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FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

João Vicente: um Son Goku de Rio de Mouro no teatro (e nos ecrãs) /premium

Cresceu com o Dragon Ball e quis ser pintor. Hoje, com 31 anos, é um dos mais talentosos atores da sua geração. Vai estar no Teatro da Politécnica com "As Variações Sobre O Modelo de Kraepelin".

Quem nunca simulou um “kamehameha” no recreio da escola que atire a primeira pedra, sobretudo se falamos de millenialls, gente nascida a partir da década de 80. Quem nunca chorou na batalha entre Cell e Gohan que atire outra. João Vicente é uma dessas pessoas, que, ainda miúdo, ganhou o gosto pelo desenho a fazer reproduções da série japonesa de anime “Dragon Ball”, mais especificamente do cabelo do herói Son Goku, três picos de um lado e quatro de outro. E isto é importante, muito importante nesta história, sim, porque antes de ser ator, João queria ser pintor, gostava de Chagall e dos expressionistas no geral. Gostava tanto que ainda fez dois anos de pintura na Faculdade de Belas Artes.

Antes disso havia experimentado teatro na Escola Secundária Leal da Câmara, em Rio de Mouro, onde cresceu e viveu até aos 24 anos. Rui Mário – diretor artístico e fundador dos TapaFuros, um coletivo de teatro sintrense, nascido em 1990 – foi o seu primeiro mestre e foi também o causador das primeiras faltas às aulas de pintura. No verão do seu primeiro ano de Belas Artes, João Vicente foi convidado por Rui Mário para participar em espectáculos dos TapaFuros na Quinta da Regaleira, em Sintra. Ou seja, foi quando se deu o primeiro passo profissionalmente.

Ficou difícil voltar atrás: “No segundo ano, junto-me ao Grupo de Teatro de Letras com o Ávila Costa e aí ou vai ou racha, percebes se estás preparado para seguir teatro, é preciso um bocado daquele masoquismo… às vezes é preciso ter esse lado masoquista, agora já não tenho tanto essa ideia, mas no início achava que era preciso sofrer ou gostar de sofrer”, admite, falando do método exigente e que “tira as manias” aos atores imposto por Ávila Costa.

A dada altura João Vicente percebeu: "Estava a dedicar demasiado tempo ao teatro e pouco à pintura e que não me era possível fazer bem as duas coisas" (Fotos: Francisco Romão Pereira/Observador)

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Escusado será dizer que o verão do segundo ano, onde voltaria à Quinta da Regaleira, não foi muito diferente do primeiro. Se foi diferente foi para pior, tendo que faltar a mais aulas e a ignorar a tela de que tanto gostava – ao ponto de ter alugado um atelier com um amigo, na Costa do Castelo, para pintar. Mas nem todas as cores o preenchiam : “A pintura era muito solitária, não gostava nada disso, ficar ali em frente à tela, só tinha o pincel para bater texto, percebes? Foi aí que percebi que estava a dedicar demasiado tempo ao teatro e pouco à pintura e que não me era possível fazer bem as duas coisas. No verão do segundo ano foi o descalabro a nível das Belas Artes, então fiz um pacto comigo, que era: vou concorrer à Escola Superior de Teatro e Cinema, se entrar vou para teatro e esqueço a pintura, se não entrar mantenho-me em pintura e vou fazendo teatro quando posso”, esclarece.

Acontece que o jeito, o talento que hoje lhe é amplamente reconhecido dentro do meio, pelos seus pares, já lá estava de alguma maneira. E, pronto, entrou na Escola Superior de Teatro e Cinema e bye-bye pintura: “Depois disso, tal foi o pacto que fiz comigo mesmo, que estive oito anos sem pegar num lápis para desenhar”, confessa. Se pensarmos nisto como uma relação amorosa, João conseguiu esquecer a pintura. Deu a curva para o palco, começou a colaborar com a TapaFuros mais regularmente, trabalhou com o Teatromosca, de Pedro Alves, com Álvaro Correia – que havia sido seu professor na Escola Superior de Teatro e Cinema – n’A Comuna – Teatro de Pesquisa, com a Palco13, com a malavoadora, fez uma porrada de textos de William Shakespeare, de quem assume gostar bastante, fez novelas, fez televisão, fez cinema e hoje aqui está, sempre cheio de trabalho.

"O que procuro enquanto ator é sempre tentar encontrar coisas que não conheço em mim, coisas novas, isto sem nenhum tipo de psicodrama, é mais explorar imaginários que não são familiares e ganhar gozo nisso, gosto da ideia de um ator ter que treinar a imaginação."

Teve que voltar à pintura, mas fê-lo através do teatro, quando participou no espectáculo “Vermelho”, de John Logan, uma encenação de João Lourenço no Teatro Aberto, onde dividia palco com António Fonseca: “O facto de já saber montar uma tela ajudou bastante para o espectáculo. E aquilo chamava-se ‘Vermelho’, do John Logan, e falava do pintor Mark Rothko, um pintor da altura do Pollock, ainda que muito diferente, mais com figuras geométricas e cores, mais cores. Falava de um mestre e de um discípulo, o que faz bastante sentido, foi o que senti naquele processo, estava no sítio onde estava a personagem, o gajo novo que chega e que leva tareia, tem as suas ideias, mas tem mais que ouvir e aprender, não só com o João Lourenço que encenava, mas também com o António Fonseca, que é um ator incrível”.

Depois da pintura

Terminado esse capítulo da sua vida – ainda que use e abuse nas idas a exposições –, João Vicente foi acumulando experiência nos vários formatos ocupados por atores. Mas há um espectáculo de teatro que lhe deu mais mediatismo: falamos de “Sweet Home Europa”, uma encenação de João Pedro Mamede para o Teatro Nacional D. Maria II de um texto do dramaturgo italiano Davide Carnevali. Num genial cenário de Ângela Rocha, que além de ser inclinado estava repleto de pregos levantados, ou seja, não era propriamente fácil de andar a belo prazer, João Vicente brilhou. Ao ponto de ter sido nomeado para Melhor Ator nos Prémios SPA 2018.

Agora, no Teatro da Politécnica, volta a Carnevali, um dos mais interessantes dramaturgos contemporâneos em atividade: “O ‘Sweet Home Europa’ fala de uma Europa em decadência do ponto de vista dos seus ideais, aquilo que se propunha a ser e aquilo que é. O Davide Carnevali abre sempre as possibilidades aos atores e ao encenador, aqui [‘Variações Sobre O Modelo de Kraepelin’] isso também acontece, é mais um trabalho sobre a memória, sobre a guerra, sobre o não querer ter memória, a falta de memória como cura que apaga traumas e lembranças tristes. A ideia do Alzheimer como salvação, que é algo que acho piada, nunca tinha visto a coisa dessa forma, ao mesmo tempo o Alzheimer é algo que me assusta muito, já pensava muito na morte e no envelhecimento antes deste espectáculo…”

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“Variações Sobre O Modelo de Kraepelin”, aqui com encenação de Gonçalo Carvalho, fala-nos de um homem perdido algures dentro da sua memória, da qual já não resta grande coisa, interpretado precisamente por João Vicente. Um homem que no dia anterior da partida para a Segunda Guerra Mundial fingiu uma apendicite para continuar a viver, para poder casar, ter família. Um homem cujo filho (Vicente Wallenstein) desespera, anseia por uma cura que não vai chegar, e cujo médico, Kraepelin (João Pedro Mamede), não parece muito preocupado em salvar, mas antes em estudar aquele caso para sua satisfação profissional.

O modelo de Kraepelin não é bem o modelo de João Vicente. “O que procuro enquanto ator é sempre tentar encontrar coisas que não conheço em mim, coisas novas, isto sem nenhum tipo de psicodrama, é mais explorar imaginários que não são familiares e ganhar gozo nisso, gosto da ideia de um ator ter que treinar a imaginação, ler, ver filmes, ir a exposições, povoar a imaginação, no fundo. E além de fazer um esforço nesse sentido, é um enorme prazer, ou seja, gosto de ler, ver filmes, é uma bela profissão. Tirando o resto, as condições e assim”, explica.

Pequeno e grande ecrã

Mas João Vicente não é só teatro. Em televisão já esteve na TVI, na SIC e na RTP, nesta última esteve em várias séries recentemente, como “Os Boys”, “Teorias da Conspiração” ou “Ministério do Tempo”. Mas se pensarmos na sua primeira experiência, há memórias que se vão levantar. Falamos do telefilme da SIC: “A Vida Privada de Salazar” (2008), onde entrou meio por acaso. “Epá, isso já foi há algum tempo, mas foi um amigo ator, o Francisco Tavares, que me ligou a dizer que eles precisavam de gente para uma cena e que pagavam X. Então fui lá. Na série éramos estudantes, colegas do Salazar e mandávamos umas bocas, que ele era um fidalgote e assim. Não conhecia ninguém e nos bastidores disseram-me logo que o meu cabelo estava todo mal cortado, ‘tenho que dar aqui um jeito, que isto não está bem’, lembro-me de pensar que aquilo era assim um bocado à bruta”, conta.

Vai passar pelo Teatro da Trindade duas vezes em breve. A primeira será a estreia do realizador Manuel Pureza na encenação e no texto para teatro, "Inimigos da Liberdade", no qual partilhará palco com João Cravinho e Cristóvão Campos. E ainda "Ricardo III", uma encenação de Marco Medeiros.

Quanto às novelas que ainda vai fazendo, admite que abordam sempre os mesmos temas, que são pouco profundas, mas que ainda tem algum gosto em fazê-las. “E monetariamente é um grande descanso fazer uma novela. Ou seja, faço muitas vezes espectáculos à bilheteira, mas faço sobretudo se estiver a fazer novela, já tive que dizer a um amigo encenador que não ia fazer um espectáculo à bilheteira porque naquela altura não estava a fazer novela e não conseguia financeiramente fazer aquilo naquele momento”.

No que ao cinema diz respeito, já trabalhou com Rui Esperança, Manuel Pureza, Sérgio Graciano, Patrícia Sequeira, entre outros. Tem dois filmes para serem estreados em princípio ainda este ano. Um deles é “Mosquito”, de João Nuno Pinto, que fala de um rapaz turbulento, da zona oriental de Lisboa, que no início do século XX queria muito ir para a guerra, para a Primeira Guerra Mundial. O rapaz chama-se Zacarías – interpretado por João Nunes Monteiro, um jovem ator com uma talento incrível – e, às tantas, em Moçambique, perde-se do seu pelotão e fica sozinho, no mato, numa série de aventuras que talvez procurasse intimamente, sem saber. João Vicente é um dos soldados do pelotão.

João Vicente faz parte do elenco de "A Herdade", filme produzido por Paulo Branco e realizado por Tiago Guedes, ainda por estrear (Fotos: Francisco Romão Pereira/Observador)

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Por estrear ainda, também, está “A Herdade”, um filme produzido por Paulo Branco e realizado por Tiago Guedes. “‘A Herdade’ é um filme que é um projeto antigo do Paulo Branco, que desafiou o Tiago Guedes para finalmente o cumprir, e fala sobre um homem, João Fernandes, um latifundiário, e o filme atravessa os anos 70, o 25 de Abril, a tentativa da Reforma Agrária e a decadência de uma família que vai perdendo poder e as propriedades. A minha personagem é o Lionel, o mecânico-chefe da Herdade, que é um sindicalista, é um defensor da Reforma Agrária, comunista, mas é empregado daquele patrão, é muito bem tratado por ele e acaba sempre por ter este conflito de interesses: sou contra esta visão quase feudal da vida, de latifundiários, mas ao mesmo tempo ele trata-me bem e tenho uma dívida para com este homem. Enquanto muitos se vão embora, para arranjar mais condições de vida, ele vai ficando”.

Em teatro, também vai andar ocupado. Vai passar pelo Teatro da Trindade duas vezes em breve. A primeira será a estreia do realizador Manuel Pureza na encenação e no texto para teatro, “Inimigos da Liberdade”, no qual partilhará palco com João Cravinho e Cristóvão Campos. E ainda “Ricardo III”, uma encenação de Marco Medeiros, encenador, ator e membro da Palco13, que vai levantar o texto de Shakespeare num elenco com Diogo Infante, Alexandra Lencastre, Lia Gama, Carolina Amaral, entre outros. Além disto, é possível que o encontre em exposições, no cinema ou em esplanadas a ler livros. E desde que o encontre, está tudo bem.

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