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Louise Glück nasceu em Nova Iorque a 22 de abril de 1943. Tem 77 anos

Louise Glück nasceu em Nova Iorque a 22 de abril de 1943. Tem 77 anos

Louise Glück: entrar poeticamente no inferno /premium

Em outubro, o mundo literário dividia-se: os que celebravam a prémio Nobel e os que perguntavam "quem é?". Agora há 4 livros traduzidos em português para descobrirmos ou reencontramos Louise Glück.

A vida vai-nos ensinando que há muitas portas de entrada no inferno e poucas saídas, mas Louise Glück prefere dar-nos um endereço exato: “Averno do latim avernus/Um pequeno lago numa cratera,/a dezasseis quilómetros de Nápoles, em Itália; considerado pelos antigos/ romanos como a entrada para/o mundo dos mortos”. Posto isto, a decisão de entrar ou não é nossa, ficando latente o aviso de que este passeio não será de festa, mas de perda, luto, frio, outonal ou invernoso, onde por vezes espreita um Deus castigador, vingativo, justo vindo diretamente do Antigo Testamento, ou não fosse a poeta descendente de judeus húngaros e russos (o seu pai foi o inventor do famoso X-ato), embora nascida em Nova Iorque, em 1943.

Poeta norte-americana Louise Glück vence Prémio Nobel da Literatura

Averno, traduzido por Inês Dias, foi a primeira obra publicada em português e é indicada por muitos como a obra-prima de Louise Glück. Outros defendem que esse título deve pertencer a A Íris Selvagem, que lhe valeu o prémio Pulitzer, e que também já está disponível entre nós, com tradução de Ana Luísa Amaral. E, se em Averno a poeta reescreve o mito grego de Perséfone e Deméter (na versão romana do mito, Perséfone aparece sob o nome de Cora ou Prosérpina e Deméter, deusa dos campos e do trigo, ganha o nome de Ceres), n’A Íris Selvagem o inferno é um jardim selvagem, onde ela dá à natureza voz e sentimentos para questionar o humano e questionar sobretudo esse Deus silencioso, que não era “a luz que eu invocava/mas a negrura por detrás dela”.

Louise Glück em 2015 quando foi distinguida com a Medalha Nacional das Humanidades dos EUA na Casa Branca

SHAWN THEW/EPA

A morte, o envelhecimento do corpo, a raiva, a paisagem fazem de Louise Glück uma espécie de Zaratrusta que vem à cidade lembrar que a natureza não é um objeto do qual nos servimos, mas o nosso lugar de pertença. Que, como um animal, temos a Terra como único absoluto, e a rememoração como única forma de transformação e regeneração.

“No fim do meu sofrimento
Havia uma porta
Ouve-me bem: recordo aquilo
a que tu chamas morte.
Por sobre mim, barulhos, ramos de pinheiro.
Depois nada. O Sol fraco
A cintilar na superfície seca.
É muito duro sobreviver assim,
A consciência
sepultada na terra escura (…)
A vós que não recordais
A passagem do outro mundo
Digo-vos que eu poderia novamente falar: o que
regressa do olvido regressa
para encontrar uma voz: (…)”

[Louise Glück, A Íris Selvagem]

Com a poesia de Louise Glück podemos mapear o pensamento humano, a forma como ele se inscreve e reinscreve no espaço, na Terra, como ele se alia e se desprende dos outros, como se apaixona e abandona, como nasce e como enterra os seus mortos, recorrendo sempre à natureza selvagem e incapturável como a sua grande metáfora. Ana Luísa Amaral considera mesmo que “a forma como ela retrata a natureza ao longo de toda a sua obra poética poderá ter sido fundamental para a atribuição do Nobel”. Ou seja, ela faz da Natureza sujeito e nunca objeto, mesmo que a use simultaneamente como símbolo, como mito, ou como auto-retrato.

“A experiência fundamental do escritor é o desamparo”, escreve ela no seu ensaio A Educação de um Poeta, onde também lembra que “a vida é digna pelo anseio e não tornada serena por sensações de realização”. Já numa entrevista ao jornal Washington Post ela afirmará que escreve cada livro numa reação “contra o livro anterior”.

Como escreve uma crítica na revista New Yorker, a poesia de Glück tem o ritmo do cosmos, das estações do ano, da noite e do dia e não da música. Muito embora as estações do ano mais presentes sejam o outono e o inverno, isto não significa qualquer ponta de romantismo ou sentimentalismo. A grande originalidade desta poeta, e aquilo que a torna “única”, diz ainda Ana Luísa Amaral ao Observador, “é a forma como ela dialoga com a tradição clássica, em especial com os gregos, os poetas e os mitos e com a Bíblia. Como ela traz essa tradição e a reatualiza e depois como ela a usa para redimensionar a sua própria poesia fazendo dela uma linguagem simultaneamente pessoal e universal”.

Entre o quotidiano e o mito

Uma das coisas que aprendemos ou reaprendemos com esta poeta é a importância de conhecer a mitologia grega e anterior, porque, como diria Fernando Pessoa, “o mito é o nada que é tudo”. Antes de qualquer livro, antes de qualquer escrita, houve uma escrita da natureza que os homens leram, houve experiências que tiveram a força de se tornarem histórias passíveis de serem transmitidas, ensinadas às gerações por vir. E, de tal forma, eles condensam todo o essencial da experiência humana que Sigmund Freud e os fundadores da psicanálise os utilizaram e utilizam para ilustração de conflitos e motivos do nosso inconsciente: Édipo, Electra, Prometeu, Minotauro, o labirinto de Dédalo, Perséfone, etc. ilustram laços familiares, amorosos, atos de rutura, desobediência. Mas a poeta norte-americana, hoje com 77 anos, não nos devolve só o esplendor dos mitos, mas também da literatura antiga. No seu livro Meadowlands ela vai recuperar a relação de Ulisses e Penélope, da Odisseia, para falar sobre o casamento. Em Vita Nova (1999), ela aborda Dante para mostrar a posição da mulher dentro de uma relação amorosa falhada, num mundo que lhe prometeu afetos vários mas que ela encontrou deserto. Já em 1985 a escritora tinha trazido a Ilíada para o seu livro O Triunfo de Aquiles.

As capas das edições portuguesas de "Averno", "A Íris Selvagem", "uma Vida de Aldeia" e "Noite Virtuosa e Fiel"

“A experiência fundamental do escritor é o desamparo”, escreve ela no seu ensaio A Educação de um Poeta, onde também lembra que “a vida é digna pelo anseio e não tornada serena por sensações de realização”. Já numa entrevista ao jornal Washington Post ela afirmará que escreve cada livro numa reação “contra o livro anterior”, mesmo sabendo que poderia “sentar-se calmamente no sofá e repetir aquilo que já foi feito”. Ao contrário do que parece acontecer a tantos poetas atuais, Louise Glück defende que a poesia não deve repetir o que está feito, mas sim “iluminar o que está escondido”e que o substantivo, o nome “poeta” dever ser “uma inspiração e não uma ocupação”. “Ocupação” no seu duplo sentido de profissão e habitação.

A grande singularidade de Louise Glück é conseguir fundir o quotidiano, o atual, com a tradição, num gesto do mais puro Modernismo, apanhando o que um tem de veloz e evanescente e outra de lento e perene. Por exemplo, ela dá a Perséfone uma voz e um poder que ela não tem no mito original, onde a sua vida e a sua morte são negociadas pela mãe Deméter e o amante e raptor Hades. Em Averno, a poeta vai usar o mito para falar da morte mas também das complexas relações entre mães e filhas, da conquista de poder pelas jovens raparigas de qualquer tempo e de qualquer cidade: “A rapariga que desaparece da lagoa/não voltará. Só voltará uma mulher/em busca da rapariga que foi(…)”. E isto faz-nos pensar se Perséfone não é afinal, apenas o fantasma de Demeter do seu corpo outrora juvenil e desejado pelos deuses. Faz-nos questionar o nosso papel de mãe e de filhas, uma que envelhece nos campos nevados e outra que se renova em cada primavera.

“(…)Vem a mim, dizia o mundo.
Não significa
que o fizesse com frases
mas era assim que eu intuía a beleza
Aurora. Uma película de humidade
sobre casa ser vivo. Poças de luz fria
formavam-se nas sarjetas (…)

O que outros encontravam na arte,
Encontrava eu na natureza. O que outros encontravam
no amor humano, encontrava eu na natureza.
Muito simples. Mas não havia nenhuma voz ali (…)

A morte não me pode ferir
mais do que já me feriste
minha amada vida.”

[Louise Glück, Averno]

A necessidade de fazer de cada livro algo completamente novo na sua experiência fez com que Louise Glück passasse muito tempo sem escrever. A sua obra, começada, em 1968, é composta apenas por doze livros de poesia, dois ensaios e duas plaquetes. O número de prémios que ostenta é o dobro de tudo o que escreveu.

A sua voz poética, simultaneamente impessoal e íntima, sem nunca ser propriamente confessional, é enganadoramente direta, por vezes parece até próxima da oralidade, mas isto é só o jogo que os muito inteligentes fazem; desafiar a inteligência dos outros para escaparem às suas armadilhas. Porque, na verdade toda a poesia de Glück é consequência de uma grande introspeção, como se viesse do centro de si mesma, da sua cratera, do seu inferno particular. Isto exige também dos leitores a capacidade de introspeção, a coragem para entrarem na sua própria cabeça, nos seus avernos, a partir da leitura desta obra, que não deixa de nos pregar rasteiras nem de nos deslumbrar.

Há quem diga que ela tem uma “voz profética, voz de sibila”, há quem a compare, pelo seu sofrimento alienante, a Sylvia Plath, e há quem lhe chame a “poeta do mundo em queda”.

Louise Glück: “Fiquei pasmada que escolhessem um poeta branco americano. Não faz sentido nenhum”

“Uma das razões pelas quais eu gosto muito da poesia dela, é porque num tempo em que está na moda uma poesia tão rasa, tão literal, ela consegue falar do quotidiano sem nunca ser vulgar. A sua escrita é uma resistência à linguagem falada comum. Como diz a mulher que mais tem feito pela divulgação da literatura e da poesia norte-americana em Portugal, a professora Maria Irene Ramalho: ‘a poesia é sempre escrita em língua estrangeira’”, prossegue Ana Luísa Amaral, que traduziu A Íris Selvagem e está a traduzir Vita Nova.

“A poesia de Louise Glück é muito boa independentemente de qualquer prémio, o importante é que isso ajude certas obras a serem mais divulgadas”, diz Ana Luísa Amaral

A poeta portuguesa considera que há aproximações que se podem fazer entre a obra de Louise Glück e outras duas poetas americanas de origem judia, já falecidas, Adrienne Rich e Denise Levertov, nomeadamente na sua abordagem feminista, no seu questionamento do lugar da mulher na História, na sociedade.

Cuidado com a palavra “poeta”

A necessidade de fazer de cada livro algo completamente novo na sua experiência fez com que Louise Glück (pronuncia-se “Glick”) passasse muito tempo sem escrever. A sua obra, começada, em 1968, é composta apenas por doze livros de poesia, dois ensaios e duas plaquetes. O número de prémios que ostenta é o dobro de tudo o que escreveu. Mas um prémio vale que vale, diz o senso comum e, certamente, “nunca premeia o valor absoluto de uma obra”, diz a poeta Ana Luísa Amaral ao Observador. “Um prémio depende do campo literário, dos autores, das editoras, das traduções, do gosto vigente, da época, de questões políticas paralelas, especialmente um prémio como o Nobel”, afirma. “A poesia de Louise Glück é muito boa independentemente de qualquer prémio, o importante é que isso ajude certas obras a serem mais divulgadas”.

Além de "Averno" (2006), "A Íris Sevagem" (1992), "A Vida de Aldeia" (2009) e "Noite Virtuosa e Fiel" (2014), estão ainda a ser traduzidas outros três e, Francisco Vale, da Relógio D'Água, conta que no final deste ano tenhamos sete livros de Glück em português.

E Francisco Vale, da Editora Relógio D’Água que conseguiu adquirir os direitos desta autora americana, confirma que “um prémio como o Nobel ajuda a viabilizar a aposta num autor estrangeiro, porque sabemos que as vendas vão cobrir o esforço financeiro dispendido nas traduções”. Assim, em menos de três meses, Louise Glück passou de ilustre desconhecida, até para os conhecedores de tudo, a poeta com quatro livros publicados em Portugal. A saber: Averno (2006), A Íris Sevagem (1992), A Vida de Aldeia (2009) e Noite Virtuosa e Fiel (2014). Estão ainda a ser traduzidas outros três e, Francisco Vale, conta que no final deste ano tenhamos sete livros de Glück traduzidos para a língua de Camões e Pessoa.

A obra da prémio Nobel de 2020, será traduzida por quatro poetas portugueses, Ana Luísa Amaral, Inês Dias, Frederico Pedreira e Margarida Vale-de-Gato. Este facto terá sido decisivo para a Relógio D’Água ter conseguido vencer a luta pela aquisição dos direitos de autor da obra pois, como nos conta o editor Francisco Vale, Glück quis ver os currículos dos tradutores antes de aceitar a proposta da chancela portuguesa, e tem estado a acompanhar de perto o trabalho de tradução, dando sugestões, fazendo emendas etc.

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