Índice

(artigo em atualização ao longo do dia)

“A CDU avança, com toda a confiança”. O mote não é novo e a idade dos cerca de 50 apoiantes da CDU também não. A campanha vai arrancar oficialmente numa ação de contacto com a população no Montijo. Uns minutos antes do cabeça de lista às Europeias chegar, o tema dominante é o futebol, nomeadamente os lances do jogo entre o Rio Ave e o Benfica (2-3 resultado final) de domingo. Logo que veem o candidato aproximar-se a discussão futebolística dá lugar a abraços e cumprimentos calorosos, esquecendo diferendos clubísticos.

João Ferreira não quer deixar conversas por fazer, mas não teve muitas durante a manhã

Está na hora de começar a distribuir panfletos e a estratégia parece infalível: em zigue-zague pela rua abaixo, ora entrando na loja à direita na rua, ora entrando na loja do lado esquerdo. A abordagem mantém-se: “Posso entregar-lhe um papel com as ideias da CDU?” pergunta João Ferreira a todos os comerciantes da baixa do Montijo. Pelo caminho é abordado por um ex-trabalhador da Lisnave que está otimista para o resultado final: “Deviam ser 100 deputados da CDU no Parlamento Europeu”. O candidato não se impressiona com a grandeza dos números: “É preciso é honrar a tradição de luta e levá-la até ao voto no dia 26”.

O cabeça de lista da CDU às eleições europeias, João Ferreira, durante uma ação de campanha no Montijo, 13 de maio de 2019. ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

E se há tradição comunista em campanha, é dar forte no PS. João Ferreira não deixou passar a oportunidade e defendeu que “a breve trecho” o Montijo irá sentir “esta pressão de entregar empresas fundamentais estratégicas a multinacionais estrangeiras”. O candidato da CDU diz que “o favor que o Governo entendeu fazer à multinacional Vinci vai trazer prejuízos para o concelho” não poupando críticas à solução encontrada para responder à sobrelotação do aeroporto da Portela, em Lisboa.

Retomando a preocupação com a entrega de empresas estratégicas, o candidato referiu ainda que é “importante recuperar o controlo público sobre estes setores ” colocando-os a trabalhar “ao serviço do país e das famílias, dos consumidores e das empresas”.

“Estamos conversados sobre o posicionamento político e ideológico de Rui Rio”

Confrontado com a acusação de domingo que Rui Rio fez ao PS, de abrir a porta e o caminho para a extrema-esquerda, João Ferreira respondeu que a “CDU teve um papel determinante em todos e cada um dos avanços nos últimos anos na vida do país”, acrescentando que percebe que o PSD “queira andar para trás e não para a frente”. O candidato recordou ainda que “Rui Rio disse “há não muito tempo que nunca existiu fascismo em Portugal”, acrescentando que “isso diz muito sobre o seu referencial político e ideológico”.

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Numa breve conversa, até porque o relógio anda rápido e está agendado um almoço com os trabalhadores da Câmara Municipal de Palmela para daí a pouco, o candidato da CDU lembrou que “estas serão duas semanas muito intensas” e que “não há tempo para deixar conversas por fazer”. Mas também não seriam as conversas desta manhã a atrasar a campanha. O arranque foi discreto, com poucas dezenas de apoiantes na primeira ação no Montijo.

Palmela de bandeiras ao ar e muitos aplausos

Depois de uma manhã discreta no Montijo, o acolhimento no ponto seguinte foi ruidoso e feito de muito calor. Ou não fosse Palmela uma das históricas câmaras comunistas, para além dos termómetros ultrapassarem a esta hora os 30º. Dentro da sala, apertada para tanta gente, estão cerca de 150 trabalhadores da câmara municipal. Hoje a música na Sociedade Filarmónica Palmelense “Loureiros” é outra: João Ferreira veio almoçar com os trabalhadores.

Antes que se pudesse ouvir o eurodeputado foi Álvaro Amaro, o presidente da câmara municipal o primeiro a transportar a plateia da dimensão nacional para a dimensão europeia. Afinal, ao contrário do que se tem ouvido nos últimos dias, é de eleições europeias que se fala, pelo menos por enquanto.

“Em Palmela pensamos global, mas agimos localmente. Precisamos de deputados que defendam Portugal na Europa” disse o presidente da autarquia, apelando logo de seguida para que não se arranjem desculpas para não ir votar. “Há sempre um bocadinho para a gente ir às urnas, dia 26 vamos votar”, sendo imediatamente interrompido por gritos de apoio dos trabalhadores “CDU, CDU, CDU!”.

João Ferreira, num registo bem mais efusivo que o usado durante a manhã, talvez incentivado pela plateia animada e de aplauso fácil, aproveitou o final do discurso de Álvaro Amaro para “pedir a todos que se envolvam nesta batalha”, para que todos possam perceber o “papel que a CDU pode ter no Parlamento Europeu”.

Mas como o que importa é direcionar a conversa para quem a escuta e que, alguns minutos depois do candidato ter começado a falar, já dispersava em conversas paralelas entre a escolha da sobremesas e alguns comentários sobre o calor dos últimos dias, a chave foi recordar que em Palmela os trabalhadores mantiveram as 35 horas semanais mesmo quando os restantes eram obrigados às 40 horas.

Missão bem sucedida, tudo com ouvidos atentos outra vez, seguiu para o ataque: PS, PSD e CDS-PP são todos iguais. Só a CDU foi diferente ao defender a agricultura, a indústria e as pescas, afirmou o candidato. Para João Ferreira aquilo que os outros partidos têm feito pode ser resumido a “esconder o essencial”.

“Palmela é exemplar”, afirmou João Ferreira antes de passar rapidamente para outro tema muito apreciado: o passe social intermodal, conseguido por iniciativa da CDU, garantiu.

“CDU, CDU, CDU!” as bandeiras agitaram-se no ar e precipitaram as despedidas. A sala onde há minutos as pessoas se atropelavam para chegar às mesas rapidamente ficou vazia. As 35 horas semanais não se compadecem com atrasos nas horas de almoço e hoje é dia de trabalho.

A mudança de turno na Autoeuropa trouxe também a mudança de espírito na caravana da CDU

A mudança de turno entre largas centenas de trabalhadores da Autoeuropa seria o momento ideal para apelar ao voto junto dos trabalhadores: “Valorizar o trabalho dos trabalhadores, mais força à CDU”, dizia João Ferreira enquanto esticava as mãos com panfletos que apresentam a CDU e os candidatos às Europeias. Tudo estava a correr bem, incluindo o acerto de horários com o Bloco de Esquerda que ali tinha estado minutos antes, de forma a que as duas caravanas não se cruzassem. E tudo continuaria a correr bem não fossem os muitos trabalhadores que tentavam escapar-se à intervenção do partido, fugindo pelas laterais, ou que diziam claramente “Não quero, quando é preciso não vem cá ninguém”.

O candidato da CDU foi interpelado diretamente por alguns trabalhadores, mas optou por continuar focado na entrega de panfletos e não responder às críticas. Ainda assim, foram aparecendo “camaradas” com abraços e palmadas nas costas e uma senhora que fez questão de cumprimentar o candidato com dois beijinhos. Foi a única durante os mais de 30 minutos que funcionou por ali a linha de distribuição de panfletos.

Um dos trabalhadores mais descontentes, recusou-se a receber o que o candidato tentava oferecer-lhe dizendo que aceitaria o panfleto quando lhe fosse entregue a um domingo. João Ferreira apressou-se a explicar que se podia votar antecipadamente mas levou nova pergunta: onde estava quando os trabalhadores fizeram greve por causa do trabalho ao domingo?

Apesar de não ter respondido aos trabalhadores que criticavam a ação de campanha, João Ferreira justificou aos jornalistas minutos depois que “não é aceitável que com o progresso científico e tecnológico as pessoas passem a viver pior”, referindo-se ao trabalho por turnos que “impede os trabalhadores de conciliarem a vida pessoal com a profissional”, atirando para o princípio do não-retrocesso “para haver avanços do ponto de vista civilizacional”. Para rebater as críticas sobre as visitas apenas em tempos de campanha eleitoral o candidato garantiu que a “CDU anda aqui com alguma regularidade”.