Jakob Fricke, investidor no Samsung Next: “No geral, gostamos de pessoas que já falharam” /premium

11 Agosto 2019

A portuguesa Unbabel, as ideias que podem mudar a compra de telemóveis e investir em quem falha. Entrevista a Jakob Fricke, um dos responsáveis pelos 150 milhões do capital de risco da Samsung.

Jakob Fricke é responsável pela plataforma de negócios do Samsung Next na Europa, o fundo de investimento de 150 milhões de dólares criado pela empresa sul-coreana para investir em startups. O objetivo não é investir em tecnologias atuais, mas nas que vamos utilizar daqui a 10 anos e que ainda nem sabemos o quão disruptivas podem ser. Esta missão passa por tentar que a tecnologia de tradução de texto e voz como a da portuguesa Unbabel, que recebeu investimento do Next, veja a luz do dia e mude o mundo.

Além da startup portuguesa, que foi o primeiro investimento do Next — entre outros investidores — na Europa, Jakob Fricke também lida com outros projetos que vão da realidade virtual, passando pela saúde digital até à inteligência artificial. “É um portefólio vasto de empresas”, assume. Para ser convencido de que um negócio é cativante, diz que o que é preciso é ser-se “direto” e não estar com rodeios. Por isso, para encontrar mais startups em início de vida com ideias inovador, vai a cidades como Lisboa, onde foi entrevistado pelo Observador após um palestra no Lisbon Investment Summit.

Para ser um dos responsáveis de um fundo de investimento como este, Jakob conta como passou por todo o tipo de experiências neste meio: desde fundar a própria startup até fazer parte de um gigante dos negócios, como a Daimler. Foi nesta última empresa que ficou com a responsabilidade de implementar a unidade digital da Mercedez, o Mercedez-Benz.io, que abriu em Lisboa em 2018. Agora, aproveita os contactos para ajudar outras empresas a poderem ter um produto de sucesso. Para já, esse produto pode ser a forma como compramos coisas, como refere: “O comportamento do consumidor alterou-se de ‘quero comprar isto’ para ‘quero aceder a isto'”.

Jakob trabalha nos escritórios da Samsung Next em Berlim

Qual é a missão do Samsung Next?
Para começar, a Samsung é uma empresa de hardware. É de onde vem o negócio dos componentes, mas também o negócio de eletrónica de produto. Como uma empresa com maior escopo, é super importante diversificar para outros fornecedores. Por isso é que o Samsung Next foi fundado há cerca de sete anos. Temos quatro pilares para alcançar essa missão.

Um deles é o investimento e, por isso, investimos em empresas com tecnologia em early stage [fase inicial] nos EUA, Israel e Europa. Temos cerca de 19 investimento feitos até hoje. É um portefólio vasto de empresas. Fazemos early stages para fases de seed [semente] até série B e investimos bastante em tecnologia deep tech [com grande potencial disruptivo e de inovação]. É um modelo de negócio de investimento que não é super interessante, mas se na base da empresa estiver tecnologia que achamos interessante, pode ser.

Têm um investimento em Portugal, a Unbabel, certo?
Temos um investimento em Portugal, a Unbabel. Foi o primeiro investimento que fizemos na Europa.

Há quanto tempo?
Foi há pouco mais de um ano. Participámos na última ronda e estou muito contente com a forma como a empresa está a portar-se.

Que trabalho fazem com as startups, investem apenas ou fazem outro tipo de acompanhamento?
Investimos, mas também tentamos ajudar o máximo que podemos. Na maioria das empresas em que investimos, investimos porque são melhores do que nós numa tecnologia. É por isso. Porque sabem como fazer boa tecnologia. Nos últimos passos, ajudamos a tornar esta boa tecnologia num grande produto. E, num terceiro passo, ajudamos a monetizar e a tornarem-se numa scaleup [empresa com modelo de negócio sustentável e crescimento acelerado]. Acho que isso é algo que podemos trazer para a mesa tendo em conta que somos um investidor global e a maioria dos VC [venture capital] são locais. Na Europa, ou só no Reino Unido, ou só em Lisboa. Temos escritórios em todo o mundo. Isso é diferente em relação a outros fundos e ajudamo-los. Ajudamos, por exemplo, uma empresa a expandir para os EUA e noutras coisas simples, como ter um espaço de escritório em Nova Iorque e São Francisco que podem utilizar se precisarem: têm uma mesa, podem entrar e usar a Internet. Depois, ajudamos com coisas mais especificas, como pôr as empresas em contacto com o ecossistema local e ajudá-las a encontrar clientes. No que é válido, ajudamo-las.

Quanto dinheiro já investiram em startups?
Temos 100 milhões de dólares para investir. É um fundo global para todos os continente. É dividido pelos escritórios. Cada investimento depende da fase em que está a empresa. Acho que se for um investimento early stage pode ser cerca de 200 mil até dois milhões, caso esteja numa fase final. Está neste patamar. É um fundo que só tem a Samsung [evergreen, só com um investidor]. Torna as coisas mais fáceis.

Falou de 19 empresas, e apenas uma é portuguesa. Quando podemos ver mais?
Não posso dizer. Dos três investimentos que fizemos na Europa, um é português. Isso é uma percentagem bastante boa. Temos visto aqui empresas. Não posso prometer que vai haver mais uma para a semana, mas estamos a olhar e, a certo ponto, estou confiante de que vamos fazer mais um investimento em Portugal.

"Dos três investimentos que fizemos na Europa, um é português. Isso é uma percentagem bastante boa. Temos visto aqui empresas. Não posso prometer que vai haver mais uma para a semana, mas estamos a olhar e, a certo ponto, estou confiante de que vamos fazer mais um investimento em Portugal"

Além da Europa, onde têm outros investimentos?
A maioria é nos EUA. A segunda parte é em Israel e depois é a Europa, onde está o escritório mais recente. Acho que temos dois ou três investimentos na Coreia.

Qual é o melhor tipo de empreendedor para a Samsung Next? O que falhou várias vezes ou o que foi bem sucedido à primeira?
Boa pergunta, acho que não tenho uma resposta definitiva. Depende. Geralmente, gostamos de pessoas que já falharam e são abertas quanto ao que aprenderam. Acho que isso é importante: ter uma conversa honesta sobre por que razão falharam e o que aprenderam. Acho que isso dá muito valor. Mas, obviamente, um empreendedor que foi super bem sucedido e quer começar o próximo negócio é também uma ótima oportunidade para nós. Acho que ambos são bons. Mas, para os que falham, olhamos para os que refletiram o suficiente e perceber por que é que isso aconteceu, isso é uma grande oportunidade também.

São uma empresa global, mas também uma empresa sul-coreana. O Jakob está responsável pelo setor europeu, ou por mais áreas?
Temos Israel e a Europa, operamos na Europa a partir de Berlim. Eu estou em Berlim, na equipa de plataforma. Estou na equipa de added value. Tudo o que está ao pé do dinheiro, para a Europa, passa por mim.

Há algum projeto destes 19 que num futuro próximo vá mudar a nossa vida?
Temos um empresa de consumo, chamada Grover, baseada em Berlim. Eles transformaram a eletrónica de consumo num sistema de subscrição. Em vez de comprar um S10, aluga-se, por exemplo. Acho que é este tipo de mudança na forma como consumimos que é bastante fundamental. E a empresa está a crescer bastante bem. Ainda só está na Alemanha e na Áustria, mas está a evoluir. Se stiver em Lisboa e virmos os ziliões de trotinetes nas ruas, acho que é um exemplo de como o comportamento do consumidor se alterou de “quero comprar isso” para “quero aceder a isso, só quero ir de A a B”. Vemos o mesmo com a eletrónica de consumo. Em vez de comprar o S10, porque sei que vai sair o Note, alugo-o durante 10 meses e depois faço a atualização.

Mas isso é sustentável para a Samsung? A Samsung faz dinheiro a vender telemóveis.
Sim, é. Primeiro, ainda vai vender para negócios. E, no final, tem tudo a ver com construir uma relação com os consumidores. É uma mudança maior que estamos a ver em muitas indústrias. O que controla a relação com os consumidores é o que gera também muito dinheiro. É verdade para a Samsung como para outros concorrentes no mercado.

Qual é o melhor pitch que lhe podem fazer?
Depende, quanto tempo temos?

Estilo pitch de elevador.
Ser direto quanto à equipa, tecnologia, mercado, timing (as circunstâncias de um potencial apoio financeiro), é muito bom dizer logo isso. Isso ajuda a perceber qual a melhor pessoa com quem têm de falar. Temos uma equipa maior com investidores que são peritos. Se alguém me falar de Digital Health não sou o perito nessa área, mas tenho algumas pessoas na nossa equipa que são peritos. Por isso, ajudo-os a ter uma conversa frutífera.

-- Qual é o melhor pitch que lhe podem fazer?
-- Depende, quanto tempo temos?

Como é que é um dia típico no trabalho de um investidor?
Posso dar o exemplo da semana passada de uma empresa localizada nos EUA. Estão quase a expandir para mais linhas de produtos e uma das partes em que querem investir é no setor automóvel. Para eles, é muito importante perceber e validar essa hipótese. Isto pode ser uma ótima hipótese, mas não sabem. Ajudamos a conectá-los com empresas de automóveis na Europa e outros concorrentes do ecossistema, de TIER 1 [empresas responsáveis pelo produto final]. Demorou uma semana, mais ou menos, para poderem falar com pessoas que lideram estes negócios para poderem validar se o que têm como hipótese vai resultar na prática. Se é realmente necessário, se compravam algo. Acho que isso é algo que podemos definir.

Que empresa foi?
A Filament. Investimos neles há cerca de 2 anos e agora querem fazer mais coisas, mas não têm ninguém na Europa. Acho que, para eles, é muito bom poder falar com uma Daimler, uma BMW, Porsche ou outras.

Empresas com que trabalhou no passado, certo?
Trabalhei com a Daimler antes de me juntar à Samsung. Sim. Isso ajuda nesse caso. Mas também a falar com outras empresas. Tem muito valor poderem falar com executivos antes de investirem mais no produto. É apenas um exemplo do que faço no dia a dia.

Também já foi um fundador?
Sim. Já vi o espectro todo. De empresas mesmo pequenas, onde era o primeiro empregado e comecei a contratar uma equipa e a construir um produto, até ao mundo corporate, onde estive num monstro como a Daimler. É super interessante. Antes, estive numa empresa e era muito horizontal a perspetiva que tinha. Agora, é uma noção vertical [de toda a cadeia de produção]. Trabalho com muitas empresas. É super interessante.

É alemão numa empresa global, mas que tem a sede na Coreia do sul uma enorme presença nos EUA. Sente obstáculos [culturais]?
É uma ótima pergunta. Com o Samsung Next, obviamente, a nave mãe é coreana e parte do Next foi fundado nos EUA. Do ponto de vista cultural, é mais uma empresa dos EUA, provavelmente, do que coreana. Acho que isso é diferente. Isto é o número um. Em termos de desafios específicos, uma coisa que temos sempre de explicar várias vezes é que, especificamente do ponto de vista dos EUA, o mercado e o negócio são uma coisa. O que é verdade nos EUA não é verdade na Europa. A UE é um mercado único, há um governo, muita regulação semelhante, mas, no final, tudo vem com sabores diferentes. Muitas línguas diferentes, muitas culturas diferentes. Muita regulação local. Na minha experiência, a trabalhar com empresas norte-americanas que querem vir para a Europa ou trabalhar na Europa perco muito tempo a explicar que é um mercado único, uma Europa, mas que tem muitos mais sabores do que provavelmente os EUA têm.

O ecossistema de Lisboa em Portugal que está “10 anos atrás” de Berlim

E um desses sabores é Portugal. Vem muitas vezes ao país?
Costumava estar aqui imensas vezes quando estava na Daimler. Decidiu-se abrir aqui um escritório, o Mercedez-Benz.io, com cerca de 100 pessoas. Nessa altura, era uma das poucas pessoas que viajava para aqui. Contratei o diretor que agora gere o escritório, mas, nessa altura, pelo menos uma vez por mês, passava aqui uma semana. Isto durante um ano e meio. Por isso, conheço bem Lisboa. Tratei de todas as coisas, do papel higiénico a garantir que o dinheiro da Alemanha chegava aqui e era investido. Tudo o que é preciso para começar algo como este projeto.

Como podemos comparar o ecossistema de Berlim, que continua muito apelativo, com o de Lisboa. Vemos que Lisboa é boa e está na moda, mas pode comparar-se a Berlim?
É um tamanho diferente. É um jogo diferente.

Mas como? Berlim está no nível de topo, como se estivesse na Liga dos Campeões, e Portugal está na Liga Europa?
Isso não sei, mas há uma diferença de 10 anos, creio. Berlim começou significativamente mais cedo a investir nisso. O fluxo de capital é significativamente maior, o número de startups que se vê é maior. O que também é injusto, porque Berlim tem quase 4 milhões de pessoas. Não se deve comparar uma com a outra. Mas acho que muitas das dinâmicas que víamos em Berlim há dois anos são semelhantes. Isso é um bom sinal. Há mais fundos a nascer aqui. Houve muita expectativa no início e, obviamente, é preciso deixar crescer o ecossistema organicamente. Não há atalhos para isso. As pessoas precisam de aprender coisas, o dinheiro tem de entrar, tem de ser investido. Não se pode acelerar isso, se calhar um bocadinho, mas não acelerar demasiado.

Falou em 10 anos em relação a Portugal. Como pode uma cidade como Lisboa apanhar Berlim?
Como disse, não há atalhos. Fazer o trabalho em dobro, ser paciente. Criar substância, não apenas expectativa. Isto com investidores e fundadores. Estar ciente que alguns podem falhar, mas ganhar conhecimento com isso, encorajar que tentem uma segunda vez. Isto é mesmo importante. Garantir que ao longo ciclo de vida do investimento há dinheiro. Garantir que existe estrutura e que problemas podem existir nos fundos.

Então, podemos olhar esperançosamente para o ecossistema das startups em Lisboa crescer no futuro?
Sim. Há sempre uma perspetiva maior do panorama económico. Mas se ficar tudo estável, acho que há muitas probabilidades de fazer crescer o ecossistema de Lisboa ainda mais. E o talento aqui é ótimo, acho que isso é o melhor ponto de partida.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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