Mais militares portugueses na República Centro Africana? “Seríamos uns sortudos” /premium

06 Dezembro 2018162

Parfait Onanga-Anyanga, responsável da ONU pela República Centro Africana, admite que o conflito se arraste por mais dez anos. Ter mais homens no terreno "faria a diferença".

Parfait Onanga-Anyanga sabe do que fala quando diz que a população centro-africana “já sofreu demasiado”. Durante quase uma hora, o representante da missão de paz das Nações Unidas descreveu ao Observador as fragilidades políticas, sociais e económicas daquele que é um dos países mais frágeis do mundo. E deixa uma sonoro alerta: “O momento para a comunidade internacional investir decisivamente na República Centro Africana é agora.”

Portugal tem mais de uma centena de militares da força de paraquedistas do Exército destacados no país — além dos militares destacados na missão da União Europeia para treino das Forças Armadas centro-africanas, cuja missão, conforme foi anunciado esta quarta-feira, será prolongada até julho de 2019 e liderada pelo brigadeiro-general Hermínio Maio durante mais seis meses do que o previsto.

Enquanto Força de Reação Rápida, os paraquedistas são o braço-direito do comandante da missão de paz na resposta a ataques de grupos armados que ameaçam a população. Tal como os Comandos fizeram durante um ano antes deles, têm dado um contributo ímpar para a estabilização social. Parfait Onanga-Anyanga reconhece que “há profissionalismo, há um treino incrível, há uma vantagem tecnológica e estratégica das forças no terreno”. E vê vantagens num reforço da participação destes militares vindos de forças especiais portuguesas ou de países com capacidades “semelhantes”.

O responsável das Nações Unidas pela missão na República Centro Africana admite que o conflito está para durar pelo menos mais dez anos, mas também sublinha que aquele não pode ser o palco para confrontos diplomáticos entre os países que se comprometeram a contribuir para a paz na região — um recado para o papel militar e económico que a Rússia tem assumido no país

Depois de quatro anos da Missão Multinacional Integrada de Estabilização na República Centro Africana (MINUSCA) e de dois anos como responsável na ONU, o que considera ser mais difícil na atual situação do país?
O continuar da violência. Os grupos armados continuam ativos em combates mortíferos por diferentes razões. A principal é que continuam a competir pelo controlo e acesso a minas ilegais e lucrativas. Tudo isto feito à custa da população. Essa é uma grande frustração e isto é cíclico. Estamos a entrar agora na época mais mortífera, a época seca, que marca também o início da transumância.

Em termos militares, por que é a época mais mortífera? Porque é mais fácil movimentar tropas?
Exatamente. A República Centro Africana é um país enorme, tão grande quanto França e Bélgica juntas. Mas tem zero infraestruturas, zero estradas.

Fora de Bangui?
Mesmo em Bangui vemos o estado [degradado] das estradas. Isso significa que o país fica dividido em duas partes durante a época das chuvas. Durante nove meses, é praticamente impossível passar de um lado para o outro e, por isso, toda a gente está de certa forma à espera, a preparar-se para a época em que é mais fácil movimentar-se de mota ou de jipe. Ainda que este ano tenha sido uma exceção, porque mesmo durante o período das chuvas houve situações de violência, o que se revelou difícil para nós. Isto vai continuar, enquanto não houver um compromisso claro da parte destes grupos armados para acabar com a violência — quando e se houver um compromisso para firmar um acordo de paz e estes grupos aceitarem depor as armas e assinar uma resolução pacífica da crise.

Estes grupos deveriam ser integrados no sistema político da República Centro Africana como moeda de troca para deporem as armas?
Essa não é a questão. Até podíamos pensar que estes grupos têm sérias preocupações políticas, mas não é esse o caso. Todas as preocupações que eles revelaram ao Governo, cada um desses 104 grupos, estão a ser atendidas. Mesmo que consideremos a pobreza e a marginalização como causa para o conflito na República Centro Africana, a verdade é que não há uma única região que seja “desenvolvida”. Então, toda e qualquer região do país deve estar em conflito? E porque é que as pessoas na região nordeste do país querem lutar umas com as outras? Isso é um problema. O subdesenvolvimento e a marginalização económica não devem ser uma justificação para a guerra. Isso levou os líderes a pensar que a verdadeira razão do conflito é o combate pelo controlo das explorações mineiras. Na República Centro Africana, a violência coloca estes grupos armados uns contra os outros, não é uma guerra das forças regulares contra os grupos armados, como se vê noutros países. Como o Estado não está presente, é-lhe difícil estar na linha da frente e lidar com estes grupos. Esta é a grande preocupação na República Centro Africana. Será um longo processo.

E sempre um processo militar, mais do que político?
Os grupos armados são bem vindos na luta política.

E isso é exequível?
Essa é uma questão diferente, mas eles são bem vindos. O único pressuposto constitucional é o de que tenham de mudar de nome. Não podem formar um partido com a mesma denominação, é a única restrição que têm. Claro que terão de depor as armas.

"Nem toda a gente será enviada para a prisão. Aqueles que forem considerados os principais criminosos serão entregues à Justiça"

Nessa integração política, deve passar-se uma página em branco sobre os crimes praticados por estes grupos?
Não, essa é outra história. Agora já não podem ter direito a uma página em branco. Quando se olha para o que aconteceu na República Centro Africana, o país passou por três amnistias e, de cada vez que houve uma amnistia, a violência ficou mais forte. Desta vez, as pessoas já perceberam que isto não pode continuar. Foram feitas consultas à população, antes do Fórum de Bangui, em 2015. E nesse encontro ficou decidido que já basta, que pretendiam criar um tribunal criminal especial. Quando este Governo assumiu funções, a Constituição já tinha sido votada e a decisão para criar um tribunal criminal especial já tinha sido aprovada. Este presidente não teve qualquer liberdade para conceder uma amnistia, todos os atores envolvidos no processo de paz da República Centro Africana sabem-no. Quando o secretário-geral das Nações Unidas visitou a RCA, ele próprio foi ao Parlamento e, tendo constatado a miséria noutros países, falou do púlpito do Parlamento para dizer que não pode haver qualquer impunidade na República Centro Africana, porque a impunidade tem potenciado a violência neste país desde sempre. O facto de os grupos armados saberem que, desta vez, não haverá qualquer página em branco vai dificultar o processo de paz. Como sabem que não há saída, o que lhe resta? Quais são os incentivos? Recordem-se de que a maior parte da violência é motivada por questões económicas. Quando se percebe que estas pessoas tiveram acesso a 27 milhões de dólares desde 2013, uma pessoa questiona-se sobre que tipo de incentivo se lhes pode dar para que adiram  a um processo político.

E que incentivos pode a República Centro Africana dar-lhes?
Um dos incentivos é dizer a quem está ligado a estas atividades criminosas que podem passar de senhores da guerra a senhorios.

Depois de ajustarem contas com a Justiça.
Depois de ajustarem contas. Mas, especialmente, alguns dos que podem não estar tão comprometidos [com os crimes cometidos]. Esta questão está muito ligada ao tema da justiça de transição. No discurso, precisamos de dizer que nem toda a gente será enviada para a prisão. Aqueles que forem considerados os principais criminosos serão entregues à Justiça.

“Seria uma sorte” contar com mais militares com a preparação das forças portuguesas

Na sua passagem por Lisboa, esteve presente numa conferência na Universidade Autónoma de Lisboa sobre resolução de conflitos e reparei que chegou a ir a uma apresentação em que se falava no recurso à compaixão no processo de transição. Retirou alguma mais-valia dessa intervenção ou considera que esse é um cenário demasiado idealista tendo em conta o contexto da República Centro Africana?
Francamente, creio que não é idealista. Penso que é inovador, porque temos de encarar a República Centro Africana como um local carregado de trauma. O trauma é enorme naquele país e, por isso, a não ser que os centro-africanos aprendam a encarar-se como filhas e filhos de uma mesma nação que cometeu erros, mas que tiveram de conceder uns aos outros uma segunda hipótese para viver juntos e de aprender o significado de compaixão, porque vão viver juntos durante muitos anos,  é difícil imaginar uma paz duradoura neste país. E isso não significa conceder amnistia. Não é isso. Podemos sentir compaixão por alguém que tenha de cumprir uma pena de prisão porque a pessoa terá de aceitar — como aconteceu na Colômbia — o mal que fez à sociedade. Por isso, terão de pagar algum preço. À exceção daqueles que cometeram grandes crimes, ou crimes contra a humanidade, nem todos os que cometeram erros terão de ir parar à prisão. Tudo isto tem de ser tomado em consideração, mas ninguém deve alimentar a esperança de que lhe seja concedida uma amnistia.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

À margem deste processo político há uma ação militar em curso. Dos cerca de 10 mil militares na República Centro Africana, 159 são portugueses da Força de Reação Rápida da MINUSCA. Portugal e a União Europeia deviam reforçar a presença militar no país?
O momento para a comunidade internacional investir decisivamente na RCA é agora. Devemos fazê-lo agora porque, pela primeira vez, a RCA vê um alinhar de três grandes desenvolvimentos positivos. O primeiro é a democracia. As pessoas quiseram mudar e houve pessoas que morreram apenas para votar a nova constituição. Não foi sequer para escolher um líder. As pessoas votaram literalmente com balas a passar-lhes por cima da cabeça. Houve quem morresse nesse dia, mas mesmo assim as pessoas quiseram votar porque queriam a mudança, queriam transformar a sociedade através do boletim de voto.

Falou em três desenvolvimentos. O primeiro é a democracia. Quais são os outros dois?
A República Centro Africana desenhou aquilo que se chamou de plano estratégico de recuperação, com a ajuda da comunidade internacional, que decidiu financiar esse programa em novembro de 2016. Os valores ascenderam a 2,3 mil milhões de dólares e metade desse valor foi dado para ajudar a construir infraestruturas socioeconómicas, entre as quais estradas e pontes, para mostrar às pessoas que com a paz podem vir alguns dividendos. Claro que é um processo contínuo, mas também lento porque a insegurança persiste e porque há uma capacidade muito limitada do país para implementar um programa tão ambicioso. O apoio internacional à República Centro Africana nunca foi tão grande como é agora.

E o terceiro ponto?
Através de uma decisão do Conselho de Segurança das Nações Unidas para destacar uma missão de manutenção de paz na RCA, a comunidade internacional proporcionou ao país aquilo que faltava há muito tempo: atribuir ao Estado força legítima. Isto nunca existiu. As Forças Armadas na República Centro Africana limitavam-se a proteger um líder e a sua tribo. Agora, com a presença da comunidade internacional, foi possível fazer uma reforma completa do setor da segurança, através da missão de treino da União Europeia — liderados por um general português muito capacitado, Hermínio Maio. Isto permite-nos acreditar que, se continuarmos nesta linha, haverá problemas, mas também progressos. Os progressos não se farão numa linha reta — vai ser como os dentes de uma serra de cortar [altos e baixos]. Mas será uma linha ascendente. Teremos de ser pacientes, mas empenhados.

Mas acha que deveria haver mais botas no terreno, inclusive de Portugal?
Nós vimos a diferença operacional e estratégica que os portugueses fizeram no terreno. Desenvolveram o maior número de operações no terreno — 14, ao todo — e foram os primeiros a responder em qualquer que fosse a situação. Limpavam o terreno para os que vinham a seguir, sem nunca sofrer baixas. Estive a trocar [palavras] com o responsável da Defesa e, sim, há profissionalismo, há um treino incrível, há uma vantagem tecnológica e estratégica das forças no terreno. Estamos a falar, por exemplo, de visão noturna — eles podem fazer missões de dia e de noite, o que é decisivo. É por isso que acreditamos que seríamos uns sortudos se tivéssemos mais capacidades semelhantes — e muitas nações estão equipadas desta forma —, isso faria definitivamente uma diferença.

Se investirmos agora, podemos encurtar o tempo durante o qual teremos de lidar com estas forças [de grupos armados]. Por mais que lamente e preste uma homenagem sincera aos soldados que perdemos neste país — mais de 60 desde que a ONU está no terreno, o que é um número considerável — a minha avaliação é que estes rebeldes não são assim tão aterrorizantes. Se estivéssemos numa guerra clássica, teríamos o poder de fogo para lidar com eles. Mas a questão é que, numa ação de manutenção de paz, não estamos lá para fazer a guerra, estamos para criar condições [para a paz]. Por isso é que o secretário-geral António Guterres convocou uma reunião a 27 de setembro em Nova Iorque [sede da ONU] para falar da República Centro Africana. Juntou-se o Presidente Touadéra, os ministros dos países-membros do Conselho [de Segurança] e os países que contribuem para a missão naquele país. E ali foi decidido que haveria apenas uma frente política — a Iniciativa Africana para a Paz e Reconciliação da República Centro Africana — e decidiu-se que a MINUSCA seria representada nesse painel por mim. É isto que temos tentado fazer para promover o processo político porque não queremos dar às forças no terreno qualquer desculpa para dizer que, como não há qualquer processo político em curso, podem combater, uma vez que as suas exigências políticas não foram correspondidas. Estamos a fazer tudo o que é possível para recuperar essa intervenção política e, a partir daí, devemos reduzir a intenção dos atores para continuar com esta violência horrível que tem enraivecido tanta gente.

Fez referência à sorte que teríamos se houvesse possibilidade de ter mais militares bem preparados no terreno. Tanto quanto posso ver, cabe à ONU fazer o pedido de reforço de forças.  Abordou essa questão na conversa que manteve com o ministro da Defesa português?
Estamos satisfeitos pelo facto de Portugal continuar comprometido e estar a aumentar a sua capacidade no terreno no que toca a equipamento e capacidades das suas tropas.

Mas não aumenta o número de homens no terreno.
Absolutamente, equipamento e meios. Isto são boas notícias. E é óbvio que é do interesse de Portugal que outras forças igualmente bem equipadas e treinadas estejam no terreno. A determinado momento, houve a esperança de que o Brasil se comprometesse com a missão, mas em cima do acontecimento isso não pôde concretizar-se. A porta continua aberta. Para compensar a ausência dos militares brasileiros, o meu colega Jean Pierre Lacroix, que é a pessoa responsável por encontrar estas capacidades, conseguiu o compromisso de forças nepalesas e ruandesas de combate. E esta clarificação é importante: trata-se de forças de combate, destacadas para executar operações. O equipamento chegou agora, ainda nos faltam 250 homens e em meados de dezembro estes militares vão ajudar-nos a fazer a diferença. Mas quero ser claro: não é intenção do secretário-geral das Nações Unidas, do Conselho de Segurança ou da missão avançar para uma guerra na República Centro Africana, porque não podemos, como missão de paz, tornar-nos parte do conflito. Mantemo-nos fiéis aos princípios da manutenção da paz.

"O compromisso atual de Portugal com a República Centro Africana está ligado ao mandato da missão e o mandato da missão vai ser renovado em dezembro. Aqueles que estão envolvidos na missão de paz vão continuar"

Está a evitar a questão sobre o envolvimento de mais militares portugueses?
De todo. Eu disse que seria do interesse de Portugal ter mais militares bem equipados e bem preparados no terreno para apoiá-los. Há uma clara divisão de tarefas. Eu recebo, não decido quem vem. O meu colega Lacroix é quem fala com os países-membros para garantir que temos os melhores. É sempre difícil fazer uma avaliação da força que temos no terreno, mas estamos a fazê-lo, a ONU tem de ser séria e temos critérios claros para avaliar a performance daqueles que estão no terreno. Quem está a ficar aquém do esperado tem de abandonar a missão, porque não podemos aceitar ter militares no terreno que não correspondem ao esperado. É um facto que nem todos os militares bem equipados e treinados podem participar em missões de manutenção de paz. É por isso que estamos tão gratos a Portugal. Não podemos dizer que Portugal tenha um interesse estratégico imediato na República Centro Africana além da nossa solidariedade internacional e da nossa humanidade comum. Mas não ignoremos que a República Centro Africana não é longe de lugares como os Camarões ou o Níger, onde o Boko Haram já tem influência.

Uma forma de manter o terrorismo longe da União Europeia passa por intervir nesses locais.
Não colocaria a questão nesses termos. O terrorismo internacional e o extremismo violento é uma preocupação internacional, não só dos europeus. As pessoas que morrem nos Camarões, na Nigéria, no Egipto ou noutros locais onde estas forças negativas estão ativas não são Europa, mas a Europa tem toda a legitimidade para estar preocupada com a possibilidade de, se estes grupos não forem reprimidos, a violência se expandir.

Para fechar o tópico da missão portuguesa na RCA, discutiu com o ministro a possibilidade de reforçar o efetivo?
Discutimos a necessidade de aqueles que estão envolvidos em missões de manutenção de paz — e este não é um problema para Portugal — estarem à altura da missão. Mas não é responsabilidade minha nem de Portugal decidir quem vai. Esse compromisso é um terreno aberto para todos aqueles que têm capacidades para se voluntariar.

Foi considerada a extensão da presença de Portugal para lá de 2019?
Talvez seja cedo. O compromisso atual de Portugal está ligado ao mandato da missão e o mandato da missão vai ser renovado em dezembro. Aqueles que estão envolvidos na missão de paz vão continuar.

O atual destacamento de forças paraquedistas prolonga-se até março.
Exato, e em março haverá uma renovação.

Haverá uma renovação?
Sim, está em curso.

“Se a postura dos militares da ONU fosse mais forte, os grupos armados pensariam duas vezes antes de nos atacarem”

Houve recentemente algumas manifestações momentâneas contra a presença portuguesa no país…
Deixe-me colocar as coisas nestes termos: só aqueles que não fazem nada escapam à crítica.

Mas houve acusações de violações de direitos humanos.
Isso é um disparate.

Essas acusações não têm sustentação?
É um disparate total. Nós respondemos em auto-defesa. E fui muito claro com todos os meus interlocutores na República Centro Africana — disse aos pais e às mães e grupos que conheci para dizerem aos filhos: “Não devem nunca atacar uma missão de manutenção de paz, porque eles não estão lá para morrer, estão lá para proteger a população vulnerável, para proteger as instituições democráticas e para facilitar a assistência humanitária e protegê-la. Não estão lá para morrer”. São profissionais e, por isso, ao mesmo tempo que respeitam as regras da missão, se alguém disparar contra os meus militares, eles vão responder. Fui muito claro e repeti-o de forma aberta. Neste momento, não tenho qualquer informação sobre violações de direitos humanos cometidas pelos meus militares. Eles têm de proteger-se. O relatório do antigo general brasileiro Carlos dos Santos Cruz é muito claro ao dizer que a nossa postura tem de ser forte, porque o secretário-geral estava preocupado com o número crescente de baixas. A bandeira azul já não protege os meus elementos.

Tornou-se um alvo, em alguns casos.
E esse não é o objetivo, não vamos para países onde há pessoas a morrer para morrermos nós também. Infelizmente, alguns dos nossos militares morreram. Se fossemos mais fortes, em termos de postura, estas pessoas pensariam duas vezes antes de nos atacarem.

Está a dizer que é uma questão de perceção errada por parte da população ou há interesses escondidos que explicam a manifestação contra a presença portuguesa no país?
Não é o povo, são grupos armados. É a UPC [União para a Paz na RCA, um grupo armado que opera, sobretudo, na zona da capital], uma organização assassina que dispara contra nós e que, se respondermos, vai chorar e dizer que cometemos abusos. Isto é um disparate.

Desde que começou a sua missão, foi muito ativo na condenação de abusos sexuais por parte de capacetes azuis. Mas esses casos continuam a acontecer, há relatos recentes de violações. A existência de novos casos é resultado de uma incapacidade da ONU para lidar com estas situações?
Não. Há duas questões. Uma tem que ver com o número: 13 mil militares. Estamos a falar de 0,001%.

"Estamos a lidar com seres humanos. Por isso, haverá sempre quem cometa maldades. O importante para a MINUSCA é que os casos de abusos sexuais por capacetes azuis já não são um assunto tabu. É uma luta pública que travamos contra o abuso sexual"

É 0,001% a mais.
Concordo. O meu objetivo são zero casos, zero ocorrências. Estou a mencionar as estatísticas porque, se compararmos o que se passa hoje com o que aconteceu antes, é o dia e a noite. O que significa que fomos eficazes ao tornar claro para todos os contingentes que não haverá qualquer tolerância com abusos destes. Isso é muito claro. A realidade é que nem todos as tropas estão igualmente preparadas para fazer manutenção de paz. Alguns são estreantes. Neste momento, vamos aos países ainda antes de destacarmos militares, para tornar o combate à exploração sexual e aos abusos parte do treino. Mas, no final, a ideia é a de que estamos a lidar com seres humanos. Por isso, haverá sempre quem cometa maldades. O importante para a MINUSCA é que este já não é um assunto tabu. É uma luta pública que travamos contra o abuso sexual e que expandimos a toda a comunidade na RCA. Juntamente com as organizações que trabalham no terreno — porque este não é um problema exclusivo da ONU —, assinámos um protocolo de partilha de informação sobre estes abusos, para podermos combatê-los assim que acontecem. Estamos a adotar as medidas mais duras que é possível, expulsámos contingentes, mandámos embora quem comete abusos e eles foram levados à justiça nos seus países. Os estados-membros sabem que, desde a adoção da resolução 2262, a mão do secretário-geral está mais pesada. Os contingentes sabem que, se no final do processo não colaborarem, a porta de saída é-lhes apresentada e que não voltarão a participar em missões de manutenção de paz. Estamos a fazer tudo o que é possível.

Acabar com a guerra na República Centro Africana será um esforço para os “próximos dez anos”

É cedo para dizer quando será o fim da missão da MINUSCA?
Sim, é cedo. Gosto da questão, porque nos recorda de que tem de haver uma conclusão. Na MINUSCA, trabalhamos com a clara estratégia de saída em mente. É por isso que, em tudo o que fazemos, pomos um esforço concreto no reforço do poder do Estado. No final do dia, eles terão de ficar responsáveis.

Esse final está mais perto do que estava há quatro anos? Consegue encontrar uma evolução política e maior estabilidade no país, em comparação com o início da missão na República Centro Africana?
Não me esqueço do número de pessoas que continuam a morrer — e isso não é aceitável. Mas temos um processo em curso, temos um início de regresso da autoridade do Estado. Os presidentes de câmara estavam todos em Bangui e estão a regressar às suas localidades, estamos a enviar polícia. O que estamos a fazer na República Centro Africana é reconstruir um Estado e é por isso que é tão difícil. A minha mensagem para a comunidade internacional é a de que, tendo consciência daquilo que estamos a fazer, deixem-nos fazê-lo bem. Não sejamos contidos no investimento. Façamo-lo agora para podermos deixar um verdadeiro legado. Mas, tendo em conta os enormes desafios que este país enfrenta, haverá sempre algum tipo de violência e criminalidade. mas temos de garantir que a sociedade tem as ferramentas para prevenir a violência. Uma das maiores preocupações é a capacidade da República Centro Africana para pôr em prática mecanismos de gestão de conflitos numa sociedade em que haverá sempre conflito. Como não esperamos que a República Centro Africana se transforme em Portugal já amanhã, haverá corrupção no Exército, por exemplo. O Governo tem feito um esforço incrível para comprometer-se com a Justiça. É aqui que vejo a esperança. Mas não nos iludamos: será preciso um compromisso de todos nós nos próximos dez anos.

Dez anos, é essa a sua previsão?
Se queremos cumprir bem a missão, temos de concordar que não será uma solução rápida.

Estará por cá nesses dez anos?
Não, eu vou sair.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Rússia é um problema? “Seria uma pena se minássemos uma nação já de si fraca por termos desentendimentos”

Há pouco disse que o apoio internacional nunca foi tão forte como agora.
Ainda que deva acrescentar que podia ser mais forte. Podíamos fazer melhor.

Uma parte desse apoio internacional veio, surpreendentemente, da Rússia. Em setembro de 2017, a Rússia bloqueou o envio de armas para a República Centro Africana pela França, através de um veto no Conselho de Segurança. Mas, em janeiro deste ano, Moscovo estava a entregar as suas próprias armas no país e, mais tarde, destacou tropas para a República Centro Africana. Agora, tem duas bases militares e as empresas russas têm investido no país, sobretudo na indústria mineira. Por que acha que a Rússia mudou de ideias tão rapidamente? É algo que o preocupe?
A Rússia é um importante membro do Conselho de Segurança, é um membro permanente, e não foi para a República Centro Africana sem a aprovação do Conselho de Segurança. São factos importantes para termos em mente. E houve um pedido da Missão de Treino da União Europeia para que se fosse lançado um alerta geral com a ideia de que os militares europeus estavam a treinar três batalhões de militares centro-africanos e que, se não lhes fossem entregues armas, teriam estado a desperdiçar o tempo e não estariam a ajudar o país. Este pedido foi feito pela UE. O Presidente da República deu a volta ao mundo para pedir que alguém o ajudasse a obter essas armas.

Rússia incluída?
Não necessariamente. Mas a República Centro Afriana é um país sob embargo e a decisão de entregar-lhe armas tem de ser aprovada pelo Conselho de Segurança. O Conselho considerou que havia condições para que a Federação Russa pudesse entregar armas à República Centro Africana. As circunstâncias em que isto aconteceu foram resultado de um acordo bilateral entre a República Centro Africana e o Governo russo. No terreno, temos garantido que a entrega desses bens cumprem os procedimentos estabelecidos pelo Conselho de Segurança, nomeadamente que são feitos de forma transparente. Há estas duas questões: o acordo alcançado pelo Conselho de Segurança e o acordo bilateral entre os dois países. Como responsável da ONU, a minha missão é verificar se o a entrega autorizada de armas é consistente com as normas.

A questão é que a Rússia não está apenas envolvida na vertente militar, está também envolvida na economia.
Daí a minha referência ao acordo bilateral.

Mas como qualquer outro país com a dimensão da Rússia, a Rússia não aceitaria um acordo bilateral desse género sem garantir os seus interesses. Preocupa-o que, depois de a guerra ter terminado, a economia centro-africana esteja demasiado dependente da Rússia?
Entre nós, esse é um problema para os centro-africanos. Enquanto Nações Unidas, não nos intrometemos nas questões entre Estados-membros, isso é entre os Estados, é do seu domínio reservado. Aquilo que temos dito publicamente é que a República Centro Africana é uma nação fraca, uma nação frágil e que o que nos permitiu ter sucesso foi a unidade do Estado-membro, incluindo no Conselho de Segurança. A comunidade internacional não se deve expor a uma situação em que os atores-chave neste acordo estejam em desacordo sobre a República Centro Africana, porque aí estaríamos a enfraquecer o país. E a República Centro Africana não pode dar-se ao luxo de ter estes atores principais em desacordo quanto ao seu futuro.

Acabou de descrever a situação na Síria.
Deixem-me ser honesto. Estas são conversas que estão a acontecer na República Centro Africana entre os Estados-membros, em que uns dizem aos outros: “Tenhamos os nossos desentendimentos noutro lado qualquer, mas não aqui”. Isto é crítico. É por isso que quando a Federação Russa intervém em processos políticos é recordada por todos, incluindo pela União Africana, de que isso não deve acontecer ali. Devemos ter apenas um interlocutor, sob a Iniciativa Africana, e foi isto que ficou decidido a 27 de novembro em Nova Iorque. O meu ponto é o de que os Estados-membros têm o direito de enveredar por acordos bilaterais mas seria uma pena se minássemos uma nação já de si fraca por termos desentendimentos.

"Foi muito importante Marcelo Rebelo de Sousa ter ido à República Centro Africana. Qualquer visita a uma nação em conflito é de uma importância gigantesca porque diz àquele país e àquelas pessoas que não foram abandonados"

Na apresentação que fez na conferência da Universidade Autónoma de Lisboa, disse que era necessário um “momento Mandela” na República Centro Africana. O que é possível fazer quando não há nenhum Mandela? Ou será que conseguiu encontrar um “Mandela” lá?
É por isso que estamos lá e é por isso que devemos manter-nos comprometidos e dispostos a dar todo o apoio a este país. Eu estou na RCA todos os dias e tenho dito publicamente que, realisticamente, na República Centro Africana tiveram muito sorte de ter o Presidente [Faustin-Archance] Touadéra. Fui criticado por dizê-lo, mas insisto: temos um homem que não é um senhor da guerra, não está à procura de mais sangue, está a tentar diminuir as distâncias e a construir um diálogo que permita avançar. Não é uma contribuição menor para o processo de paz no país. Agora, o país tem fraquezas estruturais que são resultado de 60 anos de uma governação pobre e não podem ser resolvidas do dia para a noite. É por isso que estamos lá e foi por isso que disse ao Presidente Marcelo Rebelo de Sousa que foi muito importante ele ter ido à República Centro Africana. Qualquer visita a uma nação em conflito é [de uma importância] gigantesca porque diz àquele país e àquelas pessoas que não estão sozinhos, que não foram abandonados. E que tenham coragem porque, no final do dia, vão ter o próprio destino nas mãos e se estiverem comprometidos e fizerem sacrifícios vão conseguir.

É um processo, mas vai demorar tempo. Foi assim com Nelson Mandela, precisou de algumas décadas para conseguir resultados. Talvez seja esse o paralelismo.
Absolutamente. E podemos não ter Mandela, mas podemo-nos inspirar pelo que ele fez. Não será fácil. Eu disse sempre ao centro-africanos e à comunidade internacional que vai demorar. Não quero parafrasear outra figura histórica, mas vão ser necessárias lágrimas e suor…

E sangue?
Eu digo que espero que não seja necessário mais sangue, porque o país já sofreu demasiado. Temos de trabalhar mais, vai ser doloroso, mas talvez possamos salvar vidas e garantir uma paz duradoura. É esse o nosso compromisso, é a inspiração que recebemos dos centro-africanos todos os dias. Quando se vê o sofrimento desta nação e a sua capacidade para se levantarem, sacudirem o pó e continuar, percebemos que não há qualquer justificação para lhes falharmos.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: prainho@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)