Lucky Luke. Seis balas mais rápidas que a própria sombra

21 Outubro 2016272

Faz 70 anos e é uma das personagens em destaque na edição deste ano do Amadora BD. Carlos Maria Bobone recorda o que fez deste cowboy um herói com a melhor das pontarias.

Até o melhor pistoleiro do Oeste teve de afinar a pontaria. Morris criou-o para a revista Spirou, um cowboy de ar duro, rosto afilado de contornos difusos, a saltitar entre o trapalhão e o anjo justiceiro. Sempre pronto para o duelo e a pancadaria contra todos os vilões. Em “fora-da-lei”, nas rápidas aparições de “Angel-face”, em Phil Defer, Lucky Luke não dá descanso aos punhos nem ao coldre.

Morris, ancorado na América a conselho e com a companhia de Jijé, vai tomando à letra o “wild-west” e derrotando alguns dos bandidos que mais serviram a morte no seu desígnio de dar descanso a todos. É nesta América, também, que irá encontrar um francês genial, revoltado por Morris ter dado cabo de personagens tão ricas como os irmãos Dalton, e a quem Morris irá confiar os próximos argumentos das suas histórias. É a este Lucky Luke, já mais caricaturado, que continua a disparar pelas mãos de Morris mas passa a falar pelas mãos de Goscinny, que queremos prestar homenagem. Lucky Luke tem a genialidade que em Goscinny parece vulgar, a genialidade de Astérix, Iznogoud, ou de Humpa-pá; mas tem, ao mesmo tempo, um carácter especial e muito complexo.

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Goscinny e Morris

O sortudo de Goscinny já não dispara como quem respira, os seus tiros são até mais invulgares do que os murros de Astérix. Como o seu universo é o das pequenas cidades em construção, tantas vezes abandonadas no deserto, o seu heroísmo passa mais por dar uma identidade corajosa às cidades, por ensiná-las a sobreviver, do que propriamente por salvá-las. Interessa-lhe reconciliar os rivais de Painful Gulch, ensinar uma vila a não temer a criançola Billy the Kid, unir os esforços do Western Circus e do rival vaqueiro endinheirado. Lucky Luke é um observador da América que se constrói – da elevação dos derricks à instalação do telégrafo – e também uma espécie de agente invisível dessa América.

Desenganem-se, porém, os potenciais bandidos. Luke continua a saber usar um seis-tiros, e sempre com uma pontaria impressionante. Escolhemos, por isso, seis alvos – um por cada bala – em que Morris e o seu herói souberam acertar em cheio para fazer das suas histórias um verdadeiro monumento literário.

Os fora da lei

Os mais importantes são os Dalton, claro. Os primos Dalton, reencarnação pouco alterada dos primeiros. Joe, Jack, William e Averell Dalton, irmãos entre si mas primos dos que Morris apagou em “fora-da-lei”, são os mais importantes. Estúpidos (a ponto de o próprio Luke se rir deles) mas engenhosos, cruéis, em altura crescente do mais velho para o mais novo, Joe vale pelos quatros em maldade e Averell por nenhum em inteligência.

Relapsos perpétuos – nem com psicanálise vão ao lugar – escapam constantemente da prisão a que Lucky Luke os devolve. As aparições recorrentes e histórias como Dalton City, com as suas confusões amorosas, dão-lhes o primeiro lugar no pódio dos bandidos invulgares; há outros, no entanto, tão originais quanto os quatro irmãos. O mimado e guloso Billy the Kid, que inveja a fama de Lucky Luke e reaparece para ser escoltado durante milhas e milhas até ao julgamento de um pecadilho irrisório; os capciosos Jesse e Frank James, émulos de Robin dos Bosques que roubam ricos para dar aos pobres (embora os pobres sejam sempre eles), bandidos literários que falam sempre por meio dos diálogos de Shakespeare; Calamity Jane, mentirosa compulsiva, senhoreca conversa e brutal atiradora… Todos eles provocam situações que só a sua personalidade pode provocar.

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Lucky Luke e os Daltons

Em Jesse James dá-se o caso insólito de uma cidade querer acabar com o único pobre existente por julgar que, como Jesse James roubava aos ricos para dar aos pobres, pouparia a cidade se não houvesse pobres a quem dar. No Cavaleiro Branco, uns actores aproveitam que toda a gente assiste ao teatro para roubar brancos e saloons. Morris e Goscinny pegam em bandidos históricos e dão-lhes a feição burlesca que as suas características lendárias permitem. Veja-se o caso da delinquência precoce de Billy the Kid: a vocação nasce tão cedo que, em vez de uma chupeta, só um revólver é capaz de acalmá-lo em bebé.

As viagens e as competições

Subindo o Mississipi. A diligência. A caravana. Carris na pradaria. O fio-que-canta. É certo e sabido: a competição excita a maldade. Todos estes livros partem de um desafio que exacerba a cobiça dos contendores, ou do anúncio público de uma viagem arrojada que enfrenta larga oposição.

Na Escolta, um bandido vulgar tenta soltar Billy the Kid, motivado por um falso tesouro que Billy inventou. Em Subindo o Mississipi, dois barcos competem para ver quem sobe mais depressa um rio e um capitão sem escrúpulos vai-se aproveitando das fraquezas do outro. Nalguns, como na Caravana, Goscinny aproveita para criar um mistério sobre quem será o malfeitor; os casos mais cómicos serão, porém, os casos das colinas negras e do Grão-duque. Nas Colinas Negras, Lucky Luke conduz um grupo de cientistas excêntricos que fazem de cada perigo um objecto de estudo; no Grão-Duque, porém, o caso é mais complicado. O grão-duque, de visita à América, quer viajar pelo país perigoso de que tanto ouviu falar. Lucky Luke é, assim, encarregado de conduzir um falso passeio perigoso, sem que o Grão-Duque se aperceba da farsa, ao mesmo tempo que a viagem vai tendo opositores verdadeiros e sanguinários. O jogo entre os dois planos, como é óbvio, presta-se às maiores confusões e às peripécias mais divertidas, como só Goscinny é capaz de aproveitar.

Os pormenores

A marca que Morris nunca apagou. Uderzo conseguiu o desenho perfeito para Astérix; o traço de Tabary evoca o mundo confuso e encantado das mil e uma noites. Morris, embora não desenho como Uderzo e Tabary, tem um humor no desenho que nenhum dos outros agarra da mesma forma.

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“A Terra Prometida”, a nova aventura de Lucky Luke que é lançada no Amadora BD

A cerveja suspensa enquanto Lucky Luke dispara; as portas sempre crivadas de bolas dos gabinetes dos xerifes; as famosas placas de entrada nas cidades com ameaças aos forasteiros (forasteiro, o cangalheiro é o Homem mais rico da cidade, por exemplo); as cidade-fantasmas, abandonadas tão rapidamente que o triângulo que a professora desenhava no quadro é interrompido a meio. Morris e Goscinny encheram Lucky Luke de piadas subtis e de narrativas duplas, em que o desenho não só completa mas também ganha independência em relação à história.

Os barões locais

Muitas vezes aquilo que motiva a história não é tanto o fora-da-lei quanto o capricho de um barão local. Dos intrinsecamente maus, como Joss Jamon, aos dúbios, como o Juiz, aos loucos, como o Imperador Smith, há em Lucky Luke uma gama verdadeiramente balzaquiana de personagens poderosas, com as personalidades mais excêntricas e diversas. Goscinny, com o louco Imperador Smith que se julga dono dos Estados-Unidos, faz uso da sabujice humana de um exército capaz de fazer tudo por dinheiro; no 20º de Cavalaria explora as relações entre um austero e impositivo coronel Mac Straggle e o seu filho, vítima maior da rigidez do pai; em Caçador de Prémios arquitecta a história em torno da precipitação de um excêntrico criador de cavalos que acusa um índio de lhe roubar o melhor deles. Estas histórias, que espelham o Oeste à mercê de uns quantos coronéis mais desabridos, versam normalmente sobre a cobardia popular e a prepotência obstinada dos chefes.

As cidades

A estrela na lapela de Lucky Luke, a sua grande marca de personalidade, é a forma como vai tratando as pequenas cidades. Morris e Goscinny exploram como ninguém as cidades insuladas num imenso país ainda selvagem, construídos a expensas de excêntricos e sem convivência de maior com vizinhos que aplaque as caturrices de grupo.

É isso que leva a que haja em Painful-Gulch duas famílias que se detestam a ponto de destruir serviços de que eles próprios usufruem para os rivais os não poderem usar; que leva a que, em À sombra dos derricks, a ganância pelo petróleo seja tanta que até um bandido faz tudo para voltar para a prisão: acontece que, ao fazer um túnel para se evadir, tinha encontrado debaixo da prisão o precioso ouro negro. Mais do que as peculiaridades de cada cidade, porém, interessa aquilo que é comum a todas.

Lucky Luke Autores

Achde e Jul, os novos autores de Lucky Luke

As populações que querem expulsar um “governo iníquo” sem saberem o que significa “iníquo” em Corrida para Oklahoma, as guinadas de opinião da cidade ao som dos discursos dos oradores, a forma como tratam o “pezinho-mole”, a cidade expectante enquanto o sortudo e Jolly Jumper jogam xadrez, fazem de cada livro de Lucky Luke uma autêntica psicologia das multidões (pouco favorável ao povo, diga-se).

A vida no Oeste

A América do século XIX ainda tinha muito da terra virgem de Thoreau, da terra das oportunidades dos primeiros colonos, da mistura entre Natureza e civilização que dava ao país um encanto especial. Os Homens são novos, a civilização está a construir-se à custa de uns quantos pioneiros e Lucky Luke documenta-o com humor. As figuras, do progressista ao excitado ao barman do saloon, das tribos índias às Chinatowns, são tão variadas quanto nas mais completas guias etnográficas. Lucky Luke documenta a América; e esta América em construção, ainda indefinida nas mãos dos homens que a quisessem criar, representa toda a civilização. Pode ser um poor cowboy, mas lonesome Lucky Luke não é: atrás do cavaleiro solitário, vai todo um mundo novo.

Agora que entramos em 2019...

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