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Jorge Cruz nunca quis perceber nada de música. Agora leva os Diabo na Cruz aos Coliseus /premium

O novo disco continua a correr entre o rock e a tradição portuguesa. Antes dos Coliseus falámos com a mente que sustenta Diabo na Cruz sobre a infância na Ria de Aveiro e a falta de jeito para cantar.

Jorge Cruz cresceu na Praia da Barra, na Gafanha da Nazaré. Hoje vive numa aldeia perto de Coruche porque prefere a aridez do campo no sul do país, por contraponto a essa infância atlântica. Pelo meio esteve em Angola, onde a pop americana não chegava, a não ser quando a família lhe enviava a “TV Guia”, no tempo em que ainda existia o top nacional discográfico. Aí, agarrava nos títulos e inventava as melodias. Cedo soube que não sabia cantar, que gostava de escrever, e que por isso ia continuar a fazê-lo. E continua a não querer perceber nada de música, porque isso é minar o seu processo de composição.

Precisa do anonimato para conseguir observar, para depois conseguir escrever. Ou seja: não se sente uma estrela de rock, embora o cabelo e a sua performance em palco apontem nesse sentido. Não se mete em causas sociais e políticas porque acha que esse não é o seu papel. “Enquanto que o Zeca Afonso não for considerado um artista em vez de uma voz política eu não serei uma voz política, recuso-me”, avisa. Sempre gostou de desporto. E o novo disco de Diabo na Cruz chama-se Lebre. Vai tudo de corrida, como vai a banda a caminho dos Coliseus: em Lisboa no dia 15, no Porto a 22. Antes, falámos com o músico.

A capa de “Lebre”, dos Diabo na Cruz

O anterior disco de Diabo na Cruz é de 2014. O que andaram a fazer e o que é que desse período está neste novo disco?
Primeiro estivemos em tour, começámos ainda antes do disco sair, lançámos o single “Vida de Estrada”, logo no arranque de 2014 e o álbum só sai no final do ano. Fizemos um concerto grátis no Tivoli que esgotou em duas horas, também ainda antes do disco sair. Fizemos muita coisa em 2014 e depois 2015 foram concertos, concertos, concertos, e em 2016 mais uma dose dessas. Chegámos a 29 de Setembro de 2016 e pusemos o aparelho em standby.

“Não vamos tocar mais”, foi isso?
Sim. Estamos a fazer isto há três anos seguidos com o mesmo repertório, o repertório novo não está pronto para sair para a semana, e tocar isto mais tempo não faz mais sentido. Eu em particular sentia mesmo que para chegar a um repertório novo precisava mesmo de fazer um reset a todos os níveis. 2017 foi essa pausa. E 2018 foi produção do disco. Foi existindo composição ao longo desse tempo, mas quando cheguei a janeiro estava a acabá-lo. Começámos a ensaiar em março, gravámos em abril e estamos na ponta final do ano com o álbum já cá fora.

O que é encontrou nesse momento de pausa?
2017 para mim foi muito ler, ouvir, pensar, refletir, não só para Diabo na Cruz mas para música em geral, escrita em geral, e depois quando venho escrever para Diabo na Cruz já venho com novas energias que acabam por influenciar o disco. Tive uma fase grande a ouvir vinil e música dos anos 70, a apreciar um certo tipo de rock clássico que não tinha tempo para apreciar, os Pink Floyd, os King Crimson, que claramente estão neste disco. Ter podido parar para ler fez diferença, quando se trata de falar do país e da nossa vida aqui, sem ser da mesma maneira de sempre.

Tocar por todos os cantos de Portugal é importante para a vossa identidade sonora?
Não sei, acho que o que nos faz ter este tipo de som é uma coisa mais filosófica, era um buraco que existia para a minha geração em particular, e senti uma urgência de o ver resolvido. A geração dos meus pais saiu do 25 de Abril com uma relação muito forte com a música portuguesa, a geração das pessoas imediatamente mais velhas que eu, que agora terão 50 anos, e que viveram os anos 80 como jovens, explodiu para o rock e para a pop internacional, quiseram partir para a modernização sem se identificarem muito com o que estava para trás. Os que estavam ainda mais para trás estavam associados ao Estado Novo e a à ideia de pátria. O fado, por exemplo, está hoje, e ainda bem, liberto desse preconceito. Mas o preconceito que havia com o Zeca Afonso e com essa malta, não está totalmente ultrapassado.

"A ideia de Diabo na Cruz, basicamente, sempre foi essa: que podíamos ser todas as coisas. Até pimba. E podíamos ser indie, e progressivos, e pop, e experimentalistas, tudo no mesmo disco. Desde que fossemos nós."

Acha mesmo que não está?
Há questões políticas aqui pelo meio que fizeram com que existisse um buraco musical em Portugal e que tenha crescido numa geração que cantava primordialmente em inglês. Sei lá, as bandas que gostam de Radiohead soam a Radiohead, as bandas que gostam de Sonic Youth soam a Sonic Youth, as bandas que gostam de Tame Impala soam a Tame Impala. E isso não resolvia as minhas necessidades artísticas enquanto gajo que quer tocar música em banda. Sempre achei que era possível encontrar um diálogo entre esses dois discursos. Há referências que facilitaram isso, obviamente.

Como por exemplo?
Os brasileiros, por exemplo, a história da música brasileira está cheia dessas ligações. O Caetano é uma força que liga João Gilberto a Jorge Ben, a Roberto Carlos, a bossa-nova estava chateada com o rock brasileiro e o tropicalismo veio um bocado unir isto, dizer que está tudo bem, podemos ser essas coisas todas. A ideia de Diabo na Cruz, basicamente, sempre foi essa: que podíamos ser todas as coisas. Até pimba. E podíamos ser indie, e progressivos, e pop, e experimentalistas, tudo no mesmo disco. Desde que fossemos nós. Todos os nossos discos tentam encontrar respostas, há traços comuns, claro, mas todos divergem uns em relação aos outros.

O processo de Diabo na Cruz é o Jorge chegar à banda com um conceito do que é o disco. Sem querer faltar ao respeito a nenhum dos outros elementos, sente-se “a banda”?
A ideia é minha, vinda de trás. Tinha uma banda chamada Superego que dez anos antes de Diabo na Cruz existir já estava a tentar lidar com estas questões, mas de uma forma muito menos amadurecida, sem respostas, tentava pôr as perguntas e respondia desajeitadamente. Com o Bernardo Barata e o João Pinheiro, encontrei pessoas que entendiam isso porque tinham no seu ADN a música do Sérgio Godinho, do Zé Mário Branco, do Zeca Afonso, percebiam isso perfeitamente, tinham isso lá em casa, mas também tinham o grunge e o punk-rock. Quando se trata de trocar instrumentos a química revela-se logo, e a nossa revelou-se em dois minutos em 2008. Desculpa lá estar sempre a fazer rewind, mas preciso de fazer este exercício para responder.

[“Forte”:]

Sem problema.
Depois percebemos que a nossa música ficava muito monocórdica enquanto powertrio, e decidimos incorporar o cordofone tradicional português e um elemento melódico de teclas. E mais vozes. Na altura entrou o B Fachada e o João Gil, o B Fachada saiu em 2012 e nós estávamos a seguir caminhos que não tinham necessariamente a ver com o que ele estava a fazer. E depois, lá está, a música é feita por mim no seu todo, portanto para estar na banda é preciso haver uma identificação total com esta maneira de trabalhar. A composição é cada vez mais centrada em mim sim, pode-se dizer isso, e sobretudo neste disco mais do que nunca. Depois, tornamo-nos uma banda quando nos juntamos e sobretudo quando tocamos ao vivo, porque aí é uma coisa energética, não tem a ver com as letras e com o conceito.

Muita gente diz que Diabo na Cruz é uma banda do caraças ao vivo. Tem a ideia que essas pessoas conhecem os vossos discos com profundidade?
Sim, quem vai aos concertos conhece tudo. Há uma parte das pessoas que pensa que conhece Diabo na Cruz porque ouviu umas cenas, mas nunca viu nenhum concerto. Quem vai aos concertos, normalmente… quer dizer, se estamos a tocar em Fornos de Algodres, 80% daquelas pessoas estão ali pela festa e a dizer “o que é que eles maluco estão a fazer no palco?”. Mas temos sempre alguns seguidores que sabem as letras todas.

Vão apresentar o disco nos Coliseus. Porquê agora?
Era mais ou menos o passo evidente, a coisa que faria sentido quando parámos, em 2016. Já tocámos no Tivoli, no CCB, no São Luiz, no São Jorge, na Casa da Música, no Theatro Circo, tocámos em todos os sítios desse grau. Era o passo seguinte, não o fizemos na altura porque estávamos farto daquele repertório, ir para os Coliseus com aquilo não nos fez sentido. E então definimos que quando voltássemos era por aí que íamos. Apresentamos o disco nos Coliseus, não é isso que se faz?

"Há pessoas em Lisboa que dizem: “Vi-vos uma vez no São Jorge”. Foi para aí o quinto concerto que demos na vida, um concerto muito pouco representativo do que a banda era. Essas pessoas ficam em Lisboa, nós damos 300 concertos e somos outro tipo de banda."

Será muito diferente de um concerto normal de Diabo na Cruz?
Os primeiros concertos das nossas tours foram sempre diferentes do resto, é diferente de apanhar a banda já no seu vigésimo concerto, tem muito que ver com um à vontade entre nós, com o público, esse relaxamento só se adquire quando já quase não estás a pensar no que estás a fazer.

Há aquela teoria de que os primeiros concertos de um novo disco são sempre maus. Ou menos bons, pelo menos.
Para o nosso standard são um bocado, sim. Há pessoas em Lisboa que dizem: “Vi-vos uma vez no São Jorge”. Foi para aí o quinto concerto que demos na vida, um concerto muito pouco representativo do que a banda era. Essas pessoas ficam em Lisboa, nós damos 300 concertos e somos outro tipo de banda. Portanto, para responder: não sei, vai ter tantos ingredientes de quebrar o gelo, dois anos sem tocar, um repertório de músicas novas, o palco que é, toda esta situação vai ser difícil de prever como é que vai ser. Lembro-me dos Radiohead virem ao Paradise Garage, se não me engano, fazer um aquecimento de tour, ficaram aí cinco dias quando ainda não eram tão grandes. Lembro-me do Cohen quando fez esta tour enorme, antes de morrer, que teve uns dois ou três anos em tour, que andou em terriolas do Canadá, em auditórios, uns vinte concertos, e só depois é que a tour arrancou. Nós vamos arrancar nos Coliseus, o que é que eu hei de dizer?

De onde vem este conceito da Lebre, passou a correr?
A Lebre está presente na nossa discografia desde o início, a primeira música do nosso primeiro álbum chama-se “O Regresso da Lebre” e todos os nossos discos têm sido acerca da banda. Virou! era um título que tinha a ver com o momento, o Roque Popular era um título que tinha a ver com o nosso som, o terceiro chama-se Diabo na Cruz e este chama-se Lebre, que é a nossa personagem principal. E também ajudou um pouco a compor uma imagem, quer visual, quer lírica, de uma ideia mais conceptual para o álbum, queria que tivesse essa dimensão retro, é uma viagem.

Joana Linda

Ouvi referências a emojis, a comentários online… a internet está aqui um bocado presente, certo?
Está. Estamos sempre a ir atrás e à frente, os conteúdos das letras de Diabo na Cruz são sempre um exercício quer de ancestralidade, quer de futurismo, profecia, de vez em quando atualidade, embora isso seja passageiro, só nos interessa uma atualidade que se vá mantendo. “Como é que é a tua vida?”. Se me fizerem essa pergunta, mesmo que só diga dez traços gerais, moro assim, faço assado, tenho uma família assim, rapidamente chegamos à tecnologia. Ela faz parte das nossas vidas, é também cultura e uma forma cada vez mais inevitável de comunicarmos. Eu, em particular, tenho uma relação um bocado distante com ela, que para o meu ofício pode dar algum pretexto para uma ou duas linhas, mas é insatisfatória enquanto procura de um pensamento original. Mas também seria injusto não reconhecer que fazer música, desde que tenho acesso à internet, é absolutamente diferente em termos de potencial daquilo que era nos anos 90, quando gravávamos uma cassete e enviávamos para o “Blitz”, se eles gostassem escreviam uma notícia. Ou então tentavas as editoras, mas aí eles ignoravam quase sempre porque eu não tinha uma voz muito atraente. Era importante seres bom a cantar. Ainda é, mas felizmente ter ideias também conta.

Na “Procissão” diz: “Não queiras ficar tão a jeito de acabar ultrapassado”. É algo que o preocupa?
Sim, gosto de desporto, a lebre é um animal rápido, para mim isto sempre foi uma maratona, muitas vezes há pessoas que confundem isto com um sprint. Estás praticamente condenado à insignificância à medida que o tempo passe, mas essa irrelevância é muito fatalista portanto uma pessoa que cria arte luta sempre contra a sua futura irrelevância e está sempre a tentar ultrapassar-se e não ficar para trás.

O vosso terceiro disco era bastante mais urbano, foi o Jorge quem o disse numa entrevista, que ele era muito “para os hipsters e para o Maria Matos”.
Há uma canção nossa que fala do Maria Matos, uma das motivações de Diabo desde o início, por estarmos em Lisboa ou por tocarmos para Lisboa, sempre foi um pouco combater aquela ideia do país rural, a província enquanto exótico. Chegávamos a ir gravar um showcase a uma rádio, ou assim, e perguntavam-nos de onde é que éramos, como se viéssemos da montanha para cantarmos aquela harmonias tradicionais. E o nosso terceiro disco, ao mesmo tempo que era o mais pop e urbano em termos de som, surgiu da fase em que o monogénero musical se impôs, em que o rap e o r&b americano passaram a ser o alternativo ao mesmo tempo, e as próprias bandas de rock como os Arctic Monkeys e o Black Keys estavam mais próximas dessa linguagem

Portanto, esse disco era para essas pessoas?
Sim, há questões por resolver. Aquela coisa de ir ver um filme ao Maria Matos, num DocLisboa, ir ver um filme sobre velhinhas, como diria o Tiago Pereira, e acharem piada por causa do naperon ou sei lá do quê. Aquela coisa do festival colonialista, como se as pessoas que vivem no resto do país fossem animais selvagens. É evidente que urbanidade e a civilização estão em todo o lado e há McDonald’s em Viseu, em Castelo Branco e em Bragança, não é por aí. A mim em particular interessa-me aquilo que perdura, e aquilo que perdura, às vezes, já existe há mil anos. Isso fascina-me bastante. E neste disco dediquei-me mais a isso e menos às discussões de salão.

É uma expressão engraçada essa.
Sim, por exemplo os pintores de Paris que depois vão embora para a costa e começam a pintar marinas e aldeias, estão fartos de passar pelas discussões de salão, as aprovações, as inaugurações nas galerias… não tenho saco.

O canapé.
Sim, isso, não tenho saco.

Vive em Coruche.
Numa aldeia lá perto, sim.

Quer estar longe?
Sim, quero. E porque cresci num sítio que era assim, identifico-me mais, na Praia da Barra, em Aveiro, é mais longe de Lisboa, é mais perto do Porto, mas tem um clima muito agreste, muito Atlântico e eu gosto de calor e do clima do campo aqui mais para o sul. Mas aquilo que estava a dizer é mais interessante do ponto de vista das implicações artísticas que tem para mim. Estar de fora está na génese de tudo o que tenho para dizer e do trabalho de Diabo na Cruz. Se nós fossemos engolidos pelo discurso, tornar-nos-íamos irrelevantes. Não quer dizer que não nos venhamos a tornar irrelevantes, mas engolidos pelo nosso próprio discurso.

Pode-me falar dessa infância?
Nasci e cresci junto à Ria de Aveiro, estudei em Aveiro, embora regressasse todos os dias à praia para brincar e dormir e viver, estava lá a minha família. Aos dez anos o meu pai foi cooperar para os caminhos-de-ferro de Benguela e fui viver para Angola, para uma escola pública no Lobito e foi aí que comecei a fazer canções. Em 83/84 tinha despertado para o mundo do Thriller, do Make It Big, dos Wham!, Like a Virgin, da Madonna, essas coisas estavam a acontecer quando eu estava a sair da primária. E depois cheguei a Angola e não tinha acesso a nada. Existiam as figuras americanas mas à distância, a televisão não passava, pouco havia de televisão, Angola estava muito mais controlada pelo poder do MPLA, a guerra existiu com a Unita, e nós recebíamos um bocado, por caridade, da nossa família, por navio, mensalmente, umas coisas daqui de Portugal para nos entretermos. Uma delas era a “TV Guia”, que a minha mãe pedia, para ir ver como estavam as coisas e na “TV Guia” havia uma coisa que agora já não se usa que é o top nacional.

"Fiz o percurso normal, fui para a faculdade, tirei um curso, e o meu pai dizia-me: “se queres ser músico, vai estudar música”. E eu nunca lhe consegui explicar, nem consigo hoje explicar aos membros da minha banda, porque é que eu não quero perceber nada de música."

Saudades.
Sim, há um disco que passa umas vinte ou trinta semanas à frente, é o This Is The Sea, dos Waterboys, é um disco que acho muito influente para Diabo na Cruz hoje em dia, não ouvi na altura, não conhecia. Então o que é que eu fazia? Inventava as músicas com base nos títulos. Mas não sabia falar bem inglês, então era “this is the sea [seá]” e depois gravava para cassetes. É aí que me apercebo, primeiro que vou escrever canções até ao fim da vida e segundo que não sei cantar.

Mas ainda assim opta por continuar.
Sim, vai ter de ser e por instinto apercebo-me que a teimosia vai ser a principal característica para isto de ser bem-sucedido. Estou a brincar. É aliás com muita timidez que experimentava cantar, tinha necessidade de o fazer. E quando regresso a Portugal, só fico lá um ano, estou completamente apaixonado pela música pop, mas vivia muito mais para o desporto e nunca pensei que pudesse vir fazer música.

E quando é que isso acontece?
Foi quando vim estudar para Almada, tinha 14 anos, vim estudar para o Pragal, conheci um batista – e isto tem ligação à minha vida porque depois Diabo na Cruz aparece numa editora batista que é a Flor Caveira – que tocava muito bem viola que era algo que não sabia fazer, que era algo que o meu pai já tinha tentado mas que eu vi que era difícil e não me interessei. Ele tocava muito viola só que não gostava de cantar e eu comecei a fazer letras para as canções dele, formámos um duo que gravava cassetes, nada público, mas aí apercebi-me que era capaz de estar mais perto daquilo que era a minha maior vontade e que eu não tinha coragem de assumir. Então aos 14, 15, foi por aí. Mas depois fiz o percurso normal, fui para a faculdade, tirei um curso, e o meu pai dizia-me: “se queres ser músico, vai estudar música”. E eu nunca lhe consegui explicar, nem consigo hoje explicar aos membros da minha banda, porque é que eu não quero perceber nada de música, não quero saber nada de música, não estou confortável com saber acordes.

Porquê?
É um mistério para mim.

Se souber, o seu processo está a ser influenciado?
Completamente. E a prova disso foi quando larguei totalmente os instrumentos, hoje não uso instrumentos para compor, só uso instrumentos para aprender o que compus, e nesse sentido, para voltarmos à tradição oral e à música tradicional portuguesa, Diabo na Cruz é o momento em que finalmente me liberto da guitarra e para ir, ainda mais em direção à nossa ideia inicial, componho já como se fosse tradição oral, ou seja, todas as partes das músicas, mesmo às vezes o baixo e a guitarra, são cantaroladas. E isso foi legitimado principalmente pelo processo do Zeca Afonso e ainda mais do António Variações, quando é recuperado nos Humanos e eu me apercebo que ele nem sequer sabia tocar nada, ele cantarolava as coisas e eles tentavam apanhar. Então decidi que ia fazer só isso.

E eles acharam bem?
A banda?

Sim.
Já lhes chega traduzido. É muito isso que tu tens aí, dictafone, uma música com uma linha de baixo, tal e tal, e hoje em dia vou ao Garage Band e o pessoal já ouve uma coisa que faz sentido.

Sente-se uma rockstar? Conceito que em Portugal é muito raro.
Não.

Mas até voltou a deixar crescer o cabelo.
Não sinto. Percebo que para outros músicos e cantores há público que os pode olhar dessa maneira… sei lá, isto é uma coisa que nunca fica bem falado, ninguém sabe o que é estar nos meus sapatos e eu também não sei o que é estar nos sapatos do Tim, dos Xutos & Pontapés, por exemplo, que uma vez numa entrevista disse, quando lhe perguntaram se ele era conhecido, “como a batata-frita”. O Tim deve ser conhecido como a batata-frita, eu não sou conhecido como a batata-frita. Mas, conforme o meu aspeto, posso ser mais ou menos conhecido. Não sei se é isso que faz de alguém uma rockstar…

O estilo é essencial.
Ah é? Não estou preocupado com isso. O que estou a querer dizer é: ser anónimo é fundamental para o meu processo, se eu não for anónimo não posso observar, se não puder observar não consigo escrever além do superficial. Portanto, não tenho vontade nenhuma de ser uma estrela de rock, mas se me apanharem num palco com Diabo na Cruz, aí estou a ser uma estrela de rock do primeiro ao último minuto. Mas é só porque acho que é assim que deve ser. A própria banda disse-me: “Mas se estás cansado porque é que não fazemos um álbum mais calmo?”. Não, para mim Diabo na Cruz é isto, se for para fazer um álbum mais calmo vou fazer outra coisa. Diabo na Cruz é esta experiência limite, intensa e emocional de bombos, suor e lágrimas. Foi isso que nos trouxe um público fiel e que continua a querer ir aos nossos concertos e que acho que vai estar nos Coliseus.

Fica nervoso antes do concerto?
Fico nervoso com muitas partes do processo, o concerto não é necessariamente das que me põe mais nervoso, mas é bem possível. Fico mais nervoso em palcos mais pequenos, que são agrestes por alguma razão, do que num palco grande em que estejam pessoas que pagaram bilhete para ver Diabo na Cruz. O Fausto fala muito numa coisa que me acontece, que é esquecer-se das letras, as letras são muito longas, estão cheias de trocadilhos, rimas dentro de rimas e o cérebro entra em branca, sabes que é i-i-i-a-a-a mas não sabes quais são as palavras. Dito isto: não vai ser o tamanho do Coliseu que nos vai meter medo. Já tocámos até em sítios maiores.

Também escreve canções para outros artistas. Há compartimentos diferentes para cada coisa? Não tem medo de escrever uma coisa muito boa que é para outra pessoa?
Não, aliás o meu principal objetivo é escrever coisas muito boas para outras pessoas. Não aceito todos os convites e quando aceito tento fazer o melhor que consigo. Dedico-me como sempre no vermelho, como em tudo o que faço. E tenho cinco ou seis compartimentos e Diabo na Cruz é um deles, não é tudo o que faço na vida. Mesmo quando escrevo para outras pessoas há assim pelo menos dois compartimentos. Às pessoas para quem escrevo normalmente até mando mais do que uma opção. Têm escolhido uma canção alegre, animada, positiva, de empowerment feminino. Tem sido essa a tendência. Depois, claro que tenho outras dimensões mais recônditas, que poderia facilmente perder-me nelas se me esquecesse que tinha que meter comida na mesa e ficar cinco ou seis anos numa gruta a fazer coisas que interessariam a muito pouca gente mas bastante a mim próprio.

Parece-me que pensa muito sobre as questões sociais e políticas, mas a sua voz não é propriamente ativa.
As políticas não me interessam.

Porquê?
Porque sinto que a política é um teatro e só me interessam as coisas reais. Se não chego a sentir realidade não me chego a interessar. As questões sociais são reais. Mas o meu interesse é mais ou menos formal, ser ativista em determinado tipo de crença que fará melhor à humanidade merece da minha parte todo o tipo de louvor e respeito, mas sinto que essa não é a minha vocação. Para quem escreve canções, tentar passar uma mensagem ativista num certo sentido vai menorizar a canção, como eu sei que muitos dos meus ídolos são ainda menorizados pela relação que tiveram, supostamente, por questões políticas. Nem que seja em homenagem a eles e na luta pelos direitos das obras deles, recuso-me a ser ativista. Enquanto que o Zeca Afonso não for considerado um artista em vez de uma voz política, eu não serei uma voz política, recuso-me. É evidente que a Joan Baez gostava muito que o Bob Dylan fosse às manifestações, mas ele tem mais que fazer, tem um Prémio Nobel para ganhar quando tiver 70 e tal anos porque escreveu as melhores canções que podiam ser escritas. O que é que interessa aquilo que o Tom Waits acha sobre o Donald Trump? O melhor Bruce Springsteen é aquele que não fala sobre política, é aquele que fala sobre a vida real das pessoas e assim age socialmente na vida das pessoas. Talvez devesse fazer mais, não é que não sinta, mas lá está, como não me vejo como uma rockstar, vejo-me como um gajo com um ofício a tentar ser melhor e que acha que pode ser muito melhor do que é, estou concentrado nisso.

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