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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Mário Sérgio, o agricultor que ainda está à procura de fazer o vinho que bebia com o avô /premium

Preferiu ser agricultor a continuar os estudos e engarrafar o vinho a vendê-lo a granel. 30 anos depois, a Quinta das Bágeiras continua a homenagear a família: do vinho Pai Abel ao Avô Fausto.

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Na T-shirt preta a letra “V” desenhada a branco, em maiúsculo, tem apenas um propósito: revelar ao mundo que Mário Sérgio, de 53 anos, é um vigneron. Nas costas da camisola de algodão sem colarinho surge a definição da palavra francesa: “viticultor-engarrafador”, alguém que produz vinho oriundo exclusivamente das próprias vinhas. Há 30 anos que assim é na Quinta das Bágeiras, projeto vitivinícola familiar que tem emprestado fama à Bairrada, e vice-versa, e que passou um ano a celebrar três décadas de existência.

O simbolismo deve ser importante para o produtor. Além do “V” que faz parte da indumentária, a marca Quinta das Bágeiras serve-se da imagem de uma fogueira. Nada é ao acaso: foi na aldeia de Fogueira, em Sangalhos, que em 1989 Mário Sérgio decidiu quebrar a regra e começou a engarrafar vinho ao invés de o vender a granel, negócio assegurado pelas duas gerações anteriores — pai e avô. A ideia há muito implantada na mente solidificou-se com o sucesso de um vinho em particular, colheita de 87, que por graça engarrafou e por fé de terceiros submeteu a concurso do Instituto do Vinho e da Vinha (IVV). “Passado um ou dois meses veio o terceiro prémio a nível nacional. Na altura pensei ‘O vinho até é bom! Se calhar percebo alguma coisa disto!'”, conta ao Observador, com o entusiasmo que lhe é habitual.

Sentado numa cadeira de verga na esplanada de um restaurante lisboeta, recorda como aquela distinção em particular mudou-lhe o rumo. Afinal, o futuro podia continuar na vinha. Mas escolher ser agricultor aos 20 e poucos anos no final da década de 80, e deixar os estudos de lado, foi decisão que incomodou os pais. “Não foi fácil nem para a minha mãe, nem para o meu pai. Ser agricultor era a forma de empobrecer alegremente”, diz. Abel e Maria do Céu nunca o proibiram de nada e viveram para ver a marca que o filho registou nas finanças chegar à vida adulta sem crises de identidade. Porque um produtor pequeno sem identidade “é só mais um”. Ainda hoje, o pai de 82 anos não arreda pé da vinha. A mãe prefere ficar na cave a rotular as garrafas.

Ao longo de 30 anos de vida, com reconhecimento alcançado entre os pares, o estilo de produzir vinhos de mesa e espumantes não se alterou muito. Mário Sérgio prefere dizer que o método apenas se inovou e que o princípio manteve-se o irredutível. Na Quinta das Bágeiras, a enologia é minimalista. Não são adicionadas leveduras. Os vinhos não são filtrados nem estabilizados e são, acrescenta, vegan. Não que isso venha explicitado. Se à garrafa chega o resultado de “pouca intervenção”, garante, os rótulos também se querem despidos de “histórias rocambolescas” que, volta e meia, vê por aí. Alguns topo de gamas que surgiram depois de 2009, por exemplo, não têm contra-rótulos. Falamos de Avô Fausto e Pai Abel, duas homenagens aos homens que vieram antes de Mário Sérgio e que, na verdade, são um agradecimento coletivo à família.

Nas costas da T-shirt preta que Mário Sérgio levou para a entrevista lê-se a definição de "vigneron"

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Vinhos que atravessam gerações

Tanto o avô paterno como o materno produziam vinho que vendiam a granel às empresas da região. Mário Sérgio e a irmã tiveram a sorte de ambos os patriarcas morarem em aldeias vizinhas. Com o paterno, o avô Fausto, o produtor dividiu o mesmo teto até muito tarde. Com o materno, passava temporadas em altura de férias. Fausto morreu em 2002. “Veio do hospital aos meus anos, no dia 8 de março, e morreu no dia 11 do mesmo mês. A minha avó paterna morreu dois dias antes de a minha filha nascer. A avó materna foi a última a morrer, tinha 96 anos. Os meus avós marcaram-me os quatro de forma diferente.”

A precisão com que recorda as respetivas datas de partida, e os olhos que ficam marejados enquanto fala, atesta aos fortes vínculos familiares, que subsistem nos vinhos que faz questão de produzir. Primeiro veio o Pai Abel, depois o Avô Fausto, nas colheitas de 2009 e de 2010, respetivamente, ambos nas versões branca e tinta. O Pai Abel, que leva o nome do progenitor de Mário Sérgio, é um vinho de terroir proveniente de duas vinhas: uma com as uvas brancas Maria Gomes e Bical, a outra com as tintas Baga e Touriga Nacional. “Como era uma homenagem que queria fazer à minha família, concentrei-a no meu pai, a figura que mais me tem acompanhado. As pessoas dizem ‘A sua mãe também merece o nome num vinho!”. Eu respondo ‘A minha mãe merece muito mais do que isso!’.”

Mário Sérgio e o pai Abel ©DR

Já o segundo vinho nasceu de um tinto que fez o produtor lembrar-se do avô, ele que tinha preferência por vinhos menos encorpados e mais elegantes. Se o branco diz respeito à casta predileta de Fausto, a Maria Gomes, no tinto entram outras variáveis em jogo. “O Avô Fausto, tal como o meu avô, que era uma pessoa extremamente irreverente e rebelde, é aquilo que me apetecer e que eu achar que mais reproduz o que me vai na cabeça”, pelo que pode ter um pouco de Touriga Nacional ou ser só Baga, dependendo do ano. O vinho pretende retratar o homem com quem Mário Sérgio discutia como se fosse “um garoto da sua idade, sem preconceito, sem ele se aborrecer comigo ou eu com ele”.

“O meu avô ia sempre de bicicleta para a vinha dele, a Bágeiras, por isso é que ficou Quinta das Bágeiras, porque era a sua vinha predileta. As pessoas diziam “Lá vai o senhor Fausto para a quinta dele”, recorda, explicando que no rótulo está desenhada a velha bicla que ainda hoje mora na adega.

Fausto foi a primeira pessoa a dar-lhe vinho, tinha Mário Sérgio 10 anos — é coisa de que não se esquece, até porque “provou” mais do que devia na companhia de colegas de escola e durante algum tempo nem de gargalos se aproximou. “Na altura, o meu avô só dizia à minha avó: ‘Mulher, não sejas tola, ficou a doer-lhe um bocadinho a cabeça. Tão depressa não bebe’. E foi verdade, durante uma série de tempo não bebi. ”

“O meu avô era rebelde quando era miúdo. Eu podia ter hoje uma grande empresa ligada à indústria metalomecânica porque o meu bisavô, além de agricultor, era um industrial. Mas o avô Fausto nunca gostou disso. Sempre lhe apeteceu fazer o que queria. Se calhar nunca precisou de trabalhar para outras pessoas e trabalhou. Foi sempre uma pessoa… livre. Mais do que rebelde, livre. Para o bem e para o mal. O vinho deve refletir tanto quanto possível a imagem que tenho dele. O vinho do Avô Fausto é o que  tiver de ser. Se calhar ainda estou à procura de acertar naquilo que bebia com o meu avô. Se calhar vou passar o resto da vida à procura.”

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PAI ABEL BRANCO 2017, disponível na GARRAFEIRA 5 ESTRELAS!! É um vinho de uvas provenientes de vinhas com cerca de 15 anos, às quais se reduziu drasticamente a produção. Foi vinificado de bica aberta, sendo o mosto colocado em pequenos decantadores de 1m³ onde permaneceu entre 24 a 36 horas para fazer a decantação através de precipitação natural. No final deste processo, fermentou em barricas usadas de carvalho francês que adquirimos na região de Borgonha. Foi feita uma ligeira bâtonnage e estagiou nas barricas até ficar completamente límpido, de forma natural. Engarrafado sem filtragem ou colagem. #garrafeira5estrelas #aveiro #winesofportugal #vinhos #wines #bairrada #bairradalovers #bairradawines #paiabel #quintadasbageiras

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Apesar da simbologia emprestada ao vinho Pai Abel, o vinho de 2011 nascido com este nome foi chumbado em câmara de provadores da região, não tendo sido considerado digno de levar no rótulo o selo “Denominação de Origem Controlada”. Teimoso, Mário Sérgio encarou esta decisão como um desafio e fez do termo “chumbado” um carimbo de sucesso no rótulo do vinho. “Achavam que não tinha qualidade para ser vinho Bairrada DOC e eu achava que era o melhor… Foi [para o mercado] como vinho de mesa. Quando fiz o primeiro Pai Abel beneficiei de puder meter o ano no rótulo. E era o ano de 2011, mítico”, conta. Tanto o Pai Abel como o Avô Fausto atingiram, entretanto, “níveis de notoriedade muito grande”, pelo que são para continuar.

Mário Sérgio conversou com o Observador numa esplanada de um restaurante lisboeta

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O “homem da pasta” que só quer ser agricultor

São cinco as referências de vinho (Quinta das Bágeiras Colheita, Reserva e Garrafeira, e ainda Avô Fausto e Pai Abel) e três de espumante (Reserva, Super Reserva e Grande Reserva). Por ano, a produção ronda os 100 mil litros. A Quinta das Bágeiras — e não “Bágueiras” ou “Bagoeiras” como Mário Sérgio já ouviu dizer — arrancou com 12 hectares de vinha. Hoje são 18 resultantes de cerca de 20 parcelas, algumas tão pequenas que têm apenas meio hectare de dimensão. Umas já estavam na família, outras foram sendo adquiridas ao longo do tempo. “Ainda ontem andei toda a tarde a visitar a região da Bairrada com o meu filho [que está a estudar enologia], a explicar-lhe porque é que algumas vinhas não são viáveis, a explicar-lhe onde é que gostava ou não de ter uma vinha. A explicar-lhe porquê.”

Mário Sérgio corresponde à terceira geração de uma família dedicada ao vinho. Tem uma marca que assinala 30 anos de vida e continua a reclamar o título de “agricultor”. Em tempos ficou conhecido, na aldeia onde nasceu e ainda vive, “como o homem da pasta”: “No começo ia com uma pasta para Anadia. Era necessário registar a marca, etc. Se calhar as pessoas ainda me veem assim… mas eu sou agricultor. Não sou outra coisa. Vivo única e exclusivamente da agricultura. Há vignerons que não engarrafam o que produzem, não deixam de ser vignerons. Felizmente ou infelizmente, desde que em 1989 decidi focar-me nisto, sou agricultor a tempo inteiro, não tenho outro meio de sobrevivência”, diz, ao mesmo tempo que admite que, por vezes, fica triste quando os “colegas que não engarrafam” não veem como homem de lavrar a terra.

A Quinta das Bágeiras situa-se na aldeia de Fogueira, em Anadia

Viver do que nasce na vinha — considerando que este é o cultivo que lhe garante o sustento; da batata só vende o excedente — fá-lo ficar atento às tendências do mercado, embora ainda não tenha tido de alterar a filosofia de produção: “Se só vivo da agricultura, não posso ser otário. Se não conseguir viver daquilo que faço, tenho de me adaptar às circunstâncias”. Ainda assim, reconhece que houve alturas em que foi teimoso e que, por sorte ou por o mercado mudar muito depressa, “as coisas” vieram ao seu encontro. Apesar de os seus vinhos e espumantes (só faz bruto natural) serem resultado de pouca intervenção, hesita quando se fala no movimento dos ditos “vinhos naturais”: “Hoje quando falamos sobre os vinhos naturais, arrepio-me. Arrepio-me porque 90% deles são naturalmente maus. Detesto agora que me sirvam vinhos turvos”.

Não raras vezes, Mário Sérgio puxa da cartola a famosa citação que terá sido sentenciada pela baronesa Philippine de Rothschild, que terá afirmado que o negócio do vinho “era fácil”, que “só os primeiros 200 anos é que custam”. É reconhecimento que Mário quer para as Bágeiras — e não o seu nome num rótulo. “Não sou o centro do mundo, sou mais um dos que pode fazer qualquer coisa pela região”, comenta, lembrando que faz parte do grupo Baga Friends, composto por diferentes produtores de renome unidos pela casta que muito tem feito pela região.

Mário Sérgio ainda se lembra de quando, não há muito tempo, a Baga era maldita em terras bairradinas. Desses tempos difíceis, em que a região gozou de má fama, fala de como se “desenrascou” e como chegou a vender algum vinho a granel para pagar salários. “Às vezes perguntamo-nos se vale a pena continuar. Foi uma dessas fases. Foram dez anos [de 2000 a 2010, sensivelmente] que não foram nada fáceis. Não sou um super-homem, não sou nenhum Cristiano Ronaldo do vinho. Cada produtor tem mais ou menos sucesso em função do sucesso da própria região. E eu quero que os meus vinhos tenham o nome da região: Bairrada.”

Mais recentemente, a Quinta das Bágeiras lançou um monocasta Cercial nascido no ano de 2016. Não foi feito para celebrar os 30 anos, mas a coincidência fica-lhe bem. Outra novidade no portefólio que nunca será vasto — regra da casa — é a marca “Fogueira”, que diz respeito a um Baga de 2004 “meio pedido na adega”. “Vão haver 1075 garrafas. Não há mais nenhuma. Tem 18 meses em vasilha e 13 anos em garrafa. Veio de um ano muito difícil e, ao mesmo tempo, fácil: foi um ano em que as temperaturas na vindima atingiram quase os 40 graus. O vinho nasceu um pouco desequilibrado, mas acho que teve uma evolução fantástica. E como eu tinha essa marca [registada] e como sempre vivi aqui…”

“Sabes como se conquista Lisboa, Sergito?”

“Sabes como se conquista Lisboa, Sergito?”, perguntou-lhe, certo dia, o médico da aldeia. “Com leitão e espumante”, explicou-lhe sem demoras o Doutor Quim. Se sim, se não, ainda não estava a década de 90 a meio quando Mário Sérgio encontrou, no mesmo frappé de um restaurante lisboeta já defunto, o seu espumante lado a lado com um Moët & Chandon. “Na altura entrar num bar em Lisboa e ver a minha garrafa de espumante ao lado daquela marca… foi uma ajuda tremenda que não esqueço ainda hoje.”

Se o restaurante ainda existisse seria bem perto a partir do qual o vigneron, sentado na esplanada e voltado para o casario da cidade, recorda os 30 anos da marca que por teimosia criou.

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