Jonas e as sete notas que ficam do artista que foi 10 no jogador, na pessoa e até na camisola /premium

10 Julho 2019129

Queria ser farmacêutico, chegou a ser catalogado de "pior avançado" mas foi remédio santo para o Benfica ganhar nove títulos em cinco anos. Agora, Jonas vai acabar – mas continua na história do clube.

“Olá apaixonados adeptos do Benfica. Gravo este vídeo junto com o Benfica para informar que, neste momento da minha vida, decidi encerrar a minha carreira de jogador profissional de futebol. E como não poderia ser diferente, quero celebrá-lo com muita alegria juntamente com cada um de vocês. Convido a todos para que amanhã, a partir das 19h30, compareçam no estádio da Luz para darmos início a mais uma época e também os momentos finais da minha carreira profissional de futebol. Contamos com a presença de todos, um grande abraço e vemo-nos amanhã. Carrega Benfica!”.

Jonas despediu-se como chegou ao Benfica e como se manteve ao longo de cinco anos: bem disposto, a sorrir, a deixar elogios ao clube, a agradecer o apoio dos adeptos. Da Turquia ao Brasil passando pela Arábia Saudita, o avançado de 35 anos foi recebendo propostas para deixar a Luz e duplicar ou triplicar o ordenado na parte final da carreira. Recusou sempre. Com isso, aumentou o legado que deixa na história dos encarnados como segundo maior goleador estrangeiro de sempre e detentor de marcas que só se conseguem comparar em alguns casos com as de Eusébio. A partir desta quarta-feira, o Pistolas deixará de disparar. Mas no seu coldre ficará um reportório de registos e atitudes que o colocam como um dos melhores que passaram pelo Benfica.

O ex-estudante de farmácia que foi remédio santo para o vazio de Jesus

Podia gostar-se mais ou menos do estilo, letal para uns e demasiado pachorrento para outros, mas a verdade é que a saída de Óscar Cardozo, o melhor marcador estrangeiro de sempre do Benfica e que ainda hoje se destaca no Paraguai, acabou por deixar uma vaga relevante por preencher no ataque das águias. Uma vaga que, mesmo com Lima no ponto máximo da passagem pela Luz, Jesus queria colmatar com alguém que fizesse a diferença. E que, neste caso, chegou em boa hora e a custo zero: depois de terminar contrato com o Valencia, assinou já depois do fecho do mercado de transferências a 31 de agosto e estreou-se apenas no início de outubro, entrando ao intervalo para marcar um dos quatro golos do triunfo frente ao Arouca por 4-0. Antigo estudante de farmácia, o brasileiro foi remédio santo para as dores de cabeça no ataque e acabou a época com 15 golos marcados nos últimos 13 encontros do Campeonato, que empurraram os encarnados para a revalidação do Campeonato em 2014/15.

Jonas só marcou um golo ao FC Porto. Mas nem ele nem o Benfica o esquecem

A temporada de 2016/17 acabou por ser a mais complicada para Jonas no Benfica, depois de uma ausência de cerca de quatro meses dos relvados quebrada a meio de dezembro com 11 minutos como suplente na deslocação dos encarnados ao Estoril que foi decidida de grande penalidade por Raúl Jiménez. Já sem a barba que tinha deixado crescer enquanto debelava o problema no pé direito (e complicações daí advindas nas semanas seguintes), o brasileiro voltou às opções e marcou pela primeira vez ao FC Porto à 27.ª jornada na Luz, naquele que era visto como o jogo do título. O Benfica empatou, manteve um ponto de vantagem como líder e o brasileiro selou a conquista do tetracampeonato com sete golos em seis encontros até à festa do título.

O golo 100 que representou muito mais do que isso – e Guga que o diga

Em novembro de 2017, na 12.ª jornada do Campeonato, Jonas bisou na goleada por 6-0 ao V. Setúbal e chegou aos 100 golos pelo Benfica, algo que apenas um jogador estrangeiro tinha alcançado pelos encarnados (Óscar Cardozo). “Foram 100 golos com esta camisola, num grande clube. Um sonho que está a ser realizado e estou muito feliz. Sou bem tratado aqui e esta noite foi muito especial para mim e para todos, que vou guardar para sempre na minha vida”, comentou na altura à BTV. No entanto, esse foi um momento que mostrou também a influência do brasileiro no seio dos encarnados: o número 10 quis dedicar publicamente o golo a Guga, ou Gonçalo Rodrigues, médio da formação encarnada (foi contratado ao Ferreira ainda infantil) que tinha sofrido pela segunda vez num curto lapso de tempo uma lesão gravíssima no joelho. Apesar de tratar-se de um jogador então da equipa B, Jonas não passou ao lado da história e voltou a dar aí o exemplo que o transformou numa referência para os mais jovens.

Os meses a fio onde o Benfica, literalmente, começava a ganhar por 1-0

Depois de uma temporada onde os problemas físicos acabaram por afetar em demasia a sua regularidade competitiva, Jonas teve uma entrada demolidora em 2017/18, naquela que viria a ser a sua melhor época a nível de golos na Luz (37). Mais do que isso, o brasileiro foi conseguindo quebrar uma série de recordes do clube, alguns apenas antes alcançados por “monstros sagrados” da história das águias como Eusébio, José Águas ou Torres. Exemplo paradigmático disso mesmo: a série de 15 jogos consecutivos para o Campeonato sempre a marcar na Luz, apenas quebrada numa vitória frente ao Boavista por 4-0 a meio de fevereiro. Não chegou para a conquista do “penta” mas não por culpa do número 10, que em 30 jogos fez 34 golos e só não marcou em seis.

Eusébio, a Bota de Ouro e uma atitude de Gala que valeu por todos os prémios

Umas semanas antes de fazer 34 anos, em 2018, Jonas recebeu o galardão Cosme Damião para Futebolista do Ano. Ato contínuo, deslocou-se ao palco mas quis levar consigo toda a equipa, “porque sem eles nada daquilo tinha acontecido”. E chegou mesmo a emocionar-se a certa altura do discurso, num dos pontos fortes da cerimónia. Pouco depois, frente ao V. Guimarães, o brasileiro cumpria o jogo 150 pelos encarnados, “celebrado” com mais um bis que o colocou com 33 golos à frente dos melhores marcadores do Campeonato. Uma lesão acabou por retirar-lhe quatro encontros no final da temporada mas ainda voltou a tempo de marcar na última jornada, frente ao Moreirense, e aumentar o seu legado: além de ter entrado no top 5 dos jogadores com mais golos nos 150 primeiros jogos pelo clube (atrás de Eusébio, Torres, José Águas e Julinho), ultrapassou a marca do sueco Magnusson e tornou-se o jogador com mais golos ao serviço do Benfica num Campeonato desde Eusébio.

Perder influência em campo (e nos minutos), ganhar influência fora dele

A decisão foi polémica (apesar de ser apenas a nuance de ser uma expulsão por vermelho direto ou acumulação de amarelos), meteu VAR pelo meio mas Jonas saiu mesmo mais cedo na derrota do Benfica em Portimão no primeiro jogo do ano civil de 2019 que acabaria por ser o último de Rui Vitória nos encarnados. Por problemas físicos, o brasileiro só voltou à ação com Bruno Lage mais de um mês depois, entrando na goleada ao Nacional por 10-0 para bisar em 17 minutos, e entre fevereiro e maio só fez um encontro como titular na goleada em Moreira de Cónegos por 4-0. Perdeu influência? Sim e não. Sim porque o modelo de jogo do novo técnico previa elementos com características diferentes no ataque, neste caso João Félix e Seferovic; não porque cada vez mais tornou-se um ponto de equilíbrio dentro do balneário, que chegou a correr quase 100 metros para festejar a partir do banco dos golos da equipa (como aconteceu em Braga) e que era quase o “pai” dos miúdos que projetaram o Benfica para o título.

Fechar com a chave de ouro: pelo Benfica, na Luz, e a marcar o 300.º golo da carreira

Há dez anos, quando estava ainda no Brasil a representar o Grémio (após passagens pelo Guarani, pelo Santos e pela Portuguesa), Jonas chegou a ser catalogado pelo Mundo Deportivo como o “pior avançado do mundo” após um encontro onde tudo lhe correu mal a contar para a Taça dos Libertadores; na época seguinte, marcou um total de 42 golos pela equipa de Porto Alegre; no ano a seguir, assinou pelo Valencia. Foi esta capacidade de reação às adversidades e às lesões que permitiu ao número 10 encerrar a sua carreira com um número redondo marcante: o último golo da goleada ao Portimonense por 5-1 na Luz, a contar para a 32.ª ronda da Primeira Liga, foi o 300.º de uma carreira que ganhou brilho com a idade e teve como ponto alto a passagem pelo Benfica, onde apontou 137 golos em cinco temporadas, depois dos 76 no Grémio e dos 51 em Valência.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: broseiro@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)