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Lana Del Rey quer salvar a América (ou coisa que o valha) /premium

João Bonifácio ouviu com atenção o novo álbum, "Norman Fucking Rockwell!" e concluiu: Lana Del Rey faz coisas muito bem feitas, mesmo que às vezes empoladas, mas vê o mundo como poucos conseguem.

Lana Del Rey está zangada – ou, para ser preciso, estava zangada há dias, quando recorreu ao Twitter para dar pancada em Ann Powers, a crítica da NPR que apesar de se assumir como fã da americana e de apreciar o seu novo disco, Norman Fucking Rockwell!, afirmara que as letras de Rey não eram tão (digamos) admiráveis quanto as de artistas como (exemplo de Powers) Joni Mitchell. Del Rey, concluía Powers, confiava demasiado “na sua persona de rapariga má a quem fizeram coisas más”.

Aparentemente, a cantora de “Venice Bitch” (um dos temas de Norman Fucking Rockwell!) não aprecia quando um crítico aprecia a sua música mas não vai à varanda, nu e de queixo cheio de baba, atirar fogo-de-artifício depois de ouvir um disco seu. (Não me perguntem porque é escolhi, como imagem para devoção incondicional, uma pessoa nua e com o queixo cheio de baba, numa varanda a atirar fogo-de-artifício – o mundo dos criativos é assim, cheio de mistérios). O ponto aqui é que, aparentemente, Lana só aceita o tudo ou nada, o completo sucumbir aos seus talentos.

“Um à parte acerca do teu texto”, escreveu Lana, dirigindo-se a Powers, “não me relaciono com uma única das tuas observações acerca da música. Não há nada mal cozinhado a meu respeito. Escrever sobre mim não é o mesmo que ser eu. Não tenho uma persona. Nunca tive. Nunca terei”.

Divismo é um neologismo que acabei de inventar para o ato de agir como diva e o que aqui temos é um micro-ataque de divismo que encerra, no seu cerne, um detalhe importante: Lana não aprecia que digam que ela tem uma persona, uma máscara, que cultiva o mistério, que, mais que afirmar coisas de forma clara, permite que as pessoas projetem nela o que bem quiserem.

Aconteceu então uma coisa engraçada: depois de os fãs de Lana terem rejubilado e incentivado a estrela pop a dizimar a crítica, alguns leitores começaram a discutir a qualidade das letras de Del Rey e, bem, a sua persona, concluindo que era muito possível que Powers estivesse correta e que a birra de Del Rey era o mesmo que Marilyn chatear-se por dizerem que era uma mulher bonita ou Cristiano Ronaldo ficar furioso se alguém mencionar que existe outro moço com talento, chamado Messi.

[“Venice Bitch”:]

Por estes dias, quando uma estrela dá porrada num ser humano não abençoado pelo estrelato o que acontece é os acólitos da estrela xingarem de tal maneira a não-estrela e com tal absolutismo que qualquer hipótese de debate cai por terra e, em seu lugar, fica apenas a devoção absolutista dos fãs – é esta a força das hordas.

Por isso, ainda bem que por uma vez ainda houve debate acerca da birra de Lana – a ideia que ficou é que Lana esperava que este fosse o momento da sua consagração e alguém resolveu estragar-lhe a festa. Num momento em que os Estados Unidos se fecham como um bicho acossado que come as suas próprias entranhas e os seus filhos, Lana escolhe Norman Rockwell para título do seu disco e isso não é um acaso: escritor, pintor e ilustrador americano, Rockwell é (para o bem e o mal) uma das secretas pedras basilares da cultura pop americana – ilustrou livros como Tom Sawyer e Huckleberry Finn, fez retratos de presidentes, criou imagens para a Coca-Cola, selos, calendários.

Durante décadas o seu imaginário gráfico (de uma América idílica, pastoral, populista e de sonho) esteve por todo o lado, sem que as pessoas soubessem quem ele era; eis o caveat: os críticos davam-lhe porrada basta, achavam-no popularucho, infantilóide, básico. Isto é apenas uma teoria, mas acho que Del Rey de certa maneira se identifica com quem foi popular mas mal recebido em vida.

Passaram dez anos e Lana já não é a mulher fatal de olhos de carneiro mal morto que lamenta um amor perdido; observa-nos à distância a rabiar enquanto os nossos sonhos se esvaem numa praia suja ou no banco de trás – e é suficientemente experiente para saber que a história acaba mal.

Não que ela ponha as coisas assim: em entrevista afirmou que pegar em Rockwell era uma forma de falar do fim do sonho americano; numa segunda entrevista deu uma guinada e disse que Rockwell a intrigava porque era uma criança grande auto-depreciativa; e por fim, em terceira declaração, concluiu que era apenas um título atoleimado que lhe ocorrera um dia e ficou.

É exatamente por este tipo de atitudes que pessoas como Powers dizem que ela se esconde por trás de uma persona – e Powers tem uma certa razão: quando Del Rey chegou trazia consigo um certo ar de mulher-fatal saída de um filme série B dos anos 50, o tipo de mulher que a última vez que foi vista ia na parte de trás de uma Harley com um rufia, apenas para surgir de novo, meses depois, nas páginas dos jornais, em que se ficava a saber que fora abatida a tiro num assalto a um banco.

A sua música era, essencialmente, composta por baladas sobre as quais ela, mais que cantar, ciciava. As baladas, contudo, não eram genéricas: aquelas peças de hip-hop lento e drogado eram possuídas por uma qualidade etérea, como se surgissem num sonho – e estavam irremediavelmente imbuídas numa atmosfera de perdição e pecado.

A capa de “Norman Fucking Rockwell!”, de Lana Del Rey

Foi assim durante dez anos  e cinco discos e não é propriamente diferente agora, no exato instante em que Del Rey é coroada como a salvadora da capacidade americana de olhar para o seu país e pôr o dedo nas suas feridas, antes de se reerguer; o momento em que ela é vista como uma espécie de reserva moral, alguém que sempre olhou para os néons de LA e viu o negrume que a ilusão da fama e do dinheiro escondia.

Vivemos numa época de exagero em que qualquer pessoa que faça alguma coisa bem feita é automaticamente apelidada de Rei ou Rainha na net – e é nesse sentido que as palavras de Ann Powers são importantes, porque Norman Fucking Rockwell! faz mesmo muitas coisas bem feitas, mas é possível que os feitos andem a ser um niquinho empolados.

Em Norman Fucking Rockwell! o hip-hop atmosférico deu lugar a um piano melancólico; a matéria-prima não são mais os sons por norma equivalentes a futuro mas o passado, a canção arcana, cada nota de piano ponderada, cada arranjo meticulosamente aposto ao piano e à melodia de voz: Lana foi beber à fonte, à canção clássica e se não está longe de alguma Joni Mitchell ainda lembra mais Carole King; por outro lado, se por vezes parece que faz tangentes a Elton John a verdade é que não receia entrar em universos mais próximos de David Ackles, o grande cantor ao piano das vidas despedaçadas.

[“Mariners Apartment Complex”:]

Norman Fucking Rockwell! abre com quatro grandes canções, a homónima, “Mariners Apartment Complex”, “Venice bitch” e “Fuck it, I love you”, a primeira das quais simplesmente sumptuosa nos seus arranjos de cordas e sopros. As canções ainda estão cheias de amores perdidos e de referências aos mitos secretos da pop (como a morte de Dennis Wilson, dos Beach Boys, em “Marina del Rey”), mas há uma vontade de agarrar a vida, de pôr por palavras e gigantesca confusão cósmica que constitui grande parte dos nossos dias. Na faixa-título ela canta:

“Hawaii just missed that fireball
LA is in flames‚ it’s getting hot
Kanye West is blond and gone
‘Life on Mars’ ain’t just a song
Oh, the live stream’s almost on”

E é impossível não rir.

Powers estava, claro, certa: Lana Del Rey não é uma poeta do calibre e da fundura de Joni Mitchell; mas também estes tempos são outros: vemos crianças a serem retiradas aos pais e de seguida temos um vídeo de gatinhos para esquecer; criámos um mundo em rede para partilhar conhecimento – mas bom, bom é criar um perfil falso no Twitter e empreender um pouco de bullying contra a pessoa que ousou dizer qualquer coisa que vai contra a nossa crença (porque somos todos especiais e portanto não podemos ser contrariados, foi a nossa mamã que disse).

Ia dizer que o disco não permanece naquela fasquia elevadíssima das quatro canções iniciais mas talvez não seja isso – talvez um disco constituído exclusivamente por baladas comece, a dada altura, por desgastar; começamos a ansiar por uma pequena variação de ritmo que nunca chega, começamos a querer fugir a esta espécie de letargia emocional. Não admira que Lana seja vista como rainha: estamos na época do Oxicotin, da numbness como defesa contra o assalto que a realidade produz todos os dias contra nós: dão-nos notícias trágicas 24 horas por dia e a nossa resposta é drogar-nos.

[“Fuck It I Love You”:]

Passaram dez anos e Lana já não é a mulher fatal de olhos de carneiro mal morto que lamenta um amor perdido; observa-nos à distância a rabiar enquanto os nossos sonhos se esvaem numa praia suja ou no banco de trás – e é suficientemente experiente para saber que a história acaba mal.

Vivemos tempos confusos, complicados, por vezes tão assustadores e apocalípticos que nos lembram quadros de Bosch, a música final de Scott Walker; mas eles morreram e que temos nós? Numa tremenda canção sobre o sonho e a perda que subjaz às pequenas vidas, uma grande (enorme) canção chamada “How to Disappear”, Lana Del Rey canta

“I watched the guys getting high as they fight
For the things that they hold dear
To forget the things they fear”

Pode não parecer, mas, num par de versos, Lana Del Rey acabou de definir os nossos tempos. Quem não tem Joni caça com Lana.

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