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Manel Cruz: "Não posso ser o senhor perfeitinho, tenho de errar" /premium

Manel Cruz encontrou a paz, apostou na simplicidade e descobriu o prazer de tocar ao vivo. Prestes a lançar o primeiro álbum assinado com o nome próprio, eis o “gajo normal” que também é artista.

A entrevista estava marcada para o final da manhã no Stop, o mítico centro comercial inaugurado nos anos 80, em plena Rua do Heroísmo, que nas últimas décadas se transformou na sala de ensaios dos músicos do Porto. São muitas as portas ainda fechadas e é quase impossível adivinhar onde fica o estúdio em que Manel Cruz ensaia há 10 anos. Perguntámos ao senhor da receção que, depois de chamar o nome do músico bem alto, como uma mãe chama um filho para a mesa, lá nos indicou o caminho para uma sala desarrumada, como um bom estúdio deve ser. Está em remodelações para que se possa começar a ensaiar Vida Nova, o disco que chega a 5 de abril e cujas canções, tocadas por António Serginho (percussão, piano e xilofone), Eduardo Silva (baixo e voz) e Nico Tricot (piano) sobem ao palco da Casa da Música, a 28 de abril, e do Capitólio, a 1 maio.

No meio da confusão, dividida entre instrumentos, amplificadores, relíquias, presentes e muitos caixotes, saltam à vista uma árvore verdadeira, vinda de Vale de Cambra para a decoração, e a mezzanine em madeira que Manel mandou construir para quebrar a disposição de um estúdio tradicional, para se sentir “mais em casa”. É aqui que o músico de 44 anos fala sobre tudo, sem reservas ou cerimónias, de perna cruzada e de cigarro na boca. Fala sobre o que o irrita e o diverte, do que o move e comove, dos jantares em família, do Porto onde cresceu, das experiências na cozinha e da paixão pelo desenho, pela poesia e pela música. É, aliás, a música que nos leva até ele. O seu primeiro álbum a solo — ou melhor, assinado com o nome próprio, é mais isso — é aguardado por muitos, assim como o seu regresso aos palcos após uma “depressão criativa”, da qual sobreviveu e se soube reinventar. Afinal, correm-lhe nas veias doses generosas de criatividade.

Tem mil e uma ideias, muita curiosidade no olhar e alguma pressa de viver. Continua inquieto, cerebral e fora da lei, mas perdeu o sentimento de culpa, a impulsividade, a insegurança e o medo de falhar, tanto no palco como na vida. Já não sente o peso da responsabilidade de um passado que lhe está tatuado para sempre, mas não foge dele, antes pelo contrário. Assume o deslumbramento adolescente, a falta de experiência e o fim da banda que com apenas dois álbuns fez história. Ornatos Violeta é sinónimo de Manel Cruz e isso não o chateia minimamente, embora tenha sido autor de outros projetos como Pluto, Supernada ou Foge Foge Bandido.

À semelhança dos gatos, Manel parece ter sete vidas e esta, que batizou de Vida Nova, parece ser mais leve, serena e consciente. A massada de peixe que fez para jantar com Rodrigo Amarante e a psicanálise que o músico brasileiro lhe deu à mesa com uma guitarra na mão fizeram-no ter vontade de simplificar as coisas, esquecer todos os rótulos redutores e concentrar-se apenas no que é essencial.

A entrevista termina e Manel “tem de pôr alguma coisa à boca”, por isso ataca um pacote de bolachas. Está “com pica”, ansioso por ir buscar o disco à editora Turbina, a dois passos dali, em Santa Catarina. Sim, as novas sonoridades do portuense vêm dentro de um livro de capa dura onde constam fotografias de pinturas do próprio, feitas nas paredes de uma casa em ruínas no centro do Porto. Cada intervenção representa um tema do disco, em que “Ainda Não Acabei”, “Beija-Flor”, “Cães e Ossos” e “O Navio Dela” já são singles.

[“Ainda Não Acabei”:]

Temos uma imagem tua como artista, mas sabemos pouco de ti enquanto homem. Fala-me das tuas origens e das tuas raízes.
Tenho dois irmãos mais velhos, o Marcos e a Marta, nasci em S. João da Madeira e vim com dois anos para o Porto, que passou a ser a minha cidade principal. Vim logo viver para a baixa e continuo a viver na mesma rua onde morava, tenho essa sorte. Depois dos legos e dos carrinhos, o meu primeiro gosto criativo acho que foi o desenho.

Lembras-te do teu primeiro desenho?
Tenho poucos guardados porque como desenhava mesmo muito, houve uma altura em que os meus pais deitaram tudo para o lixo e eu achei aquilo um crime. Fiz o meu primeiro desenho quanto tinha dois anos e estava zangado com a minha mãe, chamei-o “mamã nua por mal” e desenhei-a toda nua. Quando lhe dei aquilo em forma de contestação ela ficou aparentemente zangada, mas completamente enternecida e guardou-o para sempre. Na quarta classe, como não havia internet, os meus amigos pediam-me para fazer desenhos de mulheres nuas, era assim uma espécie de mercado negro. Os sites pornográficos naquela época era eu que os produzia, mas no papel.

Desenhavas com o quê?
Sempre com uma caneta Bic azul em papel costaneira, que trazia de casa dos meus avós. Uma vez um professor de trabalhos manuais disse-me para experimentar as canetas Rotring, eu nem sabia o que era. Lembro-me de isso ser um momento marcante na minha vida, de perceber que existiram outras ferramentas, que até ali não me interessavam, porque só me interessava desenhar. A minha cena era curtir com a criação. Fazia revistas para a família, cheguei a fazer umas exposições de pintura em S. João da Madeira e aos 13 anos fui para a Rua de Santa Catarina fazer caricaturas.

E corria bem?
Sim, corria muito bem. Os meus pais tinham muito orgulho nesta minha veia artística porque também estavam ligados à artes. A minha mãe dava aulas numa escola de arte e o pai começou a pintar aos trinta e tal anos, no fundo sabiam que eu não ia dar para mais nada. Em Santa Catarina fui metendo conversa com um aguarelista e umas pessoas que vendiam uns brincos e eles um dia perguntaram-me se eu não queria ia para lá vender também. O meu pai concordou, então levava-me à rua com uma mesinha e depois ia-me buscar lá ao fim do dia. Eles achavam-me graça por eu ser um puto, mas também porque tinha capacidade de fazer com que as coisas saíssem mesmo bem. Lembro-me que uma vez cheguei a ganhar 50€.

"Com o tempo vais crescendo e percebes que tens de te controlar, que o que fazes tem uma influência na forma como as pessoas estão contigo, mesmo que gostem de ti. Tornei-me uma pessoa muito mais ponderada a esse nível, tanto que o medo de ofender, magoar ou fazer alguma merda se tornou quase uma obsessão."

Essa veia artística é mesmo hereditária?
Por acaso os meus putos desenham muito, tenho três rapazes, o mais velho com 11 e os gémeos com 9 anos. Um dos gémeos desenha mais e é muito parecido comigo. Faz assim uns desenhos malucos, fica mesmo absorvido naquilo e mergulha no papel durante horas. Revejo-me completamente nele. Uma vez disse-me: “Oh pai sabes porque comecei a desenhar? Porque um dia vi-te a desenhar e achei que era divertido”. É o próprio ofício em si que te dá pica, que te dá gozo. Há uma magiazinha que acontece ali. É o próprio desenho que inspira a desenhar, é algo completamente viciante.

Eles também desenham mulheres nuas?
Sim, sim. Volta e meia apanho uns desenhos deles a mandar vir uns com os outros. Há um que diz para o irmão “vai-te fudir”, achei imensa piada ao erro.

Guardas os desenhos deles ou deitas fora como os teus pais?
Guardo tudo, tenho caixotes e caixotes daquilo.

Como era a vida no Porto quando fazias caricaturas em Santa Catarina?
Era uma cidade pacata, não muito diferente na essência do que é hoje. Vivíamos um tempo em que muitas coisas estavam a ser questionadas. Pensando na [Escola Artística] Soares dos Reis, onde estudei e existia uma mentalidade mais aberta, havia de tudo, dos góticos aos punks. Lembro-me de estarem à porta dois rapazes aos beijos e o porteiro levá-los ao conselho diretivo e dizer que eles estavam a fazer amor à porta da escola. Isto era uma realidade e é muito diferente do que se vive agora. Havia muito conservadorismo. Andares com umas calças rotas na rua era um choque, toda a gente olhava para ti. Se gostavas de uma banda X eras visto como um anormal porque gostavas disto ou daquilo, tinhas sempre um rótulo. Naquela altura ainda não tinha sido desmistificada a ideia de teres que tirar um curso superior para garantires o futuro, então havia essa questão da marginalidade, se não tinhas um curso era menos do que os outros. O “doutor” e o “engenheiro” eram palavras muito fortes, havia uma subserviência das próprias pessoas que acabavam por ser vítimas desses rótulos. Viva-se muito nessa sociedade conformada com essa mentalidade, era uma coisa tolhida.

Que tipo de miúdo eras?
Os meus irmãos eram bons alunos, interessados, com cabeças fixes, não eram aqueles gajos marrões. Eu não era bom aluno, passei sempre à tangente nas coisas todas, os professores na escola acabavam por ser um bocadinho benevolentes comigo porque percebiam que eu tinha um interesse pelo desenho. A minha mãe espantava-se muito com a minha facilidade em desenhar, mas eu tinha a noção aquilo não era um dom, era fruto do trabalho e que, por isso, devia haver mais gente no mundo a fazer o mesmo. Era mais possível e humano do que poderia parecer. Eu nasci com uma predisposição para a parte criativa, mas honestamente acho que desenhei tanto que criei uma ligação grande com esse código.

Em miúdo era muito impulsivo, ouvi sempre “não podes ser assim!” Tenho muitas imagens disso. O meu irmão chateava-me muito, porque era mais velho e gostava de me ver arreliado, então uma vez peguei numa faca e atirei-lhe. Já lhe rachei a cabeça, enfim, não pensava nas consequências, era o que tivesse mais à mão. Com o tempo vais crescendo e percebes que tens de te controlar, que o que fazes tem uma influência na forma como as pessoas estão contigo, mesmo que gostem de ti. Tornei-me uma pessoa muito mais ponderada a esse nível, tanto que o medo de ofender, magoar ou fazer alguma merda se tornou quase uma obsessão. Sou muito ponderado, mas não posso ser o senhor perfeitinho, tenho que errar. Um gajo anda nestes ajustes durante a vida até chegar a um ponto em que consegue ter a sua liberdade e a sua diversão, mas com a consciência do que é e do o que pode fazer.

A vida é curta para se chegar a esse equilíbrio?
É muito estranho porque quando te tornas um especialista, reformas-te. Isto no capítulo profissional, mas na vida também há isso.

Como te tornaste especialista na escrita?
O meu pai escrevia muita poesia, a minha irmã escrevia quadras para a família de Setúbal, sempre houve esta coisa muito desapoderada de colocar a criatividade ao serviço. Basicamente escrevia coisas para agradar ao meu pai, comecei por aí. Sei lá, havia muito esse deslumbramento autocentrado de descobrir a beleza das coisas e a maneira de passar aquilo que eu via e sentia era uma forma de aceitação em relação ao meu pai. Ele dizia que tudo o que eu fazia era uma maravilha.

"Alguém tatuar uma letra nossa ou dar o nome de uma música a um filho é uma coisa que te deixa sem palavras, melhor do que isto não podes ter. Não há quantidade nenhuma de discos que vendas que seja mais importante que isto."

Nunca te criticava?
Não e só mais tarde é que me apercebi disso. Houve uma vez em que ele estava a ver desenhos meus e passou lá um no meio que era de um amigo meu e ele elogiou, como todos os outros. Nesse momento pensei que se calhar estaria demasiado deslumbrado comigo relativamente aquilo que eu era capaz de fazer. Foi um entusiasta, deu-me muita força e ânimo, mas foi crítico quando fui para música.

Porquê?
Foi um desgosto para ele eu ter deixado o desenho, porque tinha muito orgulho naquilo. Eu na música não era nada, aquilo que eu fazia era uma mera diversão, estava a dar os primeiros passos e era muito tosco. No desenho já tinha muita solidez e ele via isso como uma segurança para o meu futuro. Foi um período um bocado duro.

Escrevias essencialmente poemas. Lembras-te do primeiro?
Sim, a minha mãe até o guardou e os meus amigos dos Ornatos riam-se muito com aquilo.

“É assim a vida
é assim a morte,
uns têm azar,
outros têm sorte”

Depois disso nunca mais consegui fazer algo tão esclarecedor e tão sucinto. Foi o meu primeiro poema que me lembro e se calhar não valia a pena fazer mais nada, porque resumi a vida ali.

Quando é que a música se entranhou em ti?
Sempre ouvi os vinis que haviam lá em casa, Sérgio Godinho, Fausto, Zeca Afonso, Chico Buarque, Ney Matogrosso, Beatles, Bruce Springsteen foi o meu irmão que comprou, The Cure era a minha irmã que ouvia, o meu pai era mais música clássica. Sei lá, ouvia as coisas que eles ouviam, era a banda sonora enquanto eu estava a desenhar. A música surgiu mais a sério na minha vida com os meus amigos. Quando estás com um monte de amigos e há a ideia de criar uma banda, vais para uma sala brincar a isso. Depois há um que faz uns acordes, faz-se uma letra e a partir daí tens o primeiro filho e ficas preso.

[“O Navio Dela”:]

Sabias tocar algum instrumento?
Não, nada. Conhecemo-nos todos na Soares dos Reis e na altura o Peixe ensinou-me uns acordes e eu fiquei na guitarra rítmica, mas ninguém cantava. A ideia era arranjar um cantor até porque eu achava que cantava mal. Gostava particularmente de cantar no carro com a minha mãe cante alentejano, porque ela é alentejana. Fazia as segundas vozes e o meu pai assobiava. Procurámos um vocalista, mas não encontrámos e então eu cheguei-me à frente.

Ao fim destes anos todos, tens noção do legado deixado pelos Ornatos Violeta?
Não é falsa humildade, mas nós não temos a noção da extensão desse fenómeno. Tivemos foi a consciência de que para as pessoas foi uma coisa mesmo muito importante, que não foi uma coisa normal, que não foi mais uma banda.

Porque é que não foram mais uma banda?
Só sinto isso pelo feedback que as pessoas me dão, se não corria o risco de estar a projetar uma coisa minha aos outros e a convencer-me que aquilo foi uma coisa espetacular. O retorno não tem que ver com as vendas de discos, mas sim com o que as pessoas dizem e sentem. Alguém tatuar uma letra nossa ou dar o nome de uma música a um filho é uma coisa que te deixa sem palavras, melhor do que isto não podes ter. Não há quantidade nenhuma de discos que vendas que seja mais importante que isto. Perceberes que o que fizeste teve uma influência nas pessoas, que ainda por cima foi boa e se propagou, mesmo com o fim da banda.

Isso não é um peso?
Não, é uma coisa mesmo fixe, porque isso já é responsabilidade das pessoas. Se houve uma altura em que eu pensava que isso era um peso, agora penso que tu dás e os outros fazem com isso o que eles quiserem. Se quiserem cagar em ti também não te pedem licença.

"Nos 10 ou 15 anos que se seguiram tive um complexo de culpa muito grande, dizia que não iria fazer mais nada. É quase aquela sensação de quando acabas uma relação lixada com alguém, estás completamente na merda pelo facto de teres deixado tudo chegar até aquele ponto, e começas a dizer que não queres mais nada com ninguém. Começas a pôr tudo no mesmo saco e radicalizas. Senti uma depressão mesmo profunda a nível de identidade."

Mas o fim dos Ornatos foi difícil.
Sim, foi uma espécie de eutanásia porque aquilo já estava a causar dor em nós. Éramos uns putos a lidar com um monte de coisas como banda e individualmente também, pois estávamos a definirmo-nos. A questão do dinheiro já estava a fazer parte da equação, tínhamos muita gente à nossa volta, a fama e o facto de ainda não termos a certeza que essa era uma parte abstrata e efémera, acabámos por valorizar demais essas coisas. Questões que deviam ser deixadas para a aleatoriedade estavam a afetar-nos.

Houve um deslumbramento?
Sim, inevitavelmente. Há uma tentação muito grande na fama, no sucesso e no dinheiro. Por mais que tu sejas forte e tenhas um objetivo, aquilo vai acabando por te dominar. Nem todos têm os mesmos objetivos, nem todos vimos do mesmo contexto social, nem todos temos a mesma educação ou a mesma perspetiva para o futuro. Quando não tens experiência e maturidade suficiente para dizer ‘não’ e impor limites, acabas por te violentar.

Foi uma boa decisão, portanto.
Sim, foi num momento em que as coisas já estavam mesmo feias e nós ainda íamos a tempo de salvar o essencial. Independente dos rancores que ficaram depois, das coisas mal resolvidas que foram sido superadas ao longo dos anos, entre nós ficou sempre uma irmandade. Somos maninhos e andamos à turra, mas quando estamos lixados, não é lixados, estamos é fodidos uns com os outros.

Essa rutura serenou-te de alguma forma?
Não, nada. Nos 10 ou 15 anos que se seguiram tive um complexo de culpa muito grande, dizia que não iria fazer mais nada. É quase aquela sensação de quando acabas uma relação lixada com alguém, estás completamente na merda pelo facto de teres deixado tudo chegar até aquele ponto, e começas a dizer que não queres mais nada com ninguém. Começas a pôr tudo no mesmo saco e radicalizas. Senti uma depressão mesmo profunda a nível de identidade. Refugiei-me um bocadinho no desenho, mas depois tive um amigo, o Rui Lacerda, que é um chato do carago, mas um chato maravilhoso, que me puxou logo para as bandas outra vez e em duas semanas já tinha os Pluto e os Supernada. De repente já estava metido noutra.

[“Cães e Ossos”:]

A esta distância, achas que esse vazio e esse silêncio foram necessários?
Sim, não sei se poderia ter sido mais fácil de outra maneira, mas também foi como foi. Tenho a consciência que não foi nada fácil para as pessoas que estavam comigo aturarem-me. Não era uma pessoa fácil. Tinha muito medo de tomar algumas decisões e jogava muito à defesa, era muito perentório em certas coisas que não queria fazer e sentia-me quase um extraterrestre que pousou na terra. Todas as bandas acabaram por perceber que era escaldanço de cenas passadas. Fazia muita questão de deixar claro que eu não estava ali para sempre, estava ali enquanto aquilo fosse fixe para mim. “Estamos aqui todos juntos enquanto isto for bom para todos nós, no momento em que alguém não estiver bem, em vez de tentar mudar os outros, que se ponha ao fresco.” Não tens de dizer isto, não tens que pôr as coisas num ultimato, isso vai condicionar o espírito do grupo e fazer com que as outras pessoas tenham alguma cerimónia a lidar contigo e até tenham medo de te dizer alguma coisa.

Sentias isso?
Sim. Às vezes vinham falar comigo e partiam do princípio que eu era um gajo complicado e esquisito. Eu pensava: “que merda, porque é que isto não é mais simples?”

Quando começaste a desenhar este disco?
O processo criativo começou há cerca de dois anos em que eu decidi: ou eu começo a fazer música de uma maneira profissional e volto à carga, ou deixo isto e passo a fazer música para curtir de vez enquanto, mas sem esse propósito de dar concertos. Tive essa vontade. Eu gosto muito do laboratório e de estar no estúdio, dar concertos não é uma coisa que goste tanto, mas pensei que tenho de ter um trabalho como toda a gente, tenho de ter uma fonte de rendimento e preciso de ter alguma estabilidade. Depois tenho um privilégio tremendo de poder trabalhar no que gosto, decidi fazer novas músicas e tentar transformar isto num emprego que fosse uma coisa fixe para mim. Descobri o prazer de tocar ao vivo e percebi porque é que não o tinha.

Porque não tinhas prazer em dar concertos?
Acho que na base disso estava o meu medo de falhar. Se gostas mais de estar em estúdio e não tanto de te por em cheque a tocar ao vivo, das duas uma, ou não fazes ou perdes o medo e para perderes o medo tens de te expor ao ridículo, tens de te expor ao falhanço, e assumir isso. Se te enganares ao vivo, brinca com isso. OK, falhaste, experimentas isso e ficas meio à toa, falas do assunto, aquilo desaparece, desbloqueias, e de repente o concerto a partir dali fica ainda mais fixe.

"Antigamente, em vez de fazer um arroz só com um estrugido, com bacon e uma folhinha de louro, era capaz de pôr pimento, alecrim, um nadinha de açafrão para dar cor, vinagre ou um bocadinho de tomate. Agora está a dar-me mais pica a simplicidade, só a cebola, o alho, o bacon e o arroz. É arroz como toda a gente faz, mas está bem assim."

Além de possíveis falhanços, o que vamos poder ver mais em palco?
Não me apetece tocar o “Capitão Romance” e aquilo ser o meu concerto, mas daqui a uns anos posso voltar a tocar. Quero de alguma maneira refrescar as coisas, no fundo, sou eu que tenho de zelar pelo cansaço das músicas ou não. Se alguém disser “outra vez esta?” fui eu o responsável por isso.

É na simplicidade que te centras mais neste trabalho?
Sim, há no processo e nestas canções uma vontade de despedir, simplificar as coisas a uma essência. Tem-me agradado muito fazer uma música e ir pondo apenas aquilo que ela realmente precisa. Neste sentido o concerto tem uma parte acústica muito forte há mais facilidade a tocar. Posso investir na interpretação e na forma como crio o momento de comunicação, do que propriamente a competência a tocar uma coisa complexa.

Que influência teve o Rodrigo Amarante nesse processo?
O André Tentúgal estava a fazer uns vídeos para ele, disse-me que ele estava cá e que devíamos combinar um jantar. Fiz uma massada de peixe, com massa a mais porque eu gosto mais de massa e ele mais de caldo. O André promoveu a coisa e eu levei uma guitarra. Foi muito fixe, tivemos uma conversa super porreira e eu expus-lhe a minha crise criativa. Ele estava num processo inverso com um disco brilhante, o Cavalo, e um percurso de conquistas super bonitas. Tentou desmistificar o processo dele para me ajudar a visualizar cenários, foi uma espécie de psicanálise criativa. Ele disse que as primeiras 25 músicas que fez deitou ao lixo e isso ajuda a pensar. Eu já sabia, mas é sempre diferente ouvires uma pessoa a dizer isso em voz alta, principalmente uma pessoa que fez algo tão fixe. O que interessa é que ele olhou para essas 25 músicas e não se reviu e isso causou-lhe o mesmo sentimento que me causou a mim.

O que gostas de fazer quando não estás a trabalhar?
Cozinhar, por exemplo.

Quais são as tuas especialidades?
Gosto de fazer um polvo à lagareiro e adoro fazer todo o tipo de massas. Não faço cenas tipo cabrito ou bacalhau. A Susana [a mulher] é que entra mais nessas coisas nos almoços de família, porque é fixe haver uma coisa mais arrojada e ela tem mão para isso. Eu safo-me mais no dia a dia, adoro ir às compras, escolher os produtos e gosto muito de inventar, mas por acaso agora ando a inventar menos na cozinha.

[“Beija-flor”:]

Qual foi a tua maior invenção na cozinha?
Há uns anos tentei experimentar uma coisa que não correu nada bem. Estava com vontade de comer uma canja de galinha, que eu adoro. Então fui comprar um frango do campo, cozi, desfiei o franguinho todo, porque não gosto das peles. Tive aquela trabalheira toda, mas aquilo estava com cheirinho incrível. Depois senti aquela cena de querer introduzir uma coisa nova para revolucionar a canja.

Conseguiste revolucionar uma canja?
Canja é canja, esquece, não vale a pena revolucionares a canja. Fui ao frigorífico e tinha lá o resto de um cabrito. Pensei que se cabrito é carne e frango é carne, podia juntá-los. Hoje era incapaz de fazer uma coisa destas. Quando aquilo começou a ferver, levantei a tampa e o cheiro era uma coisa horrorosa. Não consegui comer e deitei tudo pela sanita abaixo. Antigamente, em vez de fazer um arroz só com um estrugido, com bacon e uma folhinha de louro, era capaz de pôr pimento, alecrim, um nadinha de açafrão para dar cor, vinagre ou um bocadinho de tomate. Agora está a dar-me mais pica a simplicidade, só a cebola, o alho, o bacon e o arroz. É arroz como toda a gente faz, mas está bem assim.

Alguma experiência que tenha corrido bem?
Há uns dias fiz uma pera assada com mel e pus chocolate em pó por cima. Ficou super bom.

Gostas de comer fora?
Gosto muito. Adoro O Valente, em Vale de Cambra, tem um polvo e uma carne que é uma delícia. Aqui no Porto temos umas tripas fabulosas no Kinay, mas são tantos restaurantes bons.

És mais adepto da comida tradicional portuguesa?
Sim, mas também gosto de ir ao indiano, ao chinês e ao italiano. Sou um bom garfo, como bem.

Mas não engordas nunca.
Não, mato essa coisa toda, vai tudo à vida.

O que te diverte, além de cozinhar e de comer?
Os meus putos, os meus amigos e a minha família. Aqueles jantares com a família são sempre discussões intermináveis sobre religião, homossexualidade ou política e acaba sempre tudo aos berros. Damo-nos todos muito bem, é uma família unida.

"Esquece se queres estar sempre feliz ou se queres estar sempre com as coisas a caírem ao teu colo, o sofrimento faz parte. Passamos a vida toda a gerir isto, mas é mesmo assim, somos reféns desta coisa. Não fui eu que inventei a vida, mas sei que é uma luta. E não está escrito em lado nenhum que temos de ser felizes, a paz é muito mais importante."

O que te comove?
Não sou uma pessoa que chore muito, não exteriorizo muito, sou muito cerebral. Não sei distinguir o cérebro da emoção, para mim é a mesma coisa. A emoção é percecionada pelo cérebro, só me apercebo que sinto algo quando chega lá em cima e imediatamente já estou a pensar sobre isso. Não consigo distanciar-me disso. O sentimento é sempre uma consciência e essa consciência provoca outro sentimento. É uma bola de neve e uma pescadinha de rabo na boca. Acontece-me muitas vezes ir a funeral de alguém que eu gosto muito e não sentir nada, nada. Nem tristeza, nem conformismo, nem revolta. É como quase estares a ver de fora, tudo aquilo é demasiado estranho. Só com o passar do tempo é que me apercebo da falta que as pessoas me fazem, não sei se é o instinto de defesa.

Isso não faz de ti uma pessoa fria?
Tenho esse receio, mas acho que não é verdade. Sou super sensível às coisas que os outros dizem ou fazem, por vezes até de mais. No fundo sinto as coisas como os outros, mas dirijo de uma outra maneira.

O que te irrita?
Irrita-me as pessoas que acham que já passaram mais do que as outras e por isso têm o direito de desistir. Se vives em sociedade e aproveitas a sociedade, a partir daí também és cúmplice dela, tens que defender a tua parte e seres melhor pessoa para os outros.

Não há sempre um egoísmo associado a isso?
Sim, a tendência é ser egocêntrico e individualista, é uma questão de sobrevivência, mas irrita-me quando sinto o discurso de as coisas más estarem sempre do outro lado, quando tu também és parte do problema. Há sempre um facilitismo no meio desta merda e irrita-me a demissão das pessoas dessa responsabilidade social. A vida não tem de ser sempre fixe e fácil, a vida é uma luta. Se não aceitares que a vida é uma luta também não tens os momentos bons. Esquece se queres estar sempre feliz ou se queres estar sempre com as coisas a caírem ao teu colo, o sofrimento faz parte. Passamos a vida toda a gerir isto, mas é mesmo assim, somos reféns desta coisa. Não fui eu que inventei a vida e não está escrito em lado nenhum que temos de ser felizes, a paz é muito mais importante.

Mas acreditas na felicidade?
Acredito numa coisa constante de lidares em paz com tudo aquilo que vier, mas roeres as sapatilhas, ou seja, ficar lixado com isto e contente com aquilo, com momentos de euforia e momentos de tristeza. Quando penso em felicidade penso sempre numa coisa muito egocêntrica e em momentos, tipo “estou a ter uma semana lixada, mas no fim de semana vou almoçar fora com os amigos”.

Fotografias de Pedro Nascimento e Manel Cruz

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