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Bruno Simao

Bruno Simao

Maria Leite. "Gravar 12 horas, chegar a casa e decorar mais 30 cenas, não é um hobby. Tricotar é um hobby" /premium

A atriz nascida em Portimão faz parte do elenco de “Os Tradutores”, produção francesa realizada por Régis Roinsard, que agora se estreia. Começámos por aí e conversámos sobre tudo com Maria Leite.

Tem trabalhado ao lado de Nuno Cardoso no Teatro Nacional São João. Mas esta quinta-feira – nos cinemas Castello Lopes W Shopping, em Santarém, e no Castello Lopes Espaço Guimarães – dá-se a estreia de “Os Tradutores”, um filme de Régis Roinsard em que Maria Leite assume as vestes de Telma, uma tradutora portuguesa que se inclui num grupo de colegas de trabalho que têm como tarefa traduzir o último volume de um bestseller internacional. Sobre o processo, diz-nos o que já se adivinhava: que com condições para trabalhar, trabalha-se sempre melhor.

É particular na forma de dizer e interpretar . Em cinema já se cruzou com realizadores como Carlos Conceição, Pedro Caldas, Rita Nunes, João Pedro Rodrigues, Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Em teatro já foi encenada por outros tantos notáveis: Tiago Vieira, Carlos J. Pessoa, Mickaël de Oliveira, Nuno Cardoso, Luís Araújo. É licenciada em Ciências da Comunicação e não é por isso que não tem dúvidas discursivas. Duvidar é sempre um bom princípio.

[o trailer de “Os Tradutores”:]

Como é que tem lidado com estes tempos pandémicos?
Estou sobressaltada, assustada. Neste momento, tenho um contrato de trabalho com a minha entidade empregadora, o que me permitiu continuar a exercer a minha profissão de forma remunerada e sustentada. A mesma coisa não se pode dizer de muitos dos meus colegas, mas eu não posso falar por eles. Posso, no entanto, dizer que a situação é desesperante e assustadora.

A sua entidade empregadora é o Teatro Nacional São João (TNSJ).
Sim, é o primeiro contrato de trabalho que tenho na vida.

Tem que idade?
Tenho 31 anos. E trabalho profissionalmente como intérprete há 11 anos, e não só, fiz edição de vídeo durante uns tempos, fiz assistência de produção, licenciei-me em Ciências da Comunicação e na altura especializei-me na edição de vídeo. Comecei a fazer teatro no Grupo de Teatro da Nova e fui fazendo teatro e cinema, até aos 25 anos, em part-time, não era a minha ocupação principal. Aos 25 decidi ir para o Conservatório, para a Escola Superior de Teatro e Cinema. E, daí para a frente, quando tenho trabalho, sou atriz.

É bastante significativo que este seja o seu primeiro contrato de trabalho. Têm, no TNSJ, continuado a trabalhar?
Sim, estamos a ensaiar os próximos espectáculos. Temos mantido ensaios da “Castro”, que tínhamos estreado no Teatro Aveirense e estávamos em Bragança, em digressão, no dia em que foi declarado o Estado de Emergência. Interrompemos aí as apresentações. Estamos a viver uma época completamente atípica, em que há certos tipos de linguagem que estamos a redescobrir, a repensar. Durante o período de confinamento, o Rodrigo Santos teve a ideia de transformar a Antígona de Sófocles numa novela em oito episódios, feita em stop-motion, é uma co-criação do elenco quase residente do TNSJ: o Rodrigo Santos, o Afonso Santos, o Mário Santos, o João Melo, a Joana Carvalho e eu. Ainda que nenhum de nós domine stop-motion profissionalmente. Já está online.

"Fazia limpezas num airbnb em Lisboa, trabalhava como assessora de comunicação para um showroom, enquanto estava a tirar um mestrado em Arte Multimédia -- e eu não gosto de multitasking"

Dizia há pouco que não queria falar pelos seus colegas.
Acho que é muito importante não dar tempo de antena a discurso populistas ou generalistas que ponham tudo no mesmo cabaz, nisso me incluo, ou seja, não pretendo fazer nenhuma declaração em nome de nada, nem dizer qual é a solução. Estamos numa situação delicada. Mas pretendo juntar-me às manifestações. É a altura certa para nos sindicalizarmos, para quem ainda não o fez.

Neste “Os Tradutores” interpreta uma tradutora. Que relação tem com a tradução? Isto porque no teatro trabalha-se, muitas vezes, a partir de uma tradução, sobretudo se o texto não for português.
A tradução é uma disciplina imensa e há imensas escolas que defendem diferentes formas de tradução e eu sou uma leitora leiga e amadora da profissão de tradutor. Muitas vezes agarramos um texto, uma peça – infelizmente é raro trabalharmos dramaturgia portuguesa contemporânea – já traduzida. É muito engraçado pegar nas traduções ao longo dos tempos, ver o que muda, em termos de paradigmas teatrais há pequenas coisas que mudam de linguagem. Não sou mesmo uma entendida na matéria. Mas acho que a tradução é uma arte, é uma forma de literatura. Nós, atores, temos uma coisa em comum com os tradutores, nós interpretamos.

Como é que apareceu esta oportunidade? Sei que não é a primeira produção internacional em que participa, depois do filme de Gábor Reisz, “For Some Inexplicable Reason”, por exemplo.
Senti-me e sinto-me muito grata pela confiança depositada em mim pelo realizador, o Régis Roinsard, tanto no processo de seleção, como no processo de ensaios e de rodagem. Ainda por cima este trabalho surgiu quando estava sem trabalho há já uns meses, fazia limpezas num airbnb em Lisboa, trabalhava como assessora de comunicação para um showroom, enquanto estava a tirar um mestrado em Arte Multimédia — e eu não gosto de multitasking. Mas como a Telma, a minha personagem, diz no filme: “Quando é que ter só um emprego chega para sobreviver?”

Nem mais.
Foi o realizador que escreveu e ele falou muitas vezes connosco acerca disto, não queria fazer uma representação estereotipada das nossas situações socioecónomicas. E falou muito connosco sobre isso. Mas como dizia, estava a trabalhar bastante em várias coisas nesse momento, não como atriz, e como não temos intermitência, não é propriamente como se um ator pudesse tirar umas férias para aprofundar técnica, estudar mais um bocado, não dá, tens que pagar renda. Infelizmente é normal que isso aconteça durante o nosso percurso, nunca pára, o mito que existe um momento em que estamos concretizados, está ganho, isso não existe, podemos ter três ou quatro anos em que estamos no ativo continuamente e, de repente, temos dois anos da tua profissão em que não te aparece nada. Ou uns meses.

Dois meses é obviamente o suficiente para a situação se tornar muito complicada.
Sim, é o suficiente para ficamos numa situação muito periclitante em termos sociais.

Continuando…
Sim, surgiu a hipótese da audição, que foi feita à distância. Felizmente é uma coisa que começa a surgir porque não é fácil, nem barato, nem possível, apanhar um avião para ir fazer um casting. Então foi bom ter a possibilidade de fazer esta self-tape. E logo na altura deu-me muito gosto fazer, quando não há trabalho até uma audição sabe bem. Surge ali uma possibilidade de construção, com texto em francês ainda por cima, era um belo desafio. Mandei a self-tape para eles e quando eles me mandaram o mail de segunda entrevista, ou seja, ir lá fazer o casting presencial, senti uma alegria imensa, foi muito surpreendente.

"Para os atores que trabalham em grandes produções de ficção, o tempo de decorar o texto não está contabilizado, o trabalho de casa não é contabilizado"

Bruno Simao

E aí já se paga o avião?
Depende das produções, neste caso sim. Nalguns países as audições são pagas, nos Estados Unidos a partir da segunda chamada é pago e, cá em Portugal, também há pessoas que têm a boa prática de o fazer. Pelo menos cobre os custos de deslocação. Faz sentido.

Íamos na Telma.
Sim, a Telma não sou eu porque houve tempo para preparar, para experimentar. A composição da minha personagem é o resultado de meses de trabalho de vários departamentos e também um bocadinho da minha parte. Tem um visual muito forte, sugeriram que eu furasse as orelhas e eu furei, – mantive dois – rapei o cabelo, o realizador pediu-me para ganhar um bocadinho de músculo nos braços e eu fui para o ginásio, que é uma coisa que devo confessar que detesto fazer, a ideia é que a Telma fosse capaz de deitar um homem adulto abaixo com um soco. Toda essa preparação deu-me uma enorme segurança e uma maior eficácia durante a rodagem. Existe um tempo para imaginação. É espectacular ter tempo para fazer isso. Cá temos processos de ensaios de um mês ou, no caso de rodagens, nem sequer há meios para ensaiar. Ou são muito raras as situações em que isso acontece ou as pessoas por paixão e por prazer predispõem-se a um tempo extra para fazer esse trabalho de composição, mas ele tecnicamente, em termos de código laboral, a maior parte das vezes não é remunerado.

Percebo.
É como o tempo que os atores que trabalham para grandes produções de ficção. O tempo de decorar o texto não está contabilizado, o trabalho de casa não é contabilizado.

É um hobby, não é?
Quando se grava doze horas, chegamos a casa e é preciso decorar mais trinta cenas, chamar isso a um hobby, uff… Tricotar é um hobby, não é decorar trinta cenas.

Estava a ser irónico…
Eu sei, eu sei, estava só a aproveitar, desculpa.

Acho muito bem. Quer falar sobre o filme?
É um filme sobre o roubo das primeiras páginas de um livro, de um bestseller mundial, os nove tradutores contratados para o traduzirem são os possíveis culpados desse roubo. Faço de Telma, uma tradutora feroz e determinada. Há mais uma atriz portuguesa no filme, com quem tive o prazer de contracenar, chama-se Susana Joaquim. O filme tem várias componentes, elementos de policial, suspense, mas também tem uma carga política muito forte, uma defesa da democracia em combate à opressão neoliberal que trata os corpos como máquinas de produção, neste caso de tradução.

Bem visto.
Sim, e durante o processo surgiu uma cumplicidade muito forte entre o elenco, acho que isso se reflete no filme. Apesar de termos todos passados e carreiras diferentes, virmos de contextos socioeconómicos e sociopolíticos muito diferentes, a dedicação ao filme uniu-nos desde o primeiro dia, estávamos muito felizes por estar ali. O argumento é muito entusiasmante. E ainda que não seja algo essencial para a narrativa do filme, a ideia de Europa está bastante presente, isso juntou-nos em diálogo, falámos de não dar tempo de antena a discursos populistas nos nossos respectivos países. E isto é uma afinidade que dura até hoje. Isso é enriquecedor, há uma química de grupo no filme.

"E tentar explicar o que é um recibo verde em francês? É um desafio em muitos sentidos. E quanto mais traduzimos menos sentido faz. E hoje continua a não fazer sentido nenhum traduzido em que língua for. O estatuto de intermitência [dos artistas], em França, é de 1936."

O filme é melhor.
Sim, acho que sim. Nestas trocas de ideias chegámos à conclusão de que, provavelmente, Portugal e talvez a Grécia são os piores países para se ser ator. Ou, a bem da verdade, para exercer qualquer profissão ligada às artes. Tanto pela falta de políticas culturais, como pela forma como o código de trabalho é lido e aplicado, pela excessiva centralização, a ausência de contratos de trabalho como norma. E tentar explicar o que é um recibo verde em francês? É um desafio em muitos sentidos. E quanto mais traduzimos menos sentido faz. E hoje continua a não fazer sentido nenhum traduzido em que língua for. O estatuto de intermitência, em França, é de 1936.

É uma estreia relativamente reduzida.
Sim, são duas salas, mas tendo em conta o panorama geral acho que é o mais prudente a fazer-se.

Claro, só levantava a questão de ser algo estranho e diferente.
Para mim é ótimo, porque detesto estreias, a pompa e a circunstância da fotografia é algo que abomino, fico nervosa.

Agora outra coisa: nasceu em Portimão, que era algo que desconhecia, até porque agora vive no Porto.
Sim, andei na Escola Secundária de Loulé, tinha um grupo de amigos que gostava muito de banda-desenhada e de cinema, o José Carlos Fernandes costumava coabitar a biblioteca connosco, ainda hoje o leio. E víamos filmes e falávamos de filmes e de música. Era uma coisa que habitava o nosso dia-a-dia e aproveitávamos toda a oferta cultural que Loulé tinha, ciclos de cinema e assim, para descobrir coisas novas.

Foi depois estudar para Lisboa, para Ciências da Comunicação. A representação já se colocava ou só aparece no Grupo de Teatro da Nova?
Sim, apareceu quando me juntei ao grupo. Foi completamente decisivo na minha vida e nas escolhas subsequentes, mesmo à forma como, hoje em dia, vejo o teatro. A interdisciplinaridade, a democracia, a co-criação, uma data de coisas que hoje ainda aprecio.

As primeiras coisas que faz em teatro foi lá que as fez, certo?
Sim, o nosso coordenador, Diogo Bento, era super incisivo, por exemplo, na elocução. Tínhamos uma liberdade criativa enorme, mas havia um peso relativo à comunicação e na altura era muito pouco hábil com a palavra falada em público. E a primeira curta-metragem que fiz foi nessa altura também, o Pedro Caldas, um realizador que me ensinou a ver o cinema como uma arte de paciência, a arte de saber esperar.

Estamos a falar de que ano?
2007/2008, acho.

Teve um trabalho como editora de vídeo e de conteúdos.
Sim, no CITI – Centro de Investigação de Tecnologias Interactivas, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

Isso já depois de ter concluído a licenciatura em Ciências da Comunicação?
Imediatamente a seguir, sim. Era um dos meus professores de licenciatura que geria esse centro de investigação e fiquei lá a trabalhar durante dois anos.

"Tive projetos sempre paralelos, fora de horas e que eram coordenados com os outros empregos que tinha. E acho que foi mais ou menos aos 25 anos que decidi ir para o Conservatório, para aprofundar"

Até que foi para o Conservatório?
Não, depois ainda tive uma fase em que trabalhei como assistente de produção nas LARGO Residências, e nessa altura já estava a começar a trabalhar com um grupo de amigos, projetos de co-criação, teatro amador. Continuei a fazer cinema, trabalhei outra vez com o Pedro Caldas, com quem fiz o “Guerra Civil” e com o Carlos Conceição, com quem fiz o “Inferno”. Mas eram projetos sempre paralelos, fora de horas e que eram coordenados com os outros empregos que tinha. E acho que foi mais ou menos aos 25 anos que decidi ir para o Conservatório, para aprofundar.

E, entretanto, já fez um mestrado?
Não, ainda não, e não terminei a minha licenciatura. Depois disso comecei a trabalhar com o Teatro da Garagem, que foi um momento muito importante para mim, estive lá dois anos. Já mais recentemente fiz “A Constituição”, com o Mickaël de Oliveira, esse espectáculo sim, senti que foi bastante decisivo. Relativamente a ter-me mudado para o Porto, a verdade é que já queria sair de Lisboa há algum tempo e sempre gostei muito do Norte, sinto-me bem aqui. Também gosto muito do Algarve. Temos a felicidade de ter um país relativamente pequeno, em Nova Iorque há pessoas que fazem Porto-Lisboa para ir trabalhar, acho que é mesmo importante termos uma visão larga do nosso país e a possibilidade de o habitarmos e nos deslocarmos no seu todo, não só nas capitais nem no sítio onde nascemos, não tem que haver nenhuma razão de força maior para isso.

Entendo.
Depois, o Luís Araújo convidou-me para o “Pulmões” e o Luís colaborava com o Nuno Cardoso no Ao Cabo Teatro. Conheci o Nuno Cardoso, ainda antes de ele se tornar diretor do TNSJ, fiz o “Bella Figura” e daí “A Morte de Danton” e continuamos, felizmente, juntos.

No meio disso, fez uma co-criação chamada “A Vila”, com o Eduardo Breda.
Foi o Eduardo que me convidou para integrar o projeto, ele já tinha as bases pensadas para o espectáculo. Gostei imenso de trabalhar com o Eduardo, foi um processo muito duro, é muito difícil ser criador e intérprete ao mesmo tempo, é tramado, não me sinto ainda, de todo, habilitada para encenar, nem sei se alguma vez me hei de sentir, porque é uma profissão que exige uma especialização absoluta e um rigor de olhar, uma capacidade de pôr tudo em perspetiva, que eu não tenho. Tento ter o máximo possível enquanto intérprete. Felizmente, não estávamos sozinhos. E foi uma luta muito dura, mas muito bonita de travar com o Eduardo. Demo-nos ao luxo de discordar um do outro, não há maior ator de amor criativo do que esse. Isso fez “A Vila” funcionar.

Passar por isso fê-la perceber que não estava pronta ou que apenas não queria encenar?
Para o fazer gostaria de estudar mais, ter tempo para me dedicar a isso e ajudar outros, fazer assistência de encenação, talvez. Tenho colegas que são intérpretes e que também são ótimos encenadores. E também depende da linguagem que queremos montar, descobrir isso é o mais difícil. Para mim ainda não existe. E depois também não há grande incentivo a concorrer a coisa nenhuma. Mas não me estou aqui a queixar e a dizer que é por causa disso, coitadinha de mim, não, não é por isso. E também não sinto que seja uma extensão natural, essencial, à profissão de atriz. Ou seja, o facto de ser um recurso de nos tornarmos autónomos financeiramente, que é criar a minha própria estrutura e começar criação própria, não é a solução para o facto de a nossa situação ser mal renumerada, ter pouca consistência e regularidade. Não é: “Olha, ator, estás sem trabalho? Vai escrever”. Não é assim. Escrever é, em si, uma coisa que exige técnica, afinação, anos a deitar coisas fora, deve haver pessoas que o fazem maravilhosamente, claro que sim, mas eu sinto que se quisesse dedicar-me a encenar precisava de tirar tempo para isso.

"Existe [na televisão] depois uma pressão associada a um estereótipo de imagem, que existe uma pressão brutal para ligar a profissão de intérprete à ideia de figura pública, que é uma coisa com a qual não concordo, acho que são duas coisas completamente separadas e as pessoas têm que ser livres de poder fazer uma e outra."

A Maria chegou a fazer televisão. Ultimamente tem feito menos.
Houve televisão que adorei fazer. “Uma Família Açoreana”, adorei fazer essa série, mais recentemente também fiz “A Madre Paula”, e também fui muito divertido gravar. Há televisão que volta e meia faço, claro que depende das condições que nos são oferecidas. Não temos o privilégio de poder escolher muito. Não há muitas audições, não há muito trabalho, então é preciso experimentar um bocadinho de tudo. Se for possível fazer tudo, ótimo. Eu não tenho estômago. Fazer telenovela é das coisas mais duras que existe. Penso muitas vezes nas pessoas que lá tenho, aflige-me muito pensar que trabalham tanto por tão pouco. É triste, acima de tudo. Para mim foi muito duro. Fiz duas telenovelas de seguida e não me fez bem nenhum, nem à saúde, nem a nada, doze horas de trabalho durante dois anos é um disparate. Não me venham cá dizer “tens sorte porque tens trabalho”, doze horas de trabalho às vezes seis dias por semana é das coisas mais alienantes, despersonalizantes. Não já tempo para pensar no que estamos a fazer e isso leva-me a existir num permanente estado de reação. E isso não é bom.

Para ninguém.
Tenho colegas que o fazem, que fazem bem e lá lidam com isso. E também aprendi muitas coisas boas lá, se existissem boas condições para lá trabalhar voltava, sem dúvida. Ou seja, não há nada contra, mas que foi terrível sim. E que existe depois uma pressão associada a um estereótipo de imagem, que existe uma pressão brutal para ligar a profissão de intérprete à ideia de figura pública, que é uma coisa com a qual não concordo, acho que são duas coisas completamente separadas e as pessoas têm que ser livres de poder fazer uma e outra, não caminham de braço dado, acho que usar isso como ferramenta de captação de públicos é uma desculpa para gastar menos dinheiro em comunicação. Acho que temos ótimos profissionais nessa área, portanto em vez de capas, contratem pessoas.

Para não terminarmos assim: vi o seu nível de sapateado em “A Morte de Danton” e achei muitíssimo bem. De onde veio?
Fiz ballet clássico a partir dos quatro ou seis anos, nunca sei. E treinava diariamente, houve uma altura em que quis dedicar-me a ser bailarina profissional, e no treino havia várias modalidades: clássico, contemporâneo e sapateado. Isso surgiu quando tinha uns dez ou onze anos. Hoje em dia não calçava o meu par de pontas, mas calço os meus sapatos de sapateado. Isto é uma daquelas frases que podes puxar para título.

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