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Laurinda Alves: "Detestaria que todos gostassem de mim"

Jornalista há mais de 20 anos, Laurinda Alves escreve muitas vezes sobre causas fraturantes. Em véspera de casar, falou da sua vida e do novo livro onde vinca que qualquer um pode fazer a diferença.

    Índice

Laurinda Alves escreve calçando “os sapatos dos outros”. Os temas fraturantes da sociedade fazem-na gritar porque, para si, o debate é fundamental para o esclarecimento. Diz que não pode haver temas tabu e, no seu novo livro de crónicas, que escreveu para o Observador e que agora foram reunidas pelo Clube do Autor, demonstra uma crença inabalável nas pessoas e na sua capacidade de superação.

Recebeu-nos na sua casa, em Lisboa, debruçada sobre uma vista idílica sobre o rio e partilhou memórias que percorreram os primeiros anos de jornalismo, onde andava de mota a fazer o trânsito para a TSF, a saída da RTP para não ficar “na prateleira” e as saudades da Revista XIS.

Falou sobre as marcas que o voluntariado nos cuidados paliativos lhe deixaram, a sua fé e as palavras só lhe faltaram quando lhe sugerimos que se dirigisse ao Papa Francisco: “Não sei o que lhe diria. Gostava de o abraçar, de o ouvir”.

quero acreditar

“Quero Acreditar”, de Laurinda Alves (Clube do Autor)

O seu nome foi recentemente apontado para vir a assumir, enquanto independente, uma candidatura do PSD à Câmara de Lisboa. “Um equívoco” , diz, garantindo que depois do MEP não volta a meter-se na política.

A vida privada é “privada” e gosta de a resguardar. Os olhos brilham quando fala do filho Martim, maestro a viver em Chicago ou dos pais, que há quatro anos trouxe para morar consigo em casa. Mas em vésperas do seu segundo casamento a felicidade fá-la partilhar o momento: “Esta minha alegria poderá acender uma luz no coração de alguém mais sozinho ou com menos esperança”.

A criança sempre calada que não gostava de matemática e pela qual a RTP esperou

Como era a Laurinda Alves na infância, já era comunicativa?
Era muito tímida, calada e reservada. A frase mais recorrente dos meus pais era a perguntar se eu estava chateada ou se se passava alguma coisa. Os meus pais dizem que eu era muito responsável. Adorava ler e escrever, aquilo que todas as miúdas gostam, os diários… Mas já não mantenho esses diários. Acho que os queimei, alguém leu o meu diário e eu fiquei tão zangada que o queimei e deitei fora. Tinha pretensões de escrever, mas pensava que não era para mim, era para escritores.

Mas decidiu-se pelas letras…
Ia fazer um curso de Línguas e Literatura, mas nessa altura inaugurou o curso de Comunicação Social na Universidade Nova e mudei. A vida levou-me sempre segundo um critério: o que é que eu não queria. Muitas vezes digo isso aos meus alunos: é mais importante saber o que não querem do que aquilo que querem. A mim, a vida levou-me.

O que é que não queria ser?
Sabia que não gostava de matemática, nem gostava nada de estudar História. Era Letras, Comunicação Social e depois concorri para a RTP e entrei quando tinha 18 anos e aí a vida desenhou-se assim: comecei por ser jornalista, grande repórter e foi por aí.

laurinda alves,

Com os pais e o irmão mais velho na década de 60

Começou na RTP aos 18 anos…
Concorri ao anúncio com 17 anos e acabei por ficar classificada em segundo lugar. Começou com duas mil pessoas, até que foram escolhidas 20. No fim dessas entrevistas havia um júri composto por cinco pessoas, uma coisa solene. Fizeram-me uma entrevista de cultura geral e no fim deram-me os parabéns: “Gostámos muito, mas não vamos contrata-la”. Eu nem queria acreditar…depois daquelas etapas todas. O responsável pelo júri fez um silêncio e disse: “Não podemos contrata-la porque tem 17 anos e nós somos uma empresa pública”. E eu pensei de novo, mas eles sabiam, a idade estava no meu currículo. Ele fez outra pausa e disse: “Mas vamos esperar que faça 18 anos e vamos esperar por si”. Aquilo foi um movimento para mim. Pensar que uma empresa como a RTP, inspiradora, aspiracional vai esperar que uma miúda de 17 anos faça 18 anos, foi extraordinário.

Não se deslumbrou?
Deu-me uma responsabilidade enorme e uma confiança que tentei sempre multiplicar. Essa confiança que depositaram em mim é sempre um motor de confiança, aquilo que fizeram comigo eu gosto de fazer com os outros. E na altura era muito tímida, achava sempre que não era capaz. Fazia pivots e stand ups para o telejornal e tive uma branca horrível, que foi um blooper durante muitos anos. Foi uma aprendizagem por tentativa e erro, mas acho que consegui.

Escrevi duas linhas ao José Eduardo Moniz: 'Vim para a RTP porque queria fazer jornalismo, saio da RTP porque quero continuar a fazer jornalismo'. Para meio entendedor meia palavra basta. Sempre fui adepta de sair pelo meu pé e não ficar a fazer coisas que não gosto ou ficar na prateleira.

Depois permaneceu 12 nos na RTP e saiu pelo próprio pé…
Escrevi duas linhas ao José Eduardo Moniz: ‘Vim para a RTP porque queria fazer jornalismo, saio da RTP porque quero continuar a fazer jornalismo’. Para meio entendedor meia palavra basta. Sempre fui adepta de sair pelo meu pé e não ficar a fazer coisas que não gosto ou ficar na prateleira. E aquele não era o sítio que eu gostava para fazer o jornalismo que gostava de fazer. Mas saí com imensa tranquilidade.

E esse momento foi um ponto de viragem na sua vida…
Sim e um ponto de viragem duplo, porque estava grávida do meu filho Martim. Foi bom, porque eu queria ter mais tempo para ele. Tinha até então feito um jornalismo muito intenso, rádio, televisão e jornais. As madrugadas na TSF a andar de mota, fazia jornalismo de mota eu e o José Manuel Mestre éramos os repórteres de mota. Tinha uma vida muito agitada e preenchida com a TSF, o Independente e a RTP. Foi tudo muito complementar e deu-me uma grande versatilidade, mas também precisava de parar um bocado. Quando o Martim nasceu, fiquei freelancer, até hoje.

Foi um ato de coragem parar para ser freelancer? Não temeu a incerteza?
Hoje em dia temos de ter mais coragem, pois temos situações de crise muito mais difíceis. Nesse tempo era diferente, ainda havia aqueles empregos para a vida, mas havia uma mobilidade maior, as televisões privadas estavam a começar e havia imensas oportunidades. Aí não foi coragem foi mais liberdade interior de querer fazer aquilo que gostava e também um pouco de inconsciência.

laurinda alves,

Em 2000 a ser condecorada pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio

Depois foi diretora da Pais e Filhos, num período onde esteve ligada ao debate e defesa das questões educativas e que acabou por lhe valer uma condecoração por parte do Presidente da República, Jorge Sampaio.
Foi uma coisa completamente inédita, que não estava à espera e que tinha muito a ver com o debate e defesa das questões educativas que eu trabalhava nessa altura. Foi uma surpresa para mim e uma grande honra.

E depois surgiu a XIS…
Ainda na Pais e Filhos criei uma secção, que achei que ia ser uma secção inócua que era um antes e depois para mulheres que acabassem de ter filhos, porque é uma altura em que não temos tempo de cuidar de nós. Recebemos imensas cartas, muitas pessoas a candidatarem-se e muitas a elogiar “Não imaginam o que isto fez pela minha auto-estima, por mim, pelo meu casamento…”. Tudo isso dava-nos uma alegria enorme e pensámos fazer uma revista onde houvesse uma oportunidade de mudança a vários níveis, intelectual, espiritual, físico e aí nasceu a XIS. O nome tem muito a ver com a fórmula matemática e a possibilidade multiplicadora, tem a ver com o cromossoma X, feminino e tem a ver com as X possibilidades. Mudar o olhar, a perspetiva e por isso se chamava XIS ideias para mudar nos dois primeiros anos e só depois se mudou para XIS ideias para pensar.

Foi um momento feliz, traz-lhe alguma nostalgia?
A XIS foi um ciclo absolutamente fabuloso, a equipa, as pessoas que acolheram o projeto, primeiro no Correio da Manhã, depois passámos para o Público, o José Manuel Fernandes foi um entusiasta e defendeu-nos do primeiro ao último dia. Ainda hoje em dia e ao fim de nove anos, há imensas pessoas que falam da XIS. O segredo era ser intemporal, não estávamos ancorados nos factos, a partir dos acontecimentos colocávamos o assunto em perspetiva e tanto podia ser o terrorismo como a interrupção voluntária da gravidez.

Reativar a XIS nunca lhe passou pela cabeça?
Foi um sonho durante muitos anos, mas o mundo não está para o papel, para as revistas. O mundo é online, imediato e os custos são brutais. Também podia ser um projeto online, mas se fosse gostaria que estivesse, por exemplo, no Observador.

Depois desse período ficou desempregada.
Continuei como colunista do Público, por mais dois anos, mas tecnicamente como jornalista fiquei desempregada. Eu e e toda a equipa. Foram tempos difíceis, nenhum de nós pensaria que durante três anos ficaríamos sem fonte de rendimento. O que a mim me salvou, no sentido de realização pessoal, foi ter multiplicado as atividades pro bono.

A experiência de estar à cabeceira de quem está a morrer

Foi aí que intensificou a sua atividade de voluntariado…
Foi uma experiência incrível. Fiz três anos de voluntariado nos cuidados paliativos no Hospital da Luz. Esses anos à cabeceira de pessoas doentes, terminais, com doenças graves, incuráveis, foram extraordinários e muito transformadores para mim.

Como é estar à cabeceira de alguém que está tão mal, até a morrer…
É muito difícil de traduzir por palavras. Quando se está à cabeceira de pessoas que estão no auge da sua fragilidade, o que se sente é um respeito enorme, uma gratidão enorme e aprende-se imenso naqueles tempos. Aprende-se a estar somente para aquela pessoa, sem estar lá para contar as minhas histórias, sem fazer perguntas, sem ser invasiva. E saber lidar com perguntas difíceis: “Vou morrer?”. Eu não posso dizer que vai ou que não vai. Tenho de aprender a devolver questões. “Porque é que me pergunta isso?” É uma grande escola de comunicação.

Esses anos à cabeceira de pessoas doentes, terminais, com doenças graves, incuráveis, foram extraordinários e muito transformadores para mim.

Com uma vida pública, de certa forma exposta, não achou que poderia ser olhada com desconfiança?
Nunca ninguém olhou para mim como a Laurinda Alves enquanto figura pública, com trabalho exposto. As pessoas sabiam qual o sentido que eu estava a dar ao voluntariado e sabiam que aquilo era a minha verdade e essa autenticidade gerou laços incríveis. Eu vivo com objetos que as pessoas me deram, vivo com frases que fazem eco na minha cabeça.

Alguma história ou momento mais marcante?
Há uma história engraçada do primeiro dia de voluntariado. Eu e a Joana Fontes fomos para um quarto e ficámos três horas a falar com uma senhora chamada Maria Teresa, muito bonita, parecia uma princesa do povo, com um porte muito bonito. Às tantas já estávamos as três de mãos dadas, em estrela, a conversar. E ao fim das três horas esta senhora muito amorosa diz-nos assim: “Então e o que é que vêm cá vender”. Isto diz muito sobre nós. A maioria das pessoas lida bem com dar, mas não lida bem com o receber.

Teve preparação para lidar com estes casos ou foi de coração aberto?
Só podemos mesmo fazer voluntariado em cuidados paliativos com um curso muito específico e muito profundo. É um voluntariado que tem uma especificidade muito grande. É importante saber que não são todas as pessoas em cuidados paliativos que morrem, pode estar-se uma vida inteira em cuidados paliativos, com uma doença incurável, crónica…

laurinda alves,

Numa viagem a Paris com os pais e irmãos na adolescência

Falava-se de eutanásia nesses corredores?
Nos cuidados paliativos vi pessoas a pedir eutanásia, outras a reconciliarem-se com a sua morte e desistirem de pedir eutanásia, porque lhe foram dadas outras alternativas. A mim não me choca o pedido de eutanásia, eu percebo perfeitamente que as pessoas o peçam, porque eu própria poderia estar numa situação de dor e sofrimento e achar que a morte seria preferível. Mas choca-me o negócio da eutanásia.

Algumas destas histórias de vida trouxeram-lhe inspiração para escrever?
Seguramente deram-me bagagem para escrever sobre a vida, o sentido da vida, o que nos move e nos faz superar e transcender. Há histórias incríveis, lembro-me do Bana, o músico cabo-verdiano, um homem grande de todas a maneiras, um homem de estatura moral extraordinária. Eram necessárias três pessoas para o içar da cama… Houve uma altura em que estava muito desistente e dizia que já estava no fim… A enfermeira Maria Aparício – toda a equipa era extraordinária- , disse-lhe “Como não consegue fazer nada? Ainda ontem vi que não conseguia levar a colher à boca e hoje estou a vê-lo a comer a sopa pela sua própria mão”. Ele de facto olhou para a mão já com outro olhar. E estas pequeníssimas coisas fazem ter um olhar diferente das coisas. É preciso renovar a esperança.

laurinda alves,

Laurinda Alves quer que o seu novo livro de crónicas interpele os outros

O livro de crónicas para interpelar os outros

É esse olhar resgatador que pretende fazer passar através das suas crónicas que agora resultaram no livro “Quero acreditar”. É um livro para desafiar os outros?
Eu gostava que, acima de tudo, este livro interpelasse o outro. Eu gosto de ser interpelada e de interpelar. Essa interpelação é um toque no ombro. O desafio fica noutro campo, leva as pessoas mais longe. Eu gosto mais do toque, de deixar um “e se…”. Gosto que me interpelem com as pequenas coisas, um toque, um sorriso. Uma das coisas que mais abomino é ir no elevador, sorrir ou dizer bom dia e as pessoas estão ali como se fossem transparentes.

Cada um de nós pode mesmo fazer diferença no mundo?
Tenho a certeza absoluta. Diferença boa e má…

A confiança , como salienta neste livro, gera mais confiança?
A confiança é uma matemática infalível, porque se eu projetar e transmitir confiança, vou receber também. Mas isto joga-se tudo no positivo e no negativo e por isso é que a desconfiança gera mais desconfiança, a responsabilidade gera pessoas responsáveis e a irresponsabilidade gera irresponsabilidade. O bem e o mal são contagiantes, mas o bem é sempre mais luminoso.

Hoje em dia sinto que todas aquelas crianças que têm tudo e que não têm de lidar com frustração, com falhas, às vezes até são poupadas em nome de um suposto bem, são miúdos muito menos resilientes e muito menos aptos a superarem-se e a transcenderem-se.

A superação também se aprende?
A superação aprende-se, treina-se, adquire-se. É uma atitude e é qualquer coisa que temos de cultivar em nós e só se cultiva de uma forma: olhar para os outros. Tenho vários amigos que ficaram tetraplégicos, com problemas gravíssimos depois de acidentes. Essas pessoas limpam-me o olhar todos os dias e são um exemplo de superação. E não só de relativização. É pensar que estas pessoas, todos os dias e a toda a hora estão em superação. A superação aprende-se, através da resiliência e também da maneira como educamos os nossos filhos e fomos educados.

Acha que as crianças de hoje não serão capazes de se superar?
Hoje em dia sinto que todas aquelas crianças que têm tudo e que não têm de lidar com frustração, com falhas, às vezes até são poupadas em nome de um suposto bem, por exemplo com a morte dos seus… São miúdos muito menos resilientes e muito menos aptos a superarem-se e a transcenderem-se. Temos de ter a nossa quota parte de perdas, de frustrações, sofrimentos e dores.

Tenta passar essa mensagem aos seus 270 alunos?
Tenho dez turmas por semestre na Faculdade de Economia e Gestão na Universidade Nova, dou Comunicação, Liderança e Ética. Gosto imenso de trabalhar com alunos universitários. Aprendo muito mais do que alguma vez conseguirei ensinar. Adoro a relação com os meus alunos, é uma alegria e sinto que não se envelhece quando se dá aulas.

Jornalista das causas sociais? Acho que acabamos sempre por pôr rótulos uns aos outros. Prefiro ser a jornalista das causas sociais do que a jornalista que dá cabo dos outros.

As crónicas deste novo livro tratam de muitos temas fraturantes, por exemplo, a depressão juvenil, o aborto, a homossexualidade, o que a motiva para escrever?
Eu escrevo sobre tudo o que me convoca para a escrita. Não escrevo só sobre causas fraturantes. Mas essas causam precisam de debate, não podem ser escondidas e mitigadas. Esta é a minha maneira de por as coisas em perspetiva. Por exemplo, sobre a homossexualidade, tenho amigos que sofrem imenso com isso. Vejo o sofrimento em que vivem, não dormem devido à agitação interior, à clandestinidade, com imensos medos. As causas fraturantes só são fraturamtes quando não toca a certas pessoas e ficam sempre no campo conceptual, nisso há muitos treinadores de bancada. Mas quando nos toca, faz-nos agir. É uma mola que nos faz dar saltos em altura e comprimento. Tem de se escrever, não pode haver temas tabu.

Não a irrita o facto de ser considerada a jornalista das “causas”?
Não, porque acredito naquilo que faço. Acho que acabamos sempre por por rótulos uns aos outros. Prefiro ser a jornalista das causas sociais do que a jornalista que dá cabo dos outros.

Numa das suas crónicas fala dos vampiros modernos. Com que cruz é que se podem afastar?
Os vampiros modernos são as pessoas que nos sugam, nos drenam, nos deixam exaustos e eles ficam iguais. Acho que estas pessoas existem em todos os perímetros, familiar, profissional, nos círculos de amigos… Mas não estou a falar de pessoas que precisam da nossa ajuda, essas também requerem o nosso tempo, mas essas nós estamos a ajudar por um bem maior. A maneira de os afastar é proteger-mo-nos e não ter tanto contacto.

laurinda alves,

Com o filho Martim, fruto do seu relacionamento com Miguel Sousa Tavares

Dedica estes livros aos seus pais. Tem uma crónica com o título “Quero continuar a ser a filha dos meus pais”…
Tenho um grande sentido de gratidão para com a minha mãe e o meu pai. São pessoas extraordinárias na retidão, na integridade, na alegria, no acolhimento, têm dons múltiplos, como têm os bons pais. Acima de tudo dedico este livro por um grande amor e infinita gratidão aos meus pais, à vida e a Deus, por tê-los vivos e tê-los comigo.

E como se deu a decisão de os trazer para viver na sua casa?
Foi há quatro anos que tomei essa decisão e foi uma decisão feliz. O meu pai ao princípio resistiu imenso, eu percebo: é um pai, é homem e providenciador. Mais depressa queria que os filhos ou os netos fossem viver para a casa dele do que o contrário. Depois lá aceitou. Quando à noite passo no quarto deles antes de dormir penso: mas que vida adorável eu tenho. O meu pai tem 85 e a minha mãe 81. Quem puder e quem tiver essa possibilidade não se arrependerá. É muito mais fácil do que imaginamos.

A fé e as palavras que lhe faltariam se conhecesse o Papa Francisco

Que é uma pessoa de fé não é novidade. Como é que a espiritualidade se manifesta no seu dia-a-dia?
Sou uma pessoa de fé. Para mim Deus é um grande amigo. É um pai. A fé é como o vento, não conseguimos vê-lo, mas sinto-o. É um grande sopro, outras vezes uma grande ventania, porque a fé não é uma coisa pacífica de olhos em alva e mãos postas. Para mim, Deus, apesar de ser uma palavra difícil no mundo, é uma palavra muito aconchegante.

Vê no Papa Francisco um exemplo de humanidade? O que lhe diria se estivesse com ele?
Eu gosto muito do Papa Francisco e gosto muito desta maneira jesuítica de viver, desta simplicidade, do pagar as suas contas, usar uns sapatos normais, usar a sua cruz. O que lhe diria? Primeiro dava-lhe um abraço, não sei o que lhe diria, gostaria de o ouvir falar… ia pedir-lhe a bênção.

Nós, os que escrevemos, sabemos que existe uma grande comunidade de haters. Estão em todo o lado, mas também têm de ser respeitados. Ainda bem que as pessoas que não gostam podem manifestar esse não gostar. Ai daqueles de que todos gostam. Eu detestaria que todos gostassem de mim.

Foi-lhe complicado assumir esta fé publicamente?
Nunca foi complicado assumir a fé, nunca foi complicado escrever aquilo que escrevo, nunca ninguém me censurou. Acho que quem censura são aqueles que não gostam e desvalorizam aquilo em que acredito. Hoje em dia, nós os que escrevemos sabemos que existe uma grande comunidade de haters. Estes ‘odiadores’ estão em todo o lado e são pessoas amarguradas, mas também têm de ser respeitadas. Ainda bem que as pessoas que não gostam podem manifestar esse não gostar. Ai daqueles que todos gostam. Eu detestaria que todos gostassem de mim.

E quando deu a cara pelo ‘ Não’ no referendo do aborto, esses haters apareceram em força?
Esses ‘odiadores’ aparecem mais nas redes sociais porque estão à distância de um click. Nos debates públicos sobre o aborto, havia muito respeito, mas claro que existiram discussões acesas. Sinto que sempre me respeitaram, mesmo aqueles que têm opiniões contrárias à minha. Eu também sempre fui uma pessoa bastante conciliadora. Mesmo no aborto eu era pelos independentes pelo não, mas não sou uma pessoa fundamentalista. Estou sempre a tentar por-me nos sapatos do outros. Quando foi na segunda discussão do aborto, bateram-se palmas, mas eu não bati. O pivot desse programa de televisão perguntou-me porque é que não batia palmas se tinha ganho. Era uma questão de respeito. É a minha maneira de ser, a minha natureza de timidez, de reserva, sou uma pessoa observadora. Sou uma pessoa que não enche uma sala, se a sala estiver cheia eu sou a pessoa que está calada.

O que pensa sobre a recente polémica do ensino, no 2º ciclo, de matéria relacionada com a Interrupção Voluntária da Gravidez?
Este tipo de matérias que são muito conceptuais têm que ser enquadradas e ensinadas em função do que cada criança pensa ou sabe. E não como uma simples matéria, isso não faz sentido nenhum. Escrevi uma crónica onde relatei um episódio real, uma aula de educação sexual que o meu filho teve na escola. E aquilo foi uma coisa nojenta. Colocaram os miúdos todos a por preservativos em objetos fálicos . Eles estavam completamente acabrunhados. O meu filho que não era nada de contar em casa o que fazia na escola disse-me: “Mãe aquilo foi uma coisa sem sentido nenhum”.

A experiência no MEP e a confissão de que não tem perfil para a política

Como é que chegou ao MEP (Movimento Esperança Portugal), depois de ter recusado por duas ocasiões concorrer ao Parlamento Europeu, uma vez pelo CDS outra pelo PSD?
Foi um desafio do Rui Marques, da Margarida Neto e da Francisca Assis Teixeira. Já tinha sido desafiada por duas forças políticas, pelo CDS e pelo PSD, nos anos 90, e não aceitei, era para o Parlamento Europeu e ficaria ligada às questões da família. Não aceitei porque não senti que tinha de estar à boleia de um partido num lugar elegível, não tinha feito nada por aquele partido e achava que o meu trabalho era para ser feito cá. O MEP era um desafio de cidadania, de dar gratuitamente à política, e isso interessou-me. Eu era só mais uma referência, dei a cara para o Parlamento Europeu, mas todos sabíamos que era pouco provável sermos eleitos. Tive mais pena quando o MEP não teve votos nas eleições legislativas do que no Parlamento Europeu.

A minha experiência no MEP foi uma experiência única e irrepetível eu não volto a fazer política. Não tenho absolutamente nenhum perfil para esse cargo. Tenho imenso respeito pelos presidentes de câmara, mas tenho zero perfil.

O seu nome foi apontado recentemente para vir a assumir, enquanto independente, uma candidatura do PSD à Câmara de Lisboa …
Isso foi uma leitura superlativa de uma notícia. A minha experiência no MEP foi uma experiência única e irrepetível eu não volto a fazer política. Posso desfazer o equívoco. O que eu li foi que a Laurinda Alves e o José Eduardo Moniz e outros estavam numa lista de supostas pessoas que poderiam, eventualmente, ser contactadas. Eu não fui contactada. Nem acho que seria contactada, nem tenho o perfil. Não tenho absolutamente nenhum perfil para esse cargo. Tenho imenso respeito pelos presidentes de câmara e pelo seu trabalho, mas tenho zero perfil.

laurinda alves,

Com a família, o seu grande pilar

Quer deixar uma mensagem inspiradora para 2017?
A melhor mensagem inspiradora é aquela que diz que a confiança gera mais confiança. É mesmo uma matemática infalível. Toda a confiança que eu gero, projeto, aplico, gera mais confiança. E isso acontece em casa, nas famílias, com os alunos, com os amigos, com toda a gente.

Está em vésperas de se casar, como se vive esta fase aos 55 anos?
Não gosto de falar da minha vida pessoal, resguardo-me muito, mas é uma alegria tão grande casar e casar pela igreja, ter este sacramento. E sobretudo a surpresa da vida. Partilhar esta história, esta minha alegria, poderá acender uma luz no coração de alguém mais sozinho ou com menos esperança. Se eu caso aos 55 anos pela igreja com um homem extraordinário e uma família extraordinária eu, com o meu passado que respeito e agradeço, então pode ser que esta história torne as pessoas mais felizes.

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