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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Marco Almeida no Carpool do Observador. "É preciso disciplinar o turismo em Sintra"

É a segunda tentativa de Marco Almeida para vencer em Sintra. No Carpool Autárquicas, é duro com os políticos: "Na Grécia Antiga, o político que não cumpria era afastado por dez anos da vida pública".

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“Vou com casaco ou sem casaco?” Acaba por escolher apenas a camisa sem a gravata amarela que ainda estava ao pescoço quando Marco Almeida chegou aos Paços do Concelho de Sintra, trinta minutos antes da hora combinada para a entrevista. Trata os funcionários pelo nome. Eles tratam-no por “vereador”. Foi vice-presidente da câmara durante 12 anos, mas no último mandato esteve como vereador a fazer oposição. Não gosta de formalismos. Será um traço de personalidade que ficou do jovem de barbas e cabelo comprido que ouvia AC/DC quando se estreou na política na campanha de 1991, que deu a segunda maioria absoluta a Cavaco Silva. Agora, é a sua (segunda) vez de tentar a vitória eleitoral em Sintra. “É uma caminhada difícil, mas eu acredito que é possível vencer”, diz ao Observador, à boleia do Carpool Autárquicas.

A viagem pelas ruas do concelho durou mais de uma hora, com direito a paragem técnica para verificar estado da parafernália de câmaras e de micros e para tratar das fotos para o artigo — “no meio das pessoas”, onde Marco Almeida diz que prefere estar. O circuito começou no centro da vila, passou pelas freguesias de Algueirão, Mercês, Rio de Mouro, Mira-Sintra, Cacém — onde nasceu para a política e onde montou o seu gabinete de vice-presidente, nos mandatos de Fernando Seara (PSD). Ainda houve tempo para uma passagem por Belas para ver o Centro de Saúde encerrado por Basílio Horta, o atual presidente de câmara.” Depois de ouvir estas minhas palavras, vai anunciar, certamente, a reabertura”, ataca.

Há quatro anos, foi por uma nesga que Marco Almeida perdeu a eleição para a Câmara Municipal de Sintra para Basílio Horta: apenas 1.738 votos num concelho com 304 mil eleitores e num ano em que votaram quase 123 mil pessoas. Nessa primeira corrida, rejeitado pela coligação PSD/CDS/MPT, avançou em nome próprio. Volta agora, ainda com a faixa de “independente” ao peito, mas com o apoio dos partidos que em 2013 o tinham rejeitado (sobretudo com o do PSD a que pertenceu até às últimas autárquicas). “Ao longo da vida, cometemos erros”, diz. A mensagem leva a São Caetano à Lapa no destinatário.

Foi assim durante os cerca de 50 quilómetros do percurso: um vai e vem entre críticas ao mandato de Basílio Horta e elogios à obra feita nos três mandatos de Fernando Seara de que era número dois. Aliás, bastou percorrer os primeiros metros para que a gestão turística da vila já estivesse debaixo de fogo.

“Estes quatro anos foram tempo perdido”

Os turistas chegam em vagas sucessivas vindos de Lisboa, despejados à porta da estação de comboios de Sintra. Do outro lado da estrada, há mais de uma dezena de “operadores turísticos” que se insinuam de cartões e panfletos na mão com promessas de viagens inesquecíveis pelas ruas da vila a troco de umas dezenas de euros. Há para todos os gostos e para algumas bolsas.

Quantos turistas chegam todos os dias à vila, tem ideia?
Temos uma carga turística fortíssima no concelho. Chegam de comboio, mas também de autocarro…

Milhares?
Milhares, milhares. Esta carga que Sintra sofre acaba por complicar muito a gestão do próprio território.

Satura a vila?
Satura porque temos falta de estacionamento. Apesar das promessas, durante estes últimos quatro anos não se construíram os parques periféricos, a relação dos turistas com os operadores turísticos está completamente desregulada. Aliás, basta vermos por aqui, temos pessoas à porta da estação com placas a tentar angariar turistas, quase como se fosse um assalto ao turistas. É preciso pôr cobro a isto. Isto tem um efeito negativo sobre as pessoas que nos visitam porque levam daqui uma imagem negativa e mais tarde haveremos de sofrer com esta desregulação do turismo.

"Temos pessoas à porta da estação de Sintra com placas a tentar angariar turistas, quase como se fosse um assalto ao turistas. É preciso pôr cobro a isto."

A vila perde mais do que aquilo que ganha com este turismo de massas?
Temo muito que estejamos no limite, que tem a ver com a desregulação que o turismo sofre no concelho. É preciso disciplinar os operadores turísticos, é preciso criar os parques de estacionamento periféricos, é preciso criar carreiras entre os parques e as zonas de visita. Há muito a fazer e estes quatro anos foram tempo perdido.

O Tribunal de Sintra é uma obra do tempo de Fernando Seara. É um símbolo dos problemas sociais do concelho…
A abertura do tribunal correspondeu a uma estratégia para o concelho que gosto valorizar. Tínhamos recebido um concelho, em 2003, com fortes carências em todas as áreas: Educação, Justiça, Saúde, da Mobilidade. E foi feita uma aposta da câmara e os Governos — fossem PSD/CDS, PS — para que fossem concretizados vários investimentos que beneficiassem os concelho. O tribunal foi um exemplo, mas estou-me lembrar-me de São Marcos, Massamá, Várzea, Colares.

“A saúde também é um negócio e há aqui interesses”

A vista da serra e do Palácio da Pena já tinham ficado para trás. A viagem segue agora pelo labirinto de prédios do bairro da Cavaleira, onde vai ser instalado o novo hospital de Sintra, mas Marco Almeida não reduz a rapidez nas críticas. “Uma promessa”, diz.

Mas o “novo” hospital já é uma promessa há quase 20 anos e também atravessou os três mandatos de Fernando Seara sem nunca sair do papel. “A saúde também é um negócio e há aqui interesses”, reconhece o ex-vice-presidente da autarquia.

É uma crítica que tem feito à atual presidência, a falta de investimento na Saúde.
Não consigo aceitar que alguém diga que em 2013 estava tudo mal não tenha, em 2017, feito uma profunda transformação. Nesta altura, em Sintra, faltam investimentos na área da Saúde, da Educação, Mobilidade. Este executivo camarário não abriu um eixo rodoviário, não abriu um centro de saúde.

Mas há obras prestes a arrancar. E há Unidades de Saúde Familiar (USF) a funcionar em espaço já existente.
A abertura de USF não tem rigorosamente a ver com a abertura de edifícios. Podem abrir USF, que são bons sistemas na área da Saúde, mas isso não implica a abertura de novos edifícios. O concelho não teve investimento nas infraestruturas que permitem fazer uma revolução.

Há um terreno pronto para acolher o novo hospital de Sintra.
Isso é uma promessa. Nessa altura, era autarca da freguesia de Agualva-Cacém e lembro-me de assistir à assinatura do protocolo entre o engenheiro António Guterres, a dra. Maria de Belém, ministra da Saúde, e a dra. Edite Estrela, presidente de câmara, em 1999. E o hospital não se concretizou. Promessas de construção são apenas promessas de construção.

E o que aconteceu entre 2001 e 2013 para o hospital não tivesse avançado?
Houve sempre um impedimento do Ministério da Saúde na concretização da nova unidade. Podemos dizer que os autarcas se empenharam mais ou menos. Gosto de dizer que todos os autarcas se empenham na melhoria das condições de vida dos seus munícipes, independentemente das cores políticas. Agora, temos circunstâncias em que as decisões não dependem exclusivamente da câmara.

E o que é que a câmara pode fazer: mais pressão sobre o Governo central?
A saúde também é um negócio e há aqui interesses. Não tenho dúvida nenhuma de que o hospital privado da CUF será uma realidade muito antes do hospital público em Sintra. Isso é também motivo de preocupação porque estas unidades privadas têm acordos com setor público da saúde.

Há um problema de segurança pública no concelho. Nas suas propostas, defende um reforço das condições de segurança. De que forma?
Temos um problema em tudo aquilo que são serviços da Administração Central. Não temos técnicos da Segurança Social nas comissões de proteção de crianças e jovens. Faltam-nos médicos de família (há cerca de 115 mil utentes sem médico de família no concelho). Faltam elementos na GNR e na PSP. Na relação da Administração Central com Sintra, o concelho fica sempre a perder. A câmara tem de avançar com a transferência de competências da Administração Central para o município em diferentes áreas.

Há ou não um problema de segurança pública no concelho?
Ao contrário de outros concelhos, nos bairros de alojamento social não temos as situações que têm outros concelhos. Agora, o concelho tem problemas de insegurança, principalmente no eixo ferroviário e é preciso estar atento a isto. A GNR e a PSP têm poucos meios e eu gostava que esta câmara fosse capaz de bater o pé como se bateu no passado. Uma câmara não pode ser forte com os fracos e fraca com os fortes.

“A força política que eu representava tinha de ser ouvida”

É a segunda vez que Marco Almeida vai a votos em nome próprio. Há quatro anos, a sua vontade de disputar a câmara com Basílio Horta esbarrou num muro chamado distrital do PSD. Se não tivesse sido essa nega, reconhece agora, “talvez” nunca se tivesse desvinculado do partido em que viu na política um caminho a seguir.

Mas as coisas não correram bem ao PSD, muito pelo contrário. O deputado Pedro Pinto (agora também presidente da distrital de Lisboa do PSD), é que se apresentou à sucessão de Fernando Seara e acabou a noite eleitoral com metade dos votos de Marco Almeida, que concorreu como independente. O balde de água fria fez mossa e, agora, o mesmo PSD decidiu voltar atrás e apoiar um independente que já pertenceu às fileiras.

Se há ressentimentos, estão escondidos. A única crítica que o social-democrata faz é mesmo a Basílio Horta, que distribuiu pelouros pelos dois vereadores eleitos pelo PSD/CDS, atribuiu responsabilidades ao vereador do PCP e deixou de fora os quatro elementos da lista de Marco Almeida.

Imaginando que consegue a vitória em outubro, acha que terá mais sucesso que Basílio Horta a reivindicar mais condições junto de um Governo PS?
Julgo que tenho uma vantagem. Hoje em dia, não tenho nenhuma ligação aos partidos, sou um candidato independente com o apoio de partidos.

Diz isso com orgulho.
Sim, porque o meu percurso no PSD terminou em 2013. Durante estes quatro anos em que liderei a oposição em Sintra, nunca apaguei do meu perfil pessoal o meu percurso político. Tenho orgulho no que fiz, na dedicação que fiz ao concelho, mas é um período que está terminado. Tenho essa liberdade que outros candidatos não têm, que estão mais dependentes das lógicas partidárias. Eu não tenho essa relação e sou capaz de ter aí maior capacidade de ação e de reivindicação.

"Até podia não ter aceitado o desafio que me fosse lançado, mas havia a obrigação de que a força política que eu representava e liderava fosse ouvida."

Se não tivesse sido a falta de apoio do PSD, em 2013, e a sua decisão de avançar como independente, acha que se teria desfiliado do PSD?
Talvez não. Não vale a pena esconder isso, também. Durante 20 anos, fui autarca no concelho de Sintra, sempre eleito no âmbito de uma coligação. Primeiro, numa freguesia como Agualva-Cacém e, depois, 12 anos na câmara de Sintra. Sempre foi uma coligação de partidos. Mas, em 2013, tomei uma decisão: senti que havia espaço para uma candidatura liderada por mim. Os partidos entenderam — não foi apenas o PSD, foram os partidos que até aí suportavam a coligação — que não havia condições para apoiar a minha candidatura. Nessa altura, podia ter desistido e dito que sem o apoio dos partidos não ia lá. Mas acreditava que havia aqui uma responsabilidade minha e expetativa das associações e dos sintrenses na minha candidatura. O resultado eleitoral mostrou que havia espaço.

Perdeu para Basílio Horta por cerca de 1.760 votos.
Elegemos o mesmo número de vereadores, quatro, menos dois deputados municipais.

E, de repente, ficou sozinho na câmara porque o atual presidente se juntou com o PSD, CDS, PCP…
Numa total falta de respeito pelos eleitores que votaram na minha candidatura. Quem lidera deve procurar envolver, respeitando o voto dos sintrenses. Até podia não aceitar o desafio que me poderia ter sido lançado, mas haveria a obrigação de que a força política que representava e liderava tivesse de ser ouvida.

O resultado que conseguiu em 2013, com o dobro dos votos de Pedro Pinto (PSD) foi a melhor resposta que podia ter dado ao seu antigo partido? Foi um acerto de contas?
Não, acho que foi o melhor que podia ter dado aos sintrenses. Foi demonstrar que a minha disponibilidade tinha retorno da parte dos sintrenses e isso era o essencial, que a candidatura não defraudasse expetativas. E não defraudou, apesar de não termos conseguido vencer. Não foi tanto uma resposta ao PSD, CDS, MPT nem ao PPM.

Não vê uma contradição na posição do PSD, entre 2013 e 2017? Há quatro anos, Marco Almeida não era digno de liderar uma candidatura em nome do partido. Essa liderança não mudou e, agora, surge à frente de uma candidatura apoiada pelo PSD e pelos restantes partidos
Ao longo da vida, cometemos erros. Nunca fazemos tudo bem feito. Acho que é um gesto de grande humildade da parte dos partidos poderem reconhecer que em 2013 o processo não foi bem liderado e que em 2017 havia que corrigir. Acho que é um grande gesto de humildade, de reconhecimento e de acertar a estratégia. Se insistisse na mesma opção, talvez aí pudesse criticar.

Estação de Mira Sintra-Meleças, mais uma obra inaugurada por Fernando Seara. É Marco Almeida quem sugere que passemos por lá, a caminho do Cacém. O parque de estacionamento, onde podiam estar estacionados centenas de carros, está vazio. É agosto, mas a imagem não muda muito ao longo do ano e que não tem melhorado com o passar dos anos. Tudo porque os autocarros ficam a uma distância de 1.50o metros.

Não acha que o espaço está ao abandono?
Completamente. Foi inaugurada em 2004, naquele esforço de grande reivindicação do Governo para servir de alternativa à estação de Agualva-Cacém. E a verdade é que, se passarmos por aqui, o estacionamento está devoluto, passeios abandonados. Esta estação podia ser revitalizada com uma política de transportes públicos que permitisse que pessoas que moram na área circundante pudessem ter acesso a esta estação.

É aí que a autarquia falha?
Não há nenhuma estratégia para a mobilidade do concelho. A câmara, ao participar na Autoridade Metropolitana de Transportes, abdicou da sua capacidade de reivindicação, ao contrário do que fez Cascais. Estamos a 1500 metros de Mira Sintra, estamos à mesma distância de Rio de Mouro e a estação está completamente devoluta porque os autocarros não chegam aqui. Há que reforçar a relação dos sintrenses com transportes para favorecer os transportes públicos, criar condições à redução de tráfego ao IC19 e permitir maior comodidade a quem vai de Sintra para Lisboa. A câmara deve apostar na criação de uma rede de transportes municipal.

É isso que vai fazer?
Sei que isto custa ouvir a quem gere a autarquia mas, durante quatro anos, a câmara não contribuiu para a construção de um equipamento de uma Instituição Particular de Solidariedade Social. Não temos uma abertura de uma creche, de um pré-escolar, de um equipamento de lar, rigorosamente nada. Temos de apostar nas pessoas. As pessoas que vivem aqui, que passam férias aqui porque não podem ir para outro lado, têm de ter condições de segurança, espaços de lazer, jardins, bons equipamentos públicos para que sintam que vale a pena viver aqui.

O gabinete que Marco Almeida montou no Cacém, quando era vice-presidente da câmara de Sintra, ficava uns metros deste local

A zona do Cacém diz-lhe muito.
Vim para Mira Sintra com cinco anos e entrei em 1993 na junta de freguesia de Agualva-Cacém. De 1993 a 1997 estive na freguesia liderada pelo PS, estive com o pelouro da Educação, entre 1997 e 2001, fiz parte da Assembleia de Freguesia de Agualva-Cacém e, em 2001, fui para a câmara. A minha ligação à cidade do Cacém é tão forte que instalei o meu gabinete da vice-presidência aqui. Digo isto com alguma vaidade: fui o único vereador instalado fora da sede do concelho.

Saiu do centro do poder.
Sem dúvida nenhuma, era onde estava o presidente de câmara. Vim para zona urbana onde estão as pessoas e estive aqui até 2013, em instalações municipais, onde montei o meu gabinete e procurei valorizar esta dimensão urbana.

Começou com 20 e poucos anos na vida política. O interesse surgiu por tradição familiar?
Nada. O meu pai nunca esteve envolvido, a minha mãe também não. Não tenho nenhum irmão envolvido na política. Foi uma experiência que tive em 1991, no âmbito de uma candidatura do professor Cavaco Silva. Entrei nessa candidatura sem qualquer vínculo ao PSD, não tinha filiação e gostei da dinâmica, da relação que construí com algumas pessoas aqui de Sintra e mantive-me ligado desde sempre. Nunca quis ser, do ponto de vista político, nada mais que autarca. Podia ter sido deputado em diferences circunstâncias.

Chegou a ter esse convite?
Fiz parte da direção nacional do PSD da dra. Manuela Ferreira Leite, podia ter tido essa oportunidade mas não quis. A minha opção foi sempre as autarquias, é aqui que me sinto bem, na capacidade de fazer e de realizar e tenho uma experiência muito centrada neste meio que valoriza as pessoas.

“Na Grécia Antiga, o político que não cumpria era afastado durante dez anos da vida pública”

Veio de Angola ainda miúdo, um ano depois da Revolução, e foi nos subúrbios de Lisboa que acabou por crescer. Assistiu à transformação do Cacém num monstro do betão e, depois, trocou a cidade pela tranquilidade de Mafra. Mas só na morada — a mulher costuma lembrá-lo disso. A vida, continuou a fazê-la no concelho de Sintra. Além de autarca, é professor no agrupamento de escolas de Agualva-Cacém. História, no ensino secundário.

É, aliás, nos manuais que se inspira quando a conversa desvia para o terror do poder político nos tempos modernos: o descrédito de que os governantes são alvo junto dos eleitores. O voto de quatro em quatro anos, diz, já não basta para sancionar os incumpridores. Marco Almeida considera que os anos só trouxeram menos qualidade à classe política e defende que é preciso recuperar rapidamente a relação entre quem elege e quem se apresenta a eleições. Com uma solução à grega.

"Os cidadãos têm de ser mais exigentes nas propostas que ouvem, avaliando as pessoas que se apresentam e tem de haver uma capacidade de sancionar os políticos que não cumprem."

A imagem que os portugueses têm da política não é a mais positiva. O que é que aprendeu nos primeiros anos?
Acho que o descrédito dos políticos hoje é muito superior a 1991, quando comecei. Cresci aqui. Sintra é a minha terra, vivo no concelho desde os cinco anos, tenho essa vantagem e ligação forte ao concelho.

Continua a viver no concelho?
Atualmente, não. Mas mantive sempre a minha ligação ao concelho porque ou pela via do trabalho ou da residência ou das autarquias, nunca saí do concelho. Aliás, a minha esposa diz-me que só vou dormir a casa, porque a minha ligação ao concelho é tão intensa que tenho essa relação forte com o concelho.

O poder político é o principal responsável pelo descrédito da classe?
Há dois aspetos que provocaram o afastamento dos cidadãos relativamente à política e ao descrédito que os políticos têm. Por um lado, os sucessivos casos de suspeição sobre políticos quer ao nível dos municípios quer do governo…

Suspeições fundadas, em muitos casos.
Em muitos casos, isso é verdade. Isso contribuiu decisivamente para esse descrédito. O segundo aspeto é a circunstância de muitos políticos poderem exercer funções em qualquer lugar, como se fossem super homens ou super mulheres polivalentes que hoje estão no Governo e amanhã numa autarquia, depois voltam ao Governo, estão no Parlamento Europeu, são deputados. Significa que a política, para estas pessoas, é uma profissão. Acho que o cidadão lá fora, que trabalha, que se dedica à sua profissão não gosta de ver um político que é político profissional e exerce funções em qualquer área independentemente da sua competência técnica ou política.

Como é que se restabelece essa ligação entre eleitores e eleitos?
Julgo que os movimentos independentes são importantes, também credibilizam. Quando tomam uma decisão, numa candidatura por um partido ou por movimentos independentes, as pessoas são livres. Há uma liberdade. Quando fui candidato independente em 2013, só o pude ser porque tinha a minha vida profissional. Sou professor, tenho o meu vínculo à escola, atualmente estou colocado numa escola do concelho, tenho essa liberdade. Se estivesse dependente da política, teria de fazer o que os partidos quisessem.

E a credibilização da política, como se consegue?
Os cidadãos têm de ser mais exigentes nas propostas que ouvem, avaliando as pessoas que se apresentam e tem de haver uma capacidade de sancionar os políticos que não cumprem.

Sancionando como? Há uma sanção tradicional, o voto.
Aquilo que me parece é que, às tantas, isso não chega. Na Grécia Antiga, na democracia ateniense, no século V antes de Cristo, havia um mecanismo para afastar os políticos não cumpridores: o ostracismo. O político que não cumpria era afastado durante dez anos da vida pública ateniense. Os cidadãos têm de ser mais exigentes, não podem aceitar que os políticos não cumpram a lei, não satisfaçam as suas aspirações. Têm de ser dada uma volta dos portugueses com a política.

A meio da viagem passamos em frente ao antigo Centro de Saúde de Belas. Foi o único ponto que Marco Almeida pediu para ser incluído no percurso e, percebeu-se rapidamente, serve de mote para o candidato independente lançar nova farpa ao presidente da Câmara Municipal de Sintra.

O edifício, de paredes verdes e portas e janelas fechadas, foi encerrado. “É um bom exemplo de como o atual executivo deixou cair esta unidade de saúde”, diz Marco Almeida. “Tenho uma certeza: estamos a dois meses das eleições e o atual presidente de câmara, depois de ouvir estas minhas palavras, vai anunciar, certamente, a reabertura do Centro de Saúde de Belas”, antecipa.

O líder do movimento “Juntos pelos Sintrenses” defende o regresso a um “forte investimento na política social” e apresenta o seu plano de ação, caso vença as eleições: “Atração de investimento, criação de emprego, qualificação dos espaços públicos, oferta na área social, quer na educação quer nas creches e nos lares das redes solidárias, e, acima de tudo, que as pessoas tenham orgulho de viver em Sintra e se sintam verdadeiramente sintrenses de Queluz ao Cabo da Roca.”

Na entrevista que deu ao Observador, Basílio Horta mostrou contenção quanto à possibilidade de baixar impostos. “Sabe quanto custa descer o,1 pontos de IRS aqui? 11 milhões. É preciso ter esse cuidado, quando se fala em descer impostos”, disse então o presidente da câmara de Sintra. De fora, Marco Almeida mostra-se mais à vontade com essa ideia e fala até numa “redução brutal da carga fiscal”.

Há uma realidade incontornável no concelho: em grande medida, continua a ser um dormitório.
É um espaço dormitório, mas onde há muito emprego criado. Temos um forte tecido empresarial no concelho de Sintra. É preciso cuidar das empresas que cá estão. Esta câmara preocupou-se em concentrar dinheiro nas contas bancárias. Temos 100 milhões de euros parados nas contas bancárias.

"Uma câmara que cobra impostos para pôr no banco não é uma câmara justa com os sintrenses. Se a câmara não precisa desse dinheiro, tem de devolvê-lo. Sou favorável à redução brutal da carga fiscal sobre os nossos residentes."

O que se pode fazer com esses 100 milhões?
Tenho uma perspetiva: investir. Na construção de escolas, construção de lares, da rede rodoviária, abertura de parques apoiando as instituições da Administração Central ao nível das forças de segurança, da saúde. Acima de tudo, os impostos têm de ser cobrados na justa medida das necessidades da câmara. Uma câmara que cobra impostos para pôr no banco não é uma câmara justa com os sintrenses. Se a câmara não precisa desse dinheiro, tem de devolvê-lo. Sou favorável à redução brutal da carga fiscal sobre os nossos residentes.

Redução brutal? Com que custos?
Podemos continuar a reduzir a carga fiscal no IMI, quer no IRS quer na derrama. Estamos com uma taxa de IRS de 4%. A câmara pode prescindir dos 5% a que tem direito e, atualmente, só está a prescindir de 1%. Se a câmara tem dinheiro parado, pode devolvê-lo às famílias. Vamos reduzir a carga fiscal das famílias, quer por via do IMI quer por via do IRS. Porque é que é preciso conciliar os dois impostos? Porque nem todos os sintrenses são proprietários e nem todos os sintrenses pagam IRS. Para que haja verdadeiro benefício sobre os residentes é preciso reduzir os dois impostos.

"A minha expetativa é ganhar e governarei em qualquer circunstância, como é óbvio, lançando o desafio a todos os que queiram fazer parte desta gestão. Não afasto ninguém da gestão."

“Eu não afasto ninguém da gestão”

Há uma mágoa (ou, pelo menos, um sentimento de injustiça) que salta à vista. No final daquela noite eleitoral de há quatro anos, depois de uma corrida ombro a ombro e de perder ao sprint para Basílio Horta (tendo elegido o mesmo número de vereadores), Marco Almeida contava ter recebido uma proposta para se juntar ao executivo. Isso não aconteceu.

E agora, vai devolver o gesto, se vencer? Garante que não, que governará “com todos”, desde que aceitem o projeto que tem para o concelho. Este ano, o candidato independente conta com o apoio dos sociais-democratas e, se a transposição dos resultados de 2013 fosse direta, Marco Almeida fecharia a contagem de votos com qualquer coisa como 40% dos votos. Limpinho, limpinho? A resposta, contida, mostra que o cenário não é assim tão linear.

"Esta câmara tem falta de capacidade de ouvir as pessoas. Se os sintrenses votam em diferentes forças políticas, se essa votação lhes confere mandatos autárquicos nas juntas e nas câmaras municipais, então é porque têm peso junto do eleitorado. "

Em 2013 ficou muito próximo de Basílio Horta. Este ano, que conta com o apoio do PSD, CDS e MPT, espera conseguir a maioria absoluta?
Governo em qualquer circunstância. Já estive numa freguesia liderada pelo PS…

Está a fugir?
Não, vou assumir. Já estive numa câmara municipal em minoria, numa câmara municipal em maioria, em que sempre se convidaram todas as forças políticas para fazer parte da governação. A minha expetativa é vencer. É uma caminhada difícil mas acredito que é possível vencer esta caminhada. Hoje, estamos mais fortes do que em 2013. As pessoas puderam constatar aquilo que foi a governação do dr. Basílio Horta à frente dos destinos do concelho. As pessoas conhecem-me, sabem do que sou capaz, aquilo que fiz e a dedicação que tenho. A minha expetativa é ganhar e governarei em qualquer circunstância, como é óbvio, lançando o desafio a todos os que queiram fazer parte desta gestão. Não afasto ninguém da gestão, apenas exigirei que se integrem naquilo que é o programa eleitoral que vou apresentar.

Não me diz se tem a expectativa de chegar à maioria absoluta.
Tenho expectativa de vencer.

Não alcançando essa maioria, entregaria pelouros a Basílio Horta?
Temos de saber respeitar e saber ouvir. Esta câmara tem falta de capacidade de ouvir as pessoas. Se os sintrenses votam em diferentes forças políticas, se essa votação lhes confere mandatos autárquicos nas juntas e nas câmaras municipais, então é porque têm peso junto do eleitorado. E eu convidarei todos a participar na gestão, não afastarei ninguém da gestão municipal desde que as pessoas se integrem no projeto que apresento e que acredito que será aceite pelos sintrenses.

Qual é a sua grande preocupação social no concelho?
Orgulho-me de ter participado num executivo camarário que tomou, de entre as várias medidas sociais, duas importantes. No ano 2002/2003, entregámos os manuais escolares do 1º ciclo. Curiosamente, o Governo do dr. António Costa aplicou esta medida a nível nacional. Foi das medidas mais importantes do ponto de vista social numa câmara. Orgulho-me de estar na génese dessa medida.

Mais de uma hora às voltas pelo concelho para ver Sintra da perspetiva de Marco Almeida

Está a dizer que António Costa foi buscar a medida a Sintra?
Foi buscar uma ideia que tive orgulho de aplicar em Sintra. Fomos o primeiro grande concelho a aplicá-la, em 2002. Fico feliz de, no ano letivo 2017/2018, a oferta de manuais escolares se estender a todo o país para os quatro anos do primeiro ciclo. Aliás, na nossa proposta eleitoral que estamos a sistematizar, vamos estender a oferta dos manuais escolares para os ciclos seguintes. A câmara tem condições para fazê-lo e vai fazê-lo sob a minha presidência.

O que é que isso representa para os cofres do município?
Pode custar à volta de 450 mil euros. Estávamos a gastar, com valores do primeiro ciclo, quando iniciámos a medida, à volta de 300 mil euros. A câmara tem 100 milhões parados no banco, pode e deve devolvê-los às famílias. Também aplicámos a tarifa social da água e da luz. O custo da água pode ser reduzido, a fatura da água vai ser reduzida a partir de 2018 porque é possível reduzir.

É possível reduzir porque há os tais 100 milhões no banco.
Temos um excesso de saldo orçamental. O dinheiro no banco serve quem? Serve os banqueiros, não serve os sintrenses. Esse dinheiro tem de ser mobilizado para o desenvolvimento de políticas sociais, a construção de infraestruturas e para o apoio de famílias através da redução de impostos.

Nos últimos quatro anos, houve um esforço para tentar puxar o emprego para o concelho. Concede esse esforço à atual presidência?
O concelho de Sintra tem tido uma redução do seu desemprego em linha com a redução do desemprego nacional. Mas há um dado que quero revelar: no primeiro trimestre de 2017, o desemprego jovem aumentou. E isso é um sinal, e é preocupante. Não se prepara o futuro sem apostar nos jovens. Lancei recentemente um compromisso de candidatura que se prende com o facto de que nenhum jovem que queira frequentar a universidade pública ficará por cumprir esse objetivo por falta de capacidade financeira. Sabemos que as bolsas de estudo têm vindo a ser encurtadas na área académica e temos jovens que não podem estudar porque os seus rendimentos não permitem. Mas também o rendimento das suas famílias não lhes permite ter bolsas de estudo. Estamos numa espécie de vazio em que as famílias não têm dinheiro mas também não têm bolsas de estudo.

Como funcionará esse programa?
Criaremos um programa de bolsas de estudo em que os jovens serão admitidos tendo em conta as médias alcançadas no final do ensino secundário.

Qual é o patamar mínimo para ter direito a essa bolsa?
O grupo de trabalho que está, no âmbito da educação, a trabalhar aponta para a média de 14 como mínimo para a candidatura a este programa de bolsas. Mas vai ter uma forte influência a questão da avaliação da situação financeira da família. A média pode ser reduzida de acordo com as maiores fragilidades financeiras das famílias.

“Sempre serei autarca”

É dos autarcas com mais anos de experiência de poder local. E é isso que diz que vai continuar a fazer. Antigo membro da comissão política de Manuela Ferreira Leite, diz que já teve convites para experimentar outros voos na política nacional, mas recusou sempre. “Repudia” os “políticos profissionais”, que hoje são deputados, amanhã autarcas e depois ministros, da mesma forma que fugiu da sede do poder e da “intriga” no concelho, quando foi vice de Seara.

Já tem quase 25 anos de trabalho autárquico. O seu percurso político fica-se pelo poder local?
Não me vejo a exercer outra função que não seja a de ligação ao poder local e autárquico. Nunca aceitei nenhum desafio para qualquer outro tipo de função. Sempre serei autarca, enquanto os sintrenses assim o entenderem. E serei sempre autarca aqui, não me vejo a candidatar-me a outra câmara, não tenho essa ligação.

Não vai transformar-se em mais um dinossauro nómada?
Não, e repudio isso. Não gosto disso.

Porquê?
Porque passa uma imagem para aqueles que residem nos concelhos de que está ali um profissional que está hoje em Sintra como amanhã pode estar em Bragança. Não me revejo nessa prática, como também não me revejo nos políticos que estão no Governo, que são ministros, secretários de Estado, eurodeputados. Não faz parte das minhas opções e da minha coerência.

"Os espaços onde está instalado o poder acabam por refletir a intriga, a conversa centrada mais na política e menos na gestão municipal. Quando, em 2013, fui para o Cacém, senti uma grande liberdade porque ali tinha o meu gabinete e estava dependente apenas daquilo que se passava no meu gabinete."

O Palácio da Pena como vista não é dos piores para se trabalhar. Acabou por fugir disto, também.
Mas também fugi àquilo que era a intriga do poder político que faz sempre em torno dos Paços do Concelho. Quis estar distante. Liguei-me às comunidades, zona urbana, zona rural, estive ligado às instituições.

De que intriga política se afastou?
Os espaços onde está instalado o poder acabam por refletir a intriga, a conversa centrada mais na política e menos na gestão municipal. Quando, em 2013, fui para o Cacém, senti uma grande liberdade porque ali tinha o meu gabinete e estava dependente apenas daquilo que se passava no meu gabinete. Não estava dependente da relação com outros vereadores nem com o presidente de câmara. Estive concentrado na gestão dos pelouros que tinha.

Como é que ganhou essa alergia à realidade quotidiana da política?
Bastou-me um ano nos Paços do Concelho em Sintra. E, pelo meu percurso político, percebi que [certos espaços, como] a Assembleia da República, onde se centram várias formações políticas, são sinais de confronto de poder e de relação de poderes.

Faltam dois meses para as eleições. Já sabe por onde vai andar?
Estamos a preparar o roteiro da candidatura. Vamos ter uma fase de campanha eleitoral que começa a 17 de setembro e vamos ter uma caminha de pré-campanha até ao dia 17. Estamos a concluir as listas, que vamos entregar na 2ª feira [dia 7 de agosto].

A entrevista foi conduzida a dias da entrega das listas da candidatura que lidera no Tribunal de Sintra. A campanha só começa em meados de setembro, mas as principais estradas do concelho estão preenchidas com os rostos dos principais candidatos à autarquia e Marco Almeida — ex-vice da câmara mas, ainda assim, uma figura discreta entre os eleitores do concelho — não esconde que vai aproveitar todo o dinheiro que a lei lhe permita para mostrar o seu rosto aos sintrenses. Basílio também está por todo o lado, mas garante que foi mais contido que o candidato apoiado pelo PSD, CDS e MPT. “Tenho muito menos do que Marco Almeida. O que faz algum sentido. Não pôr outdoors nenhum era uma prova de alguma arrogância e eu não quero”, disse Basílio Horta na sua participação no Carpool Autárquicas do Observador.

Já sabe quem vai ser o seu vice, se vencer?
Ainda não, cada coisa a seu tempo. Vamos ver também como for a distribuição dos pelouros pelos vereadores eleitos, vamos ver que vereadores das outras forças políticas também se integram no executivo. Temos tempo para isso. O importante, agora, é passar a mensagem, ganhar as eleições e construir uma alternativa centrada nas pessoas.

A mensagem também se passa com cartazes? Ganha-se votos com os cartazes?
Acho que os cartazes outdoors servem para afirmar o candidato. Mas traduzir isso em votos tenho dúvidas se terá importância tão extraordinária. O que faz com que os eleitores possam votar numa candidatura é a proximidade, o trabalho e uma mensagem que seja clara e que vá ao encontro das suas expetativas.

Quanto do orçamento de campanha vai investir em outdoors?
Vamos apresentar um orçamento de campanha que ronda cerca de 145 mil euros e vamos destinar o máximo que nos é permitido por lei. Mas estamos a fazer uma forte aposta nas redes sociais e no contacto com a rua. É no contacto de rua que podemos passar uma mensagem mais eficaz.

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