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Aos 31 anos, Joana de Verona divide-se entre trabalhos como atriz em Portugal e no Brasil

Rui Oliveira/Observador

Aos 31 anos, Joana de Verona divide-se entre trabalhos como atriz em Portugal e no Brasil

Rui Oliveira/Observador

Joana de Verona: “Prefiro estar onde ninguém me conheça. É muito fácil colocar os outros em gavetas" /premium

Prestes a estrear “Mappa Mundi”, no Porto, Joana de Verona fala da ambição internacional, das pontes que criou no Brasil, da exigência do cinema, da eficácia da televisão e de como a pandemia a mudou.

Chega ofegante, de cara lavada, sem maquilhagem, e durante a entrevista come uma banana e descalça-se, como quem está sempre à vontade. Joana de Verona tem 31 anos e é uma das atrizes mais versáteis da sua geração, sem rodeios fala do que a move, dos vários interesses que tem e da vontade incessante em aprender, todos os dias.

Nasceu no Brasil e descobriu o poder das artes em casa, com a mãe que pinta, o pai que escreve e os quatro irmãos mais velhos que tocam música. Desde muito cedo que sabe bem o que quer: trabalhar algures entre a dança e a interpretação. Subiu pela primeira vez a um palco com 8 anos, aos 22 partiu para Paris para estudar realização e hoje, como atriz, divide-se entre Portugal e o Brasil.

Identifica-se com a leveza, calma, a liberdade e a falta de preconceitos do povo brasileiro, rejeita rótulos redutores e gosta de matérias que tocam a psicologia e a antropologia. A sua noção técnica tornou-a mais completa, mais crítica e mais analítica, desafiando as regras, explorando o movimento e alimentando-se de várias referências e expressões artísticas.

Depois de dar nas vistas no teatro e no cinema, onde é cada vez mais requisitada, foi em 2017, ao protagonizar uma novela da TVI, que se tornou conhecida do grande público. O papel principal deu-lhe visibilidade e uma exposição com que aprendeu a lidar “de uma forma prática”, apesar de ainda preferir “estar num lugar e não ser conhecida”.

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Confessa que a televisão lhe dá agilidade mental, eficácia e capacidade de adaptação, mas Joana prefere trabalhar com tempo e criar entre os avanços e os recuos próprios de quem tem dúvidas e procura encher-se de certezas. A pandemia obrigou-a a isolar-se, a conhecer-se melhor e a ganhar mais consciência dos dias bons e dos dias maus, aceitando-os e aprendendo com eles. Garante que ainda é cedo para se tirarem conclusões e prever consequências desta fase atribulada, mas garante que tudo mudou, no mundo, na arte e na sua vida.

Joana de Verona é co-criadora de “Mappa Mundi”, a performance/instalação que estreia esta quarta-feira na Mala Voadora, no Porto, à boleia do FITEI — Festival Internacional de Teatro e Expressão Ibérica.

Começou no teatro, apaixonou-se pelo cinema, estudou realização e graças à televisão tornou-se conhecida do grande público

Rui Oliveira/Observador

Nasceu no Brasil, o que tem de brasileira?
Tenho a abertura nas relações interpessoais. Sinto que há uma grande diferença entre o povo brasileiro e o povo europeu, não quer dizer na Europa não existam pessoas com abertura de espírito e sem preconceitos, ou que no Brasil não existam mentalidades mais fechadas. Isto é uma generalização, mas, de um modo geral, o pensamento e o comportamento são mais livres no Brasil. É algo inato e intrínseco, está relacionado com proximidade com a natureza, com o calor, com a música constante e com o facto de ser um país enorme, onde cada região tem uma identidade própria. Existe uma diversidade tão grande que tudo é possível, não há uma norma ou uma regra. Nesse leque abrangente de hipóteses culturais, as pessoas têm menos preconceitos. Gosto muito disso, tento praticar essa empatia com as pessoas e evitar ao máximo os preconceitos.

Desde muito nova que teve noção do que queria ser: bailarina ou atriz. De onde vinha essa certeza?
A expressão artística em minha casa sempre foi muito forte, a minha mãe pinta, o meu pai escreve e os meus irmãos tocam música, tenho quatro irmãos mais velhos. Lembro-me de desde sempre querer fazer aulas de dança e de teatro e estar sempre na dúvida entre uma coisa e outra.

Quando sobe ao palco pela primeira vez?
Aos 8 anos num espetáculo amador numa escola secundária em Almodôvar, no Alentejo, encenado pelo professor de filosofia dos meus irmãos. Eu era a única criança do grupo, lembro-me de estar nervosíssima, mas muito feliz. Não tinha a noção do que era a cena teatral, mas a senti toda a responsabilidade.

Aos 22 anos vai para Paris estudar realização de documentário. Porquê?
Sempre gostei muito de antropologia, se não tivesse estudado teatro, teria estudado dança contemporânea, psicologia ou antropologia. Não sei se é por ter tido a sorte de desde muito nova fazer cinema de ficção, mas sempre me interessou muito o documentário. A escola onde andei, os Ateliers Varan, tem um vínculo grande na antropologia, trata o cinema direto, aquele que permite um envolvimento com quem estamos a filmar. Por exemplo, se estou a filmar uma família, então vou morar com ela. Não é uma peça jornalística, é cinema, mas há uma envolvência grande, um assumir da equipa técnica, não se usam tripés, é tudo muito vivo e sem artifícios. Interessava-me perceber como podia captar material humano e transformá-lo num filme, ou seja, através da realidade construir uma ficção.

Esse conhecimento e experiência em realização, faz de si uma atriz necessariamente mais completa e mais crítica?
Sim, faz com que eu saiba o que está a acontecer num set de filmagem e tenha mais consciência técnica, no entanto, há atores que nunca estudaram realização e têm essa consciência porque se interessam. Claro que às vezes há coisas com as quais não concordo e quando me pedem opinião dou-a, mas o filme não é meu. Na verdade, o trabalho de um intérprete também é muito técnico, mas há que esquecer essa técnica e fazer com que ela seja uma alavanca. É bom ter noção das duas coisas, saber tecnicamente o que está a acontecer dá-me poder de análise, racionalidade e capacidade para resolver algum problema que possa surgir.

"O corpo tem memória e parece que já não sabe abraçar, é como se fosse uma torneira enferrujada, quando não abre a água não corre. O que era suposto ser uma coisa fluida e que alimenta, como são os afetos, acaba por ser algo enferrujado e perro."

Passou depois pelo Chapitô e pelo Conservatório, a formação é um aspeto importante no seu percurso?
Conheço atores que não têm formação nenhuma e são profissionais excecionais, mas sou um bocadinho viciada em aprender. Sou muito curiosa e tenho vários interesses, aliás, se pudesse estaria a estudar barro, pintura ou dança. Gosto de muitas coisas e acho natural que uma pessoa que trabalhe em arte seja inspirada por várias vertentes e percorra outros caminhos para aprofundá-los. No entanto, não dá para estar a 100% em tudo e há que fazer escolhas.

Tendo tantos interesses, não corre o risco de perder o foco?
Gosto de muitas coisas e sempre que há possibilidade vou investigando essas coisas, mas o meu foco está entre a interpretação, o teatro, o movimento e a performance. Estudar realização, fazer filmes ou criar espetáculos são passos naturais, são uma consequência. Não vou amanhã estudar biologia ou mecânica, as vontades que tenho de descobrir coisas são muito complementares umas às outras. São universos diferentes, mas não deixam de ser expressões artísticas.

Começou no teatro, solidificou-se no cinema, mas em 2017 protagonizou pela primeira vez uma novela na televisão, tornando-se conhecida do grande público. Como lidou com essa exposição?
Faz parte do meu trabalho, a única diferença é que gravava muito, muitas cenas por dia.

Mas o ser reconhecia na rua e o despertar mais curiosidade nos outros é uma coisa que lhe agrada?
Não me agrada nem desagrada, claro que prefiro estar onde ninguém me conheça. É muito fácil as pessoas colocarem os outros em gavetas e atribuírem rótulos, precisam de traduzir e criar significado para as coisas, caso contrário ficam um bocadinho confusas. Não gosto muito disso, mas é inevitável, acabamos sempre por ter preconceitos, a ideia é que eles se dissipem ao máximo. Prefiro, obviamente, que ninguém olhe para mim e faça ideias preconcebidas, não é uma coisa que procure ou que seja um motor do meu trabalho. Lidei com isso de uma forma muito prática, não sendo propriamente uma questão e a coisa mais importante do meu dia. É uma consequência natural do que faço profissionalmente e está tudo bem.

Desde os quatro anos, que Joana ambicionava ser atriz ou bailarina. Estudar dança é um dos seus desejos

Rui Oliveira/Observador

Graças a essa mesma novela, na TVI, ganha um prémio internacional. Tende a relativizar essas menções ou trabalha para elas?
Quando o prémio é só meu — como foi o caso do prémio de melhor atriz de cinema pela Sociedade Portuguesa de Autores, em 2016 — é mais fácil de relativizar, quando é coletivo também se tem de relativizar, até porque existem sempre questões políticas à volta dos prémios, mas é bom porque há uma equipa inteira que fica contente e motivada. Sinto-me feliz por saber que é uma coisa que dá felicidade a um grupo grande de pessoas e que pode motivar a exigência e a dedicação ao trabalho. Para mim, é um momento de reconhecimento, mas a minha vida não muda por causa disso.

Muitos atores não fazem televisão por opção, mas ela acaba por garantir alguma estabilidade financeira. É o seu caso? Sempre conseguiu escolher os seus trabalhos?
A televisão é estável até à página dois, temos um contrato por obra, ou seja, fazemos uma novela ou uma série de seis ou sete meses e depois acaba. Nunca tive um contrato com nenhum canal de televisão, é sempre uma coisa temporária e pontual. As minhas escolhas dependem muito da fase da vida em que estou, pode haver uma altura em que quero pensar de um ponto de vista mais financeiro, mas também posso escolher um trabalho por o elenco ser muito bom, pela história ou pelo argumento. Na verdade, a televisão dá uma agilidade mental muito grande, é um sítio onde temos de ser muito eficazes e onde ganhamos uma capacidade de adaptação e de resistência face a situações adversas. Tentar fazer as cenas com toda a exigência, num ambiente stressante e com falta de tempo, não caindo no facilitismo, obriga-me a dar respostas ágeis, o que não deixa de ser interessante. Fazer televisão de vez em quando é bom e é importante não ir lá apenas com uma motivação financeira, pois isso pode tornar-se um pouco limitante e frustrante. Claro que prefiro fazer um processo mais calmo, criar um espetáculo ou realizar um filme, como intérprete ou criadora, com tempo e espaço para ter ideias, para pensar sobre elas, para as selecionar, para voltar atrás, se quiser.

O assédio sexual no meio televisivo e artístico está na ordem do dia, já sofreu isso na pele?
Nunca fui assediada e nunca vi nada chocante à minha frente, se visse, seria a primeira a atuar. O assédio deve ser travado, as pessoas têm que impor um limite e se isso não for o suficiente devem denunciar. No Brasil, por exemplo, existe uma linha para a qual podemos ligar, fazer a denúncia e a pessoa é suspensa. Isto pode acontecer em Portugal, não temos que nos calar. Havendo algo que nos constrange e incomoda, há que denunciar sem medos, pois ao fazê-lo estamos a evitar que se perpetue e que outros sofram com isso também.

"No Brasil as pessoas são mais leves, o que não quer dizer que não levem as coisas a sério, mas há uma noção do tempo mais calma, o ritmo é diferente, menos stressante, as pessoas relaxam mais."

Em 2019 estreou-se na TV Globo, com uma novela e na HBO Brasil, com uma série. Trabalhar no Brasil era um objetivo?
Sim, tenho tido a sorte de fazer coisas lá e cá desde 2002, quando fiz a minissérie “Presença de Anita”. Seguiu-se o filme “Praça Paris”, em 2017, a série “África da Sorte”, em 2018, em 2019, a série “Santos Dumont – Mais Leve Que o Ar”, na HBO Brasil, e a novela “Éramos Seis” na TV Globo. Ainda este ano vai estrear o filme “Tinnitus”, gravado em São Paulo, do qual sou protagonista e dou vida a uma atleta de alta competição de salto ornamental sincronizado.

Em que medida o mercado, o público e a forma de trabalhar são diferentes?
O mercado é enorme, tanto em artes cénicas como em cinema, e o público é muito abrangente, há pessoas para todo o tipo de expressões artísticas e isso interessa-me. Todas as experiências que tive até agora foram todas muito distintas, é diferente fazer um filme no Recife e depois ser uma atleta de alta competição em São Paulo ou a fazer uma série de época no Rio de Janeiro. No Brasil, as pessoas são mais leves, o que não quer dizer que não levem as coisas a sério, mas há uma noção do tempo mais calma, o ritmo é diferente, menos stressante, as pessoas relaxam mais.

Algum projeto que lhe tenha dado mais gozo fazer?
Há um trabalho muito marcante na minha vida profissional e pessoal que foi o filme “Como Desenhar um Círculo Perfeito”, em 2009, do Marco Martins. Tinha 17 anos, foi um encontro artístico brutal, fez-me crescer muito. A possibilidade de fazer um trabalho continuado com a Mónica Calle é algo que me marca, trabalho com ela desde os 18 anos e é bom poder desenvolver trabalhos na área performativa explorando a questão do corpo. Também fui muito feliz a fazer a novela para a Globo, cheguei lá a uma segunda-feira e na terça comecei a ensaiar. Não conhecia ninguém, mas tive muita sorte em fazer um projeto cuidado com artistas incríveis, como a anfitriã Glória Pires, e desenvolver uma personagem muito versátil e transgressora, que ultrapassava as regras sociais dos anos 20.

Explorar outros mercados internacionais é algo que lhe interessa?
Sim, tenho um agente em França, às vezes faço filmes independentes lá. Gosto muito do cinema europeu, interessa-me ter experiências diversificadas e que me fortaleçam.

Mais em cinema do que em teatro?
Em tudo, mas agora com estas plataformas é mais fácil fazer uma série ou um filme do que ir fazer um espetáculo na Rússia, a menos que seja uma coisa mais ligada ao corpo. Adorava ir para a Bélgica ou para França fazer espetáculos e estudar mais o corpo.

A pandemia obrigou a atriz a isolar-se, a conhecer-se melhor e a respeitar-se ainda mais. "Foi duro, mas uma aprendizagem brutal"

Rui Oliveira/Observador

O que a pandemia mudou na sua vida?
Tudo, mudou na vida de toda a gente, já ninguém é igual e não sabemos se tudo será igual, talvez não.

Para melhor ou pior?
Não sei, acho que ainda não passou tempo suficiente para perceber. Em algumas coisas mudou para melhor, outras para pior. É preciso distância do acontecimento para se perceber a efetiva transformação.

Na arte a transformação é maior?
Precisamos de distância, a resposta dos artistas pode ser brutal, tudo isto pode ser uma combustão criativa muito grande, podem-se arranjar dispositivos interessantes para chegar às pessoas, mas também pode criar bloqueios. Por enquanto andamos todos a tentar saber como se faz esta coisa do digital, como se adapta, como se comunica, como pode potenciar ou prejudicar o ato criativo, mas é tudo muito recente. Ninguém sabe quando isto vai acabar, ainda não acabou, é preciso tempo.

E a nível pessoal?
A parte negativa é que parece que desaprendemos a socialização, temos medo, afastamo-nos e estes bloqueios inibem, vão criando tristeza. O corpo tem memória e parece que já não sabe abraçar, é como se fosse uma torneira enferrujada, quando não abre, a água não corre. O que era suposto ser uma coisa fluida e que alimenta, como são os afetos, acaba por ser algo enferrujado e perro. Ao contrário do segundo confinamento, em que já estava a trabalhar, o primeiro coincidiu com o momento em que, nove meses depois, cheguei do Brasil e passei esse tempo completamente sozinha em Lisboa. Foi um momento bem duro e isolado, mas funcionou como uma aprendizagem brutal. Temos mais facilidade em lidarmos connosco quando estamos sozinhos, mesmo quando estamos mal há que saber aceitar e abraçar esse momento. Este contacto comigo própria, com o que estou a sentir e a precisar, foi muito importante. Aprendi a ganhar essa consciência, a perceber-me melhor, a respeitar-me e a escutar-me mais. Esse momento deu-me uma combustão criativa, apesar daquela pressão que senti ao pensar que não escrevi, não li tantos livros nem vi tantos filmes como deveria. Senti que devia estar a ser produtiva e a criar coisas, mas por outro lado, voltei a pintar, algo que já não fazia há muito tempo, e realizei um vídeo arte, que vai transformar-se numa instalação para um projeto futuro.

"Nunca fui assediada e nunca vi nada chocante à minha frente, se visse seria a primeira a atuar. O assédio deve ser travado, as pessoas têm que impor um limite, se isso não for o suficiente devem denunciar."

Fale-me de “Mappa Mundi”, esta instalação/performance que estreia no Porto à boleia do FITEI?
Eu e o Eduardo Breda fomos colegas de faculdade, sempre dissemos que queríamos fazer um espetáculo juntos, híbrido, entre o cinema, a dança, o teatro e a performance. Ele, tal como eu sou, é um criador que busca várias coisas em vários lugares, tem referências em artes plásticas e era uma vontade mútua trabalharmos o corpo. Há dois anos vim ao Porto ver uma exposição em Serralves e construi um dispositivo cénico, a partir daí percebi que queria trabalhar uma peça performativa que fosse também uma instalação e que juntasse as artes plásticas, o vídeo e o corpo. O espetáculo reflete a relação entre memória, identidade e corpo. Qual é a memória que está no nosso corpo? De que forma é que o corpo tem essa memória? Como é que a identidade se manifesta através do corpo? Como é que estas duas figuras, eu e ele, nos relacionamos com corpos, identidades e memórias diferentes? Queria explorar a democratização do espaço, um espaço galerístico que não fosse teatral, onde as pessoas, se não houvesse pandemia, pudessem interagir connosco e com os materiais, como se de uma exposição se tratasse.

Que projetos tem programados para este ano?
Tenho uma série que será filmada cá e distribuída para outros países, mas que ainda não posso falar muito, e um espetáculo com a companhia Teatro Meridional.

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