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Marco Chagas. "A Senhora da Graça assusta só de ver. Andarmos às voltas e ela sempre ali... O último quilómetro parecem dez" /premium

Na véspera do arranque da Volta, Marco Chagas, português com mais triunfos na prova, passou pela Rádio Observador e recordou o início da carreira, um presente de Natal e a mítica Senhora da Graça.

Correu o primeiro ano como federado na altura da Revolução de Abril, acabou a carreira em 1990, continua ligado às pessoas através dos comentários das principais provas de ciclismo na RTP e ainda vai dando umas pedaladas em estradas e BTT. Ah, e mantém o recorde de vitórias na Volta a Portugal em bicicleta de um português, num total de quatro entre 22 triunfos em etapas da principal prova do calendário nacional. Marco Chagas passou por equipas como Costa do Sol, Águias-Clock ou Louletano, vestiu também a camisola de FC Porto e Sporting – e se admite que a ausência dos três “grandes” das estradas não foi benéfica para a modalidade, também destaca um problema nacional de se olhar demasiado para a cor dessas mesmas camisolas.

Na véspera do arranque da Volta a Portugal de 2019, que terá um prólogo de apenas seis quilómetros em Viseu, o antigo corredor e atual comentador passou pela Rádio Observador e recordou alguns momentos da carreira numa entrevista conduzida por Ricardo Conceição e Nelson Moreira Ferreira, desde o início inspirado também pelo tio Ramiro Martins que esteve nos Jogos Olímpicos de Roma em 1960 às subidas à Senhora da Graça, passando pelas diferenças de condições no pelotão. Bicicletas, essas, guarda duas de forma especial – aquela com que correu a última Volta a Portugal em 1990 e a primeira que lhe foi dada num Natal inesquecível de 1962 (mas que tem o problema da dimensão das rodas que entretanto se deixou de fazer). “O ciclismo é um desporto duro. Mas o duro não são as corridas, é toda a preparação”, destaca.

Marco Chagas é o português que mais vezes venceu a Volta a Portugal, tem quatro vitórias como ciclista e é atualmente comentador televisivo que milhares seguem com atenção. O que é que leva uma pessoa saudável a saltar para uma bicicleta e a participar numa corrida que acaba a 2.000 metros de altitude?
É giro pensar nisso assim… É uma forma de se pensar naquilo que é uma paixão. Começamos por aí, podemos até estranhar no início para quem não está habituado, e depois entranha-se mesmo. É um gosto fazer. Não se sai de casa para se fazer uma subida que está a 2.000 metros de altitude, e muitas vezes acontece isso, mas é um trabalho que é feito com um objetivo, e esse objetivo é um dia chegar a fazer isso, chegando depois a parte da conquista.

É isso que motiva os atletas, a capacidade de ir pedalando um bocadinho mais forte e um bocadinho mais longe?
Sente-se isso porque o mundo das bicicletas, como em qualquer outras atividade desportiva no fundo, requer muito trabalho, muito treino. Não se pensa que hoje vamos subir a Serra da Estrela, como estamos em Portugal. Não é uma coisa que se faça assim. Aliás, até costumo brincar quando alguns amigos dizem ‘Vou levar este amigo no primeiro dia…’. Não, se o vais levar não o leves muito longe porque se o levam muito longe, no caso da bicicleta, muitas vezes significa que ele não volta. Não volta porquê? Porque o amigo que já anda há três ou quatro meses, às vezes há um ano ou dois, aquilo para ele é uma coisa normal. Já o amigo que saiu pela primeira vez, colocam-no em cima da bicicleta, vestem-lhe uns calções, uma camisola e um capacete, ele vai mas depois para voltar já é uma má experiência e não repete. Esse é o problema: em vez de ganharmos mais um praticante, muitas vezes acabamos por afastar definitivamente.

Como é que se tornou profissional?
Começo muito miúdo a ter a paixão pelas bicicletas porque o irmão da minha falecida mãe foi corredor de bicicleta e pelo que dizem bom, eu não posso confirmar porque era muito miúdo. Comecei logo a ganhar esse bichinho. Ele correu no Benfica, foi campeão nacional nos mais novos e parecia ter um potencial grande mas aos 20 anos, que era a idade em que devia ter começado a andar, desistiu, fez outro tipo de vida, foi para os Estados Unidos… Mas aquela paixão pelas bicicletas e o facto de morar mesmo ao lado dos meus avós. Deu-me logo aquele cheirinho das bicicletas… Nasci em 1956 e o meu tio foi em 1960 aos Jogos Olímpicos de Roma. Tinha quatro anitos…

O que é uma coisa marcante.
Claro, ir aos Jogos… Foram quatro atletas portugueses e o meu tio foi um deles, chama-se Ramiro Martins. Foi uma paixão que começou ali, também muito alimentada pelos meus pais. O meu pai gostava muito, a minha mãe também… Toda a minha família era apaixonada pelo desporto em geral e pela bicicletas, e comecei a andar logo muito miúdo, aos seis anos conseguiram dar-me uma bicicleta já bem usada de uma família com outro poder económico que a minha não tinha e que os rapazes tinham crescido. O meu pai conseguiu comprar, mandou recuperar a bicicleta e cheguei ao Natal de 1962, acordei e ao pé da chaminé estava uma bicicleta pequena, foi a minha melhor prenda até hoje. Era uma coisa linda…

Deve ter sido uma grande emoção incrível…
Acho que foi a melhor prenda que tive até hoje…

Muitos ciclistas têm esse apego e começam pelo objeto, a bicicleta, apertar e desapertar parafusos, afinar travões. Pela descrição parece também ser o seu caso…
Para terem uma ideia, quando comecei a correr nos meus 15/16 anos, hoje até dá vontade de rir… Sou de Pontével, concelho do Cartaxo, e comecei lá na Casa do Povo da minha terra nuns campeonatos que são hoje do Inatel, ainda não federados. Depois a partir dos 17 anos é que comecei como federado, que era a idade mínima. Mas como dizia, nas vésperas das corridas, estava horas de volta da bicicleta, ao pormenor de tudo ter de estar a brilhar, a bicicleta tinha de estar impecável. Hoje já não ligo muito, ainda continuo a pegar na bicicleta e gosto de ter bonita e limpa, mas às vezes penso ‘Hoje fica assim, amanhã logo se vê’. E isto durou até aos 18, 19, 20.

"Foram quatro atletas portugueses aos Jogos Olímpicos de 1960 e o meu tio foi um deles, chama-se Ramiro Martins. Foi uma paixão que começou ali, também muito alimentada pelos meus pais."

Quantas bicicletas tem?
Não tenho muitas… A última bicicleta com que corri, e que fiz a Volta a Portugal, guardei essa e ficará comigo sempre. Tenho essa primeira, a tal dos seis anos. Mantenho essa.

E está impecável.
Não está tanto como eu gostaria porque tem um problema: é uma medida de rodas que hoje já não existe. Andei à procura de pneus para estar toda montada mas tenho esse problema.

Quais são as principais diferenças entre a primeira Volta a Portugal que fez e a Volta a Portugal nos nossos dias?
Bom, a Volta hoje é mais fácil de fazer do que era no meu tempo, isso é incontornável. Porquê? Porque as estradas são melhores, as bicicletas são mais leves, têm outro tipo de oferta que não havia…

Há mecânicos…
Isso já havia. E bons! Aquela história de dizer que passava a vida de volta da bicicleta era a tal paixão, o ter sempre tudo muito limpinho e muito bonito. Acho que a maior diferença tem a ver com dois aspetos: a qualidade das estradas e os materiais que hoje são utilizados, desde equipamentos, não só as bicicletas. Há outro aspeto que é a dureza das corridas diminuiu bastante. Muitas vezes as pessoas até de forma depreciativa dizem que isto não é a Volta a Portugal… Não, é a Volta a Portugal que é possível fazer porque há limites. A corrida está inscrita no calendário internacional e não pode ter mais do que esta duração e do que este tipo de quilometragem, ainda tem de contar com um dia de descanso. São limites impostos internacionalmente, não é por nós.

Seria impossível fazer uma Volta mais Volta, que ia ao Alentejo, ao Algarve? É uma questão de patrocínios?
Primeiro é logo por aí: os organizadores vão onde lhes pagam, onde têm condições para poder fazer a Volta. Nesse aspeto, temos de reconhecer que a nossa parte sul do País tem esse problema: espaços muito grandes entre as cidades e as vilas, as ligações, e ainda mais grave que é o Algarve. A Volta não vai ao Algarve porque o Algarve não quer a Volta. O que se compreende porque a deslocação da Volta numa fase como esta em agosto a hotelaria está a abarrotar. Há o triplo das pessoas que vivem no Algarve no mês de agosto. O que vai a Volta para lá fazer? É uma enorme complicação em termos logísticos, de chegar ali, tirar as pessoas um ou dois dias… Não é fácil…

Marco Chagas com outra das grandes referências de sempre do ciclismo nacional (e europeu): Joaquim Agostinho

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Falava desse entusiasmo que tinha em casa com o ciclismo. Ainda é assim? Esmoreceu? Já não vemos as estradas e as chegadas com tanta gente?
Não é a mesma coisa, é verdade, mas como agora vejo do outro lado e tenho esse trabalho de comentador com a RTP há uns bons anos também acho que temos alguma culpa. A Volta a Portugal, como qualquer transmissão televisiva, é uma das coisas mais belas que há e também complexas…

E tem público?
E também com muita audiência… É isso que as pessoas têm de ter em conta, muitas das pessoas que não estão na estrada estão a ver em casa ou nas férias a ver a corrida com melhores condições e não apenas aquele momento da passagem que às vezes nos obriga a deslocações grandes para vermos 20 segundos e passou o pelotão…

Mas às vezes era um momento aproveitado pelas famílias para estarem à beira da estrada, como é ainda um pouco o Rali de Portugal…
Acho que ainda assim, se verificar naqueles pontos da Volta como a Torre, a Senhora da Graça, aquelas mais mediáticas dos últimos anos têm sempre uma boa moldura humana. E também há cidades onde as chegadas são cenários magníficos, estou a lembrar-me por exemplo de Fafe que é uma chegada que tem sempre muitos milhares de pessoas. Tem a ver também com as regiões, com as características da corrida… Como digo, as pessoas hoje também se acomodam mais. Depois também houve um período onde os três grandes saíram do ciclismo e ditou isso. Em Portugal temos esse problema, somos muito das cores dos três grandes, é um problema nosso.

Referia a Senhora da Graça. Ganhou 22 etapas da Volta, venceu por duas vezes lá também. É o sítio mais especial para se ganhar?
É um dos sítios mais importantes para se ganhar e que nos marcam mais, talvez pelo cenário em si. A Senhora da Graça não é a pior subida que há em Portugal, há mais meia dúzia que são tão ou mais difíceis, não têm é a imponência que tem a Senhora da Graça. Recordo-me quando era corredor de bicicletas, e ainda hoje acontece quando me aproximo para ir para as chegadas com quem vou da RTP, comento que assusta só de ver. Ainda hoje me arrepio de me lembrar disso… Imagine o que é andarmos às voltas mas ela está sempre ali…

Aquela espiral…
Está sempre ali, está sempre à nossa vista. Às vezes nas etapas, e este ano vai acontecer mais uma vez, os corredores estão sempre a vê-la por muito que não queiram e há as dificuldades que se sentem para chegar lá mas é ali que tudo vai acabar…

E o que é que se sente quando se chega lá acima?
Para já, se corre bem é uma sensação ótima, quando corre mal é penoso chegar lá acima… A Senhora da Graça não é a mais difícil em Portugal mas é uma subida que tem características muito próprias e tem um problema que se mantém até hoje: o último quilómetro parece que são dez. Quando chegamos, a corrida para quem está lá é terrível porque parece que vai acabar mas nunca mais, os metros não passam, não se chega lá acima. Até para quem vê, pode alterar tudo aí e afinal quem vai ganhar era quem vinha só em quarto ou quinto. Há ali uma quebra de quem está na frente e ao mesmo tempo o ânimo a quem até ali as coisas não correram muito bem…

Ganham força nos últimos metros?
Ganham força naqueles metros finais… Parece que a meta está a fugir ali…

É por passagens como a Senhora da Graça que as pessoas têm a ideia de que o ciclismo é um desporto mais difícil do que os outros?
O ciclismo é um desporto duro. E o duro não é a corrida, o duro é preparar a corrida. Nenhum de nós sai de casa para ir subir a Senhora da Graça, por exemplo. Não é possível. Tenho uma experiência muito engraçada: deixei de correr em 1990, tive ali depois cinco anos em que quase não andei de bicicleta e depois recomecei e foi como se nunca tivesse corrido de bicicleta. Custou muito. Só mesmo a vontade e saber que precisava de uma qualidade física que tinha perdido. A RTP faz-me então o desafio de subir a Senhora da Graça, no dia de descanso – e não tenho problemas em admitir que não consegui. Hoje já conseguia outra vez porque ando regularmente. Liguei ao Alexandre Santos [jornalista da RTP] a dizer ‘Não consigo ir aí, se quiserem fazer mais alguma coisa têm de descer porque não consigo’. Isto para dizer que o grande problema é preparar a corrida, a época de competição e ao longo da época. Isto demora anos a chegar a um determinado nível. Na competição em si, acho que há modalidades que não são de certeza melhores do que a nossa, são é diferentes. As modalidades coletivas não são propriamente fáceis, outras individuais também são muito duras.

"Deixei de correr em 1990, tive ali depois cinco anos em que quase não andei de bicicleta e depois recomecei e foi como se nunca tivesse corrido de bicicleta (...) A RTP faz-me então o desafio de subir a Senhora da Graça, no dia de descanso – e não tenho problemas em admitir que não consegui."

Ainda participa em provas?
Faço muitas daquelas aventuras fora de estrada, as BTT. Às vezes vou a alguns grandes eventos de estrada que agora há, que juntam 2.000 ou 3.000 pessoas e não vou mais porque passava a vida nisso…

E vai mais colado à roda que vai à frente ou também puxa?
Agora não, é mesmo para aproveitar, andar colado na roda da frente na estrada, nas BTT não porque é bom sabermos onde estamos.

É verdade que os ciclistas usavam uns bifes para amenizar o selim, folhas de couve também?
Uma série de coisas, sim… Já não apanhei esse tempo mas ouvia falar muito nisso. O bife era a carne crua, a colocação na zona do selim para evitar uma das coisas que mais terríveis que é essa zona. Às vezes não são as pernas nem o cansaço, a zona do selim fica em muito mais estado. Dói. Durante grande parte da minha carreira, o calção tinha ali uma zona de camurça mas lavávamos meia dúzia de vezes e ficava tudo cheio de buracos, desfeito. É evidente que nos magoava muito e provocava situações de grande desconforto.

Era só um calção para época toda?
Sim, naquele tempo sim.

Não tinham direito a dois ou três equipamentos?
Evidente que não… As pessoas não têm noção… Corri até 1990 mas até aos anos 80, quando as coisas começaram a mudar para melhor, tínhamos um equipamento mas era calção e camisola, o resto éramos nós que comprávamos. Sapatos, meias, luvas, tudo!

Até aquele boné fantástico?
Não, por acaso o boné a equipa dava… Também era o menos…

Há estes mitos como os bifes nos selins mas depois há curiosidades mais práticas. Como é que um ciclista come e dorme quando anda um dia inteiro em cima de uma bicicleta, como arranja tempo para outras coisas?
É muito complicado… Há aqui um aspeto que é preciso ter em atenção: na alimentação hoje as coisas mudaram muito porque as barras energéticas e o gel, que é o que os atletas mais usam, não só na nossa modalidade mas também naquelas onde andam horas a fazer competição, é corta, aperta e vai. Repõe grande parte das perdas rapidamente, tal como a bebida e até alguma alimentação sólida. Bananas, que é ótimo. Sandes, um belo de um bife… Não dá nem dá para parar para ir comer ao restaurante ali à beira da estrada. Esse aspeto também melhorou muito em relação ao meu tempo, tínhamos menores opções…

Marco Chagas no Museu do Sporting, um dos clubes que representou além de FC Porto, Mako Jeans ou Louletano nos anos 80

Filipe Amorim

Como é que faziam?
Em relação à comida usávamos bananas, maçãs, fruta cristalizada, os cubos de marmelada e os cubos de açúcar e era aquilo que levávamos para a corrida. Hoje as coisas mudaram tudo. Em relação às necessidades fisiológicas, esse é outro aspeto. Normalmente no verão os atletas não têm grande necessidade porque o suor consome aquilo que iria para a bexiga, com frio torna-se doloroso porque ou há um espaço ou um período para se parar ou então tentam fazer mesmo em andamento, uma coisa que não é muito bonita de ser ver. Se as coisas se complicam mais, é parar e ter de fazer o regresso ao pelotão porque os outros não param.

A bicicleta está cada vez mais na moda. Como é que está a ver este regressar à bicicleta? O utilizar o bicicleta para ir para o trabalho, por exemplo?
Muito satisfeito mas às vezes preocupado, principalmente com todo este convívio entre automóveis e bicicletas sobretudo dentro das grandes cidades. E as trotinetas também, que ainda não experimentei. Assusta-me um pouco porque vejo a velocidade com que se anda. A utilização da bicicleta elétrica, que é fantástica, faz com que nem todos tenham consciência daquilo que estão a utilizar e muitas vezes até no convívio com os peões fico assustado.

Estas bicicletas que se alugam podem atingir 25k/hora…
O que a rolar não parece muita velocidade mas… Lisboa por exemplo tem as colinas e chega-se a velocidades que não são brincadeira.

Para acabar, as meninas dos beijinhos no pódio vão acabar. Ainda se recorda de como começou esta prática?
Comecei a correr nos anos 70, exatamente no ano da Revolução que foi o meu primeiro ano federado. Não era propriamente assim. No final da minha carreira apanhei a fase das miúdas giras que iam ao pódio dar os beijinhos, aquilo era muito interessante, mas eu e o meu pessoal apanhávamos os ranchos que nem os tornozelos se viam porque iam vestidas a rigor, algumas com o seu buçozinho e tal da época, que era normal. Agora querem acabar, às vezes já vemos uns rapazes que vão lá fazer a entrega dos troféus… Enfim, se calhar com o exagero também se foi para outro lado e muitas vezes aquilo que se questiona é para onde as pessoas estão a olhar, se apontam mais para a figura que é o corredor ou se para as meninas, muito giras. Não sei… Acho que o ideal como em tudo é haver um meio termo.

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