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HUGO AMARAL/OBSERVADOR

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Mariana Mortágua. "Mais cedo ou mais tarde o PS vai ter de decidir por que lado vai"

Em entrevista ao Observador, Mariana Mortágua pressiona o PS a clarificar o seu caminho até ao final da legislatura. Também critica o PSD de Rio e o papel de Marcelo na reaproximação entre PS e PSD.

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O tom é quase sempre defensivo. Mariana Mortágua não se precipita em traçar cenários hipotéticos sobre o futuro pós-legislativas de 2019. Reafirma a disponibilidade do Bloco de Esquerda para continuar a fazer parte da solução, mas não se compromete com uma “geringonça 2.0”, nem tão pouco com um Governo PS/BE. Tudo somado, não hesita em pressionar os socialistas: “Mais cedo ou mais tarde”, diz, “o PS vai ter de decidir por que lado vai“.

Em entrevista ao Observador, à margem das jornadas parlamentares do Bloco de Esquerda — que decorreram esta segunda e terça-feira em Leiria –, a deputada bloquista deixa claro quais são as duas grandes prioridades do partido até ao final da legislatura: garantir mais investimento público e a revisão do código laboral. Nessas matérias, aponta o dedo a Mário Centeno, que tem sacrificado o investimento em “nome dos brilharetes” do défice, e ao Governo socialista como um todo, que continua incoerente no combate à precariedade. “Tudo aquilo em que o PS recuar em matéria laboral diz mais sobre o PS do que diz sobre o Bloco de Esquerda”, argumenta.

Quanto à direita, Mariana Mortágua é mais dura: “A direita está muito desesperada e muito sem chão. Perdeu o programa político. Não tem nada para propor porque isto está a resultar”. A nova liderança do PSD também não faz com que reveja essa avaliação. “Não me parece que Rui Rio tenha um programa diferente de Pedro Passos Coelho“. E a bloquista não tem dúvidas: qualquer tentativa de reedição do Bloco Central, o grande responsável pelos “problemas estruturais do país”, será nociva para a política portuguesa. E atira a Belém: “O Presidente da República tem um plano para retornar àquilo que entende ser o estado natural das coisas, o do Bloco Central“.

“O Presidente da República tem um plano para retornar àquilo que entende ser o estado natural das coisas, o do Bloco Central”, diz Mariana Mortágua ao Observador (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

“O PS tem de fazer as suas escolhas”

O PSD de Rui Rio é diferente do partido que foi liderado por Pedro Passos Coelho?
Embora Rui Rio tente ser diferenciador na forma — e não é difícil porque Passos Coelho liderava em permanente confrontação e desgosto face àquilo que lhe tinha acontecido — não me parece que tenha um programa político muito diferente. E isso foi dito. Foi dito, por exemplo, na Educação, quando Rio quis voltar às políticas educativas de Crato; e foi dito também Economia, quando disse que teria feito igual ou pior a Maria Luís Albuquerque. Não me parece que tenha um programa diferente de Pedro Passos Coelho.

Esta disponibilidade do PSD para negociar com o PS não retira força negocial ao Bloco de Esquerda? Em teoria, o PS está agora em condições de dispensar o Bloco de Esquerda e de procurar entendimentos com os sociais-democratas…
Não. O PS e o Governo têm hoje resultados económicos e sociais do acordo que fez com o Bloco de Esquerda. O PS escolheu fazer um acordo com o Bloco de Esquerda, obviamente muito pressionado pelas circunstâncias políticas do momento. Alterou o seu próprio programa para poder governar com mínimos que fossem compatíveis com as ideias do Bloco e abdicou de várias propostas que constavam no seu programa. Olhando para trás, percebemos que essa escolha que o PS fez trouxe bons resultados. Isso é inegável. O PS tem de fazer as suas escolhas, escolhas que dão resultados. E os resultados que temos são fruto de um acordo entre o PS e o Bloco de Esquerda.

Registo que esqueceu o papel do PCP…
Falo em nome do Bloco. Mas obviamente que o PCP faz sempre parte da solução.

Mas sente que existe, de facto, essa tentação do PS de se aliar ao PSD?
Não interpreto vontades ou “desvontades” do PS. Interpreto resultados e os resultados do acordo à esquerda foram bons para o país. Se há um caminho que está a dar bons resultados, esse caminho tem de ser prosseguido. Também olho para o país e para o nosso passado e vejo como as alianças entre PS e PSD foram responsáveis pela piores coisas e pelos maiores problemas estruturais que temos. Desde a atribuição errada de fundos comunitários, às PPP, às privatizações, ao modelo de crescimento baseado em setores não transaccionáveis, muito rentista. Tudo isso passou pelo “Bloco Central”. O “Bloco Central” faz parte do problema estrutural do país. Uma governação condicionada pelo Bloco de Esquerda traz resultados muito mais positivos.

E a posição do PS está clarificada em relação ao PSD?
A posição do PS é a posição presente. É a posição de um PS que governa no âmbito de um acordo com o Bloco de Esquerda.

"Não me parece que Rui Rio tenha um programa diferente de Pedro Passos Coelho."

Mas há alguns sinais contraditórios. Esta semana, as equipas de António Costa e de Rui Rio reuniram-se para estudar a descentralização e o novo quadro de apoios comunitários. Não lhe causa estranheza que, depois de três anos a suportar o atual Governo, o PS dialogue à direita em matérias tão estruturais?
O PS fará os diálogos que entender. E fará as escolhas que entender. A única coisa que podemos dizer é que, quando escolheu governar coordenando medidas com o Bloco de Esquerda, a verdade é que deu bons resultados. É com base nesse exemplo que temos de tomar as nossas decisões. Os outros partidos serão responsáveis pelas suas decisões.

E mediante uma decisão do PS de se reaproximar do PSD, o Bloco tomará alguma atitude?
Isso são “suponhamos”…

Essa reaproximação já existe, é factual…
O que existe é um acordo entre o PS, o Bloco, o PCP e Os Verdes com bons resultados e com medidas de governação concretas. E há uma avaliação muito positiva desse acordo. A partir daí, não há qualquer interesse em divergir dessa escolha.

Mas o Bloco de Esquerda não foi convidado para fazer parte deste diálogo, destas reuniões, tanto em matéria de descentralização, como sobretudo em relação aos fundos comunitários. O facto de não ter sido essa a primeira decisão do PS, não merece uma reprovação do Bloco?
O Bloco não se coloca de fora de qualquer diálogo que seja importante para o futuro do país. Temos propostas sobre todos os temas, temos trabalho feito para apresentar e temos a nossa visão de estratégia de médio prazo para o futuro do país. E não precisamos de um diálogo com o PS para apresentar essa estratégia. Aqui estaremos para dar esse contributo.

Portanto, estas reuniões entre o PS e o PSD não causam qualquer tipo de estranheza?
Não têm que causar nem deixar de causar. Temos de reafirmar aquilo que sempre dissemos: o diálogo e a escolha que o PS fez em governar com medidas negociadas com o Bloco de Esquerda provaram dar resultados na política de rendimentos. Portanto, estamos tão disponíveis para seguir os mesmos bons resultados noutras áreas da governação.

"As alianças entre PS e PSD foram responsáveis pela piores coisas e pelos maiores problemas estruturais que temos. O bloco central faz parte do problema estrutural do país. Uma governação condicionada pelo Bloco de Esquerda traz resultados muito mais positivos."

“O Presidente da República tem um plano para retornar ao Bloco Central”

Acredita que esta reaproximação está a ser patrocionada por Marcelo Rebelo de Sousa? Ainda há meses dizia que o Presidente pretendia a reconstituição de um Bloco Central… As últimas semanas têm-lhe dado razão?
É muito cedo para dizer, mas isso foi sempre muito claro desde o início. O Presidente da República tem um plano para retornar àquilo que entende ser o estado natural das coisas, do Bloco Central. E para isso acontecer é preciso haver uma estabilização do PSD — que me parece difícil, mas enfim. Não é surpreendente que Marcelo Rebelo de Sousa tente essa reaproximação e esse Bloco Central, que tem sido o grande responsável pelos destinos do nosso país.

E isso não extravasa de alguma forma os poderes presidenciais?
Estamos a falar de um Presidente da República que mais vezes e de forma mais abrangente interveio em vários aspetos da política portuguesa. É esse o seu estilo. A sua intenção é clara e está a fazer a sua magistratura de influência.

Neste novo contexto político, com o PSD disponível para apoiar, em teoria, um governo minoritário do PS, o Bloco não corre o risco de ser atirado para fora do perímetro de influência que conquistou?
Conseguimos reverter medidas violentíssimas da política de direita, algo que o PS nunca teria feito a este ritmo e o PSD muito menos. E conseguimos outras medidas estruturais para o país: o caso das rendas de energia, que não foi possível ir tão longe como queríamos ter ido, o caso da regularização dos precários do Estado, que é histórico. Também conseguimos a transição de estabelecimento ou conquistas, ainda que mínimas, na política social e na política laboral. Isto só foi possível porque havia um acordo entre o PS e o Bloco de Esquerda. Hoje, o próprio PS atribui o sucesso da sua governação a estas medidas. Às vezes até é curioso e irónico porque as medidas que tivemos tanta dificuldade em convencer o Governo socialista são agora aquelas que o Governo socialista reclama como sendo as responsáveis pelo seu sucesso.

Presidente da República tem um plano para retornar àquilo que entende ser o estado natural das coisas, o do bloco central. A sua intenção é clara."

É curioso que diga isso porque o PS reclama precisamente o mesmo e diz que o Bloco de Esquerda se apropria das medidas que foi o próprio Governo socialista que tomou. Assim como o PCP. Há aqui uma disputa por protagonismo?
Não. Mas há coisas factuais: o acordo para o salário mínimo não foi imediato. Foi conseguido com duras negociações. O aumento das pensões foi muito negociado. A primeira proposta do Governo para descida do IRS, não é segredo para ninguém, era metade daquela que veio a acontecer. O Bloco trabalha muito para conseguir ir sempre mais longe. É uma negociação muito dura. Muitas vezes, o PS tem outras prioridades e as negociações são muito duras.

Insistindo neste ponto: acredita que há condições para reeditar a atual solução parlamentar?
Tudo depende da relação de forças de todos os partidos.

Das eleições legislativas, portanto.
Tudo depende da força relativa de todos os partidos. Não tenhamos dúvidas sobre uma coisa: aquilo que importa é o programa, são as ideias políticas. Não é sempre assim. Em Portugal, está-se muito habituado a partidos que fazem acordos para ir para o Governo. Querem governar por governar. Não é assim que encaramos a política. Queremos ter força para fazer valer as nossas ideias. É essa maioria que estamos a procurar e queremos conquistar. Esse será sempre o nosso objetivo.

"As maiorias absolutas fizeram mal à democracia, fizeram mal ao país. Isso era tão verdade antes como é verdade agora, com António Costa como primeiro-ministro"

HENRIQUE CASINHAS / OBSERVADOR

“O Bloco quer ser maioria. Quer implementar o seu programa”

Imaginemos então este cenário: nas próximas eleições, o PS vence sem maioria absoluta e precisa do Bloco de Esquerda para governar. O PS poderá contar com o Bloco de Esquerda?
E se fosse ao contrário? Não respondo a cenários hipotéticos. Só digo o seguinte: nos últimos anos, o Bloco mostrou ao país que tem capacidade de diálogo e de compromisso, que tem competência e que tem ideias políticas muito consolidadas. Dentro da relação de forças e do poder que temos, é essa a capacidade de diálogo que levamos para cenário político. De resto, as avaliações fazem-se sempre no cenário concreto. Não podemos fazê-las por suposição porque o futuro nunca é aquele que podemos prever agora.

Essa capacidade de diálogo não era tão evidente antes ou foi o interlocutor que mudou? Foi o PS que mudou?
As circunstâncias mudaram. Aquilo que permitiu o acordo de 2015 foi uma conjugação muito particular de circunstâncias. Era preciso travar o plano da direita. Houve eleições, houve uma coligação que não conseguiu a maioria suficiente, houve dois partidos que eram necessários para apoiar um Governo — não bastaria apenas um e isso também foi importante — e havia a circunstância específica de um PS que não podia reeditar um bloco central. Tudo isto deu origem à maioria parlamentar atual. O Bloco esteve à altura do desafio, tem estado e vai continuar a estar à altura. Não podemos é prever o futuro. Mas o Bloco tem o seu programa político, o Bloco tem o seu projeto. O Bloco quer ser maioria. Quer implementar o seu programa. E é essa autonomia que nos define.

Não é isso que parecem dizer as sondagens mais recentes, que parecem apontar para o crescimento do PS e a estabilização do Bloco de Esquerda e do PCP, o que nos leva a uma outra pergunta: se o PS só precisar de um partido para formar esta maioria parlamentar, não seria mais confortável para o Bloco de Esquerda dispensar o PCP e fazer esta aliança a dois?
Não gosto de ver a política na geometria fria das alianças de governo. Não trabalhamos a pensar se é preciso mais um ou menos um deputado para fazer alianças. O que nos move, e vou repetir isto à exaustão, é tirar o melhor proveito deste momento político, conseguir influenciar a governação e ter as melhores medidas aprovadas. Não nos devemos antecipar ao final desta legislatura. Falta muito e há muito por cumprir. Não podemos agora passar por cima do resto da legislatura, antecipando apenas o que vai acontecer em 2019. Até porque o que vai acontecer em 2019 também depende do que acontecer até ao final da legislatura.

Mas já existe esse calculismo no interior da solução parlamentar, nomeadamente no PS?
Quando falei em calculismos… Aparentemente a única coisa que interessa desde que Rui Rio apareceu na cena política, inclusive nas perguntas dos jornalistas, são as geometrias e os cálculos das próximas eleições. Até lá chegarmos temos de nos focar em cumprir esta legislatura e em tudo que há por fazer.

"O Bloco tem o seu programa político, o Bloco tem o seu projeto. O Bloco quer ser maioria. Quer implementar o seu programa. E é essa autonomia que nos define."

“A direita está muito desesperada e muito sem chão”

Rui Rio assumiu essa estratégia, a de ser um factor de instabilidade na “geringonça”. Conseguiu? Porque essa discussão sobre as geometrias existe no PS e no Bloco também.
É normal que se discuta isso. Mas não podemos desviar a atenção do cumprimento desta legislatura. Repito: aquilo que determinará a posição de cada partido nas eleições é a avaliação que as pessoas fazem de como os partidos se comportaram nesta legislatura. Se cumpriram ou não cumpriram as suas promessas, se fizeram o melhor possível, se as políticas que aprovaram foram as corretas. Se foi ou não possível que o PS alterasse o código laboral como prometeu, se o combate à precariedade foi tão longe como deveria ter ido, se os apoios sociais foram devidamente reforçados, se há de facto um reforço dos serviços públicos ou não… Essa é a avaliação que tem de ser feita e essa avaliação vai contar para a força com que partido chegará às próximas eleições. O Bloco quer lá chegar com toda a força que for possível. E é isso que nos move. Não nos move o calculismo do dia a seguir.

Será essa estratégia do Bloco na próxima campanha? Denunciar aquilo que não foi possível fazer por causa do PS?
Essa avaliação tem sempre de ser feita. A direita está a sempre a fazer aquela caricatura de que o Bloco um dia diz bem, no outro diz mal, é oposição, mas apoia ao mesmo tempo. E a verdade é que somos isso mesmo. Arrisco-me a dizer que somos melhor oposição do que aquela que existe. O que também não é difícil. Fora da caricatura, as pessoas percebem muito bem qual é o papel de um partido que tem 10% e qual é a sua capacidade de influência. Ela é possível, mas é limitada. Não temos a força para impor tudo aquilo que queremos. E há casos em que isso foi evidente: nas rendas da energia, na venda do Novo Banco, na própria lei laboral. Perdemos votações na Assembleia porque o PS se juntou a PSD e a CDS. Essa análise política terá de ser feita.

"O que vai acontecer em 2019 também depende do que acontecer até ao final da legislatura. Aquilo que determinará a posição de cada partido nas eleições é a avaliação que as pessoas fazem de como os partidos se comportaram nesta legislatura. Se cumpriram ou não cumpriram as suas promessas."

Os portugueses perceberão esta posição do Bloco? Aquela crítica de Passos Coelho a dizer que “Bloco e PCP rosnam mas não mordem” poderá ter impacto nessa avaliação?
Não. A direita está muito desesperada e muito sem chão. Perdeu o programa político. Não tem nada para propor porque isto está a resultar. Não podem propor mais do que existe, porque esse é o papel do Bloco; e propor menos é austeridade e menos rendimento, o que não tem espaço. E também estão com dificuldades por haver uma maioria parlamenta que não branqueia tudo aquilo que a governação faz. Já houve muitos casos em que o Bloco marcou uma linha e em que as medidas foram travadas. Recordo o caso da administração da Caixa, a resolução do Banif ou TSU. É difícil levar a sério quando a direita diz que o Bloco não é consequente com as suas críticas, porque muitas vezes quem vem dar o voto para que as medidas não passem é o próprio PSD.

O que é que seria um bom resultado para o Bloco de Esquerda nas próximas eleições legislativas? Onde é que está a fasquia?
Repito: antes disso temos de discutir o final da legislatura.

Chegaremos lá. Mas tenho de insistir: não há fasquia?
Falta muito tempo.

O objetivo do Bloco de Esquerda é evitar a maioria absoluta do PS?
Não mudamos a nossa opinião sobre isso. As maiorias absolutas fizeram mal à democracia, fizeram mal ao país. Se há coisa que esta maioria parlamentar demonstrou é que a democracia parlamentar podia ser melhor.

E isso era tão verdade antes como agora? Mesmo com António Costa como primeiro-ministro?
Era tão verdade antes como é verdade agora.

O Bloco admite integrar um governo socialista?
Tivemos essa discussão em 2015 e essa resposta foi clara nessa altura.

Será clara em 2019?
Não me parece que seja essa a discussão a ter…

Portanto, não exclui? 
Não, não, não! Não exclui, nem admite, nem vou ser citada em nenhuma destas frases. Nem “Mariana Mortágua não exclui…”, nem “Mariana Mortágua admite”. Mariana Mortágua diz que não faz cenários sem analisar realidades concretas. Não responde a nada fora de realidades concretas. O que eu digo é: da última vez que houve maioria parlamentar, foi muito claro porque é que não fomos para o Governo. Não íamos para um governo que governasse com os constrangimentos relativos às questões da dívida, do défice, entre outras. Durante esta legislatura, mantiveram-se.

E é expectável que se mantenham.
Essa é a minha avaliação política.

"As maiorias absolutas fizeram mal à democracia, fizeram mal ao país. Isso era tão verdade antes como é verdade agora, com António Costa como primeiro-ministro."

“O investimento público é sacrificado em nome dos brilharetes de Mário Centeno”

O Bloco elegeu para a reta final desta legislatura dois temas fundamentais: o investimento público e a legislação laboral. Começando pelo primeiro: como é que o Bloco justifica o facto de apoiar um Governo com o nível de investimento mais baixo dos últimos 20 anos? Não é uma contradição insanável? 
A execução do investimento público é muito baixa e é muito baixa por uma razão: Mário Centeno não consegue apresentar os seus défices sistematicamente para além daquilo que inscreveu no Orçamento do Estado e ao mesmo tempo aumentar o investimento público. O investimento público, tal como as verbas necessárias para a melhoria dos serviços públicos, são sacrificados em nome dos brilharetes que o Governo socialista e Mário Centeno querem fazer na Europa com o défice.

Há um poder excessivo de Mário Cento sobre os outros ministérios? Na Saúde, por exemplo?
Acho que é evidente. E não só na Saúde. Somos confrontados com medidas, verbas e despesas que os ministros setoriais defendem ser necessárias, que depois são barradas no Ministério das Finanças. Que são travadas na secretária de Mário Centeno. Esta governação deu um excessivo peso à questão do défice. Agora, a análise tem de ser completa: é inegável que há reforços de verbas muito importantes em todas as áreas. A ideia da direita, que agora rasga as vestes com os cortes nos serviços públicos, é uma mentira. Não tem outro nome: é uma mentira. Não há cortes nos serviços públicos. O problema é que o reforço de verbas não é suficiente para compensar os cortes da direita. São muitos anos de demasiada austeridade. E o PS deveria estar muito mais empenhado em fortalecer os serviços públicos do que em fazer brilharetes com o défice. Não tem estado e isso tem custos.

"O investimento público, tal como as verbas necessárias para a melhoria dos serviços públicos, são sacrificados em nome dos brilharetes que o Governo socialista e Mário Centeno querem fazer na Europa com o défice."

Voltamos ao início: essa estratégia de sacrifício do investimento público em nome do respeito pelas metas orçamentais, do défice, não tem sido caucinada pelo Bloco de Esquerda?
O Bloco de Esquerda fez um acordo numa situação de emergência social para recuperar rendimentos e travar medidas que estava a terraplanar direitos sociais. Nunca dissemos que o acordo era mais do que era. Nunca nos iludimos. O acordo que fizemos era um acordo defensivo. Não era um acordo de governação de esquerda. Temos de ser realistas. O acordo não transforma o Governo socialista numa governação de esquerda, com um programa de fundo, de investimento público, de controlo de setores estratégicos, de reforço e proteção laboral. Esse é o conflito político do Bloco de Esquerda: iremos sempre defender o nosso ponto de vista, mas temos de ganhar politicamente esse debate com o PS. Não está ganho.

Qualquer tipo de acordo que venha a existir no futuro será sempre mais exigente nessa matéria? O Bloco vai procurar uma segunda fase, uma “geringonça 2.0”?
Não devemos ver a política de acordo em acordo, como se fosse uma sucessão de acordos. E repito: ainda falta cumprir muita coisa. Mas cada partido tem de clarificar para si, e clarificar para as pessoas, que projeto político é que quer. E isso terá inevitavelmente de ser feito. Passada a fase da austeridade, chegará o momento em que os diferentes partidos têm de se definir quanto aos passos seguintes.

“O investimento público é sacrificado em nome dos brilharetes de Mário Centeno”

MÁRIO CRUZ/LUSA

E o PS ainda não definiu o que quer ser?
Não posso falar pelo PS, mas acho que em questões tão importantes como nas questões laborais não deixa de ser contraditório que o PS critique muito a direita por querer uma economia de baixos salários e depois se recuse a alterar o código laboral que é responsável por essa economia de baixos salários. Isto é uma contradição. Mais tarde ou mais cedo o PS vai ter de decidir por que lado é que vai. Se quer ser coerente com a sua política de baixos salários, então vai ter de alterar a lei laboral e proteger os salários. Essa é uma das questões que definirá a política nos próximos tempos.

Catarina Martins dizia há dias que “não há Orçamento do Estado sem investimento”, “não há gavetas separadas”. Será essa a linha vermelha do Bloco de Esquerda para este Orçamento do Estado, que é o último desta solução parlamentar? O Bloco fará depender a aprovação deste Orçamento do Estado desse reforço do investimento?
Não é possível executar investimento público mil milhões abaixo daquilo que estava previsto sistematicamente. O Governo socialista não terá opção a não ser reforçar o investimento público. Até para ser coerente e para cumprir com o seu próprio programa de governo.

Há o risco de o Bloco de Esquerda não aprovar o Orçamento do Estado se ele ficar aquém dessas expectativas?
Nunca definimos o sentido de voto antes de conhecermos o Orçamento do Estado. Não seria razoável.

"Em questões tão importantes como nas questões laborais não deixa de ser contraditório que o PS critique muito a direita por querer uma economia de baixos salários e depois se recuse a alterar o código laboral que é responsável por essa economia de baixos salários. Isto é uma contradição. Mais tarde ou mais cedo o PS vai ter de decidir por que lado é que vai."

“Não há virar a página sem virar a página da precariedade”

Em matéria de legislação laboral, o Governo ainda não se comprometeu com agravamento da TSU para contratos a prazo, nem com uma taxa agravada sobre as empresas com elevados níveis de rotação de pessoal, como aliás prometeu António Costa. Um eventual recuo do Governo é uma derrota para o Bloco de Esquerda?
Tudo aquilo em que o PS recuar em matéria laboral diz mais sobre o PS do que diz sobre o Bloco de Esquerda. O Bloco nunca poderá ser acusado de ter tentado ir tão longe quanto possível. Tudo aquilo que o PS não fizer nesta matéria define o PS, não define o Bloco.

Ficam goradas as expectativas.
Convém que o Governo aprove alguma medida que dê cumprimento prático e material aquela que diz ser a sua prioridade que é o combate à precariedade. Caso contrário é verbo de encher. Foram criadas expectativas para combater os baixos salários e a precariedade. Nós vamos lutar com todas as nossas forças para que isso aconteça. Essa é a nossa prioridade para o final desta legislatura. Não há combate aos baixos salários sem proteção laboral, não há virar a página sem virar a página da precariedade. Esta é uma questão central. E esse é um conflito que estamos a travar com o PS e que não está perdido. Ainda é possível.

Mas que consequências existirão se o Governo não cumprir essa reivindicação?
A questão aqui não é apenas a relação entre o Governo e o Bloco de Esquerda. Não estamos a governar para dentro, nem para nós próprios. Há milhares de pessoas que precisam destas medidas. Levamos isso muito a sério. Mas um partido só é responsável por si, não é responsável pelos outros. O PS ainda não assumiu o compromisso de mudar a legislação laboral, mas esse combate ainda não está perdido.

Quais são as grandes prioridades do Bloco em matéria de revisão da lei laboral até ao final da legislatura?
A penalização dos contratos a prazo, a reversão das medidas de embaratecimento do trabalho introduzidas pela direita, que reduziu a compensação por despedimento, que tornou o trabalho suplementar e extraordinário muito mais barato, a questão do banco de horas individual, há o acordo para que seja revertido, o reforço da contratação coletiva e do princípio do tratamento mais favorável. Depois há outras medidas que têm que ver com as empresas de trabalho temporário e que sobre as quais é preciso haver controlo, porque são verdadeiros traficantes modernos de mão obra.

"Tudo aquilo em que o PS recuar em matéria laboral diz mais sobre o PS do que diz sobre o Bloco de Esquerda. O Bloco nunca poderá ser acusado de ter tentado ir tão longe quanto possível. Tudo aquilo que o PS não fizer nesta matéria define o PS, não define o Bloco."

Acredita que há condições para negociar essas propostas com o PS? E aqui voltamos ao início: o PS ganhou margem de manobra com o diálogo com o PSD…
Acho que não devemos desresponsabilizar o PS das escolhas que faz. O PS não escolhe fazer acordos com Bloco porque o PSD não quer. Nem escolhe ir para os braços do PSD porque o Bloco não quer.

Mas em matéria de revisão da lei laboral o PS foi sempre muito mais inflexível e esteve sempre mais próximo do PSD.
É verdade. E, no passado, foi responsável por medidas de liberalização do código laboral. Mas temos de separar as discussões: não podemos discutir a posição do PS sobre legislação laboral e fazer isso depender sobre se o PS se vai aliar com outro. A escolha do PS em matéria de legislação laboral definirá com quem é que o PS consegue fazer acordos. Essa é a escolha do PS.

Líder do Bloco de Esquerda? “Não acho que isso seja uma discussão interessante”

Substituiu interinamente Pedro Filipe Soares na liderança da Bancada. Gostou do papel? É algo que se imagina a fazer num futuro próximo?
Tenho sempre muita dificuldade em responder a essas questões. O trabalho que faço na Assembleia não se altera em função do cargo que está à frente do meu nome. O mais importante para mim é trabalhar nas áreas que gosto e em que acho que tenho um contributo a dar.

Não seria um bom estágio para uma futura liderança do partido?
Não vejo as coisas assim. Temos uma liderança de bancada que trabalha de forma coletiva e que depois diferentes pessoas ocupam diferentes cargos institucionais. Continuo a achar que tenho um contributo a dar nas áreas em que estou a trabalhar.

Estava a ir mais longe: a liderança da bancada parlamentar não é um passo para a liderança do Bloco de Esquerda?
Não acho que isso seja uma discussão interessante.

Portanto: “Mariana Mortágua não exclui, nem admite candidatar-se à liderança do Bloco de Esquerda”.
Acho mesmo que todos nós damos um contributo de forma diferente para construir um projeto coletivo. Acho que estou no sítio certo para dar o contributo da melhor forma. Estou a ser sincera.

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