Dark Mode 46,7 kWh poupados com o MEO
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Hoje é um bom dia para mudar os seus hábitos. Saiba mais

Manuel Monteiro e o politicamente correto: "Há quem acredite que tornar algo invisível é torná-lo inexistente" /premium

Manuel Monteiro desmonta o politicamente correcto através da História e de casos recentes – nacionais e internacionais – e de como muitas vezes não faz sentido e pode ser um perigo.

Em Sobre o Politicamente Correcto (Objectiva), Manuel Monteiro, autor que, pela sua profissão – é revisor linguístico e dá formação na revisão de textos –, é um conhecedor da língua e de como ela funciona, levanta uma série de questões sobre o tema que dá título ao livro que escreveu. Mas não se trata de uma caça às bruxas. Manuel Monteiro está consciente do perigo dos eufemismos, paternalismos e condescendências que se procuram com palavras e comportamentos nos últimos anos. Ao longo das páginas percebe-se que o assunto se tornou uma obsessão – tal como acontece nesta entrevista. Mas é uma obsessão que quer encontrar justificação para um certo mal-estar sobre os perigos do politicamente correto: que, diz o autor, estão à vista, seja-se a favor ou contra.

Por vezes, Manuel Monteiro está zangado. Nota-se na escrita. Zangado, perplexo, em busca de uma forma de explicar ao leitor o ridículo de certas situações. Também o faz com o humor, sem lugar para saltos lógicos, só um método rigoroso de quem sabe tornar os argumentos claros e com suporte teórico. O leitor não tem de acreditar – no politicamente correto –, só tem de ler. Não é um livro “contra”, é um livro “sobre”. E, por ser “sobre”, é lúcido e assustador: porque Manuel Monteiro também desmonta o “papão” de quem acha que debater o politicamente correto é estar contra ele.

A capa de “Sobre o Politicamente Correcto”, de Manuel Monteiro (Objectiva)

Há questões relacionadas com o politicamente correto que não são novas, mas que agora são vividas por outra geração. Porque é que voltaram?
Por um lado, é verdade que há um aproveitamento de uma certa direita em tornar uma esquerda refém de um conjunto de valores, de forma a parecer que a direita é que está a defender a liberdade de expressão. Compreendo que também dê jeito a uma certa direita que se crie a ideia de que o politicamente correto é a censura, inimigo da liberdade da expressão. Porque é útil encostar a esquerda à parede, como se estivesse contra a liberdade de expressão. Percebo que há um certo aproveitamento e empolamento do assunto. Mas isto também extravasa um bocadinho a esquerda.

De que forma?
Porque à direita também há politicamente correto. E há uma certa esquerda que é profundamente crítica do politicamente correto. Por exemplo, no Brasil, o Partido da Causa Operária, que é considerado de extrema esquerda no Brasil, é profundamente contra o politicamente correto, acha que é um desvio pequeno-burguês. Acho que estas coisas estão a ressurgir porque também há coisas que estão a acontecer que antes não aconteciam. É muito difícil uma pessoa no espaço mediático dizer que defende a liberdade de expressão de A, sem ser entendida que não está a concordar com A. Isso é uma coisa que eu noto de forma oportunista, quer à direita, quer à esquerda, de virem pessoas defender a liberdade de expressão em nome do que lhes é conveniente. Ou as pessoas dizem que a liberdade de expressão é um valor sagrado ou então não estejam permanentemente a invocar a liberdade de expressão quando apenas reclamam liberdade de expressão para as suas ideias. Tenho a certeza que Estaline, Hitler e Mussolini concordariam com a definição de liberdade de expressão como liberdade de expressão para as ideias favoráveis.

É um território muito tribalizado?
Quando alguém defende a liberdade de expressão de A é porque concorda com A: acho que as coisas estão muito tribalizadas. Isto é um terreno tão cheio de armadilhas. Por exemplo, consigo achar deploráveis as declarações de José António Saraiva sobre as operações de mudança de sexo. Mas se Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, organismo tutelado pelo Estado, apresenta queixa ao Ministério Público, procurando encontrar ali matéria criminal, aí já vou ter de defender o José António Saraiva, não pelas posições, porque para mim é um artigo repelente, mas porque não posso aceitar que seja considerado um delito, um artigo, mesmo que seja transfóbico. Ou mesmo as declarações do Pedro Arroja, que se referiu à Catarina Martins e à Mariana Mortágua, como “esganiçadas” ou “não queria nenhuma daquelas mulheres nem nada”. Posso achar aquilo deplorável, mas se o Pedro Arroja vai a tribunal, aí lamento, tenho de defender o Pedro Arroja. Assinaria uma petição para que o Pedro Arroja não fosse responder a tribunal. Mas não estou a defender as declarações. O que acho que certa esquerda bem-pensante não entende é que criar estes mecanismos um dia pode voltar-se contra si. Criar este precedente, de que há uma pessoa que teve um delito de opinião, isso pode voltar-se contra si. Por exemplo, achei execrável o que a Maria de Fátima Bonifácio escreveu, há alguns momentos ali que para mim são execráveis, sobre ciganos e negros. Contudo, simultaneamente, não concordo com a queixa-crime do SOS Racismo.

"Somos todos impolutos? Bem, ainda não, porque há uns que se assumem energúmenos, mas têm direito a sê-lo. É importante perceber isto. As pessoas têm direito a ter uma posição ultraconservadora e a defendê-la no espaço público."

O artigo de Maria Fátima Bonifácio até criou uma boa discussão. Mais do que pensar no politicamente correto, ou na higienização do discurso, a argumentação em volta do artigo dela criou um bom espaço de opinião. O Ricardo Araújo Pereira costuma dizer que quer saber o que determinado energúmeno pensa e diz. O seu livro explora esta ideia em alguns momentos. Parece que se está a tirar espaço para isso acontecer.
Inteiramente de acordo. A liberdade de expressão tem a vantagem de se saber realmente quem é homofóbico, transfóbico, machista. No espaço mediático toda a gente aparece com um grande medo de ter uma frase que seja interpretada como machista, racista ou transfóbica, homofóbica. Mas a verdade é que depois vamos ver as votações e nas últimas intenções o Chega está com a votação que está. Este hiato entre o que está no espaço mediático e o que as pessoas pensam em privado, não é salutar. Somos todos impolutos? Bem, ainda não, porque há uns que se assumem energúmenos, mas têm direito a sê-lo. É importante perceber isto. As pessoas têm direito a ter uma posição ultraconservadora e a defendê-la no espaço público. Não tenho essa visão, mas não concordo com a abertura de processos. O politicamente correto é uma tentativa de se acreditar que tornar algo invisível é tornar algo inexistente. Isso é falso. Isso cria maiorias silenciosas. Não tenho dúvidas que um dos ingredientes para a eleição de Trump e de Bolsonaro foi o politicamente correto.

Como nasceu o politicamente correto?
As pessoas costumam dizer que começou muito bem, com boas intenções. Nasceu com eufemismos e perífrases e formas paranoicas e doentias de se chamar às pessoas que tinham deficiências coisas cujo significado nem se percebia. Ou seja, quando se diz que começou bem, não: começou logo mal, começou com um excesso, tornar a linguagem defensiva, a quere dizer que somos todos iguais. E isso é muito perigoso. Por exemplo, na cartilha do Lula, “pobre” era uma palavra que era utilizada para inferiorizar. Ao criticar o uso da palavra “pobre”, eles acabam por relativizar o conceito de pobreza. Não quero eufemismos para tratar fenómenos como a pobreza. Acho de um paternalismo enorme termos como o inglês “visually impaired” para falar sobre cegos.

O humorista George Carlin também tem uma piada sobre pessoas com deficiência, em volta do termo “differently abled”.
O “diferentemente capacitado” é pouco lógico, porque todos somos diferentemente capacitados. Toda a gente é “diferentemente capacitada”. Mas este tipo de abordagem chega à literatura. Tenho-me dado ao trabalho de pesquisar sobre como as pessoas interpretavam o Walt Whitman. Foi uma coisa que o Harold Bloom sempre disse: a forma como a literatura está a ser interpretada, em que só se quer ver discriminação, é uma forma que vai matar a literatura.

"Já ouvi pessoas dizer que têm medo de conceber uma personagem que seja racista ou uma que seja machista, por terem medo que aquela personagem seja interpretada como a voz do autor. Há uns dez anos que não ouvia isto."

Parte disso não será uma vontade de mudar a história?
Concordo. O Mark Twain tem a palavra “nigger” substituída, a Agatha Christie também. É um princípio sagrado, quando estamos a ler as obras do passado, por preservação da história, para não haver uma dissolução da memória, parece-me um princípio elementar de que não podemos reescrever as obras. Mas hoje isto passa. Há edições que alteram as palavras, para não serem ofensivas. No caso do Mark Twain, estamos a falar de alguém que teve uma vida antirracista, combateu o racismo, ajudou pessoas negras e foi sempre antirracista. Quem ler o Mark Twain, primeiro tem de perceber que é uma descrição de época e de que com a sua ironia está a satirizar o pensamento dos racistas. São tantas as camadas sobre as quais se saltam. Primeiro, a palavra está escrita no livro e isso é sagrado. Segundo, é uma descrição de época. Terceiro, o Mark Twain era antirracista. O reescrever da história é inconcebível. Tal como é inconcebível publicar obras completas do Céline e não incluir os textos antissemitas dele. É inconcebível editar o Brecht e não incluir as linhas que ele escreveu a elogiar o Estaline. Essa dissolução da memória parece uma coisa inacreditável.

Esta preocupação com a higienização e com o politicamente correto poderá influenciar a arte que se produz agora e na forma como comunicamos o mundo em que vivemos?
Já ouvi pessoas dizer que têm medo de conceber uma personagem que seja racista ou uma que seja machista, por terem medo que aquela personagem seja interpretada como a voz do autor. Há uns dez anos que não ouvia isto. Acho que sim. O problema é não se perceber que descrever um fenómeno não é fazer a apologia do fenómeno. Às vezes até pode ser uma sátira, ou até uma forma de crítica social.

Este polimento de politicamente correto transforma as relações humanas numa coisa fria. Quando as pessoas não se conhecem bem, há mais códigos de cerimónia. Para haver um aprofundar de laços é preciso que os códigos entre as pessoas vão desaparecendo. Com menos códigos, há mais à-vontade. O politicamente correto é uma barreira fria e a forma como comunicamos é importante. Por exemplo, a quantidade de palavras que existem nos EUA para falar de pessoas negras: coloured, negro, black, afro-american, person of color. Tudo isto pode ser mal interpretado. Até certas correntes – certas, não todas – de feminismo, a forma como falam de assédio sexual, há uma excessiva codificação do assédio sexual que vai ao encontro de um puritanismo. Parece que hoje os temas são: violência doméstica, assédio sexual, se teve razão uma determinada etnia contra a polícia. Não estou a dizer que não tenham importância. O que estou a dizer é que, por exemplo, em relação aos últimos números que vi de assédio moral e de assédio sexual, o assédio moral era superior ao assédio sexual. O assédio moral é esvaziar completamente uma pessoa. Quem abre os jornais, vê televisão, ouve rádio, se perguntarmos aos portugueses sobre assédio sexual, toda a gente tem mais ou menos uma definição. Sobre o assédio moral pouca gente terá. E, contudo, há mais assédio moral do que assédio sexual.

"Os dicionários para mim são repositórios de memória, podem ter lá arcaico, depreciativo, mas não devemos perder palavras porque as palavras são ofensivas."

Por que razão decidiu escrever um livro sobre politicamente correto?
Já há muito tempo que o tema me interessa. E são muitas as razões. Tenho receio que o politicamente correto possa ser um epifenómeno de uma coisa maior, que é a classe tornar-se um anacronismo para a esquerda. Tenho receio que esse seja um dos sinais.

Quando diz classe…
O foco de classe. O dinheiro. Os ricos e os pobres. Esse é o principal fator de discriminação. Receio pelo dia em que esta ideia se torne um anacronismo. Por outro lado, a quantidade de esferas que isto atinge. Tenho aqui uma história de uma petição com trinta mil assinaturas para remover dos dicionários todas as palavras, todas as definições, depreciativas sobre as mulheres. Há palavras que são depreciativas sobre as mulheres. E sobre uma série de identidades. Se as definições não estiverem lá, nem se trata de rasurar o passado, mas o próprio presente. Os dicionários para mim são repositórios de memória, podem ter lá arcaico, depreciativo, mas não devemos perder palavras porque as palavras são ofensivas.

O que lhe têm dito, por ter escrito este livro?
Mesmo antes de eventualmente lerem o livro, algumas pessoas enviaram-me mensagens do género “nunca pensei” ou “isso é um convite a dares palco à boçalidade”. Pessoas que me conhecem. Comungo das mesmas ideias, no aborto votei sim, sobre o casamento entre homossexuais votaria sim, operações de mudança de sexo, votaria sim. Mas não tenho medo de chamar racista a quem não é branco.

Provocação: acha que o politicamente vai acabar? Nos anos 1990s falava-se até de tirar os cigarros dos filmes do passado. Isso não chegou a acontecer.
Acho que não. Pelas conversas que tenho com as pessoas na casa dos vinte e até para baixo.

A pergunta era no sentido de se isto é uma luta contínua ou… as palavras são importantes, claro…
Certo. As palavras são importantes, por exemplo, o realizador Nanni Moretti, quando diz isso no filme [“Palombella Rossa”], a seguir dá duas chapadas à jornalista. Essa cena hoje… tenho a certeza de que o Nanni Moretti seria considerado um misógino. Se isso fosse um filme atual… “este gajo é misógino, está a fomentar a violência doméstica”.

"Tenho uma profunda aversão a este discurso paternalista de se ser sempre abonatório quando é uma coisa das minorias e depreciativo quando é dos grupos opressores. Isso é tão falso. Só tratamos os outros como iguais quando dizemos: isto é uma porcaria, seja da minoria ou não."

As palavras são importantes, mas parece que o politicamente correto ao dar tanta importância às palavras, de uma forma particular, também pode estar a tirar-lhe alguma dessa importância…
É uma visão interessante, sim…

Voltando à questão de classe que referiu há pouco. É algo que o preocupa?
As coisas são muito complexas. Mas acho que há uma deslocação da classe para uma fragmentação de identidades. E tenha medo que quem ganhe com isso seja a extrema-direita, como vou assistindo pelo mundo fora.

É o que tem acontecido.
Tenho uma profunda aversão a este discurso paternalista de se ser sempre abonatório quando é uma coisa das minorias e depreciativo quando é dos grupos opressores. Isso é tão falso. Só tratamos os outros como iguais quando dizemos: isto é uma porcaria, seja da minoria ou não. Enquanto não tivermos uma relação saudável em que não se vê se é da minoria ou não, enquanto não saltarmos isso, estaremos sempre num território falso. Que é uma espécie de populismo também. Depois aparecem outros populistas noutro campo e são esses que ganham. Acho que quem procura generalizações abonatórios sobre grupos oprimidos, discriminados, quem procura um discurso abonatório e um discurso crítico do grupo opressor, está a deslocar a luta do poder para o plano da moralidade. Isso é profundamente reacionário.

Links promovidos

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.