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MELISSA VIEIRA / OBSERVADOR

MELISSA VIEIRA / OBSERVADOR

João Brites, o português “breakonomista” que já esteve em Davos. "Sou o miúdo que dança breakdance nas apresentações da empresa" /premium

Trabalha na maior empresa de bebidas no mundo e faz breakdance nas apresentações. Criou uma "escola de superpoderes" e quer salvar a Amazónia. João Brites em entrevista a Laurinda Alves.

João Brites é um homem do “sim”. Disse que sim ao mundo das artes quando aprendeu breakdance nas ruas de Palmela. Disse que sim à ideia de usá-lo para enriquecer as comunidades. Disse que sim ao desafio de levar a dança para dentro do ambiente corporativo da empresa onde é economista. Disse que sim à ideia de contribuir para uma utilização mais consciente do álcool. E disse que sim aos projetos para proteger a Amazónia. São muitos “sins” para quem tem 28 anos. João Brites é o último convidado de Laurinda Alves no programa “Imperdíveis” da Rádio Observador, que pode ouvir aos domingos às 11h00.

João Brites, 28anos, breakdancer, economista, bem-vindo aos “Imperdíveis”. Queria começar por pedir aquilo que peço a quase todos os convidados, para se apresentarem, seja por traços de carácter, seja pelos projetos, seja por aquilo que os apaixona. Gostas de dizer o que é que a minha cabeça anda a fazer, o que é que a minha cabeça anda a pensar, as minhas mãos a fazer e o meu coração a sentir. Isto é uma expressão muito do João Brites. 
É. E acho que aquilo que tento fazer é juntar todas elas, não é? E acho que a forma como me defino, “breakonomista”, é um bocado resultado disso também, não é? É esta junção…

É uma palavra nova que tu inventaste, “breakonomista”.
É um bocado.

É uma ligação improvável.
Sim, sim. Vejo muito o meu papel no mundo e o meu propósito em como ser esse elo de ligação, essa ponte entres realidades diferentes, entre colaborações improváveis que têm impacto. Impacto social, impacto ambiental. E ser “breakonomista” é ter esse lado de bailarino. Danço breakdance há mais de dez anos, aprendi a dançar na rua, em Palmela com amigos. E também significa ser economista, mas um tipo de economista um pouco diferente. Gosto de me ver como um economista regenerativo.

Capitalismo regenerativo.
É focado nesta ideia do capitalismo regenerativo, não é? De entender que o capitalismo como nós temos hoje está a gerar uma série de efeitos e de consequências no planeta e na sociedade que não são desejáveis. De desigualdade, da poluição. E como é que nós podemos então reinventar este sistema tendo uma ótica de regeneração, de curar o mundo e curar a sociedade de alguma forma, olhando para o sistema? E quais é que são os parâmetros que nós podemos alterar no sistema? E como é que o podemos alterar para garantir que o capital é uma ferramenta para a justiça social e para garantir que o planeta e a natureza também prosperam?

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O capitalismo como nós temos hoje está a gerar uma série de efeitos e de consequências no planeta e na sociedade que não são desejáveis. De desigualdade, da poluição. E como é que nós podemos então reinventar este sistema tendo uma ótica de regeneração, de curar o mundo e curar a sociedade de alguma forma, olhando para o sistema? E quais é que são os parâmetros que nós podemos alterar no sistema?

Isso é uma utopia ou é uma possibilidade real?
É uma possibilidade e uma utopia. Mais uma vez, acho que esta ideia de colaboração requer nós juntarmos coisas que às vezes associamos como mutuamente exclusivas…

Portanto, a tal improbabilidade.
A improbabilidade é improvável mas é possível e gosto muito daquela ideia de… Houve um poema que li há muito tempo e que acho que realmente teve um impacto enorme na minha vida, plantou uma semente que fez crescer uma árvore e continua comigo. É um poema do Václav Havel em que ele fala sobre a diferença entre esperança e otimismo e diz que o otimismo é a expetativa que as coisas vão correr bem com base nos dados que temos, enquanto a esperança é a certeza que algo faz sentido, independentemente de como vier a correr. E acho que a utopia e a realidade encontram-se nesta palavra “esperança”, não é? É que é às vezes as coisas… Olhando para o mundo, olhando para o nosso estado hoje, em termos dos sistemas políticos, forças populistas e de extrema-direita e nacionalistas, estes estão a ganhar força. O impacto ambiental na Amazónia: olhamos para a geopolítica e vemos a incerteza e a instabilidade. Temos de olhar para o mundo que existe e tentar perceber como é que nós, apesar de tudo isto, conseguimos inventar alternativas.

Estiveste no fórum de Davos com 19 anos a representar a juventude mundial. Como é que foste lá parar?
Foi uma mistura de sorte e algum engenho. Quando eu comecei a dançar breakdance vivi uma transformação enorme como pessoa. O breakdance deu-me muita confiança em mim próprio, confiança que na altura não tinha muito.

Mas tu eras campeão de natação, esqueci-me de dizer isto.
Exato.

Foste campeão nacional de natação algumas vezes.
Nas estafetas do Belenenses, algumas vezes, sim.

Portanto, apesar da pouca confiança, havia endurance e resiliência para chegar ao pódio.
É, mas acho que havia aquela… Não havia aquela confiança para seguir o nosso caminho, não é? Porque natação comecei a fazer desde os cinco anos e gostei muito. Mas ter aquela coragem de seguir o caminho não trilhado… De ver a estrada e não escolher ir pelo meio do mato… Essa era a coragem que me faltava e que o breakdance me deu. Então, depois, eu e o meu grupo que vivemos essa transformação, começamos a dar aulas de breakdance a miúdos da nossa comunidade e esse projeto foi crescendo e criou também um programa chamado “Global Change Makers”.

E tu és um “Global Change Maker”.
Sim. E que basicamente identifica jovens entre os 16 e os 25 anos de todo o mundo que estão a fazer coisas para transformar a sua comunidade e, em resultado disso, a transformar o mundo. E eles nessa altura levavam todos os anos seis jovens para representar a juventude mundial no Fórum Económico Mundial de Davos e…

E tu foste um dos seis?
Um dos seis.

Nessa altura já tinhas criado os “Transformers” ou isso foi depois? 
Os “Transformers” foram um resultado direto da participação em Davos. Com parte da experiência em Davos eles desafiaram-nos: “O que é que vem a seguir”, não é? Ok, vocês usam o breakdance para transformar a vossa comunidade, a comunidade em Palmela. Mas e depois? Como é que se pode escalar isto? E o programa “Global Change Makers” o que faz é dar a estes jovens os recursos, as redes, as ferramentas para eles poderem transformar soluções, que são soluções de base comunitária, para soluções que são de base massiva e com escala.

João Brites aprendeu breakdance aos 18 anos com os amigos. Créditos: MELISSA VIEIRA / OBSERVADOR

MELISSA VIEIRA / OBSERVADOR

Ou seja, há ali um modelo de mentoria e depois de replicabilidade, é isso? Para escalar o projeto e para poder fazer mais trabalho em mais comunidades.
Exato. E o “Transformers” foi resultado disso, foi resultado desta aspiração que eu tinha, como muitos amigos meus e jovens. Essa ânsia…

E os “Transformers”, só assim num instantinho, o que é que é? É esse programa de mentoria, de voluntariado invés de nestas comunidades os jovens estarem com a sensação de que não têm nada para fazer e também ainda não encontraram o seu caminho e alguns até, se calhar, em margens de pré delinquência e vocês dão-lhes as ferramentas, vão ver o que é que eles gostam mais de fazer (pode ser parkour como pode ser hip-hop, natação, o que for) e fazem essas atividades com eles?
Exato. E o que nós temos, basicamente, é um sistema focado em “escolas de superpoderes”. E as “escolas superpoderes” são as escolas que têm base comunitária. Mais uma vez, nós acreditamos que qualquer comunidade já tem os recursos, os talentos e as belezas para materializar os seus sonhos coletivos. É uma questão de os juntar e de os fazer trabalhar juntos.

Conjugar e multiplicar?
E as escolas de superpoderes são isso, juntam aprendizes da comunidade com pessoas da comunidade que têm talentos, que partilham esses talentos com esses aprendizes para que eles se envolvam civicamente e que transformem a sua comunidade através do que mais gostam.

De que tipo de talentos é que estamos a falar? 
Tudo: graffiti, breakdance, música, guitarra, ciência, filmes, cinema, judo, skate

Tudo.
Qualquer talento que exista numa comunidade é um talento passível de ser ensinado.

O que nós temos, basicamente, é um sistema focado em “escolas de superpoderes”. E as “escolas superpoderes” são as escolas que têm base comunitária. Mais uma vez, nós acreditamos que qualquer comunidade já tem os recursos, os talentos e as belezas para materializar os seus sonhos coletivos. É uma questão de os juntar e de os fazer trabalhar juntos.

E de ser um superpoder.
Sim.

Deste aulas de economia, na Nova e ao mesmo tempo criaste projetos na Amazónia. Esta Amazónia que dói com o que se passa neste momento. Qual é a tua perspetiva em relação a isso e que projetos é que criaste lá?
Trabalhei como estagiário na “Fundação Amazónia Sustentável”, onde liderei um projeto chamado “Amazon Summer School”, escola de verão da Amazónia, que é um programa para formar líderes em sustentabilidade, usando como laboratório de experiências a própria floresta e a própria comunidade da Amazónia. E é um conceito interessante, porque parte dessa escola de verão podem ser participantes de todo o mundo ou pessoas da comunidade. Não há aquela ideia de virmos aqui para ajudar unilateralmente, mas é um fenómeno de partilha…

De escuta, certamente. 
Escuta e de identificar se os nossos desafios de sustentabilidade são tão grandes. Então, o que é que é isso da sustentabilidade e como é que nós podemos gerar lideranças que estão preparadas para adaptar as nossas empresas, as nossas organizações e as nossas sociedades para fazer esse tipo de mudanças.

Então, no concreto, como é que era o dia a dia, o que é que se fazia em concreto com as pessoas de lá e os que chegavam?
O programa basicamente tem cinco módulos. Recriamos a escola de verão de dois em dois anos, portanto, qualquer pessoa pode-se candidatar.

Com qualquer idade? 
Sim, qualquer idade.

E qualquer área de especialidade?
Exato. E isso é parte da experiência, não é? Porque o próprio conceito de sustentabilidade está intimamente ligado com a intergeracionalidade e daí termos participantes tão diversos. O primeiro módulo é focado no autoconhecimento, porque toda a transformação tem de começar de um processo de consciência da própria pessoa e do papel que a pessoa tem no mundo e na comunidade. Depois tem uma parte a que chamamos “Amor à natureza”, que é focada na biologia da Amazónia, perceber esta interdependência que existe entre o clima e como é que, por exemplo, a Amazónia é tão importante para as chuvas de outras partes do mundo. E sobre como é que as queimadas que estão agora a acontecer na Amazónia vão necessariamente impactar os níveis de precipitação que se vão sentir nos próximos anos. Todos estes fenómenos estão interligados.

Depois há uma terceira etapa que é focada na ideia do caring about people, que é esta ideia de que a natureza não existe independentemente das comunidades e das pessoas. Os programas que os conservacionistas tinham eram quase isolados das pessoas. E o que a fundação faz é reconhecer que temos que tratar os dois temas ao mesmo tempo. A ideia é trabalhar com a comunidade. Quais é que são as fontes de rendimento da comunidade.

E quais são as fontes de rendimento da comunidade na Amazónia?
Estão a mudar, não é? No passado era a exploração da madeira, era a exploração do ouro, era a pesca, alguma pecuária.

E agora? 
A comunidade onde nós trabalhamos , onde fazemos a escola de verão no Tumbira, é uma reserva de desenvolvimento sustentável onde se fazem atividades económicas mas em harmonia com a natureza. É feita a exploração sustentável da madeira. Muitos dos comunitários que eram madeireiros antes, agora fazem turismo sustentável.

Portanto, há uma conversão pela sustentabilidade. Só porque gostava imenso de ficar aqui só pela Amazónia, gostava de ver o que é que te preocupa mais neste momento?
O que me preocupa é que cheguemos a um ponto de não retorno, preocupa-me que o debate esteja tão polarizado que seja difícil reverter aquilo que está a acontecer…

Ou seja, é difícil encontrar consensos para poder reverter essa realidade?
Sim. E também me preocupa a nossa capacidade de encontrar esses consensos suficientemente rápido, considerando a urgência climática em que vivemos. E acho que é por isso que é tão importante, hoje mais do que nunca, ver o tipo de mobilização em massa que houve pelo mundo fora pela Amazónia, que é um tipo de mobilização que necessariamente tem de continuar  a acontecer.

Então, só para fechar aqui o ciclo dos módulos… 
O quarto é focado na ideia de know how, encontrar pessoas que estão a trabalhar na Amazónia e que estão dentro do sistema ambiental e ouvir as suas experiências. E como é que vivem a transformação do sistema a partir desse lugar. São cientistas, são políticos, são investigadores, empreendedores, ativistas. E depois a última parte, a que chamamos bravery, tem a ver com pôr as mãos na massa. Com base em tudo isto, nesta inspiração, nestas redes, nestas ferramentas, ver o que é que podemos criar nesta comunidade que seja um exemplo de uma ação para solucionar a crise climática numa perspetiva de comunidade a comunidade, lugar a lugar.

E isso está a acontecer? Vocês já têm resultados?
Sim, já fizemos três edições da summer school, houve pessoas que mudaram totalmente a sua vida em resultado da situação. Lembro-me de dois participantes que agora estão a trabalhar na fundação “Amazónia Sustentável”, porque participaram e sentiram que o seu ‘chamado’ estava ali e por ali ficaram.

O “seu chamado” já é bem brasileiro. E o outro projeto na Amazónia? 
O outro projeto na Amazónia tem mais a ver com a posição que atualmente tenho na “Ab Inbev” que é uma empresa de refrigerantes e de cervejas…

Onde és diretor global de… 
Diretor global de smart drinking. É da nossa área de responsabilidade social..

Esta empresa é a maior distribuidora de cervejas do mundo?
Sim, exatamente. Uma em cada quatro cervejas vêm da “Abinbev”.

O que é que vocês fazem? O que é que tu fazes nesta empresa?
O meu trabalho tem evoluído. Atualmente foca-se em perceber o papel da empresa em eliminar o consumo nocivo de álcool no mundo, através de parcerias com diversas organizações governamentais…

No negócio, parece que se está a dar o tiro no pé. Ou não?
Exatamente. E acho que volta à ideia de que as parcerias improváveis e o impacto que essas parcerias improváveis podem ter para resolver problemas…

E difíceis. 
No nosso caso, o que nós temos visto é que um dos nossos grandes eixos de ação dentro de smart drinking é, por exemplo, a reformulação e a produção de bebidas com baixo nível de álcool ou sem álcool, cerveja sem álcool.

O que é extraordinário, porque o que se percebe é que as bebidas são cada vez mais aditivas e têm cada vez mais álcool. Os jovens começam a beber cada vez mais cedo e há cada vez mais casos de comas alcoólicos. E a maior distribuidora do mundo está a tentar contrariar isso. Foste para lá com 25 anos e desde essa idade, tens agora 28, é o que estás a fazer. És responsável por reverter também esta situação? 
Esta responsabilidade é nova. Foi a partir deste ano que comecei a trabalhar na área de smart drinking. Antes trabalhava mais com os projetos de sustentabilidade ao longo da cadeia de valor, porque também temos refrigerantes. Por exemplo, o Guaraná Antártica que aqui vendemos em Portugal é um dos projetos em que estive a trabalhar e que realmente se conecta à Amazónia. Teve a ver com o fornecimento sustentável de Guaraná. Porque 80% do guaraná que nós usamos nesta bebida vem de uma região da Amazónia que se chama Maués, que é uma região-exemplo do que está a acontecer em muitas comunidades na Amazónia com o desenvolvimento: com a evolução está a ganhar população, está a causar desflorestação. O que fizemos foi criar uma aliança que se chama “Aliança de Guaraná de Maués”, onde organizações governamentais, setor privado, empresas, ativistas, jovens, escolas, todos colaboram em diferentes grupos de trabalho para criar a Maués dos nossos sonhos. Como uma empresa que tem uma forte pegada nessa zona, criámos uma cadeia de fornecimento sustentável de Guaraná, em que os “guaranicultores” possam viver dessa cultura, possam resgatar as suas tradições e garantir que têm uma vida digna.

Isso quer dizer que fazes exatamente aquilo em que acreditas? 
Eu faço exatamente aquilo em que acredito. A parte da colaboração requer sempre que uma pessoa ajuste e colabore para encontrar consensos. Ou seja, não quer dizer que faça sempre o que quero, mas faço sempre aquilo em que acredito, que tem sentido e que me faz bater o coração mais rápido.

Faço exatamente aquilo em que acredito. A parte da colaboração requer sempre que uma pessoa ajuste e colabore para encontrar consensos. Ou seja, não quer dizer que faça sempre o que quero, mas faço sempre aquilo em que acredito, que tem sentido e que me faz bater o coração mais rápido.

Mas a vida não se vive só a fazer aquilo que nós gostamos e que apetece, mas aquilo que vale a pena e que faz sentido, ou não?
Exato.

E voltando a esta empresa, que é uma grande empresa e que contrata um jovem economista “regeneracionista” com 25 anos para começar a trabalhar primeiro no México e depois o leva para Nova Iorque. É extraordinário que no mundo corporativo haja também esta aposta, não é? Alguém que acredita profundamente que a economia pode ser uma ferramenta de sustentabilidade, de igualdade e de promoção da justiça?
Exatamente. E acho que é por isso que sou tão otimista e esperançoso: por em certa parte estar a viver a transformação desde dentro, num sistema que há uns anos ou ainda hoje muitas pessoas diriam que seria improvável que fossem parte dessa mudança.

E isso é fácil no dia a dia? Acordas e adormeces todos os dias a achar que estás a conseguir? Ou há uma grande erosão e um grande stress? E muitos obstáculos e barreiras? 
Sem dúvida que há os dois, não é? Há esperança, há visão e há os obstáculos. É a partir dessa tensão que surge a criatividade. Esta ideia da expetativa versus a realidade gera uma tensão e algumas pessoas olham para essa tensão e…

E desistem.
E desistem e podemos olhar…

E há outras que acham que é um desafio. 
… para essa tensão como uma fonte criativa.

João Brites está envolvido em projeto de proteção da Floresta Amazónica. Créditos: D.R.

Como é que se conjuga tudo isto que tem a ver com dança, com impacto na comunidade, com ser economista? Como é que é o teu dia a dia em Nova Iorque? 
O meu dia-a-dia começa bem cedo. Levanto-me, tomo o pequeno almoço, normalmente uma bowl de açaí, vou correr para o metro…

Mas isso a que horas?
Aí por volta das seis e meia, sete da manhã e vou a correr para o metro. E depois, Nova Iorque tem esta coisa engraçada de, no caminho para o trabalho, estar no metro, estar na cidade e ver a inspiração das culturas…

Observar a diversidade.
É incrível, é uma coisa que gosto imenso de fazer, enquanto ouço um podcast. Depois chego ao trabalho e, como trabalhamos na sede global, acabamos por ter muitas teleconferências e falamos com pessoas de outros países. Como também é um papel muito estratégico, preparamos bastantes apresentações e passamos muito tempo a negociar. E como somos da área de assuntos corporativos também temos esta ligação à parte externa. Criar alianças com as Nações Unidas, com outras organizações…

Aliás, essa aliança com as Nações Unidas aconteceu já. Vai ser concretizada uma conferência ambiental que estás também a organizar?
Sim, sim. Uma das cervejas da Budweiser já é produzida com 100% de energia elétrica e nós temos o compromisso de, até 2025, 100% da eletricidade que usamos e que contratamos vir de fontes renováveis, nomeadamente de parques eólicos em grande maioria. Estamos a apoiar a organização de uma conferência ligada à semana climática das Nações Unidas que vai ser na última semana de setembro e que foi convocada por António Guterres, tomando em consideração a emergência climática em que vivemos. Estou a organizar esse eventp com o apoio da “Ambinbev”, mas também como global shaper, que é uma rede de jovens do Fórum Económico Mundial…

És um global shaper
Sou um global shaper, changemaker, shaper. Essa conferência é focada em traduzir as metas de desenvolvimento ambiental da cidade de Nova Iorque para 2050 e de mobilizar os negócios locais com pegada em Nova Iorque para serem uma força massiva para chegar a esses objetivos.

Isso é um propósito genial mas brutal.
É brutal porque…

É uma convocação massiva dos pequenos negócios e é uma conversação massiva também. E uma observação de comportamentos e de mudança, de comportamentos e de mindset, não é? 
Especialmente mindset. Porque, mesmo em Nova Iorque, ainda há o mindset de trade off, desta ideia de se queremos preocupar-nos mais com o meio ambiente há algo que temos que sacrificar. E não vemos as coisas como absolutamente interligadas.

E o que estás a fazer para que as pessoas comecem a incorporar esse novo mindset?
Aí é que estes mundos se unem. O mundo do bailarino. Quando faço apresentações na empresa, danço nas apresentações…

Não só és muito novo, como és diretor global dessa área da empresa, como ainda por cima danças. 
Sim.

És um breakdancer e isto tem um impacto enorme. 
Sim. E a dança é uma linguagem primordial. Houve algumas apresentações em que usei a dança dentro da empresa. Hoje sinto que a rede que tenho é muito maior porque sou o miúdo que dançou breakdance naquela apresentação e…

A dança é uma linguagem primordial. Houve algumas apresentações em que usei a dança dentro da empresa. Hoje sinto que a rede que tenho é muito maior porque sou o miúdo que dançou breakdance naquela apresentação.

Isso fica na memória. 
Fica. E depois é uma rede que se pode alavancar para promover esta agenda de desenvolvimento social e ambiental. Também na Amazónia aprendi muito sobre essa ideia de trabalhar com comunidades. E na Amazónia há uma tribo em específico que tem um ditado, um dizer, um lema. “Assim como no jogo, assim como na vida, assim como na vida, assim como no jogo”. Eles acreditam que os jogos são formas de descobrirmos como estamos a jogar a nossa própria vida e que a nossa vida se reflete na forma como jogamos os jogos. Então há uma série de jogos muito simples que fazemos que revelam realidades tão básicas e gerem uma consciência tão forte sobre o nosso comportamento que acabo por usar esses jogos também no contexto cooperativo, do ativismo e do voluntariado para gerar essa consciência. Porque a mudança, mais uma vez, começa a partir da consciência do próprio.

De que tipo de jogos é que estamos a falar?
São jogos super simples. Há um de que gosto muito, que usamos muitas vezes em que, basicamente, as pessoas se sentam num círculo à volta de uma fogueira, à volta do que seja, e com as pernas para a frente de tal forma que os pés fazem um círculo. Pedimos três coisas a esse grupo: tocar com os dedos das mãos nos dedos dos pés. O primeiro pedido toda a gente toca da mesma forma, põe a mão direita no pé direito, a mão esquerda no pé esquerdo e já está. Depois perguntamos: “Ok, façam o mesmo mas agora façam de forma diferente”. As pessoas lá mudam, depois perguntamos: “Façam o mesmo, mas façam na versão melhor de vocês próprios”. E a última é: “Façam o mesmo, ou seja, tocar com os dedos das mãos nos dedos dos pés mas da forma mais colaborativa possível”. E o resultado é que é preciso uma pessoa pedir para nós sermos a nossa melhor versão, para sermos a versão mais colaborativa, para sermos diferentes, para essa ser a nossa resposta.

Porque é que isso não sai de nós? 
Porque é que o automático é ser igual. É o status quo.

As pessoas têm que se descalçar, têm que aceitar colaborar e tocar nos pés uns dos outros? E isso também destrói alguma barreira?
Sim, sim. Tem mais a ver com a criatividade que cada pessoa traz. Mais uma vez é um jogo, não é? Esta ideia de usar o jogo para gerar mudanças de larga escala é muito poderosa porque se eu disser aqui: “Laurinda, vamos começar aqui uma nova organização para combater a pobreza no mundo”, a Laurinda, se calhar, até gosta…

Pois, é um objetivo demasiado vasto.
Exato. E agora se eu disser: “Laurinda, ‘bora’ jogar um jogo?”. As pessoas naturalmente estão entusiasmadas por jogar jogos, então a intimidade quase que surge naturalmente…

E há certas barreiras que caem?
Exatamente.

Quem é que mais te inspira, quem são as pessoas, quem são os pilares da tua vida? 
Os meus pilares são os meus pais, a minha irmã, o meu irmão. Acho que cresci com exemplos incríveis. Às vezes nem sei se têm consciência do importante e da inspiração que são para mim. E se lhes digo acham que “Ah é porque és meu filho” ou “ É porque és meu irmão”. Mas realmente sinto isso. Depois a inspiração vem das pessoas que conheço, com que trabalhei, como tu, quando trabalhei contigo.

Pois é, fomos os dois professores da mesma cadeira no Campus velhinho da Universidade Nova. Voltando aqui aos teus pais: o teu pai criou o grupo de teatro “O bando”. O que é que o teatro e os bastidores do teatro te trouxeram em termos de criatividade? Abertura à diversidade?
Trouxeram-me tanto. Em primeiro lugar a poética e a importância da palavra, de perceber a palavra, de valorizar a palavra e de dar importância dos nomes. E quando uma pessoa, por exemplo, fala de “regenerativo” não é um termo em acaso. É o termo, a poética da regeneração.

E o fundamento.
Foi também a parte revolucionária de alguma forma. “O Bando” foi criado depois do 25 de Abril e o meu pai costumava-me dizer, quando nós fundamos os “Transformers”, que éramos os revolucionários do século XXI. Eu com a malta dos “Transformers”, sentíamos estar a trabalhar em algo que muito poético, muito especial, diferente…

O meu pai costumava-me dizer, quando nós fundamos os “Transformers”, que éramos os revolucionários do século XXI. Eu com a malta dos “Transformers”, sentíamos estar a trabalhar em algo que muito poético, muito especial, diferente…

Inaugural. 
Inaugural, pioneiro e…

E que já lá vão nove anos. E os “Transformers” continuam sem ti agora, mas continuam, e continuam com uma narrativa inaugural também. Aliás, também és uma pessoa que tem uma narrativa. A maneira como falas da economia, como conjugas esta improbabilidade das conjugações de talentos. Começaste por dizer que, quando eras inseguro e eras mais novo, não sabias exatamente qual era o teu caminho. Mas hoje em dia estás no teu caminho? 
Sinto que estou no meu caminho, sinto também que, um pouco como o Rilke, dizia: “Esta arte de viver as perguntas”, não é? Há perguntas que não se respondem, há perguntas que se vivem e que nós devemos amar como portas fechadas para as quais não temos a chave. Sinto que estou a viver um caminho com que me identifico, estou a viver uma aventura e vou continuar a vivê-la e a viver esta pergunta. Não sei se algum dia vou chegar àquela resposta de: “É isto”. Sinto que é isto que quero fazer e não mudar, estar sempre a fazer isto.

Como é que tu consegues conjugar tanta coisa no teu dia? Como tens tempo para dançar, para trabalhar, para te concentrares, para te afirmares num mundo corporativo em que as pessoas são mais velhas e tu és muito novo. Isso também deve ter gerado impacto e criado alguns choques, ou não?
Sim, sim, sem dúvida.

Como é que lidaste com isso, fazeres-te respeitar sendo tão novo? 
A cultura da própria organização é muito baseada em evidências. E, mais uma vez, como esse background de ser economista numa área da responsabilidade social corporativa que, às vezes, é vista como uma área pouco analítica e pouco fundamentada dentro do sistema empresarial, esses dois mundos, essa analítica, esse rigor da medição de impacto com essa paixão e essa vontade de colaboração, acabou por fazer a diferença.

E as pessoas respeitam-te, de facto.
Sim.

E muitos admiram-te.
Não sei.

Então voltando a como é que consegues conjugar tudo? Além disso, deves ter lesões também quando danças?
Sim, tenho uma agora. Não sei muito bem como é que conjugo. Não tenho uma regra em particular. Faço render o dia, vem tudo da paixão ser tão forte. Começámos a organizar esta conferência climática do final do mês de setembro e sentia que não tinha tempo para mais nada, mas quando falaram comigo sobre ajudarmos a organizar esse evento na Amazónia e por ver a Amazónia quase como uma irmã mais nova, ou uma irmã mais velha ou uma mãe, uma matriarca… foi mais forte do que eu e disse que sim. Disse que sim, sem saber como o ia fazer e, às vezes, sinto que precisamos de dizer esse tipo de “sins”, aquele “sim” que “não sei como, mas vou”.

E falas também das tuas paixões humanas, se estás apaixonado, vives o amor? Podemos falar sobre isso?
Mais uma vez foi não seguir o caminho trilhado e ir pelo mato e seguir o próprio caminho. Sou gay desde que me lembro e só me assumi perante mim e perante os outros aos 23 anos e…

Mas sofreste? Havia um conhecimento íntimo que ia sendo reforçado da consciência da tua homossexualidade mas com alguns medos de comunicar isso? 
Sim, sim, aterrado de medo. A ideia de “será que as pessoas que me amam me vão continuar a amar?”, “ será que alguma vez na minha vida vou estar apaixonado, será que vou ter alguém?”.

“Vou ser correspondido”? 
Ser correspondido, estar com alguém, poder criar família. E, hoje em dia, estou com o meu namorado já há um ano e meio. Conhecemo-nos em Nova Iorque. Ele agora vive na Índia, em Nova Deli, e, portanto, estamos à distância. A ideia é vivermos juntos, começarmos a viver juntos no curto prazo, seis meses a um ano. Há essa ideia da pessoas com quem queremos construir algo maior do que nós próprios.

O que é que foi mais difícil? Foi comunicar aos teus pais, à tua mãe, à família, aos amigos?
No meu caso fui eu próprio, estar confortável com isso, porque os meus pais, todos os meus amigos aceitaram super, super bem.

Portanto, quem te amava continua a amar-te e ainda mais?
Sim. E foi uma bênção, porque permitiu-me ter relações tão mais profundas com as pessoas que amo e que me amam e com os meus amigos. Ter passado por isso foi também o que me deu este olhar. Um olhar feliz, contente e jovial sobre a vida. Depois de pensarmos que será muito difícil sermos felizes, passamos a valorizar aquilo que realmente importa. Isso gera um pilar interior de saúde física e de saúde mental.

Foi uma bênção (ser aceite como gay), porque permitiu-me ter relações tão mais profundas com as pessoas que amo e que me amam e com os meus amigos. Ter passado por isso foi também o que me deu este olhar. Um olhar feliz, contente e jovial sobre a vida. Depois de pensarmos que será muito difícil sermos felizes, passamos a valorizar aquilo que realmente importa. Isso gera um pilar interior de saúde física e de saúde mental.

Já realizaste muitos sonhos: ser campeão de natação, realizar projetos na Amazónia, criaste os “Transformers”, estiveste no Fórum Mundial de Davos, estás em Nova Iorque, estiveste no México, deste aulas, és um economista. Qual é o teu sonho? Como é que te vês daqui a uns anos?
Gostava de ser um bom filho, um bom irmão, um bom pai, um bom esposo, um bom agente de mudança. E, para mim, ser bom agente de mudança significa, eventualmente, criar uma organização que junte estes mundos, que junte o lado do setor privado, com governos, com finanças para avançar os objetivos de desenvolvimento sustentável.

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