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Andre Kosters/LUSA

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Mais uma voltinha no carrossel

Bruno Vieira Amaral antecipa os próximos dez meses de bola, depois do triunfo português no Europeu e a meio de uns Jogos Olímpicos. Que campeonato vamos ter, entre os pequenos e os grandes?

O início do campeonato nacional – eu sou do tempo em que se dizia “campeonato nacional” – normalmente apanha o adepto comum desprevenido numa esplanada em Armação de Pêra ou encostado a uma ventoinha eléctrica numa marquise de Odivelas a amaldiçoar o calor. As crianças comem farturas nas festas da terrinha, andam nos carrinhos de choque e nos carrosséis e dançam ao som dos sucessos eternos de José Malhoa. Os jogadores aparecem bronzeados, os treinadores aparecem bronzeados, os árbitros aparecem bronzeados, os emigrantes enchem os estádios e tudo decorre naquele ambiente meio amigável do Torneio Guadiana e dos jogos de apresentação aos sócios, com os adeptos mais entretidos a identificar os reforços do que a censurar-lhes os falhanços. Cheira a protector solar, a Mateus Rosé e a peixe grelhado. Este ano, para piorar a concentração na nova época futebolística, a selecção nacional ganhou o Europeu e os Jogos Olímpicos ainda vão a meio. Ou seja, não só há vontade de prolongar o doce sabor de uma inédita vitória nacional como também estamos num daqueles momentos raros que ocorrem de quatro em quatro anos em que o futebol parece um desporto de segunda mesmo quando comparado com as provas de tiro. Olhamos para os atletas olímpicos – qualquer um deles – e todos nos parecem em melhor condição física que o Eliseu. Até o Tsanko Arnaudov.

No entanto, sabemos que lá para finais de Setembro o odor inebriante do Verão terá desaparecido e com ele as recordações das proezas dos nossos canoístas, mesa-tenistas e judocas. Nessa altura, estaremos empenhados em discutir uma declaração bombástica de Bruno de Carvalho, uma birra de Raúl Jiménez ou os novos óculos de Nuno Espírito Santo. Como tal, nada melhor do que nos prepararmos para o que aí vem. Porque nos próximos dez meses estaremos naquele estado de obsessão absoluta em que as paragens para jogos da selecção serão um sacrifício quase intolerável.

Nos próximos dez meses estaremos naquele estado de obsessão absoluta em que as paragens para jogos da selecção serão um sacrifício quase intolerável.

Peseiro, o que o Braga viu nele?

HUGO DELGADO/LUSA

Comecemos pelo fim. Neste preciso momento não sei dizer quantas equipas vão disputar o campeonato, mas tenho uma certeza: são equipas a mais. Fico muito contente por o interior do país ganhar um novo representante – o mítico Desportivo de Chaves – mas uma competição que todas as semanas oferece espectáculos tão sensacionais como um Rio Ave-Tondela ou um Moreirense-Arouca é a melhor publicidade ao curling. Digo isto ao mesmo tempo que enalteço a gestão de clubes como o Rio Ave e sobretudo o Arouca. A equipa do excelente Lito Vidigal é uma interessante experiência periférica que tem tudo para daqui a duas décadas ser recordada com nostalgia pelos miúdos que hoje têm oito e nove anos e coleccionam os cromos da Panini. É um daqueles empreendimentos aparentemente sólidos e decentes que fazem falta ao futebol português embora se saiba que este tem uma preferência por figuras folclóricas como João Bartolomeu e o saudoso José António Linhares. São projectos razoáveis e equilibrados, mas que funcionam muito mal nas manchetes. O próprio treinador também se encaminha para um beco sem saída. Começa a ser demasiado apetecível para as equipas do meio da tabela, um Mourinho dos remediados, e isso pode desmotivar o interesse de um clube grande que, no futuro, esteja no mercado à procura de treinador. Lito Vidigal tem de dar o salto ou corre o risco de entrar num processo irreversível de vítor-urbanização.

Apesar das sombras, devemos saudar alguns regressos. O argelino Hassan Yebda vem espalhar o perfume robótico do seu futebol ali para os lados de Belém (certamente a pedido do Presidente Marcelo) e o montenegrino Simon Vukcevic vai espalhar o perfume da sua instabilidade emocional para Trás-os-Montes. Depois de uns meses nas catacumbas da II Liga, onde orientou o Feirense até à subida, mestre José Mota regressa ao chamado “convívio dos grandes”. Para a nova época, tratou logo de prometer pragmatismo e a enésima aplicação da variante duriense do catenaccio. O regresso mais inesperado terá sido o de José Peseiro – esse íman infalível de derrotas inexplicáveis – ao Braga. Depois de épocas em que disputou o título, nos últimos três anos o clube de António Salvador começou finalmente a ganhar troféus, um deles (a Taça da Liga) precisamente com Peseiro no comando. Os poucos meses no Porto vieram pôr em causa a narrativa de que as equipas do treinador de Coruche perdem mas praticam bom futebol. No Dragão, Peseiro jogou como nunca (para pior) e perdeu como habitualmente. Vejamos o que conseguirá fazer num clube que em Janeiro costuma mudar mais de metade do plantel.

E os grandes?

Por muito que se tente “vender” o campeonato nacional como uma liga globalmente atractiva, toda a gente sabe que a disputa que interessa é entre os três grandes. E se todos estão confrontados com desafios históricos, a pressão não será igual para os três.

Benfica
O desafio é conquistar um inédito tetracampeonato que já fugiu mais vezes ao Benfica do que Lindsay Lohan de clínicas de reabilitação.

Cervi, o novo argentino do Benfica

FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images

O Benfica é o que estará menos pressionado, não só por começar a época como tricampeão mas também por ter ganhado a Supertaça. Vivem-se tempos felizes no Seixal. O desafio é conquistar um inédito tetracampeonato que já fugiu mais vezes ao Benfica do que Lindsay Lohan de clínicas de reabilitação. Mas mais importante do que o tetra ao qual Vieira, Vitória e a Estrutura tentarão levar a equipa é saber se o Benfica entrou naquela espécie de inércia vitoriosa que, durante anos, manteve o Porto na rota dos títulos mesmo quando tinha ao leme Co Adriaanse, o ataque facturava com Janko e Jankauskas, o meio-campo absorvia forças negativas como um Mariano González e a robustez da defesa autorizava a presença de laterais de comédia e até de irrecuperáveis frangueiros. Por muito que o neguem, os benfiquistas interpretam o sucesso da época passada como um saboroso acidente, um milagre festivo suportado por uma série improvável e talvez irrepetível de milagres menores como a erupção oportuna de Renato Sanches ou as afortunadas lesões que obrigaram o treinador a apostar em Lindelöf e Ederson, jogadores que se revelaram melhores do que os colegas que substituíram. Ninguém sabe como é que aquilo aconteceu, mas suspeita-se que sem Jonas a história seria muito diferente. Este ano, há mais extremos no plantel do que figurantes em Os Dez Mandamentos e quase tão emocionante como observar os slaloms de Franco Cervi é ver Luís Filipe Vieira de mãos dadas com Jorge Mendes a serpentear pelos mercados procurando vender Talisca por 25 milhões de euros aos chineses, ao Wolverhampton ou a qualquer euro-milionário que não saiba o que fazer ao dinheiro. Mas, depois de uma época sobrenatural, nada disto abala a confiança dos adeptos. Se não jogar o Jardel, joga o Kalaica.

Sporting
O problema é que desta vez os adeptos dificilmente se contentarão com a distinção auto-atribuída do “melhor futebol” e também não aceitarão a desvalorização total das competições europeias, sobretudo porque este ano o Sporting entra directamente na Champions

João Mário, sai ou fica?

MIGUEL A. LOPES/EPA

O Sporting arranca a época no meio do transtorno emocional estatutariamente garantido num clube dirigido por Bruno de Carvalho e numa equipa treinada por Jorge Jesus. Até ao fecho do mercado de transferências haverá uma sensação permanente de se estar à beira do abismo com contagem de hora a hora de jogadores nos treinos, atletas autorizados a faltar a uma sessão “por motivos pessoais”, o pai de João Mário, o empresário de Slimani, cláusulas de rescisão de 300 milhões, revisões contratuais, amuos, zangas, psicodramas no bucólico centro de estágio de Alcochete. Depois, assim que a tormenta passar, a competência de Jesus, a qualidade dos seus melhores jogadores e o fervor messiânico à moda de Alvalade que o presidente consegue instilar nos adeptos deverão catapultar o Sporting para, uma vez mais, disputar o campeonato até ao fim. O problema é que desta vez os adeptos dificilmente se contentarão com a distinção auto-atribuída do “melhor futebol” e também não aceitarão a desvalorização total das competições europeias, sobretudo porque este ano o Sporting entra directamente na Champions. Já todos viram que Jesus é capaz de pôr a equipa a jogar como há muito não se via, agora querem que a ponha a ganhar como há muito não se vê. O desafio é claro: ganhar o campeonato. A questão é: com que jogadores? Com o mercado de transferências a fechar no final de Agosto, haverá incertezas até ao último minuto, mas não é provável que Jorge Jesus autorize a saída de mais de um dos jogadores considerados fundamentais. Se se concretizar uma venda milionária até é possível que o clube possa avançar para a contratação de um desses nomes sonantes que empolgam as bancadas (Mario Gómez, Podolski ou Van Persie) e esvaziam os cofres.

FC Porto
A emergência de André Silva foi em parte eclipsada pela contratação de Laurent Depoitre, um negócio que poderíamos classificar de “abracadabrante” – ou é um golpe de génio ou a maior burrada do século

Laurent Depoitre, reforço?

Dos três grandes, o Porto é o maior enigma, o que tem o maior desafio e o que parte com maior desvantagem. Os treinadores sucedem-se e os títulos continuam a escapar. Há notícia de conflitos internos, a outrora inexpugnável estrutura abre fendas por todos os lados, a luta pelo poder entre delfins legítimos e apregoados sucessores tem uma dimensão shakespeariana, acabaram-se as vendas ultra-milionárias e este ano até falta o engenho financeiro para uma compra de laboratório como a de Imbula. Pinto da Costa continua a ser o Papa, mas está mais para Bento XVI do que para Francisco. As grandes esperanças no reino do Dragão são, por assim dizer, dois produtos caseiros: o jovem André Silva e o regressado Nuno Espírito Santo. Quanto ao primeiro, há poucas dúvidas sobre a sua qualidade. Se mantiver o ritmo será o avançado titular da selecção nacional e, dependendo do que o Porto vier a fazer nas próximas Champions, poderá pulverizar o recorde doméstico de transferências. Porém, num sinal nítido de alguma desorientação inabitual, a emergência de André Silva foi em parte eclipsada pela contratação de Laurent Depoitre, um negócio que poderíamos classificar de “abracadabrante” – ou é um golpe de génio ou a maior burrada do século. O regresso de Nuno Espírito Santo também inspira alguma confiança, embora a sua nova postura quietista possa causar estranheza ao sector mais inflamável das bancadas que o recordava sobretudo pelo magnífico desempenho na conferência taliban do “Somos Porto!” O treinador sabe que quatro anos sem ganhar pevide não é Porto e que a fome do Dragão não pode ser saciada com taças. Como dizia há uns anos um famoso comentador portista este ano é “o campeonato ou nada.”

Let the games begin!

Bruno Vieira Amaral é crítico literário, tradutor, e autor do romance As Primeiras Coisas, vencedor do prémio José Saramago em 2015

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