana — agiu de tal forma que passou a ser visto como uma marioneta dos europeus. Mattarella colocou-se na linha de fogo.”

Uma “marioneta de Berlim”. Foi precisamente essa a acusação feita por Matteo Salvini a Mattarella, por outras palavras, e a acusação ganhou tração. “Seguimos o princípio de que os italianos e apenas os italianos podem decidir sobre o que diz respeito aos italianos. Não os alemães, os franceses ou os portugueses”, declarou o líder da Liga. “Se não podemos nomear um ministro porque ele não agrada a Berlim, se esse ministro chateia alguns poderes fortes que nos massacraram, isso significa que esse é o ministro certo.” Não é, pois, de admirar que Salvini tenha inicialmente prometido voltar a escolher Paolo Savona como ministro em caso de vitória nas próximas eleições. “Savona tornou-se um símbolo”, resume Galietti.

Não deixa de ser curioso, contudo, que o mote para tal promessa tenha sido dado por Salvini — líder do terceiro partido mais votado — e não por Luigi Di Maio, líder do M5S. Di Maio parece ter chegado atrasado à festa ao prometer a manutenção de Savona apenas dias depois, voltando depois atrás esta quarta-feira ao admitir a possibilidade de se escolher outro nome para o cargo de ministro das Finanças. É uma tentativa desesperada de última hora para Liga e 5 Estrelas poderem manter viva a possibilidade de formar Governo, uma possibilidade vista com bons olhos pela Presidência. Mas Salvini apressou-se a reagir à sugestão dizendo num comício que está “a perder a paciência”. Pouco depois, num gesto magnânimo, aceitou negociar, relançando a possibilidade de Governo M5S-Liga. Foi mesmo isso que acabou por acontecer, afastando para já as hipóteses de eleições antecipadas. Mas com uma situação tão volátil e com um jogador tão hábil como o presidente da Liga, a questão impõe-se: até quando para Itália regressar às urnas?

O Presidente italiano, Sergio Mattarella (VINCENZO PINTO/AFP/Getty Images)

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É um sintoma do equilíbrio de forças entre os dois e do momento político atual, em que o líder da Liga segue de vento em popa. Isso mesmo já diziam as sondagens ainda antes de Mattarella vetar o Governo dos dois partidos anti-sistema: a 18 de maio, a Liga registava um crescimento nas intenções de voto de quase 2% (versus os 0,2% do M5S). Na mesma sondagem publicada no Corriere della Sera, Salvini já aparecia como o líder com maior taxa de aprovação (44%). Os bons resultados parecem ser o resultado da forma como o líder populista geriu a negociação para formar Governo.

“Fiquei impressionada com a forma como Matteo Salvini geriu esta fase política”, admite ao Observador Lynda Dematteo, investigadora da École des Hautes Études en Sciences Sociales e autora de uma tese sobre a Liga Norte. “Ele foi bem sucedido ao conseguir retratar-se como o vencedor a quem os outros não deixam formar Governo, quando na verdade só obteve 17% dos votos.”

A inteligência de Salvini como negociador, afirma a antropóloga social, foi ainda mais além: “Ele apresentou-se sistematicamente como um homem responsável, como um pai que se preocupa com o futuro dos seus filhos. Mas na verdade, durante as reuniões com os outros políticos, mostrou não ter vontade de negociar. Alguns jornalistas italianos estão até convencidos de que esta foi uma estratégia deliberada para que as negociações falhassem e para que houvesse novas eleições e ele pudesse obter um resultado melhor.”

Ninguém sabe ao certo o que foi dito nas reuniões entre Salvini, Di Maio e Mattarella. Mas muitos acreditam que o líder da Liga fez bluff e gostaria de ter saído por cima em caso de eleições. A pressão dos mercados e do M5S para formar Governo, contudo, pode ter falado mais alto.

“Salvini tinha uma estratégia. Ele impôs a sua agenda na formação de Governo e o nome de Savona foi um nome claramente proposto pela Liga”, concorda o biógrafo Alessandro Franzi. O programa conjunto do M5S e da Liga incluía, por exemplo, várias medidas do programa inicial de Salvini. É o caso da política de impostos (com taxas fixas de 15 e 20%) e a deportação de 500 mil migrantes. “Quando eles foram ao Quirinal no domingo, foi Salvini quem disse ‘ou temos Savona como ministro ou queremos novas eleições’. Não foi Di Maio. Di Maio queria formar um Governo com qualquer um, fosse com Salvini ou com Renzi. Salvini queria formar um Governo com uma agenda da Liga. E agora [em caso de campanha], a campanha será ditada por ele.”

Dos copos numa okupa de esquerda a líder de força eurocética de direita

Um político discreto até 2013, quando assumiu a presidência da Liga, Salvini começou cedo na política, aos 17 anos, quando à saída de um dia de aulas do liceu Manzoni decidiu ir inscrever-se na Liga do Norte. Filho de um pequeno empresário e de uma dona de casa, acumulou um emprego na cadeia de fast food Burghy com a entrada na Universidade e o ativismo político. Algo teria de ceder — e o curso de História acabaria por ficar em banho-maria durante 16 anos, enquanto Salvini cimentava o seu lugar dentro da Liga.

Nessa altura, o jovem político gostava de  frequentar o Leoncavallo, uma conhecida okupa de extrema-esquerda, e defendia ideias como a legalização da cannabis.  Em 1997, Salvini liderou a lista “Comunistas de Padânia” ao Parlamento Padano — um órgão consultivo criado pelo líder da Liga, Umberto Bossi, aberto a todos os cidadãos do Vale do Pó. “Não era uma lista comunista, obviamente, mas representava uma fação mais à esquerda dentro da Liga do Norte. Enquanto jovem, ele viu ali um espaço vazio que podia preencher politicamente”, explica Franzi.

A atitude rebelde, contudo, não se traduzia necessariamente num perfil carismático. Na biografia #ilMillitante, Franzi e Madron dizem que Salvini era um jovem tímido e discreto. “Os bossianos mais próximos sempre consideraram Salvini um bom militante, um bobo da corte eficaz, mas também alguém que fazia os seus próprios negócios no Parlamento. Em suma, nunca o consideraram um líder em potência”, escrevem no livro.

Mas, com o tempo, Salvini radicalizou a sua mensagem noutras direções. E, enquanto deputado europeu desde 2004, arrebatou a liderança do partido com 82% dos votos em 2013. Os tempos do Leoncavallo, esses, ficaram lá atrás. Hoje em dia, Salvini garante que nunca frequentou o centro por razões ideológicas e que se limitava a ir lá “conversar, beber cerveja e ouvir música”.

Certo é que com a chegada à liderança de Salvini se iniciou um processo de transformação profunda no partido do Norte. Até então, a Liga era conhecida pelas posições secessionistas, defendendo uma separação do Norte de Itália face ao Sul. Muitos dos apoiantes do partido referiram ao longo dos anos a sua preferência pela ordem e progresso do Norte da Europa face ao caos do sul de Itália. O slogan Roma ladrona (Ladra Roma) tornar-se-ia frase costumeira nas bocas de Bossi e outros membros da Liga ao longo dos anos 90. Com Salvini, a Liga deixou cair o “Norte” do nome, passou de partido regional a nacional e apontou antes baterias à UE, ao Euro e aos migrantes, arrastando a Liga ainda mais para a direita do que já era.

Os tempos em que Salvini se recusou a apertar a mão ao Presidente italiano por “não o representar” (1999) ou em que iniciou uma campanha para torcer pela Alemanha no Europeu de futebol em vez da Itália (2006) ou até mesmo quando optou por não celebrar o aniversário da reunificação (2011) já lá vão. Atualmente, Salvini concorre às eleições pela Calábria, a região mais a sul de toda a Itália. O simbolismo da decisão fala por si.

19,4%

Taxa de desemprego em 2017 no sul de Itália, onde se insere a Calábria. Em todo o país, a taxa foi de 11,2%.

 

Instituto de Estatísticas de Itália

“Quando entrou na política aos 17 anos, ele era um independentista. Era contra o Estado nacional, contra a Itália. Agora, 25 anos depois, é uma espécie de nacionalista”, resume Franzi. Comparando o posicionamento ideológico de Salvini com o de outros líderes anti-sistema no resto da Europa, o biógrafo defende que o líder da Liga é um homem que “retira qualquer coisa de cada pessoa, de cada situação e combina todos os elementos”: “Ele é um bocadinho como Marine Le Pen na defesa da identidade nacional. É um bocadinho como Geert Wilders na defesa dos valores cristãos contra a chamada ‘islamização da Europa’. E é um bocadinho como o vice-chanceler austríaco, Heinz-Christian Strache [do Partido da Liberdade, extrema-direita], porque tentou liderar um Governo em aliança com outro partido, que é coisa que Le Pen e Wilders não fizeram.”

Certo é que os dias em que Salvini usava t-shirts com uma foice e um martelo — em fundo verde, cor da Liga — estão bem enterrados no passado. O líder da Liga não tem pejo em assumir a retórica da extrema-direita, pedindo a expulsão de migrantes e refugiados e encontrando-se com o ideólogo norte-americano Steve Bannon. “Ou nos dão uma data para haver eleições ou vamos mesmo a Roma”, ameaçou esta semana, numa frase que motivou comparações à Marcha Sobre Roma de Benito Mussolini em 1922.

“Salvini estendeu as ligações do partido a nível nacional recrutando pessoal mais ligado à extrema-direita. O ataque em Macerata tornou isso evidente”, afirma Lynda Dematteo referindo-se ao ataque de um ex-candidato local da Liga que em fevereiro atingiu a tiro seis migrantes de origem africana.

Salvini tira uma selfie com o holandês Geert Wilders e outros líderes eurocéticos (Sean Gallup/Getty Images)

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Mas, ao mesmo tempo, Salvini sabe que não pode brincar demasiado com os piscares de olho à extrema-direita: “Ele tem a Frente Nacional [em França] como modelo e adotou o mesmo tipo de estratégia: extensão nacional, mais discurso social e uma imagem mais suave”, resume a antropóloga. “Salvini reformulou por completo a forma de comunicar da Liga. Fala diretamente com os seus seguidores pelo Facebook em vídeos que filma no telemóvel. Dessa maneira criou uma ligação direta com eles, sem precisar dos media tradicionais. Ele pode nunca ter acabado a licenciatura, mas não há dúvidas de que é hiperativo e um político com auto-confiança e astúcia.”

Os seus dotes de comunicador vêm de longe e, ao contrário de ideias como a legalização da marijuana, não ficaram para trás. Desde os tempos em que participava em concursos de televisão até 1999, quando tomou conta da Rádio Padana (estação oficial da Liga) e se passou a assumir como jornalista, soube brilhar sob os holofotes. Liderou durante anos o programa Mai dire Italia (Nunca diga Itália) e cimentou o seu jeito de provocador. Daí para as redes sociais, onde passa atualmente grande parte do dia, foi um pulo.

“Com ele, cada decisão é motivada pela popularidade, pelas sondagens, pelo sentimento geral que se vive no Facebook”, atira Franzi. É, diz o biógrafo, “um camaleão”. Tanto idolatra Donald Trump — não é por acaso que usa o slogan “os italianos primeiro” —, como critica a sua decisão de bombardear a Síria. Tanto se encosta à extrema-direita como descreve uma visita à Coreia do Norte como um país “com uma sensação de comunidade muito bonita”.

Quem é Salvini ao certo e o que defende exatamente? Ninguém sabe. “O seu sucesso assenta no facto de que ele pode dizer uma coisa e afirmar o seu oposto dois dias depois e o seu eleitorado perdoa-o”, resume Franzi.

Berlusconi, o Cavalieri (ainda) desejado pela Liga

É esta flexibilidade que permite que, a esta altura do campeonato, a Liga mantenha em aberto a possibilidade de no futuro, em caso de eleições, formar um Governo quer com o M5S (com quem negociou agora), quer com o Força Itália de Silvio Berlusconi (com quem fez um acordo pré-eleitoral antes de março).

Do M5S vai transpirando o desconforto com a posição em que a Liga colocou a força política mais votada. “Salvini usou-nos para os seus propósitos”, comentou uma fonte próxima de Davide Casaleggio, figura influente nos bastidores do M5S, ao Corriere della Sera. Oficialmente, a Liga não se compromete com nenhuma aliança: “Nós e o 5 Estrelas? Vamos ver, vamos avaliar”, respondeu Salvini esta semana, antes de assinar o novo acordo com o Cinco Estrelas que coloca Giovanni Tria, um professor de Economia, nas Finanças.

Por outro lado, as circunstâncias de um acordo com o Força Itália são muito diferentes das que existiam quando os dois partidos se aliaram antes das eleições de março — tendo o acordo colapsado depois das eleições porque as duas forças políticas não garantiam deputados suficientes para uma maioria. Em 2016, Salvini prometeu num comício que a Liga nunca mais voltaria a ser “escrava” de Berlusconi. Dois anos depois, na campanha eleitoral de 2018, o líder dos eurocéticos foi vítima de uma alfinetada com a publicação de imagens da sua mulher a beijar outro homem na revista Chi, pertencente do grupo de media de Berlusconi. Mas foi o último a rir, já que a Liga acabou por se tornar a maior força política da direita, ultrapassando o Força Itália em número de votos e de deputados.

Silvio Berlusconi e Matteo Salvini (ALBERTO PIZZOLI/AFP/Getty Images)

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“A Liga e o Força Itália foram juntos a eleições durante praticamente 24 anos ininterruptos”, explica ao Observador Jacopo Tondelli, comentador político de Milão que sempre acompanhou de perto a ação da Liga. Só não houve acordo pré-eleitoral pelos dois partidos em 1996, quando Bossi abandonou o primeiro Governo de Berlusconi, provocando uma crise política que deu o melhor resultado de sempre ao partido — até 2018. Irão juntos desta vez, depois de Salvini ter tentado formar Governo com o M5S?

“Foi assim no passado, não sabemos se será assim daqui para a frente. A primeira questão chama-se Silvio Berlusconi — nas últimas eleições ele não era elegível, agora é e pode ser candidato”, relembra Tondelli. A proibição de Berlusconi ocupar cargos públicos, decretada como parte de uma pena por evasão fiscal, foi suspensa por um Tribunal de Milão a 15 de maio devido ao “bom comportamento” do condenado.

Quanto à vontade de ambas as partes virem a formar um Governo no futuro, as opiniões dividem-se. O analista Galietti considera que a aproximação da Liga ao 5 Estrelas pode ter determinado um fim definitivo do centro-direita: “As coisas mudaram radicalmente nos últimos meses e a compatibilidade entre o Força Itália e a Liga já não é a mesma. Se esta eleição se jogar numa lógica de forças do sistema contra forças anti-sistema, é difícil que eles se mantenham juntos”, sentencia.

Contudo, ainda este sábado o Força Itália disse-se disponível para chegar a acordos com a Liga. E há que com considere, como o biógrafo Franzi, que essa também é a vontade de Salvini — que pode, inclusivamente, ter motivado um bluff do líder da Liga, para quem um Governo ideal nunca seria com o M5S. “Acho que Salvini quer Berlusconi. Acho que ele quer ter o establishment do lado dele. Só que há uma questão aqui: Salvini substituiu Berlusconi como líder do centro-direita. E ele pode querer reforçar essa aliança liderada por ele ou pode tentar arriscar ir sozinho a eleições e roubar votos a Berlusconi.” Aconteça o que acontecer, é preciso ter em conta que, em Itália, num instante tudo muda. “A política italiana é maquiavélica. Nunca sabemos o que esperar”, avisa Franzi.

É também por isso que alguns analistas como Tondelli avisam que é preciso ter em conta o M5S e não assumir que é carta fora deste baralho: “Eles neste momento são o elo mais fraco da negociação. Mas a campanha é longa e eles já demonstraram no passado que sabem recomeçar.” Imprevisibilidade é a palavra-chave e tudo está dependente de uma campanha futura que pode assentar, avisa Galietti, numa “campanha de medo”. “A narrativa dos anti-sistema está a ganhar tração. Mas, por outro lado, a pancada dos mercados vai provocar medo. [Em caso de eleições], a eleição vai jogar-se nesta dualidade: ganha a frustração ou o medo?

1,5%

Foi quanto a economia italiana cresceu o ano passado. Um resultado modesto mas ainda assim positivo olhando para os últimos 20 anos. Entre 1998 e 2013, a economia cresceu em média 0,3%.

Comissão Europeia/Eurostat

Entre os analistas políticos, há dúvidas sobre até que ponto o euroceticismo de Salvini é genuíno. Será a Liga um partido verdadeiramente eurocético, disposto a sair do Euro custe o que custar? Tondelli, por exemplo, crê que muitos dos seus apoiantes são os pequenos empresários do Norte que não olhariam com bons olhos para uma ‘Italexit’. Já Dematteo, estudiosa do partido, diz não ter dúvidas que Salvini é um saudosista da lira que gosta de ressuscitar um discurso dos tempos do fascismo italiano. Outros, como Franzi, destacam que o partido hoje em dia carrega forte nas bandeiras que agradam aos “desiludidos da globalização”, aos desempregados, aos jovens precários, estando entre eles muita gente também à esquerda.

Para o biógrafo, a explicação para todas estas dúvidas sobre quem é Salvini e a sua Liga é simples: “Ele é um líder totalmente não-ideológico. Ele segue o vento, o espírito do tempo. E o espírito do tempo popular neste momento é este”, resume. Retórica contra refugiados e migrantes por um lado, discurso a favor dos trabalhadores por outro, críticas sempre presentes a Bruxelas, aos mercados e às elites. “Salvini prometeu tudo a todos: aos de esquerda, aos de direita, aos do centro”, resume Franzi.

É de promessa em promessa e de ameaça em ameaça que o líder da Liga segue em frente. A cada Facebook Live, a cada crítica aos alemães, soma eleitorado ao que já tem, jogando tudo para chegar ao poder reforçado. “Só que quando se está na oposição, pode fazer-se tudo. Quando se está no poder, é preciso agir”, relembra Franzi. “Essa é a verdadeira grande jogada para Matteo Salvini.” Sairá vencedor?

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