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Muita gente escreve por estas horas e estes dias o seu texto de despedida de Jonas. Uns como nós, com letras escritas e parágrafos estruturados, outros na conversa no café, alguns apenas mentalmente, relembrando tudo, certos de que, algures, de uma forma telepática qualquer, Jonas os ouve, numa comunicação transcendental, com a mesma certeza com que o faz quem reza a um Deus que não seja deste mundo. Não vale por isso a pena tentar dizer melhor do que ninguém ou ser mais digno no elogio de despedida, entrar no concurso dos encómios ou autopsiar a estatística. Jonas Gonçalves jogou muito e marcou muito, mas que importa pormenorizar? Aos artistas menores, recordamos o momento das suas vidas; aos grandes, recordamos a vida, por inteiro, a sombra de fantasia que deixaram estendida sobre tudo.

Jonas foi muitas coisas. Foi o jogador que chegou aos 30 anos ao Benfica, a custo zero, dispensado pelo Valência, para substituir um jovem promissor de nome Rodrigo Moreno. Tinha no currículo uma entrada de YouTube titulada: “O pior avançado do mundo”, a etiqueta colada sobre um falhanço clamoroso e sucessivo ainda no tempo do Brasil. Mas o ridículo destas condenações e canonizações instantâneas da net fica rapidamente exposto a quem se dispusesse a ver os números da carreira: Jonas era um avançado letal, disso não havia dúvida. Onde nos enganou a todos, aos atentos e aos desatentos, foi na fase da carreira em que se encontrava: todos a pensarmos no crepúsculo e ele que ainda estava só a aquecer…

Jonas foi o exterminador de veludo. Um raro caso de matador de classe, tão letal quanto tecnicista. Possivelmente, o avançado mais inteligente que vimos jogar no campeonato português, ao longo destes modestos 38 anos de vida. Podia jogar no apoio ao ponta-de-lança, ser o ponta-de-lança apoiado ou o ponta-de-lança solitário, contra toda a defesa adversária, como provou ao treinador que o tentou tirar da equipa quando trocou o 4-2-2 pelo 4-3-3.

Jonas foi o homem que, em cinco anos de Benfica, nunca fez um jogo mau e raramente tomou uma decisão errada. Foi o craque venerado pela multidão acima de todos os outros e o humilde colega de equipa que nos festejos fingia engraxar as botas a quem fizera a assistência. Nas suas costas, a camisola 10 recuperou o sortilégio de ser muito mais do que a matemática pode explicar. Porque é que o 10 é mais do que o 11? Ou do que o 20? Ou do que o 97? Porque Eusébio. Porque Valdo. Porque Rui Costa. Porque Jonas.

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