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Luís de Matos. "Cheguei a oferecer um milhão de dólares a um crítico para ele me desmontar um truque" /premium

Luís de Matos regressou aos palcos, depois de cancelar uma digressão europeia, com um espectáculo drive in. Em entrevista, fala-nos da juventude, da magia e de Totoloto.

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Até parece mentira — ou mesmo magia negra — mas esta entrevista com Luís de Matos teve de acontecer em duas partes, porque a primeira a gravação da conversa por telefone perdeu-se no abismo. Não tendo sido um truque, assegurado pelo artista, acabou por ser uma segunda tentativa de perceber um bocadinho melhor a cabeça de alguém que nos anda a mentir há, pelo menos, 25 anos, mas com estilo.

Começou por nos vender a ilusão de que tinha adivinhado os números do totoloto, depois andou pela televisão, até saltar para as grandes salas de espectáculo um pouco por todo o mundo. Foi pioneiro, “mas não visionário”, e, apesar do constante sorriso na cara — que nos mostra alguém feliz pela escolha que tomou, ou que sabe que nos vai iludir –, já teve de se chatear. Ao ponto de desafiar um crítico neozelandês a explicar, em direto na rádio, uma das suas ilusões. Em troca, pagava-lhe um milhão de dólares, dinheiro que não tinha. Vá lá que o crítico nunca chegou a aparecer. Aos 49 anos, está longe de pensar no fim de carreira mas, se acontecer, pode sempre tentar voltar para a vida académica, como professor de engenharia técnica de produção agrícola.

Viu com bons olhos tudo o que surgiu à volta da magia durante estes últimos anos, desde o universo criado por JK Rowling aos tutoriais no Youtube. Porque até um mau espectáculo de magia pode dar jeito. E, sendo filho único, “estando o jogo viciado desde início”, foi sempre bom ter concorrência. Cria-se uma meta artística de ultrapassar o espectáculo de ontem, aprimorando o de amanhã. Por outro lado, tem a ambição de que seja possível a um mágico revelar o segredo, sem que se perca a piada de tudo o resto. “Gostava que um dia a forma como crio a ilusão fosse irrelevante para as pessoas”, contou ao Observador.

O lockdown em muitos países levou-o a regressar a Portugal, cancelando uma tour europeia. Demorou “um mês e meio a acordar”, ou seja, a voltar a pensar “o que raio” poderia fazer para voltar aos palcos. Entretanto, “acordou” e, mesmo depois de ter caído de um escadote no mês de maio, está prestes a comemorar 25 anos da sua produtora, a Luís de Matos Produções, e resolveu baralhar as cartas, criando o primeiro espectáculo drive in que aconteceu esta sexta-feira no seu Estúdio 33, em Ansião, e que já tem mais datas agendadas. “Pode ser uma das boas recordações da Covid-19”, diz.

"A arte mágica foi sempre um parente pobre de outra qualquer"

Este mês celebra 25 anos da sua produtora. O que é que lhe deu na cabeça para se tornar mágico e criar um estúdio à volta dessa profissão?
Quando olho para trás seria fácil dizer que tinha tido esta visão e que era isto que queria desde o princípio. Isso seria falso e arrogante. O que fui fazendo foi uma navegação à vista já há algum tempo que acabou por determinar o percurso. Há duas coisas contrárias que não faziam antever que teria este percurso. Uma é o mundo de entretenimento e o seu modelo de negócio, que é em triângulo, onde não há obrigatoriedades permanentes. Quando analisamos o modelo de negócio predominante nesta área, vemos que existem três entidades: o artista, o manager e o agente. Estes três pontos são os suficientes para triunfar no mercado e viver toda uma vida nele. Há artistas que passam uma vida triunfante com os seus managers e agentes, porque existe uma rede de segurança neste modelo. Porque se o artista passar por uma fase menos criativa, se o público deixar de gostar dele ou o artista for apanhado a dizer uma barbaridade a um jornal ou for em ações ilícitas, vai necessariamente fazer uma travessia do deserto. Onde não vai ter, sem ser na música onde continua a haver royalties, rendimentos diretos. Por outro lado, também não tem obrigações diretas. Vão os três para casa, vivem dos rendimentos e ficam durante um tempo quietinhos. E essa travessia até pode ser estimulada pela própria criação. Não há obrigatoriedades.

O Luís nunca teve manager.
Nunca tive, nem agente nem manager. Esta é uma das tais coisas contrárias. O outro grande vento contrário é que a área que escolhi não estava constituída em todo o seu esplendor. A arte mágica foi sempre um parente pobre de outra qualquer. Agora, quando olhamos para trás, nestes 25 anos conseguimos fazer coisinhas que criaram um precedente, porque o mereceram, mas também porque abriram caminho para outros. Nunca tinha sido criado num teatro nacional um espectáculo de magia. Tive um programado durante uma semana. Não querendo entrar no domínio da vaidade, um mágico nunca tinha sido condecorado com a Ordem Honorífica de D. Henrique. Não importa quem é, importa é que há um momento em que foi dado esse título a um mágico. Era impensável há 20 anos. Foi muito bom para mim, para a minha equipa e para o meu ego. mas a estrada alarga-se e passa a ser mais um elemento nesta mistura. Portanto, temos aqui o modelo de negócio e, por outro lado, a ideia de que “a magia não existe”. Não fui visionário, segui a minha paixão. E quando comecei há 30 anos, a fazer programas de TV, pedia aos mais próximos, fossem mágicos ou não, que me ajudassem. Começou a criar-se uma certa equipa, e foram ficando. Senti uma necessidade moral e prática de os ter perto de mim, permanentemente. Porque se dedicaram uma vida a trabalhar comigo, tinha de lhes dar alguma segurança. Deixaram de ser colaboradores, passam a ser amigos e colegas.

Quando é que percebeu que essa rede ia funcionar?
Esse é o momento em que nasce a Luís de Matos Produções em 1995. Porque descobri que o facto de ter uma equipa permanente exigia uma coisa que mete medo pela responsabilidade: aconteça o que acontecer, terão de existir 14 ordenados para cada um, por ano. É assim que funciona. Não sabia se ia ter espectáculos a seis meses de distância, mas tinha de me fazer à vida. Depois, também me acontecia outra coisa maravilhosa: cada vez que tinha uma ideia ou queria fazer um teste, não tinha de ir à procura das pessoas que estavam disponíveis, porque podíamos criar uma cultura de empresa, de experiência e criatividade que fez com que pudéssemos literalmente estar prontos para qualquer desafio que nos aparecesse. Há sempre pessoas externas, mas há um núcleo duro preparado. Dá uma sanidade mental e uma estrutura que aguenta determinado embate.

"Se há um mérito que a Covid-19 tem, exceção feita às milhares de famílias que perderam ente queridos, é que todos os grandes pensadores e team builders dizem que temos de sair da nossa área de conforto, para o mundo ser melhor. Dói, mas encontras 'cenas fixes'. Toda a gente nos diz isto. A Covid-19 obrigou-nos a isso."

O Estúdio 33 está fora de Lisboa e do Porto. Foi uma decisão premeditada? Dar também palco a outras regiões do país?
Não, não foi. Os primeiros dez anos da Luís Matos Produções foram no centro de Coimbra, em que a nossa equipa, que anda sempre ali nas nove pessoas, estava repartida por três espaços: uma pequena oficina, um escritório para design gráfico e edição e ainda um armazém onde guardamos coisas maiores ou fazíamos ensaios maiores. Ou seja, andava a saltitar de sítio em sítio. Ligavam-me e estava no escritório, demorava três dias a ir à oficina. Depois ficava lá três dias porque me entusiasmava com uma ideia. Portanto, só havia uma decisão: estarmos todos debaixo do mesmo teto.

Mas era tudo em Coimbra.
Sim. O não sair de Coimbra prende-se com falta de coragem ou com ter coragem, de não sucumbir aos grandes centros… não sei se é isso. Ou se é não sair da área de conforto e ter a consciência de que aquilo que tenho para oferecer não precisa de uma montra, nem de estar aberto ao público. Não vendo camisolas ou pastéis de nata. Vendo espectáculos ao vivo. Telefonam-me e vou fazer a Madrid, ao Algarve ou a Budapeste. E depois pensei que deveríamos estar todos juntos, por isso, como é que fazemos? Construímos um armazém com escritórios, juntamos tudo. É muito bonito de se dizer, mas depois vejo-me em Coimbra num dos locais em que o terreno é mais caro e onde não tenho hipótese de fazer aquilo que realmente gostava. Portanto, fui para o concelho de Ansião, onde vivi dos 4 aos 15 anos, quando vim de Moçambique, em que havia um parque empresarial, construído pelas câmaras para captar negócio e postos de trabalho. Zonas industriais, basicamente. E é aí que nasce o Estúdio. Poupamos no terreno para investir tudo no equipamento em que passamos a trabalhar e que se foi preparando e dotando de recursos que são próprios à necessidades do momento, mas que têm a maleabilidade suficiente para meter a massa cinzenta a trabalhar.

Comenta-se muito que os artistas portugueses são mais reconhecidos lá fora. Também é assim na magia? Essa ideia não mudou nos últimos 25 anos?
Essa visão muda, e não é só por mérito, na grande maioria. É claro que olhamos para uma Mariza e é por mérito exclusivo que triunfa no mundo. Ou para o Cristiano Ronaldo, por exemplo. Mas quando entramos num momento em que o nosso quintal passou a ser o mundo, então aí juntou-se o mérito de alguns com a possibilidade de ter um playground maior. Mas não aumenta só o espaço em que podemos crescer, também aumenta a concorrência. Há dois anos, a Mariza veio ao meu programa e de repente estávamos excitadíssimos porque os dois tínhamos feito espectáculos na Sidney Opera House, tínhamos estado no mesmo camarim. A Covid-19 veio lembrar-nos que temos de estar conscientes das realidades circundantes. Se criamos o nosso próprio casulo, e cortamos as interações à nossa volta, vamos cristalizar. Se há um mérito que a Covid-19 tem, exceção feita às milhares de famílias que perderam ente queridos, é que todos os grandes pensadores e team builders dizem que temos de sair da nossa área de conforto, para o mundo ser melhor. Dói, mas encontras “cenas fixes”. Toda a gente nos diz isto. A Covid-19 obrigou-nos a isso.

O Luís é pioneiro na área e depois salta para a televisão. Sem este meio não seria possível chegar onde chegou?
Vamos alargar a pergunta: seria possível ultrapassar a Covid-19 sem a internet? A nossa resposta imediata é não. Mas se não houvesse, a malta também arranjava maneira de se safar.

Certo, mas há 25 anos, como seria?
Obviamente que é impulsionadora, não podendo fazer futurologia, e tendo de me confrontar com os factos, sim é verdade que se não tivesse conseguido chegar lá isso não tinha gerado uma determinada popularidade. Claro que sim. Era de uma arrogância e leviandade achar que estaria no mesmo sítio se não fosse a televisão.

"Há uma frase de que gosto muito: 'os mágicos têm a profissão mais honesta do mundo porque dizem que vão mentir e mentem"'"

E isso permitiu que as pessoas respeitassem mais o seu trabalho?
Defendo que todos os programas de magia são bons para a magia, até os maus, o que é algo controverso no meio. Só se ganha critério sobre qualquer matéria quando somos expostos a todo o espectro de cores dessa matéria. Por exemplo, sou profundamente ignorante em relação ao heavy metal. Porque nunca fui suficientemente exposto ao bom e ao mau heavy metal para que possa dizer que A é melhor do que B. Não tenho o critério. E como não tenho, direi barbaridades. Vou dar um exemplo: não vejo diferença entre os Kiss e os Metallica. E  as pessoas vão dizer o quê? Que sou ignorante, algo que é verdade.

E isso aconteceu e ainda acontece.
Sim, ainda, claro. Nós mágicos temos de potenciar a exposição das várias maneiras de se estar na magia e deixar que o público, fruto dessa múltipla exposição, faça as suas escolhas.

A magia tem algo que outras artes não têm: as pessoas quando vão ver um espectáculo partem sempre de pé atrás: ‘Eu não acredito nisto’.
É fantástico pensar sobre isso, sobre a atitude com que o público vai assistir. Digo sempre que aquilo é mentira, não é um ato de inteligência, pelo contrário. Se fosse verdade, não seria surpreendente. Vou dar um exemplo prático: em 1995 criei a ilusão de prever os números do totoloto, a chave foi certa, aquilo teve a repercussão que teve, os que viveram recordam-se, os que não viveram já ouviram falar. Esse feito foi capa de jornais, abertura de telejornais e foi discutido, teve um impacto enorme. Mas aquilo só teve impacto porque disse que o que estava a fazer era mentira e ainda assim ia acontecer. Desde 1995 até à semana passada, todas as semanas, houve uma pessoa que acertou na chave do Totoloto. Mas mesmo assim nenhuma fez a capa dos telejornais, porque é algo normal, quando não há a tal provocação. Era como se pudesse voar quando era miúdo, mas daqui a uns anos já fosse algo normal.

É uma banalidade.
Sim. Há uma frase de que gosto muito: “Os mágicos têm a profissão mais honesta do mundo porque dizem que vão mentir e mentem”.

É um pouco como a história do Pedro e do Lobo. No Pedro ninguém acreditava.
Exatamente. Mas este exercício não é muito diferente do cinema ou do teatro. Quando vamos ao teatro e saímos de lá a dizer “aquele tipo não é nada o D. Afonso Henriques, estão-me a enganar”. O que nós fazemos é abrir a porta e convidar as pessoas a entrar num universo de imaginação. E isto é válido para a generalidade das artes. Mas há uma diferença na magia: no teatro, vamos ver o Peter Pan pendurado por cordas e abstraímo-nos das cordas. No nosso caso, cria-se na mesma a ilusão de que o interveniente está a voar, mas não se vê como é que voa. É surpreendente também por isso, mas não deve ser só. A magia está debaixo de uma nuvem negra também por ter segredos. Imaginemos que nunca tinha visto um piano na vida e vou ver um concerto do Pedro Burmester. Não vou dizer que o pianista é virtuoso, vou é ficar bloqueado na ideia de “como é que aquela cómoda de madeira dá sons”. E acabo por não apreciar o virtuosismo de quem toca. Quando conheço o piano, já estou disponível para apreciar o pianista.

Somos seres desconfiados e curiosos ao mesmo tempo.
Sim. Na magia, o facto de nunca sabermos se o que aconteceu foi feito porque alguém nos bastidores carregou no botão, ou se treinámos dez anos para conseguir criar aquele momento, torna isto uma luta desigual. Mas também há aquela ideia de que se revelar o segredo, perde-se a piada. Gostava que não perdesse. Que um dia a forma como crio ilusão fosse irrelevante para as pessoas.

Gostava que ficassem encantadas e não a tentar perceber como fez.
Ou que soubessem. Se o preço for saberem, quase que prefiro que saibam, porque depois vão estar disponíveis para dizer que a ilusão foi incrível. Nós entre mágicos costumamos dizer que o método é muito mais surpreendente e plausível do que a ilusão em si mesma. Só que esse lado está escondido.

Nestes 25 anos aconteceu muita coisa na magia. A explosão do Harry Potter, os kits de magia, os tutoriais de magia no Youtube. Temos também outros programas com outros mágicos. O Luís acredita que isso fez bem à profissão?
Absolutamente. Tudo é bom, mesmo aquilo que tem menos qualidade. O que é que me faz querer ser melhor? Ser melhor do que o que fui ontem. O jogo estava viciado para mim desde o princípio, tendendo para o desastre. Sou filho único. É muito fácil chegar ao título de menino mais inteligente lá de casa. Ora, a partir do momento em que alargamos o universo, já começa a ser mais difícil. Mas será sempre positivo se o nosso ponto de referência não forem os outros, mas sim o que fizemos ontem. E foi assim que pautei os meus dias. O meu próximo espectáculo tem de ser um bocadinho melhor do que o anterior.

"Quando decidi entrar na universidade, inscrevi-me em farmácia, bioquímica, tudo ciências. Mas depois tive um problema enorme: onde? Não queria sair de Coimbra porque estava a acabar de ter quatro anos de descoberta. Foi uma paixão que tive. Passei de filho único para homem à solta a crescer e a crescer."

Aumenta a competição, aumentam os espectáculos e também aumenta a desconfiança do público, por vezes. Li que David Copperfield tinha sido processado por um truque. Aconteceu-lhe alguma vez? Nem tudo é magia.
O David foi processado por um turista chico-esperto inglês que, na execução de um truque, tropeçou e quis sacar uma indemnização. Ossos do ofício de quem tem uma visibilidade muito grande, uma fortuna conquistada e conhecida. E de uma pessoa menos boa que vê uma oportunidade de enriquecer. Felizmente, ficou tudo em águas de bacalhau, tendo ficado provado que o senhor era vigarista. A mim, aconteceu-me uma vez um senhor que veio dizer-me “epá, o meu filho também usa aquelas areias para brincar, aquelas que o Luís usou, mas o que você fez é surpreendente”. O  senhor sabia o modus operandi que tinha utilizado, e ainda assim foi impactado pela forma artística e criativa com que usei aquele método.

Mas essa é uma história boa. Agora uma má.
[ri-se] Uma história má, sim. Além de ter caído agora do escadote. Estava na Nova Zelândia, em Auckland, onde o Peter Jackson filmou o “King Kong”. Tive lá um espetáculo e, no dia seguinte, saiu uma crítica de um senhor que dizia que foi tudo fantástico, mas que havia um momento em que “o Luís de Matos fazia algo com os Angry Birds, umas cartas e um vídeo, que era muito infantil e que toda a gente percebia como se fazia”. Primeiro fui ver quem era o senhor.

Ficou melindrado.
Fiquei lixadíssimo. Foi das coisas mais complexas e originais que fiz na vida e de que tenho algum orgulho. Afetou-me, o que é algo que não costuma acontecer. Só um parêntesis: tenho um truque para não ser afetado por maledicências.

Mais um truque…
Sim. Quando comecei, tudo o que saía na imprensa era positivo. E nunca me deixei encantar, lia uma vez, depois arquivava. Tenho tudo arquivado, mas nunca voltei a ler. Serviu para me proteger. E, mais uma vez, não fui visionário, foi algo que me aconteceu. Só que fiquei treinado a ler, ficava contente e arrumava, e quando saíam críticas mais mal intencionadas ou movidas pela inveja, ou até perfeitamente justas, o que é que fazia? Lia, ficava triste e também arquivava. Foi um grande pilar da minha sanidade mental. Neste caso isto não aconteceu, fiquei mesmo afetado. Porque este parvo estava a falar de uma forma injusta sobre o espectáculo. Fui ver quem era, e percebi que era um senhor que toda a vida tinha feito crítica desportiva. Era uma das suas primeiras peças sobre esta área, o que me deixou mais satisfeito. Mesmo assim, continuou a fritar-me por dentro. No dia seguinte, tive uma entrevista na rádio mais ouvida da Nova Zelândia, em direto, no programa da manhã. E o jornalista perguntou-me sobre a crítica e não consegui controlar-me. Cometi uma barbaridade enorme: desafiei o autor a ir à rádio, e se conseguisse explicar o que fiz, dava-lhe um milhão de dólares. Foi um statement porreiro…

Acho graça porque o Luís faz grandes anúncios. Primeiro o Totoloto, depois um milhão de dólares…
É, exato. Depois quando esse anúncio saiu cá para fora, fiquei a pensar que não tinha um milhão de dólares para lhe dar. Um ano antes, tinha organizado, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro Congresso Mundial de magia, em streaming para vários países, com os melhores mágicos do mundo no Estúdio 33. O que é que eu tinha feito? Expliquei tin tin por tin tin, como é que fazia a ilusão. E a seguir, mandávamos em DVD para todos os participantes a gravação integral de todas as talks e performances.

Esse senhor podia ser um deles.
Ou ter um amigo ou conhecer um mágico que não gostava de mim.

Mas não aconteceu?
Não. É por isso que estou cá para contar a história.

"Lia livros, fazia colagens, treinava truques com cartas porque nem sequer havia computador portátil. É um ato solitário, o de aprender. É quase anti-social"

Gostava de olhar um pouco para esse tal congresso. Lembrei-me de um filme do Christopher Nolan, o “Prestige”, em que dois mágicos estão sempre a competir um contra o outro. Isso não existe na realidade?
Existe tanto como existe entre músicos ou bailarinos. Não é tanto a ideia de “adorava fazer como faz” é mais “adorava ter tido aquela ideia”.

Mas como surgiu essa ideia de organizar um congresso em streaming quando esse formato não era tão popular como é hoje?
Em 2009 tive a ideia de juntar as melhores mentes da magia. Tanto os conhecidos do público como os que tinham low profile. Consegui alguns apoios e fizemos a “Essencial Magic Conference: Learn, Share and Collaborate” a partir do Estúdio 33. A minha principal motivação foi olhar para o status quo. O que estava a acontecer era uma explosão do Youtube em que as pessoas iam explicar truques, algo que não me parecia mal. Mas encontravam-se vídeos de miúdos de 7 ou 9 anos a explicar truques. Isso tem graça, mas tem um problema perverso: outros miúdos vão encontrar o vídeo e vão tomar aquela explicação como a referência. Significava que se estava a criar um abismo de passagem de conhecimento que ia ser responsável por uma futura geração de mágicos profundamente ignorantes, porque a sua fonte de informação era a disseminação de vídeos pouco pensados, com informação errada, através do Youtube. Decidi falar com as grandes mentes da magia e decidimos fazer o tal Congresso. Isto foi um ato de amor, porque todos os grandes nomes voavam de todos os continentes até Ansião. Apesar de tudo, a comunidade mágica mundial, que não é tão grande, há dez anos ainda estava menos sensibilizada para uma conferência online. A partir daí surgiram iniciativas semelhantes, feitas por pessoas da primeira linha. Ou seja, mudou alguma coisa na profissão. Em 2013 fui um dos distinguidos pela Academia das Artes Mágicas de Hollywood com uma special fellowship que assinalava o facto de termos mudado por completo o paradigma do que era a passagem de conhecimento e influência de novas gerações.

Olhando mais para trás. Porque é que decidiu ir para engenharia agropecuária?
[ri-se] O título certo é “engenharia técnica de produção agrícola”.

Já percebi que o Luís gosta muito de ciência, agora engenharia não estava à espera.
A ciência é aquilo em que tenho mais fé. Ou na lógica ou matemática. Ciência em geral. Mas também sou apaixonado por algumas decisões, que às vezes nem são as mais racionais. Quando fui estudar para Coimbra aos 15 anos o mundo abriu-se. Durante três anos vivi em direta interação com a cidade. O meu quarto passou a ser Coimbra. E é aí que cresço. Quando decidi entrar na universidade, inscrevi-me em farmácia, bioquímica, tudo ciências. Mas depois tive um problema enorme: onde? Não queria sair de Coimbra porque estava a acabar de ter quatro anos de descoberta. Foi uma paixão que tive. Passei de filho único para homem à solta a crescer e a crescer.

Foi para uma república?
Fui partilhar quarto com mais três irmãos para um apartamento de um casal amigo dos meus pais. De repente ganhei três irmãos mais velhos, foi tudo transformador. E tinha a terceira opção de engenharia e foi aí que entrei.

Aí ainda não havia magia.
Não, mas a meio do curso comecei a fazer os primeiros programas de televisão.

Mas chegava a casa e falava sobre magia com os tais “irmãos”, ou guardava para si o percurso que viria a seguir?
Não guardava para mim, mas não era nada que lhes interessava. Lia livros, fazia colagens, treinava truques com cartas porque nem sequer havia computador portátil. É um ato solitário, o de aprender. É quase anti-social.

"É como se estivéssemos permanentemente a ser julgados. Se a um médico lhe morrer um paciente na sala de operações, não é por isso que o seu currículo vai ser menos brilhante. No caso dos mágicos, ou nos artistas em geral, somos tão bons quanto for o nosso último espectáculo."

E quando é que se vidrou na magia?
Fui um bocadinho piegas na decisão. Não queria escolher entre duas coisas. Quando acabei o curso, fiz o estágio em micropropagação sobre o estudo in vitro de uma flor, a estrelícia, e fui convidado para integrar o corpo docente e conselho de coordenação de um curso que começava na altura, de engenharia agropecuária. Depois, fazia espectáculos e programas de magia. Tinha duas vidas, muito absorventes, com muita paixão. Achava que dava, só que não. Um dia o professor Carlos Marques Pinto, de microbiologia, disse-me que tinha de tomar uma decisão, porque uma parte da minha vida poderia estar a prejudicar a outra.

Aparecem sempre essas personagens na nossa vida, a certa altura.
Acho que sim. Fui para casa pensar naquilo, muito triste. E se escolhesse o lado errado? E aí criei uma fórmula matemática, ambiciosa e de solução imediata. Posso escolher uma via que, se correr mal, permite-me escolher a outra que eliminei. Isso é brutal. Se escolhesse a via académica, passado 20 anos, não poderia ser artista. Era irreal pensar nisso. A outra substituição era aparentemente verdadeira e válida. Porque se me chateasse ou me cansasse da vida artística, poderia tendencialmente voltar para a carreira académica. A resposta estava dada. O professor Carlos Marques aplaudiu essa decisão.

Ainda se encontram? Ele já viu um espectáculo seu?
Sim, sim. Não deixou de me apoiar ou fazer chegar a sua opinião. Tem imenso orgulho pelo facto de me ter confrontado com essa situação. Enquanto sentir que essa hipótese de regresso à vida académica é verdadeira, poderei recusar imensas coisas até hoje.

Na área artística?
Sim, programas ou espectáculos que me convidaram. Pensei que se fosse para engolir determinados sapos, tinha escolhido outra via. E dizemos que não de forma leviana, mas penso que não escolhi este caminho para sofrer.

Mas já se sentiu cansado do mundo do espectáculo?
Sou muito novo ainda para sentir isso. Mas quem disser o contrário está a mentir. Desengane-se quem acha que isto é uma vida fácil. É feita de insegurança, de permanente julgamento. É como se estivéssemos permanentemente a ser julgados. Se a um médico lhe morrer um paciente na sala de operações, não é por isso que o seu currículo vai ser menos brilhante. No caso dos mágicos, ou nos artistas em geral, somos tão bons quanto for o nosso último espectáculo.

Basta um.
Basta o último para dizerem “o gajo já não é o que era”.

Testam-se muitas ideias, algumas vão para o lixo. Testa-se mais do que aquilo que vai para espectáculo?
A proporção é de um para vinte. Uma coisa é acordar com uma ideia espectacular, ou alguém sugerir uma ideia e andamos semanas à volta daquilo. Mas esse entusiasmo tem de dar lugar à ideia de que pode não servir.

O Luís é o tipo a quem dizem “grande maluco, não conseguimos fazer isso”?
Sim, sou. Às vezes tenho uma ideia e pensa-se: “Oh no, here we go again”. Mas todos sabemos que há muitos caminhos sem saída. Mas se em vinte ideias, uma vê a luz do dia, se tivermos quarenta, temos duas no final. É bom, valeu a pena.

E estas nove pessoas, são todos técnicos?
A maior parte vem de áreas que nada tem a ver com as artes ou com a magia. Eu defendo que qualquer pessoa aprende qualquer coisa. Para mim é mais importante a pessoa do que aquilo que sabe fazer. Prefiro ter uma pessoa com menos sabedoria, mas que tem uma atitude de fazer o melhor que sabe. Mas são estas nove que me puxam para a terra. Sou a face visível de uma equipa, é o que sinto, não é treta.

Neste espectáculo drive in, "um aplauso contido, uma buzinadela muito forte significa um aplauso entusiástico, e uma buzinadela com máximos, significa um aplauso de pé"

Vamos ao drive in. As pessoas vão estar dentro do carro, e fala com os espectadores através de um sistema wireless de ondas de rádio. Mas não vai ouvir os aplausos.
Não. Isso é dramático. O que estamos a trabalhar é num conjunto de convenções que vamos sugerir às pessoas, em que uma buzinadela significa um aplauso contido, uma buzinadela muito forte significa um aplauso entusiástico, e uma buzinadela com máximos, significa um aplauso de pé. O que conta é a intenção.

Faz este drive in porque já estava cansado da quarentena? De estar parado, diga-se?
Absolutamente. Da parte do público existe algum jejum forçado em termos da participação num espectáculo ao vivo, em que a retoma vai ser muito lenta. Para o artista, independentemente de ser a sua profissão ou subsistência, o atuar em cima do palco é o seu oxigénio. Vamos imaginar que temos no jardim uma planta de exterior e que, de repente, fechamo-la na dispensa. Ela vai definhar. Algumas não vão morrer, outras sim. Mas todas vão definhar. É o que acontece ao artista.

Acaba por ser uma reinvenção da sua carreira.
Sim. E com risco, que existe sempre. Na minha atividade não posso garantir que não vou desafinar, porque não há playback. Faço sempre do zero, como se não houvesse amanhã. Tenho sempre de mostrar a caixa vazia e o elefante. O nervosismo existe sempre, porque é sinal de responsabilidade. A incerteza de fazer neste modelo que nunca foi feito dá também nervosismo, mas procuro não deixar ser pisado por isso.

Do ponto de vista pessoal, afetou-o muito esta paragem?
Voltando à metáfora da planta, há ali um período em que parece que está tudo bem. Demorei um mês e meio a acordar para isto do lockdown e da pandemia, de que tinha de fazer alguma coisa. É como se tivesse caído um piano em cima, como se tivesse ficado sem reação. Agora começo a levantar-me e a recuperar da nódoa negra e da perna partida e, de repente, reajo.

Em fevereiro chegou de um espectáculo no estrangeiro e parou a sua atividade. Mas este espectáculo só começou a ser pensado há uns dias, com a ajuda de estrangeiros que ficaram cá.
Tivemos a tourné europeia cancelada. Ficámos à espera, de repente a realidade estava a acontecer no nosso país, dentro da nossa casa. Quando o lockdown aconteceu cá, estávamos com um mágico inglês, outro espanhol e um engenheiro de som da República Checa. Ficaram por cá. Acabou por ser um trabalho de grupo, uma criação partilhada. Todos estamos a sentir na pele o que está a acontecer. Até aliviou.

Tinha-me dito que havia uma ideia semelhante a este drive-in na República Checa.
Sim, surgiu na mesma altura. Nenhum de nós ouviu falar um do outro. Fomos os primeiros no mundo. Deu-se esta coincidência simpática do engenheiro de som, que trabalha comigo há oito anos, também trabalha com quem fez a mesma ideia lá. Partilhámos opiniões e discordámos de algumas metodologias. Eles deram a cada carro uma coluna bluetooth e nós não, porque decidimos que não queríamos que fosse necessário que se abrissem portas ou janelas, nem para lhes dar uma coluna. Mas tem sido muito útil.

Como funciona o parking dos carros?
O procedimento é muito simples. As pessoas compram um lugar de estacionamento. Podem trazer tantas pessoas quanto a lotação permitir. O preço varia, um casal custa 25 euros, se for uma família é dez euros por cabeça, para ser justo para toda a gente. Tem de se indicar a matrícula e o modelo da viatura. Fazemos um seating, respeitando a estatura do automóvel.

"Haverá sempre mil motivos que levam as pessoas a aparecer e outros tantos pelos quais as pessoas não querem assistir. A nossa parte é dizer que estamos aqui e que fazemos isto. Vamos dar o nosso melhor e retribuir em dobro a atenção que nos é dada."

E se alguém tiver de ir à casa de banho?
Existe uma aplicação, que se descarrega na altura, ou um número de telemóvel para facilitar. Há uma resposta, vem um assistente que se aproxima ao carro, confere a autorização perante o restante público, para que a pessoa se possa deslocar. O que queremos prevenir é que não haja dez pessoas a querer ir à casa de banho numa fila.

Tem de estar atento ao espectáculo e ao público.
Sim. Porque nesta altura o que queremos proporcionar às pessoas é uma situação que seja absolutamente segura. E os protocolos têm de ser muito fáceis de entender.

É tentar recuperar o hábito e confiança à distância.
Sim, mas não a qualquer preço.

Como é que o Luís fazia para convencer um casal, que vive longe de Coimbra, a pagar o bilhete, gastar gasolina, etc?
É difícil, mas não é impossível. Diria que se estamos habituados a ir a espectáculos, seguramente que sentimos a falta deles nos últimos dois meses. Se estamos habituados a andar de carro, estamos habituados a estar uma ou duas horas lá dentro. O Estúdio 33 está exatamente a 90 minutos do Porto e de Lisboa. Comparando com essas duas horas de trânsito, é apenas mais uma hora e meia de viagem.

E depois mais uma hora e dez no carro…
É como se fossem ver um espectáculo meu num teatro. E provavelmente a cadeira do teatro não é tão confortável. Haverá sempre mil motivos que levam as pessoas a aparecer e outros tantos pelos quais as pessoas não querem assistir. A nossa parte é dizer que estamos aqui e que fazemos isto. Vamos dar o nosso melhor e retribuir em dobro a atenção que nos é dada. Se não houver outra razão, que seja para apoiar os artistas. Da mesma forma que, por exemplo, os artistas dão a cara nos call centers a receber donativos, agora é a altura em que era simpático que a própria comunidade, na medida das suas capacidades, ajudasse o sector. Não estamos a pedir esmola ou subsídios, nem que o Ministério da Cultura suporte tudo isto. É uma win-win situation. Pode ser uma das coisas que recordamos da Covid-19.

O seu último truque vai ser revelar o segredo do pin que usa sempre?
Se conseguir, esse truque será revelado sem a minha presença.

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