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"Casa de Antiguidades", que passou na abertura do Curtas, tem nova sessão agendada para este sábado (10 outubro, 21h45) e está disponível na plataforma online do Curtas até dia 25 de outubro

Carlos Eduardo Carvalho

"Casa de Antiguidades", que passou na abertura do Curtas, tem nova sessão agendada para este sábado (10 outubro, 21h45) e está disponível na plataforma online do Curtas até dia 25 de outubro

Carlos Eduardo Carvalho

João Paulo Miranda Maria: “Faço cinema para incomodar, para as pessoas reagirem e acordarem” /premium

Um filme de autor pode fazer a revolução. É assim que o brasileiro João Paulo Miranda Maria vê o próprio trabalho. Apresentou "Casa de Antiguidades" no Curtas de Vila do Conde e falámos com ele.

João Paulo Miranda Maria quer entrar para os grandes nomes da História do cinema mundial. Assume-o, com os seus grandes óculos de armação preta a escorregarem-lhe de quando em vez pelo nariz, sem o menor sinal de pretensiosismo ou de ilusão. Em conversa com o Observador durante a 28ª edição no Curtas de Vila do Conde, o realizador brasileiro de 38 anos defendeu que o cinema de autor pode fazer uma revolução no mundo pela via da estética e da arte.

Se é verdade que a sua revolução ainda é curta, também é certo que o mundo se agita a cada fita por si lançada. “Command Action” (2015) e “A Moça que Dançou com o Diabo” (2016) passaram em Cannes – a última das curtas saiu de lá com uma menção especial do júri – e “Meninas Formicida” (2017) foi selecionada para a seção Orizzonti do Festival de Veneza. Agora, João Paulo, que chegou a vender rifas para conseguir fazer as suas produções, deu um passo maior e atravessou-se com “Casa das Antiguidades”, uma primeira longa-metragem que tem Antonio Pitanga – ator que entrou no único filme brasileiro até agora galardoado com a Palma de Ouro (O Pagador de Promessas, 1962) – como protagonista.

O filme, que passou na abertura do Curtas, tem nova sessão agendada para este sábado (10 outubro, 21h45) e está disponível na plataforma online do Curtas até dia 25 de outubro, espelha a história de um país profundamente dividido entre o Norte e o Sul, entre as origens indígenas e africanas e as brancas europeias. Simultaneamente, retrata a história de um homem negro em confronto com a sua comunidade, em confronto consigo mesmo e com os seus preconceitos. Cristóvão [Antonio Pitanga] fala-nos sem dizer quase uma palavra: fala-nos com os seus olhos, assentes num rosto fechado e duro, que se cravam imóveis nos nossos; fala-nos com o seu corpo que se arrasta num passo trôpego e obstinado como se representasse o próprio passo da História, de um mundo feito de ciclos e de mudanças, mas que teima em não querer enterrar os monstros do passado.

Por isso, o filme é sobre o Brasil dos dias de hoje, mas também sobre “um Brasil que traz de volta ideias antigas, como se isso fosse o melhor para o futuro”. É sobre racismo, mas também sobre machismo, xenofobia e “todo o tipo de intolerâncias” que, como defende João Paulo Miranda Maria, são incompatíveis com a evolução do mundo. “A humanidade não evolui excluindo as pessoas ou voltando a ideias velhas. Essa Casa de Antiguidades tem que ser demolida, temos que construir algo novo.”

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[o trailer de “Casa de Antiguidades”:]

O filme não apresenta nenhuma contextualização temporal, quase como se o que estivesse a ser ali retratado fosse transversal a toda a História do Brasil. Porquê essa opção?
Inicialmente seria sobre o Brasil dos dias de hoje, mas foi pensado propositadamente como se se pudesse ter passado há décadas. Todo o cenário e alguns detalhes de elementos foram pensados como se fossem dos anos 70, que foi a época da ditadura. A casa, o palco, a pintura são todos elementos reais, de coisas que encontramos nos dias de hoje.

Por outro lado, também há momentos em que parece que é um filme futurista…
Parece do futuro, mas a ideia é ser um futuro retro, como se fosse um futuro pensado há décadas. É a projeção de um futuro antiquado a dialogar com o Brasil de hoje, um Brasil que trás de volta ideias antigas, como se isso fosse o melhor para o futuro.

Ideias como o racismo?
Acaba por ir mais além do racismo: há questões de gerações, questões relacionadas com o Norte, que é mais indígena e de origem africana, e o Sul, mais de origem europeia. Também aborda questões como o machismo, a xenofobia, a intolerância de um modo geral.

A violência, apesar de não ser explicitamente filmada, está muito presente no filme. De tão rotineira que é, acaba por ser consentida pela comunidade e pelo próprio protagonista que sofre com essa violência e, de certa forma, também a reproduz. Quis com esta abordagem lançar um olhar crítico sobre a banalização da violência no espaço público e político atual?
Ao mesmo tempo que a violência existe, ela acaba por ocorrer fora do quadro. Nunca vemos um momento de morte, passa-se tudo a partir do reflexo do olhar do outro. Foi tudo construído para que as pessoas ficassem realmente chocadas. De tão forte, às vezes tememos mais o que podemos imaginar do que aquilo que de facto vemos. Isso também se relaciona com essa banalização. Nós vivemos um momento muito violento no Brasil, em que os problemas são resolvidos pela violência, pela pressão, pela falta argumentos.

"Um dos momentos fortes de que me lembro foi quando apresentei a minha primeira namorada, tinha eu 15 anos. Ela era negra. Estávamos a celebrar o meu aniversário e beijei-a no momento dos parabéns. A minha avó levantou-se e veio limpar a minha boca com um guardanapo."

Portanto, o filme é um retrato da atualidade brasileira?
O que se passa no filme é uma coisa que condiz com os dias de hoje. Eu vejo-o como uma metáfora de algo que estava guardado, de pensamentos antigos, movimentos fascistas, ultraconservadores, que agora têm uma autoridade que lhes dá empoderamento. O movimento separatista do Sul, que aparece no filme, é real. A única coisa que incluí no mapa do movimento foi o Estado de São Paulo. Atravessámos uma época em que a inclusão dos mais pobres e dos mais fracos era um ponto forte, mas agora inverteu-se tudo: está-se a querer ajudar mais os empresários, aqueles que estão a passar por uma crise e que não estão a ter lucros como antigamente. Então é preciso diminuir os direitos dos trabalhadores, diminuir a aposentaria, mas sempre dos mais fracos.

O mais fraco, no seu filme, é representado pela personagem de Cristóvão, um homem negro que sai de Goiás, no Nordeste, para procurar emprego no Sul, numa comunidade dominada por brasileiros brancos de origem europeia. Mais uma vez temos aqui a questão do racismo…
Sempre descrevi o meu personagem, o Cristóvão, como um homem rústico brasileiro cheio de marcas do tempo. Em nenhum momento o descrevi como um homem negro. A produção até se surpreendeu quando eu disse quem é que imaginava para ser o ator. Sempre imaginei o Antonio Pitanga para o papel, ele que é a história do cinema brasileiro em pessoa: fez a primeiro longa do Glauber Rocha nos anos 60, fez o único filme que ganhou a Palma de Ouro do Brasil, “O Pagador de Promessas”. Sempre foi a minha escolha porque ele já tinha uma presença da História em si, independentemente da cor da pele. Só que no momento de escolher o ator veio implícita a questão do racismo.

A questão é transversal às outras personagens femininas: a Jennifer [Ana Flavia Cavalcanti] e a Jandira [Aline Marta Maia]. Foi uma escolha propositada?
As outras personagens surgiram naturalmente. Quando começámos a fechar o elenco as pessoas diziam “nossa, você está com um elenco de três personagens principais que são negras”, mas em nenhum momento isso foi propositado. Foi uma coisa natural. No próprio filme há uma cena em que aparece escrito “volta para casa negro”, mas antes estava “volta para casa nordestino”. Só que a partir da escolha, tudo vinha junto. Não só o racismo, mas uma intolerância geral que o filme retrata.

De que forma as personagens expressam essas intolerâncias?
As personagens estão perdidas no tempo. No caso do próprio Cristóvão, ele precisa de redescobrir uma ancestralidade, uma força para resgatar a sua cultura. Ele sente a presença do Caboclo Boiadeiro, que é uma entidade representada pela figura do cowboy brasileiro, o vaqueiro do Norte, juntamente com a figura do boi. Os dois são o mesmo elemento. Essa entidade do Caboclo Boiadeiro significa mudança, ciclos a girar. Algo tem que morrer para algo renascer. Então significa também revolução. Mas o personagem também tem as suas antiguidades, os seus preconceitos. Ele também é machista e conservador e não aceita que uma mulher ocupe o espaço de um homem num bar, um bar que nem sequer tem uma casa de banho para mulheres. Ele está perdido no tempo, quer resgatar a sua cultura, mas ao mesmo tempo está preso no vício das antiguidades e precisa de libertação.

"Sempre imaginei o Antonio Pitanga para o papel, ele que é a história do cinema brasileiro em pessoa"

Carlos Eduardo Carvalho

Como é que o António Pitanga reagiu ao convite para protagonizar o seu filme?
Ficou emocionado! Fui ter com o Antonio ao Rio de Janeiro e para ele foi uma grande honra, porque, mesmo tendo feito parte do grande movimento do Cinema Novo nos anos 60, 70, nunca teve uma oportunidade de ser um protagonista absoluto como o é neste filme.

Portanto, disse logo que sim ao papel?
Sim! Eu disse-lhe que era um grande desafio, porque ia ser um filme muito intenso em que ele tinha que vir de peito aberto para se expor, para arriscar. A própria linguagem do filme é uma linguagem de risco, não vai por um caminho muito convencional.

A realidade que vemos representada no filme é uma realidade com a qual o João contactou de perto? Em que meio cresceu?
Eu vim do interior de São Paulo, da cidade de Rio Claro, de uma família conservadora, católica, tradicional. Os meus pais trabalhavam num restaurante, o meu pai gostava de armas, caçava e ensinou-me a usar armas quando era pequeno. Estudei numa escola alemã, rígida, mas ao mesmo tempo sempre me senti um pouco estranho nessa realidade.

Então há pontos de contacto entre a sua história e a história do filme…
Exato. Um dos momentos fortes de que me lembro foi quando apresentei a minha primeira namorada, tinha eu 15 anos. Ela era negra. Estávamos a celebrar o meu aniversário e beijei-a no momento dos parabéns. A minha avó levantou-se e veio limpar a minha boca com um guardanapo. Quando a minha avó era viva e eu lancei as minhas primeiras curtas, lembro-me dela ir assistir e dizer “é bonito, mas não tinha umas pessoas mais bonitinhas para chamar?”. Ela queria dizer “bonitinhas” no sentido de mais claras. Existem várias coisas que se foram acumulando em mim. Às vezes sinto-me como o Cristóvão, como se fosse uma pedra bruta que vai guardando, guardando até ao momento em que tem que libertar toda essa coisa suja. Tem que ser limpa para mudar. Eu senti muito isso.

Como foi o processo de filmagem?
O filme é um projeto de longo tempo, de amadurecimento, que comecei a escrever em 2015. É uma metáfora que fala muito da minha cidade e do Brasil de hoje. Quando tive o guião pronto comecei a fazer uma viagem com a minha família para procurar um lugar que pudesse ser essa metáfora e foi então que encontrei esta região do Sul chamada Treze Tílias. É uma colónia austríaca, tradicionalista, como se fosse um Brasil em que não reconhecemos. Às vezes as pessoas imaginam o Brasil de um jeito tropical miscigenado, mas há muita coisa guardada que as pessoas não manifestam. É também uma sociedade conservadora, moralista, que julga muito pela aparência. E depois há este movimento separatista. Nessa região, 98% das pessoas votaram Bolsonaro. Se eu filmasse na minha cidade, esses preconceitos e intolerâncias eram uma coisa camuflada. Ali estava no campo onde realmente existiam essas personagens.

"Eu colocava anúncios a dizer “curso para fazer cinema” e havia gente que aparecia, que era pedreiro, e achava que era um anúncio para construir uma sala [risos]. Comecei a fazer uma equipa com pessoas simples com a qual fazia filmes-ensaio, que eram basicamente planos com um telemóvel."

Como reagiu quando soube que o seu filme tinha sido integrado na seleção de Cannes deste ano?
Eu já tinha feito as minhas curtas, as duas primeiras até passaram no festival e a segunda ganhou um prémio. A terceira foi para Veneza. De certa maneira, tinha a expectativa de que o filme chegasse a um nível alto num festival. Porém, toda a gente imagina grandes dificuldades para uma primeira longa-metragem de orçamento baixo. Primeiro soubemos que a semana da crítica queria o filme. Só que uns dias depois, disseram-nos que queriam o filme para a Competição Oficial. Só que a competição não ia acontecer e então íamos ficar só com o selo. Como foi uma coisa tão única, aceitámos e foi incrível.

Não ficou desapontado por não ter havido competição?
Muita gente pensa que eu perdi a oportunidade de competir com um primeiro filme, mas penso que o cinema vai muito além do tapete vermelho, das fotos, da fama e do glamour. Estou apenas a começar e fico muito grato por ter conseguido chamar à atenção. Na verdade, o filme ainda vai passar por vários festivais.

Como tem sido a reação nos circuitos por onde tem passado?
Em Toronto a reação foi interessante, porque o festival combinou com San Sebastian em não soltar as críticas antes de estrear lá. Fiquei na dúvida se tinham gostado ou não e só fui conseguindo ver comentários de pessoas que foram assistir ao filme, inclusivamente de muita gente que ficou chocada com os animais. E eu pensei, “nossa, mas eu não mostro morte”, mas havia pessoas que achavam que havia morte explícita e violência contra os animais. Depois, do nada, a Vanity Fair perguntou a 17 críticos de Toronto quais seriam os destaques para potenciais Óscares para Filme Estrangeiro. Nessa lista de cinco estava o meu filme. Nem eu imaginava!

Como explica este sucesso?
É um primeiro filme, mas tem uma certa maturidade de tempo. No interior, onde cresci, criei um coletivo de pessoas que nunca tinham feito cinema antes. Era o projeto Kino-Olho. Eu colocava anúncios a dizer “curso para fazer cinema” e havia gente que aparecia, que era pedreiro, e achava que era um anúncio para construir uma sala [risos]. Comecei a fazer uma equipa com pessoas simples com a qual fazia filmes-ensaio, que eram basicamente planos com um telemóvel de 2 megapixels que tínhamos na época sobre os filmes que tínhamos visto. Até que houve uma competição em 2009, da CNN, de melhor vídeo do mundo feito a partir de um telemóvel. Nós mandámos e ganhámos! Pessoas de fora começaram a aparecer, nós começámos a ficar famosos e chegou um momento em que eu me senti preparado para fazer as curtas. Foi aí que chegámos aos festivais. Esse tempo foi um tempo para amadurecer um olhar, para sentir as coisas e não ter medo de arriscar. Uma obra de arte está sempre próxima de um risco de fragilidade de onde surge uma verdade. Isso para mim é muito forte. Por isso é que este filme teve impacto, porque há muitas coisas que ficaram a amadurecer durante muito tempo até eu ter chegado aqui.

João Paulo Miranda Maria: "A minha primeira curta, que eu fiz em 2015 e que foi para Cannes, fi-la com 1000 reais a vender rifas para as pessoas ganharem cestas com café da manhã ou almoços"

Carlos Eduardo Carvalho

A sua família sempre o apoiou neste processo?
Eles nunca entenderam muito bem, mas nunca viram isso como algo ruim. O meu pai, mesmo não entendendo, sempre me apoiou, ajudou-me com o que pôde: cozinhava para a equipa, tinha uma combi para transportar a equipa. Tanto que na terceira curta, que foi a primeira vez em que tive um apoio vindo de França – porque no Brasil não consegui nenhum apoio – disse ao meu pai que não precisava de me ajudar com transporte ou com comida. Nesse dia ele teve um acidente e acabou por falecer. Então infelizmente não viu a longa-metragem.

O seu pai foi uma inspiração para si?
Ele tinha uma frase que eu sempre gostei, que dizia que eu não tinha que me importar com dinheiro, que tinha que ir atrás do meu sonho e que, chegada a uma certa hora, se eu fizesse as coisas com muita paixão, ia ser recompensado. Isso para mim significava “não siga tendências” e por isso é que nunca fui atrás de tendências. Às vezes diziam-me, “nossa João Paulo, você está aí, o seu pai tem um restaurante, por que é que você não faz algo de culinária? Por que é que não continua o negócio da família que já está fácil? Que carreira é essa que você tem? Como é que você vai viver disso? Você faz rifa para fazer os filmes!”.

Fez mesmo rifas para financiar os seus filmes?
A minha primeira curta, que eu fiz em 2015 e que foi para Cannes, fi-la com 1000 reais a vender rifas para as pessoas ganharem cestas com café da manhã ou almoços no restaurante do meu pai. Na segunda curta, que foi em 2016, só metade das pessoas é que apoiou. Fi-la com 500 reais, mas foi o filme que foi para a Oficial e que ganhou o prémio em Cannes.

Foi por causa dessa dificuldade em arranjar financiamento no Brasil que decidiu ir viver para França?
Também foi, mas não só. A minha longa “Casa das Antiguidades” é uma coprodução com França. A filmagem foi no Brasil, mas toda a edição tinha que ser feita em França. Então fui para lá há um ano e meio com a minha esposa e os meus dois filhos pequenos. Quando acabei o filme tive convites para desenvolver novos guiões. O próximo também vai ser filmado no Brasil, na Amazónia, mas o guião está a ser desenvolvido em França, porque lá tenho uma estrutura e um amparo maior do que no Brasil.

Fale-nos mais desse próximo projeto…
O próximo filme é na Amazónia. Tem um índio como protagonista que aparece quase como um novo messias, como se o seu corpo fosse a natureza a reagir, a querer corrigir e mudar, de alguma maneira, este sistema errado em que vivemos hoje. É um filme sobre o clima, sobre a questão ambiental que tem um protagonista polémico que quer ser branco e se vê como fazendo parte do sistema capitalista, ao mesmo tempo que é um índio.

"Acredito que é preciso ter uma assinatura própria para se fazer cinema. Não há como querer mudar alguma coisa se não se mudar a maneira de filmar. Por exemplo, eu não vou fazer um filme ao jeito de Hollywood com o conteúdo do racismo."

Vamos ter novamente um olhar politicamente ativo?
Sim, com certeza. É um privilégio, mas ao mesmo tempo é uma grande responsabilidade fazer arte e cinema. Eu não posso fazer apenas arte pela arte. É preciso saber dialogar e reagir com a sociedade, não há como ignorar o que acontece à minha volta. O cinema que eu faço é para incomodar, é justamente para as pessoas reagirem e acordarem. Não é para agradar alguém, nem para agradar certos gostos, é para mexer as coisas, para colocar o dedo na ferida.

Pegando nas suas palavras, acha que as pessoas estão a reagir e a acordar no Brasil, tendo em conta a perda de popularidade do Presidente Jair Bolsonaro?
Eu olho para este momento como sendo um momento de crise que vai acabar por trazer uma mudança. Bem ou mal, não é possível ir contra um certo fluxo, contra uma modernidade, contra um pensamento mais igualitário, de inclusão e de tolerância. É preciso trazer para o debate questões do movimento negro, LGBT, das mulheres, dos mais carentes. Toda a gente está a acordar. Mesmo que Bolsonaro tenha o maior apoio popular que possa existir na História, isso não dura porque vai contra a humanidade, contra o tempo. Então, independentemente de as pessoas concordarem ou não, vai ter que haver uma mudança, porque é uma cosia natural. A humanidade não evolui excluindo as pessoas ou voltando a ideias velhas. Essa Casa de Antiguidades tem que ser demolida, temos que construir algo novo.

E como é que se constrói algo novo?
Sempre houve ciclos e nós estamos num novo ciclo que é o momento, quiçá, de os artistas aproveitarem para fazer uma revolução. As pessoas têm medo de falar em revolução, porque acham que é uma coisa tão impossível e tão distante que só Che Guevara era capaz, ou Goudard na Nouvelle Vague e Glauber Rocha no Cinema Novo. Os artistas precisam de pensar em fazer uma revolução pela arte.

É essa a sua forma de fazer cinema?
Exato. Eu acredito que é preciso ter uma assinatura própria para se fazer cinema. Não há como querer mudar alguma coisa se não se mudar a maneira de filmar. Por exemplo, eu não vou fazer um filme ao jeito de Hollywood com o conteúdo do racismo. É preciso, através da forma, fazer uma coisa diferente, uma coisa que seja mais singular e que dialogue com toda a mensagem.

"Nós precisamos de uma força visceral e acho que este é o momento da revolução do cinema de autor", diz o realizador brasileiro

Carlos Eduardo Carvalho

Quais são as suas grandes inspirações no cinema?
Centrando no Brasil, tenho o Mário Peixoto que fez o “Limite” no final dos anos 20 e início dos 30, o Glauber Rocha do Cinema Novo, e o Eduardo Coutinho, que é um documentarista que flagrava a alma do povo brasileiro. Esses são os três que me formaram. De cinema mundial, tenho o Kubrick, o [François] Ozon de quem gosto muito, mas também adoro todo o momento pós Segunda Guerra: os italianos, Antonioni e Pasolini. Até escrevi um post a brincar, “quando é que vamos ver um Pasolini de novo? Quem é que vai fazer um Salò hoje em dia?” Nós precisamos de uma força visceral e acho que este é o momento da revolução do cinema de autor. Então para mim as grandes inspirações são estes grandes autores.

Algum nome português?
O Pedro Costa é incrível, ele é daqueles que insistem na autoria. Está a ser reconhecido muito mais atualmente, porque justamente traz o cinema de autor para a atualidade. Também gosto muito do Miguel Gomes, mas já desde há muito tempo que admiro o cinema português, com o Manoel de Oliveira.

A crítica tem-no apontado como o próximo grande nome do cinema brasileiro. Como é que lida com isso?
Eu adoro obstáculos. É uma grande responsabilidade e uma pressão enorme sobre os ombros, mas se eu não tiver isso, então não vale a pena. Quero fazer um cinema para dialogar com todos esses nomes enormes e para entrar na História. Não é ser melhor do que os outros, mas estar entre os grandes nomes da História mundial do cinema. Acho que só vou ficar descansado e só me vou aposentar depois de conseguir alcançar esse feito.

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