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ANDRÉ CARRILHO/OBSERVADOR

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José Rodrigues dos Santos: "Se há pessoas que acham que não é assim que se escreve, elas que escrevam" /premium

O livro novo e os críticos. O jornalismo e o trabalho na RTP. As transformações na televisão e as aulas na universidade. A política e os políticos. Entrevista com José Rodrigues dos Santos.

Apresenta o Telejornal da RTP desde 1991, quando conduziu a cobertura da Guerra do Golfo, e durante anos foi visto como referência no jornalismo televisivo. Terá sido o cargo de diretor de informação do canal público, entre 2000 e 2004, que o tornou menos consensual e alvo de  críticas à esquerda e à direita. Os detratores têm outra versão: desde que começou a escrever romances – e o primeiro é de 2002, A Ilha das Trevas –, procura promover os livros à conta das polémicas em que se envolve. Seja qual for a verdade, ele parece indiferente às opiniões. Aos 54 anos, José Rodrigues dos Santos acredita que a polémica é inevitável para quem gosta de “dizer o indizível” e sustenta que a ficção é mais poderosa do que o jornalismo, porque “usa as vestes da mentira para exprimir verdades profundas”.

Há dias, conversou com o Observador num restaurante chinês no Estoril e o pretexto foi o novo romance, A Amante do Governador, editado pela Gradiva. Ao 19.º livro de ficção, Rodrigues dos Santos chega a Macau, território onde se iniciou no jornalismo, com apenas 17 anos. Recupera a história do cerco de Macau pelos japoneses durante a II Guerra Mundial e apresenta-a num enredo de amor e sedução. Em literatura, o conteúdo é mais importante que a forma, diz o jornalista, enquanto esbraceja e levanta a voz para se fazer entender. O leitor tem de ver imagens no lugar das palavras, defende o escritor que mais vende em Portugal e que já foi traduzido em 22 países.

“A Amante do Governador”, de José Rodrigues dos Santos (Gradiva)

A Amante do Governador é o seu melhor romance?
Quando escrevo, não penso nisso, penso no que tenho de novo para contar e como é que o vou fazer. Se me perguntar se estou satisfeito com este romance, é evidente que estou. Quando começamos como escritores, não dominamos suficientemente a técnica narrativa e depois vamos evoluindo e desenvolvendo o que temos. Há uma maturação.

Este será o romance mais maduro de todos?
Sim. Escrevo dois tipos de romance: o romance a que chamo mistério real, são “thrillers” passados hoje, as aventuras de Tomás de Noronha, e escrevo romances históricos. Os romances históricos obedecem sobretudo à ideia de resgatar a história de Portugal. A literatura inglesa resgata muito a história de Inglaterra, episódios esquecidos, etc., a francesa também, mas a nossa história não está suficientemente bem captada. Os meus romances históricos relatam episódios esquecidos ou negligenciados da história de Portugal.

Qual é o método de escrita: estabelece um esquema rígido ou a história nasce à medida que vai escrevendo?
Depois de fazer a pesquisa, desenvolvo o conceito e a linha da história. Depois, sigo essa estrutura que montei.

Uma estrutura mental?
Não, até tomo notas em folhas, registo a evolução da história. Quando começo um romance sei para onde ele vai e como acaba, mas procuro manter a flexibilidade. Se tiver uma ideia melhor, ou descobrir melhores soluções no processo de escrita, posso alterar a história. No fundo, é como o ato de entrevista. Nós temos um plano para uma entrevista, mas esse plano depois adapta-se à realidade.

Ter vivido em Macau em criança foi determinante para escolher este tema?
É mais do que isso. Senti que há muitos episódios da história de Portugal que são interessantíssimos e estão esquecidos. Quando se fala da II Guerra, fala-se dos espiões no Estoril, eventualmente do volfrâmio ou dos judeus. São episódios importantes, mas de tão repetidos tornaram-se “clichés”. A II Guerra tem muito mais do que isso. Fui resgatar Macau quando os japoneses tomam conta do extremo oriente e cercam o território, mas não entram. Porquê? Que dinâmicas se criaram? Como é que se lidou com a situação de os japoneses cortarem a entrada de comida em Macau?

"Esta ideia que surgiu no século XX, muito por influência do “nouveau roman” francês, de que a história não interessa, que o que interessa é o estilo, contaminou a literatura portuguesa. O que interessa é escrever com muitas vírgulas ou sem vírgulas, com maiúsculas ou sem maiúsculas. Isso, para mim, é absolutamente marginal."

O que há de ficção e de realidade neste livro?
O essencial do romance… Isto é quase uma reportagem. Os acontecimentos que estão aqui e as personagens existiram realmente. O Artur Teixeira, que é o governador, é inspirado no governador Gabriel Teixeira. O Jorge Lobo, diretor de economia e o braço direito do governador, é na verdade baseado no Pedro Lobo. O cônsul Fukui existiu mesmo. Os episódios que conto ocorreram de facto. Consultei os jornais da época, consultei livros de História, falei com pessoas. A grande história é feita de pequenas histórias.

Isso poderia ter sido dito pelo historiador José Hermano Saraiva, para quem o pequeno episódio pode ser o mais relevante para contar grandes tendências da história.
E faz parte da tendência do jornalismo atual. Quando falamos sobre desemprego, contamos a história da dona Maria, que trabalhava numa fábrica do Vale do Ave, mas perdeu o emprego, porque a China entrou nos têxteis e a Marks & Spencer deixou de fazer encomendas à dona Maria e passou a fazê-las na China. O Estaline dizia: a morte de uma pessoa é uma tragédia, a morte de um milhão de pessoas é uma estatística. A nossa história, que é de influência estruturalista, era só estatística. Os livros de História de Portugal falavam da exportação dos têxteis portugueses, do vinho do Porto. Aquilo não dizia nada. As histórias das pessoas dão-nos a grande história. Mas é preciso dizer: isto que estou a fazer é uma tradição literária longuíssima. Desde a Bíblia, desde a Epopeia de Gilgamesh, da Suméria, ou de A Epopeia de Beowulf, do norte da Europa, que a literatura é contar histórias. A Bíblia é um conjunto de histórias sobre o povo judeu. Esta ideia que surgiu no século XX, muito por influência do “nouveau roman” francês, de que a história não interessa, que o que interessa é o estilo, contaminou a literatura portuguesa. O que interessa é escrever com muitas vírgulas ou sem vírgulas, com maiúsculas ou sem maiúsculas. Isso, para mim, é absolutamente marginal.

O estilo é marginal?
É. A literatura, na sua tradição mais antiga, e assim permaneceu no mundo anglo-saxónico, é a literatura que conta histórias. Não conta por contar, mas para servir o objetivo último de mostrar a verdade das coisas. Isso é que faz a grande literatura. Quando lemos o 1984, do George Orwell, não é a história daquelas personagens que interessa, é o facto de o livro nos falar do totalitarismo. Procuro nunca encontrar uma versão ideológica da história. Isso foi muito importante quando escrevi O Anjo Branco, sobre a Guerra Colonial. Muita gente me dizia que os romances sobre esse período eram muitos ideológicos.

Em que sentido?
No sentido em que os soldados portugueses aparecem retratados como uns alienados e os guerrilheiros como iluminados que só lutavam pela libertação, ou então os soldados faziam a defesa da pátria e tinham sido traídos, etc. Um discurso ideológico. A guerra não foi isso, foi uma guerra cheia de contradições e conseguimos captá-las quando as pessoas nos contam pequenas histórias. Aí é que começamos a perceber bem o problema. Um primo meu combateu na zona de Tete e sempre me disse que nenhum romance conseguia descrever aquilo. Fui entrevistá-lo para O Anjo Branco.  Ele dizia: “Eu estava num quartel na zona de Tete e logo ao lado havia um aldeamento negro. Eu tinha um mainato, o rapaz que trata das roupas, dava-lhe a farda, ele lavava e eu pagava-lhe. O mainato era guerrilheiro e antes de eu sair em patrulha, combinava com ele, dizia-lhe por onde iríamos e ele evitava”. Quer dizer, o guerrilheiro não estava ali a lutar pela liberdade e o soldado português não estava a lutar pela pátria. Eles queriam era viver. Há contradições, as coisas não são lineares, porque é tudo humanidade.

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Disse numa entrevista recente que a literatura como jogo de linguagem “é uma bacocada”.
É uma expressão um bocado verbal. O que quero é dizer é que estamos a ver curto se acharmos que a literatura é só sobre o estilo. É sobre o conteúdo. Há uma profunda ligação entre beleza e verdade, isso está estudado. Nós, muitas vezes lemos uma romance e dizemos “isto é profundamente verdade” e, por isso, achamos que é belo. Existe uma ligação íntima entre literatura e verdade. Já ouvi escritores dizerem que a literatura não tem uma função, é apenas um exercício de linguagem. Não consigo compreender que um escritor diga uma coisa destas. Claro que a literatura tem uma função, é uma forma de exteriorizarmos a nossa experiência, raciocinarmos sobre ela e recuperarmos a nossa existência, pensar o passado e o presente, projetar o futuro. Exerce um conjunto de funções e a função mais importante é chegar à verdade das coisas e aí a literatura tem capacidade de dizer o indizível. Quando Eça de Queirós publica O Crime do Padre Amaro no século XIX ele está a dizer o indizível.

No seu caso, o que é que é o indizível?
Muitas coisas. Quando toco no cristianismo, em O Último Segredo, ou na corrupção na igreja, em Vaticanum. Ou quando toco no islão, ou no fascismo como corrente socialista. Isso é o indizível. É trabalho do escritor ir mais além e poder dizer tudo aquilo que ninguém se atreve a dizer.

Neste caso, sob a capa da ficção.
Claro. Quando o D. H. Lawrence escreve o Lady Chatterley’s Lover, ele está a fala sobre a infidelidade da mulher casada, tema proibido na época. Exerceu a função da literatura. E a partir daí aquilo começou a poder ser dito, ele pisou o tabu.

Se procura dizer o indizível, a polémica é inevitável.
Mas a literatura está cheia de polémica.

Procura ativamente a polémica?
Interessa-me tocar no proibido, sim, isso interessa-me. E não concebo um escritor que não se interesse por isso, porque essa é uma das funções mais nobres da literatura: isto não se pode dizer, mas eu vou dizê-lo, porque é verdadeiro.

Usa a ficção para se proteger?
Não, não. Penso que aí há um equívoco. A ficção é mais poderosa do que o discurso não ficcional.

Pode parecer uma afirmação estranha, vinda de um jornalista.
Não. Dou-lhe um exemplo que até dava nas aulas na faculdade. Vamos imaginar que dou na rádio a notícia sobre o desembarque dos aliados na Normandia e digo que há 30 mil mortos. O público regista. Outra coisa, é estarmos no ecrã, vermos uma mão a tremer, vermos o Tom Hanks, os soldados à frente dele a morrem todos. Estou a falar do “Saving Private Ryan”, do Spielberg. Os espectadores, de repente, já não estão na sala de cinema, mas na praia, com o Tom Hanks, e estão a compreender o que foi o desembarque na Normandia, não meramente de forma racional, embora também, mas sobretudo de forma emocional. A emoção é uma forma de razão, como disse o António Damásio. A a força da ficção é a história tornar-se presente. De repente, já não estou em 2018 a ler A Amante do Governador, mas em Macau, em 1940, e os japoneses ameaçam entrar.

"Não sou alvo de nada. Posso dizer que no estrangeiro não tive até hoje uma crítica negativa. Não tenho um problema com a crítica, também não tenho problemas com os leitores. Tenho uma visão sobre o que é a escrita e os meus romances refletem essa visão. Vou escrever sempre da maneira que entendo que devo escrever."

Quer dizer que se tornou escritor porque sentia os constrangimentos do discurso jornalístico?
Sim, sim. A literatura é, de certa forma, uma libertação. Através da mentira, porque a ficção é uma mentira, estou a contar uma história verdadeira. A ficção tem esse poder: usando as vestes da mentira, exprime verdades profundas.

Já pensou escrever sobre episódios da vida política portuguesa dos últimos anos?
Já pensei. Uma vez, uma pessoa da Gradiva perguntou-me se eu achava que as minhas ideias iriam esgotar-se algum dia. Esgotar? Basta olhar à volta. A gente vai na rua e tropeça em histórias. O céu é o limite. Se percebermos que há uma matéria insuficientemente explorada, se o que está a ser dito não corresponde exatamente ao que foi, vale a pena mostrar o outro lado.

Defende a primazia do conteúdo sobre a forma porque a crítica o ataca precisamente em relação à forma?
Não, porque sempre pensei assim e sempre escrevi assim. Sigo a linha anglo-saxónica. Se for ler o Philip Roth, ele não tem nada de extraordinário na forma. Não faz exercícios de estilo. Usa sujeito, predicado e complemento. Ele vale pelo que conta.

Então têm os dois razão: a crítica que lhe aponta uma eventual falta de cuidado na forma e o José Rodrigues dos Santos que prefere dar mais atenção ao conteúdo.
Não é uma questão de ter razão. O Aristóteles disse que uma coisa tem de ser avaliada em função do que quer ser. Você vai ver um jogo de basquetebol e depois critica porque eles jogavam mal, porque jogavam com as mãos e não marcavam golos. Ora, o basquete não é para marcar golos nem para jogar com os pés. O jogo de basquetebol tem de ser avaliado enquanto jogo de basquetebol. Para mim, a boa escrita é a escrita que o leitor capta à primeira, é a escrita clara. Concordo com o Ian McEwan quando diz que as palavras têm ser transparentes como a água. Quando estamos a ler, de repente, já não vemos as palavras, vemos a cena.

Mas o sentido investido pelo autor pode não coincidir com aquilo que o público interpreta. Ou não
Constantemente acontece.

Considera-se alvo dessa falta de coincidência?
Não sou alvo de nada. Posso dizer que no estrangeiro não tive até hoje uma crítica negativa. Não tenho um problema com a crítica, também não tenho problemas com os leitores. Tenho uma visão sobre o que é a escrita e os meus romances refletem essa visão. Vou escrever sempre da maneira que entendo que devo escrever e não da maneira que uma ou outra pessoa acham que devo escrever. Se há pessoas que acham que não é assim que se escreve, elas que escrevam. Eu tenho a minha voz, a minha visão da literatura. O leitor não pode voltar atrás, tem de entender à primeira.

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Acha que há quem critique a sua obra sem a ler?
Acho. Um crítico em Portugal disse que faço romances de final feliz. Isto é de quem nunca leu um livro meu. Os meus romances de final feliz, são uma minoria. Uma das características dos meus romances são os finais com um lado bom e outro mau.

Porque é que diriam mal sem terem lido?
Escapa-me.

Não se interroga?
Não. Até lhe vou dizer: o que me interessa a mim são os leitores. Uma vez, o Carlos Ruiz Zafón disse-me que gosta de escrever romances para jovens porque os adultos têm muitas manias, leem certos livros porque acham que socialmente fica bem dizerem que os leram. Os jovens, não. Se gostam, dizem que gostam, se não gostam, não gostam. Percebo perfeitamente que nunca vou agradar a toda a gente, faz parte das leis da vida, é natural, aceito, estou tranquilo quanto a isso.

Será que gosta dessa polémica de não ser nada consensual?
Só me agrada no sentido em que se toco em feridas, há uma reação. Significa que estou a fazer o meu trabalho. É um agrado intelectual. Entendo que a literatura tem de tocar o proibido. Se faço um livro que toda a gente acha muito normal, não toquei em proibido nenhum, não pisei o limite.

Ser “pivot” da RTP há tantos anos afeta a receção dos seus livros e ser escritor afeta a sua imagem de jornalista?
É evidente que sim, não vivemos em compartimentos estanques. O facto de ser jornalista, tem efeitos positivos e negativos na receção do meu trabalho enquanto escritor. E é evidente que os meus romances, porque estão muitas vezes a tocar questões proibidas, podem tocar a imagem de jornalista. O ser humano está cheio de contradições, tem uma ânsia natural pela verdade. No campo do discurso político isto é muito interessante. Para um político, a verdade em si não é importante. Há uma influência da escola pragmática do William James: interessa a verdade que é útil no momento. Por isso é que um partido diz uma coisa na oposição e faz o contrário quando está no governo. A verdade é um instrumento. Mas o público em geral, tal como o escritor e o jornalista, está interessado na verdade em si. Às vezes, a verdade em si é inconveniente. Se a verdade é contra a sua causa, um político vai calá-la ou combatê-la, mas nós vamos afirmá-la, mesmo que não nos convenha. Sinto que o leitor também tem esta ânsia, quer saber a verdade ontológica das coisas.

Mas a verdade das coisas existe?
Agora há uma ideologia que diz que não, mas isso é treta. Eu nasci em Moçambique ou em Pequim? Aqui não é possível relativizar. Dizer que nasci em Moçambique é verdade e dizer que nasci em Pequim é falso. As pessoas podem é confundir factos com opiniões. As opiniões são outra coisa, são subjetivas. Em jornalismo dizemos que as opiniões são livres e os factos são sagrados. A Meg Ryan é mais bonita que a Angelina Jolie? Uns acham uma coisa, outros acham outra. Isso é matéria de opinião.

"Quando era diretor da informação da RTP apanhei um governo PS e um governo PSD-CDS. Penso que os três partidos deixaram de gostar de mim por eu ter sido diretor de informação, o que eu acho que é bom."

Em 2016 esteve envolvido numa polémica sobre a evolução da dívida pública em Portugal. Mostrou um gráfico no Telejornal com dados factuais, mas depois foi criticado por dirigentes do Partido Socialista. José Magalhães disse que o gráfico era uma vigarice e João Galamba classificou-o como especialista em desinformação. Pelos vistos, a verdade tem muitas faces.
Olhe, quando era diretor da informação da RTP apanhei um governo PS e um governo PSD-CDS. Penso que os três partidos deixaram de gostar de mim por eu ter sido diretor de informação, o que eu acho que é bom.

É bom porque mostra que foi independente?
Claro. Aprendi na BBC que não podemos fazer um jornalismo conformista. Mas lembro-me de que no tempo do PSD-CDS a administração da RTP dizia-me que o primeiro-ministro tinha protestado por causa de tal notícia e que isso era muito grave. E eu respondia: “Muito grave porquê?” Eles: “Porque é o primeiro-ministro.” A minha preocupação era: ele tinha razão ou não? Não é o facto de ele protestar que lhe dá razão. Se há um protesto, vamos analisar, mas se não tem razão, não tem razão. Os políticos podem protestar, mas os factos são factos. O que apresentei em 2016 foi uma evolução da dívida pública, aquela evolução corresponde à verdade, é matéria de facto, não se consegue contestar. Ninguém contestou, disseram só que eu era um grande malandro. Agora, se um político reconhece aquilo como verdade, mas acha que não lhe convém que se fale daquilo… Não acho que os políticos sejam todos iguais, mas têm traços comuns e um deles é a verdade instrumental. Se o dado não convém, tentam intimidar, para não se voltar a falar daquilo. Quando escrevi O Último Segredo, que punha em questão a mensagem de Jesus tal como é apresentada pela igreja, fui muito criticado. Mas havia alguma mentira no que escrevi? Eu estava disponível para alterar algum facto que estivesse errado.

Como escreve essas coisas em romances, as pessoas podem achar que não está a ser factual.
Claro, é legítimo. A literatura não nos apresenta a verdade acabada. Um leitor francês dizia-me há pouco tempo que lia os meus romances com o Google ao lado, para ir verificar. E não encontrou nada errado. Outra polémica em que estive envolvido: por causa de um texto que um repórter me deu, que estava equivocado, acreditei que o deputado mais velho do parlamento era uma reformada do Bloco de Esquerda e, afinal, era um deputado do PS [Alexandre Quintanilha]. Nenhum problema: cometi um erro factual, corrigi. Os factos são sagrados.

Fica incomodado quando políticos o criticam?
Não, faz parte do processo político de intimidação para calar os jornalistas. As pessoas podem fazer o folclore que quiserem, se os factos são falsos, temos de corrigir, e estou sempre disponível para isso. Se são verdadeiros, azarinho.

É verdade que já vendeu quatro milhões de livros em todo o mundo e que isso corresponde a ganhos de 50 milhões de euros?
Não. Livros vendidos, que eu saiba, está a cima dos três milhões em todo o mundo, cerca de dois milhões em Portugal.

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E isso deu 50 milhões de euros?
Se calhar é a faturação total, não sei como é que se faz essa conta. Mas isso é uma fantasia total. Se tivesse ganho esse dinheiro todo, já estava reformado e teria ido para as Caraíbas.

Não sabemos se ganhou, a dúvida é sobre se a venda dos livros gerou 50 milhões de euros.
Se sim, isso é bom, significa que sou um bom exportador português.

Confirma os 50 milhões?
Não fiz as contas. Para um valor dessa dimensão, só se foi a riqueza que os livros geraram no mercado. Só uma pequena fração do valor do livro é que vai para o autor. Metade vai logo para a livraria, atenção. Depois uma parte vai para a editora, para o distribuidor, para a gráfica, para o marketing.

Ganha mais como jornalista ou como escritor?
Sobre dinheiros, não vou falar, como compreende.

Por vezes aparece na imprensa que o seu salário mensal na RTP é de 12 a 14 mil euros por mês. Pode confirmar?
A minha relação com a RTP, nesse aspeto, é confidencial. Uma coisa posso garantir: ganho menos do que ganharia na privada. Tive convites para sair da RTP e fiquei sempre, a receber menos do que receberia na privada.

Porque é que sacrificou esse aspeto?
Porque me sentia bem, porque acreditava no projeto.

O seu salário na RTP gera anticorpos dentro da empresa e aos olhos dos portugueses?
Não sinto isso.

Gostaria de ser mais repórter e menos “pivot”?
Estou contente com o que faço, estou ao serviço da RTP para aquilo de que precisarem. Qual foi a última reportagem que fiz? Não sei, acho que foi o Brexit. A direção de informação tem o seu entendimento e é legítimo, aceito e compreendo perfeitamente.

Porque é que deixou de dar aulas na universidade?
Justamente por causa dos livros. A certa altura, já me estava a ausentar. Tinha de ir à feira livro daqui e dali. Enquanto aqui em Portugal posso interromper para ir dar uma aula, se estou em Paris por causa dos livros não posso interromper. Às tantas, já não estava a conseguir acompanhar.

Quando saiu?
Foi há três anos ou quatro. Ao fim de 25 anos.

"Não acho que [a TV] dependa da opinião. Acho que está mais próximo do público. Ou querem uma televisão próxima do poder político, como tínhamos? Obviamente, quando temos um noticiário mais próximo das pessoas, isso tem um preço. [...] Mas é um preço que temos de pagar para termos algo muito melhor do que tivemos no passado."

Encontrava grandes diferenças entre os alunos que teve nos últimos anos e os do princípio?
Encontrei uma grande continuidade. Era professor na Universidade Nova de Lisboa, e o nível dos alunos sempre foi bom, até porque tinha dos melhores alunos do país. A média de entrada no curso de Ciências da Comunicação era 18 valores, por aí. Eram alunos cultos em geral, interessados. O ensino superior em Portugal segue a tradição francesa e baseia-se muito na teoria, sempre senti nos alunos uma coisa que já sentia quando era aluno: há excesso de teoria, mas ninguém ensina o “métier”. Sentia que eles precisavam muito do “como escrever” e foi sempre isso que me preocupou, porque teoria eles encontravam noutras aulas.

Faz sentido formar milhares de alunos em jornalismo e comunicação quando não há mercado de trabalho para eles em Portugal?
A resposta não é simples. Primeiro: se a pessoa quer ser jornalista, quem sou eu para lhe cortar o sonho? A pessoa tem de fazer o seu caminho, depois pode funcionar ou não. Segundo: na universidade aprendemos sobretudo a pensar e metade das pessoas que estão no mercado de trabalho fazem coisas para as quais não estudaram. Tirou um curso de filosofia e está a fazer jornalismo, curso de direito e trabalha em marketing. A formação é muito importante. Pode ser afinado, mas acho que se o país não desenvolver conhecimento, é pobre. A Arábia Saudita tem petróleo, mas se o petróleo acabar eles ficam sem dinheiro porque não sabem fazer nada. O conhecimento é que é a riqueza. O Arthur C. Clarke dizia que é melhor ter má televisão do que nenhuma televisão. Mesmo na má televisão vemos uma série que mostra Los Angeles e começamos a ter padrões, a adquirir algum mundo, mesmo que se viva num país mais atrasado.

É caso para perguntar se é melhor termos mau jornalismo do que nenhum jornalismo?
É melhor termos bom jornalismo.

Como está o jornalismo televisivo em Portugal?
Nisso sou um bocado contra a corrente… Fiz um exercício na faculdade que foi pegar num noticiário da RTP do último ano do monopólio, para aí de 1991, e mostrar aos alunos. Aparecia uma única voz da oposição, o Narana Coissoró, que falava uns cinco segundos. Não se ouvia uma única voz do povo, só governantes. Isso é que era bom? Podem falar mal do que temos hoje na RTP, na SIC ou na TVI, mas é infinitamente melhor do que aquilo. Os alunos olhavam e ficavam estarrecidos.

Faz sentido a crítica de que o jornalismo televisivo está muito dependente da opinião e aposta pouco nos factos ou na investigação?
Não acho que dependa da opinião. Acho que está mais próximo do público. Ou querem uma televisão próxima do poder político, como tínhamos? Obviamente, quando temos um noticiário mais próximo das pessoas, isso tem um preço. Há coisas que detesto. Quando foi o desaparecimento da Madeleine McCann, detestava aquela exploração doentia da curiosidade das pessoas sobre a criança. Mas esse é um preço que temos de pagar para termos algo muito melhor do que tivemos no passado.

Fotografias de André Carrilho

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