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Luísa Cruz: "O teatro tem de ser feito de outra forma, se é que o queremos continuar a fazer" /premium

Uma das melhores atrizes portuguesas, Luísa Cruz repõe "A Criada Zerlina" no Teatro Aberto, em Lisboa, após a estreia em 2019 no CCB que lhe valeu um Globo de Ouro. Desculpa para uma longa conversa.

Nunca quis ser atriz. E agora aguentemo-nos, nós todos que temos Luísa Cruz como entidade superior, pedaço sagrado do teatro português. Lidemos com isto. Ao mesmo tempo admite: “Acho que hoje já não posso dizer que não gosto, porque seria um grande desrespeito por todo o trabalho que eu fiz e por todas as pessoas que me seguem, e por todas as pessoas que estiveram comigo estes anos todos a formar-me”. Respiremos, menos duro assim.

Nos anos 80, quando se inscreveu no curso de Línguas e Literatura Moderna logo dela se apoderou aquele pânico do futuro em que nos vemos num espelho ou numa fotografia em que não queremos estar. Luísa Cruz não queria dar aulas toda uma vida. Queria, numa altura em que isso era ave mais do que rara, ter enveredado pelo shiatsu, acupuntura, no fundo, pela via das medicinas alternativas que hoje aqui estão escancaradas. Desde cedo que aprendeu instrumentos, desde cedo que queria seguir canto. Tentou o Conservatório, mas foi-lhe vedada a entrada. Foi no átrio do mesmo edifício que viu que por lá também existia algo chamado formação de atores. E agora aqui estamos, diante de uma das mais prestigiadas atrizes de sempre do nosso país.

Está em cena no Teatro Aberto até 1 de Março com A Criada Zerlina, um texto de Hermann Broch, com encenação de João Botelho e que estreou no CCB em 2019, com direito a Globo de Ouro. Antes disse esteve com John Romão em Virgens Suicidas, na Culturgest. E esperemos que oportunidades não faltem nos próximos tempos. Queremo-la por perto.

Tive a oportunidade de estar em dois ensaios ainda numa fase inicial do processo de A Criada Zerlina. E pude, de facto, comprovar a árdua tarefa que é fazer este texto. O que é que foi mais complexo?
Qualquer pessoa que se lança num monólogo, acho que a primeira coisa que pensa é: será que consigo memorizar isto tudo? Um texto de uma hora e meia em que se está sempre a falar é assustador.

Isso assim numa primeira fase, certo?
Sim, foi assim o primeiro impacto. Ai que giro, muito bem, mas tudo isto vai ter que estar memorizado. Depois houve umas partes, como o início, em que o João Botelho decidiu que ia ser gravado, porque era uma outra zona do texto, até porque isto não é um texto dramático, não foi escrito para teatro, é uma espécie de um conto, um mini-romance, mas que tem estas tiradas tão grandes que é tentador fazê-lo como monólogo. Mais à frente foi uma corrida contra o tempo, porque por muito tempo que se tenha parece que nunca chega, quando se começa a escavar o texto, tomar as opções, colocar as cartas na mesa e depois selecionar, para cada ideia, para cada palavra. E ainda foi preciso tentar que isto fosse a voz de todas as pessoas que não têm voz, porque ver neste texto só uma senhora a falar é muito redutor. E também não é uma questão social, ainda que seja muito importante. Mas para mim é ainda mais profundo, é uma questão de identidade e aí é que foi preciso escavar.

À partida o monólogo é um desafio que a alicia?
Faz-me mais medo do que desejo. Agora tão cedo não me apetecia nada outro.

No entanto há aqui uma reposição no Teatro Aberto.
Sim. E nós, na altura, queríamos fazê-lo mais perto das datas do CCB, mas, por motivos de programação, não foi possível e então estamos a fazê-lo agora. E ainda vamos a Ovar, ao Porto e a Faro.

[um excerto de “A Criada Zerlina”:]

E como é que é voltar a este texto, passado um ano?
É preciso rememorizar não só o texto, mas todas as ideias. Aqui houve uma coisa acrescida: ganhei um Globo de Ouro com este trabalho e agora tinha de o defender mais ainda, porque afinal as pessoas que não viram também têm direito. Há um ano tive só dez dias no CCB, senti a responsabilidade de mostrar que isto valia aquilo que tinha recebido. Mas como costumo dizer: os prémios e o reconhecimento são ótimos porque quer dizer que chegam a muitas pessoas e que não foi em vão, ou que pelo menos fez pensar. O verdadeiro prémio são as pessoas com quem se trabalha, claro.

É interessante dizer que é um trabalho merecedor de um Globo de Ouro, normalmente as pessoas tendem a dizer que podia ter sido outra qualquer pessoa a vencer.
Podia ter sido outra das atrizes nomeadas, claro.

Há pouco tempo participou também no espectáculo Virgens Suicidas, de John Romão. Aquilo é quase uma seita.
O espectáculo tem por base dois textos: As Virgens Suicidas, do Jeffrey Eugenides, e o Mine-Haha, do Frank Wedekind. São dois textos que têm uma coisa em comum: a clausura. As pessoas em clausura não voluntária, forçada, como uma prisão, onde são obrigadas a fazer coisas, não sabem muito bem porquê. Outro tipo de clausura é a prisão, mas nesse caso, em princípio, a pessoa fez algo de mal e vai para a prisão. Nestas duas situações não há isso, portanto não é bem uma seita, é quase como se fosse uma experiência de laboratório, onde o ser humano tem de passar por aquela clausura, não tem contacto, nem sabe muito bem o que é ou se há mundo exterior.

Se a Luísa tivesse que criar uma coisa assim – com fins benéficos, atenção, não havia opressão nenhuma – o que é que criava, ou seja, o que é que gostava que fosse a doutrina?
Acho que a clausura é sempre má quando não é voluntária, portanto à partida não, não havia clausura forçada. Isso deve ter terrível. Mas se fosse um trabalho voluntário, acho que escolheria qualquer coisa ligada à natureza.

Observação, por exemplo?
Observação, experimentação, não só agricultura, mas observar e ver como, sei lá, plantas e insetos interagem, não sei, qualquer coisa ligada à natureza.

Porquê?
Porque me sinto ligada à natureza, quando estou muito tempo só com betão à minha volta começo-me a sentir mal.

Faz uns retiros, de vez em quando?
Quando tenho tempo faço, nem que seja numa hora ir ver o mar. A cidade tem um efeito opressor em mim se nela ficar muito tempo, ou se não tiver férias, ou se não tiver fins-de-semana, se estou sempre a trabalhar há um dia que me começo a sentir mal.

Mas é em regime pessoal ou são aqueles retiros que agora se faz muito em que não se pode levar o telemóvel, nem falar durante cinco dias?
Não, isso não é algo que me atraia. Tudo o que é imposto… epá, se tivesse que fazer faria, para um trabalho ou assim, aí era encarado de outra forma. De livre vontade não gosto da clausura, e devo confessar que estar muito tempo dentro de um teatro, muitas semanas e meses, e depois espectáculos à noite e ao fim-de-semana também… ou a fazer novelas, quando quase que não vemos a luz do dia… é muito aterrador e aflitivo para mim.

"Pensei em ir para o Conservatório e fiz uma audição para ver se podia ficar em canto ou assim. Disseram-me redondamente que não e eu fiquei... Sentei-me no átrio do Conservatório a pensar no que é que ia fazer da minha vida. Começo a ver os outros cursos que lá havia, vi formação de atores e decidi inscrever-me, para ver o que é que dava. Era como se fosse um ano sabático. Entrei, acharam que tinha possibilidades."

Nesse sentido até é bom a atual curta carreira dos espectáculos, embora deduza que a Luísa não veja nisso nada de bom.
Pois é, mas não é isso, gostava era de ter férias, ter assim um mês por ano e ter fins-de-semana. Às vezes apetecia-me ter o horário de um funcionário público, sem dúvida.

Portanto, há muito tempo que não tem um mês de férias.
Um mês? Não sei quando foi a última vez.

E alguma vez teve?
Quando estava na Cornucópia era sagrado. Havia um mês de férias, sempre. Não sei quando foi a última vez que tive um mês de férias, não sei.

E hoje não tem porque não consegue ter?
Não consigo ter. E às vezes, quando estou entre trabalhos, poderia isso ser considerado férias, mas o dinheiro que acumulámos nos meses antes não dá para fazer a viagem que queremos, dá para pouco, não dá para um mês inteiro.

Nos últimos tempos a Luísa não pára e está em todo o lado: teatro, cinema, televisão. É como que uma obrigatoriedade e tem muito que ver com essa questão financeira ou é também uma tentativa de não estar sempre no mesmo sítio?
É uma tentativa de não estar sempre no mesmo sítio. É uma necessidade, também.

Concreta.
Sim, uma necessidade financeira concreta, tenho uma filha na faculdade, enfim. Mas também porque os convites não param, vão sempre aparecendo e alguns muito engraçados, como o do John Romão. Ele já há uns anos que andava a forçar que eu trabalhasse com ele, nunca tive possibilidade e desta vez lá conseguimos e isso é bom, trabalhar com pessoas diferentes e mais novas e com outras ideias e propostas.

É engraçado, porque quando vi o espectáculo lembro-me de pensar que tinha a Luísa muito mais como uma atriz de texto e depois ali há uma outra dimensão física, muito da linguagem do John.
Muito performativa, sim, e de improvisação e tudo isso é trabalho e muito desafiante.

Imagino, ainda para mais estava junto de duas pessoas muito importantes na dança portuguesa: a Vera Mantero e a Mariana Tenger Barros.
Sem dúvida, são duas bailarinas maravilhosas. Foi muito bonito. E o contacto com a ginástica fez-me lembrar os meus tempos de adolescência, em que fiz ginástica desportiva, de aparelhos.

Tinha algum em particular onde se dava melhor?
Gostava de solo, mesmo muito. Mas pronto, é o que é. O facto de me poder movimentar de uma outra forma que com a Vera e com a Mariana, à qual não estou habituada…

A arte tem que nos transformar, temos que estar a pensar com a arte, quando vemos um quadro e uma fotografia, aquilo tem impacto, temos que estar disponíveis" (fotos: Vitorino Coragem)

Sim, em comparação com a Zerlina…
Exato, quase não se mexe a senhora, não é, porque temos ali um texto cheio de coisas. Mas sim, agrada-me ser desafiada, colocar as minhas ideias em cheque e a minha forma de trabalhar estes anos todos.

Enquanto preparava esta entrevista encontrei muito pouca coisa sobre a sua vida.
Mas a minha vida não é pública, o meu trabalho é público, a natureza do meu trabalho é pública, a minha vida não.

Porque é que prefere que assim seja? Já teve momentos em que sentiu a sua vida privada invadida?
Prefiro que a minha vida seja a minha vida. A minha profissão obriga-me a que a minha imagem seja pública porque ou estou num palco, ou estou numa televisão ou estou num cinema. A minha vida gosto que seja assim, é só uma opção, sinto que sou assim e não me apetece ser de outra forma. Quero ressalvar aqui uma coisa: isto sem qualquer tipo de juízo sobre as pessoas que fazem da sua vida privada também vida pública, zero julgamento, eu sou assim, pronto, não me interessa.

Nasceu e cresceu em Lisboa.
Sim, nasci e cresci em Lisboa, uns anos em Almada, mas voltei para Lisboa. Os meus pais, os meus avós, os meus bisavós são todos de Lisboa, depois mais lá para trás há gente de Olhão e primos em Sesimbra, pessoal do Norte, a minha avó paterna era do Porto, freguesia da Sé, portanto tenho uma grande misturada. Mas sim, Lisboa, sempre.

E como é que aparece a possibilidade de ser atriz, houve indícios na sua juventude?
Nunca quis ser atriz.

No espetáculo “Atores”, de Marco Martins, Luísa contava que queria ser cantora. 
É isso mesmo. Nunca quis ser atriz, nunca tive especial apreço por teatro, não sei, não me dizia nada, era muito mais a música, o canto, e quando comecei a aprender solfejo, clarinete e flauta-transversal. E, entretanto, entrei na faculdade para Línguas e Literaturas Modernas e depois pensei que não queria dar aulas o resto da minha vida, aquilo que eu queria fazer não havia cá, nem eu tinha dinheiro para ir para fora fazer, que era shiatsu e acupuntura e coisas ligadas a isso. Estamos a falar de 1980/81, éramos todos uns malucos, uns vegetarianos e não havia nada disto das medicinas alternativas.

Imagino que estivesse longe do que é agora.
Claro. Portanto, fiquei eu a pensar no que ia fazer a minha vida, ou seria professora ou sei lá.

Concluiu esse curso de Línguas e Literaturas Modernas?
Não, não cheguei a acabar. Entretanto pensei em ir para o Conservatório e fiz uma audição para ver se podia ficar em canto ou assim. Disseram-me redondamente que não e eu fiquei… Sentei-me no átrio do Conservatório a pensar no que é que ia fazer da minha vida. Começo a ver os outros cursos que lá havia, vi formação de atores e decidi inscrever-me, para ver o que é que dava. Era como se fosse um ano sabático. Entrei, acharam que tinha possibilidades e mesmo ainda antes de acabar o Conservatório, o Mário Feliciano convidou-me para fazer o Pílades, do Pasolini, depois continuei a trabalhar com ele. Infelizmente ele morreu e comecei a trabalhar. Aquilo que me fez ficar foram as pessoas que fui encontrando, foram pessoas fantásticas e pensei: pronto, o que interessa é a forma como cresço e em quem é que eu me transformo.

E não tanto o que estava a fazer, era isso?
E não tanto quase o que estou a fazer. E aprendi a crescer muito bem e com os melhores.

E a gostar de ser atriz.
Não sei…

"É por isso que estamos ali, para nos expandirmos, para sermos maiores do que somos na nossa vidinha, não é? Mas a arte tem essa função, toda a arte, é a extensão, é a expansão do pensamento, do que nós somos. E é uma pena que não seja considerado assim pelas pessoas que deviam encará-la dessa forma."

Ainda hoje não sabe? É interessante isso.
Acho que hoje já não posso dizer que não gosto, porque seria um grande desrespeito por todo o trabalho que fiz e por todas as pessoas que me seguem, por todas as pessoas que estiveram comigo estes anos todos a formar-me, portanto não posso dizer que não gosto e que não sou, não é possível, seria uma enorme falta de respeito. Há sempre outras coisas que penso fazer na minha vida, há imensas coisas que gosto de fazer. Entretanto fiz um curso de shiatsu e reflexologia, e acabei por fazer com um mestre japonês, isso não deixei para trás e isso foi muito bom, deu-me outra coisa para fazer na vida, posso fazer outra coisa na vida, é complementar, tudo o que é o estudo do corpo e anatomia, acho que complementa a minha profissão.

Dizia há pouco que nos anos 80 gostava de ter ido por esse caminho das medicinas alternativas. De onde é que isso vem?
Um primo que viveu lá em casa durante muitos anos e sempre foi um apaixonado por estas coisas e isso era muito raro em Portugal, ele adorava vegetarianismo, naturismo, depois a macrobiótica… E como ele vivia lá em casa era como se fosse um irmão, um primo direito, mas que era como um irmão. Isso interessou-me, ele tinha livros e mesmo que eu não quisesse ia entrando naquilo, fascinou-me.

Teria que idade?
Era muito pequena, uns seis, sete ou oito anos… e ele só saiu para casar, portanto, ainda foram muitos anos que ele viveu connosco.

E o canto ou a música, veio de onde?
A música ou se começa numa fase boa da voz, fisicamente digo, ou então já não dá, agora já não tenho qualquer pretensão.

Mas e sabe dizer de onde vem? Meteu-se a estudar clarinete porquê?
A minha mãe cantava num coro de igreja enorme com 80 pessoas. O meu tio foi cantor, cantor de rádio, cantor romântico. E sempre houve música na minha família, um tio-avô compunha, era músico e instrumentista, estava ligado à Orquestra do Coliseu, trocava trompete e bandonéon e sei lá mais o quê. E sempre foi a música na minha família e nunca o teatro, mas cá estou.

Já muita gente lhe deve ter dito isto, mas faço questão: a Luísa lida bem com o facto de ser considerada por muita gente como uma das melhores atrizes portuguesas?
Vou dizer isto ao contrário: não me considero uma atriz medíocre. Ok? Os critérios para se dizer que somos as melhores é tudo muito…

Subjetivo?
Nem mais. Há coisas que faço bem e outras coisas que outras atrizes também fazem, mas de outra maneira, a avaliação é muito difícil, há coisas que não sei fazer, temos capacidades, instrumentos, vidas diferentes. O que interessa é assistir a um espectáculo e perceber o que é que aquela pessoa me faz sentir com a sua interpretação. É-me indiferente ou não? É isso que torna um ator especial, no fundo, queremos chegar a muita gente, é bom, porque é por isso que estamos ali, para nos expandirmos, para sermos maiores do que somos na nossa vidinha, não é? Mas a arte tem essa função, toda a arte, é a extensão, é a expansão do pensamento, do que nós somos. E é uma pena que não seja considerado assim pelas pessoas que deviam encará-la dessa forma.

Bom, podemos abrir essa porta nesta entrevista.
Em relação a este tema só quero dizer isto, mais nada, acho que já disse tudo.

Há pouco falou da importância das pessoas com quem se foi cruzando na sua carreira. Pessoas como…
Há pessoas sobre as quais não posso passar por cima, todas as pessoas com quem trabalhei na Cornucópia, atrizes, atores, o Luís Miguel Cintra, a Cristina Reis e outras pessoas que não eram atores nem atrizes, mas que trabalhavam na companhia e que me eram muito queridos. A Linda Teixeira, a Amália, que era secretária, os técnicos que faziam os cenários, era mesmo uma família e era uma altura em que havia tempo para se trabalhar e o tempo implica cruzamento de ideias, de opiniões e aquilo que fazíamos tínhamos tempo para o criar. Como quem faz uma coisa em barro, pode ser feita em cinco minutos ou em cinco dias.

[um excerto de “A Criada Zerlina”:]

Ou fazer-destruir, fazer-destruir.
Precisamente. E era esse tempo que era precioso para o processo criativo. Agora o processo criativo não tem esse tempo, por isso é que a Cornucópia também já não existe, a Cornucópia existia como um espaço onde nos era permitido ter tempo para pensar, para cruzar ideias, para realmente, em conjunto, criarmos, todos. Agora já não há, isso não interessa, são quatro semanas para ensaiar e três semanas para estar em palco e acabou. Agora há sempre muitas coisas. Esse privilégio que tive, ter vivido isso, deu-me uma bagagem, uma experiência, no sentido em que agora sinto que posso fazer tudo. Posso fazer televisão que são textos e textos para o dia a seguir, ou posso trabalhar com o John Romão ou posso fazer a Zerlina. Essa foi a grande escola. E depois também o Ricardo Pais e o Nuno Carinhas no São João, a Emília Silvestre, no Porto, outras pessoas que me são muito queridas e que realmente fazem a vida da pessoa, fazem a minha bagagem e fazem parte da minha bagagem.

E, entretanto, o mundo mudou, foi isso?
O mundo mudou, em muito pouco tempo.

E o teatro não mudou bem com ele?
O teatro tem que ser feito de outra forma, se é que o queremos continuar a fazer, tem que ser feito de outra forma, há muitas companhias onde já não se consegue ensaiar à tarde porque os atores estão todos na televisão e só têm tempo/espaço à noite, os salários de teatro não dão para se viver condignamente, é muito difícil, mesmo uma pessoa sozinha que não tenha encargos é muito difícil viver de um salário de teatro, portanto temos que fazer outras coisas e tem que ser tudo muito mais depressa. E o tempo é diferente do que já foi, quando se diz que um espectáculo tem uma hora e meia é logo “epá, isso é muito grande, muito longo”. Duas horas sentado? Não pode ser. É preciso disponibilidade, claro, também sou público, sei muito bem que é preciso ter disponibilidade, mas é tão bom encontrar dentro de nós essa disponibilidade e usufruir de alguma coisa. E não só no teatro, vou muito mais rapidamente ver um concerto ou uma ópera do que teatro, peço aos meus colegas que me desculpem, mas é esta a verdade. E desde que a Cornucópia fechou definitivamente foi muito difícil voltar a ser público, fiquei muito triste, muito magoada, muito revoltada, muitas coisas ao mesmo tempo e tive que fazer o luto. Pronto, esse luto já passou e agora voltei a ver, a ser espectadora. A arte tem que nos transformar e para nos transformar temos que estar a pensar com a arte, quando vemos um quadro e uma fotografia, aquilo tem impacto e é para isso que temos que estar disponíveis. Até para ver um filme qualquer no sofá.

Daqueles que não interessam nada.
Esses mesmo.

É terapia?
É um bocadinho terapia, é. Como é nadar no mar, tive uma infância perto do mar, com primos, pescadores de Sesimbra. No fundo, gosto de estar ao ar livre e se calhar é a minha meditação, é talvez a minha forma de me limpar, de limpar o caixote do lixo diário. Há sempre qualquer coisa entre natureza, campo e água. Há outras coisas engraçadas: gosto muito de fazer croché e tricô, adoro, gosto muito de costurar, também e tenho sempre muito pouco tempo para isso.

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