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HUGO AMARAL/OBSERVADOR

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Marisa Matias, a candidata que “é tudo que Marcelo não é”

A candidata presidencial quer uma segunda volta e os seus apoiantes garantem que Marcelo não tem as favas contadas. Numa campanha marcada pelo "taticismo" político, Marisa leva a esquerda na lapela.

Independentemente dos resultados de dia 24 de janeiro, na Cova da Moura, Marisa Matias já é “a próxima” em Belém. Áurea, uma menina do bairro, perguntou se aquela que estava ali com tantos jornalistas à volta era a Presidente, responderam-lhe que não, que era a próxima. E ela chamou: “Ó próxima!”. A candidata chegou mais perto e a criança lá lhe confidenciou que “está tudo muito caro”. Mas ainda teve tempo para uma pergunta. “Se tu vais ser a Presidente de Portugal, vais também ser a Presidente da Cova da Moura?”. Marisa quer ser a Presidente de todos. E pelo caminho, até unir a esquerda numa segunda volta.

Na campanha de Marisa Matias não há espaço para o pessimismo e o passado só aparece para apontar o dedo à troika, à austeridade e à cumplicidade dos últimos quatro anos de Governo à direita. A esperança é aliás uma marca distintiva do discurso da candidata que pede constantemente nos seus apelos ao voto que o próximo dia 24 não trave “a onda de mudança” que começou a 4 de outubro, com as eleições legislativas, e de onde acabou por sair uma solução de Governo à esquerda. O pessimismo, o passado, a direita, pertencem a Marcelo Rebelo de Sousa, “o alvo a abater” nesta campanha.

Quem vai às iniciativas de Marisa, nem quer ouvir falar no professor catedrático de Direito convertido a comentador político e que nos últimos 3o anos tem estado mais ou menos na ribalta mediática. “O Marcelo é o alvo a abater. Veio com as favas contadas, mas agora está a perder terreno”, afirma António, já sentado e instalado com os amigos no jantar-comício desta quarta-feira na Voz do Operário que reuniu cerca de 400 pessoas – um número que superou as expectativas da organização que a certo ponto chegou a temer ter mais inscrições que lugares.

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As fotografias sucedem-se. Marisa Matias atende a todos os pedidos

A reação mais adversa ao antigo líder do PSD vem de um grupo de jovens que está à espera para entrar no repasto. “Nem me fale nessa pessoa”, afirma um jovem no meio de um grupo de amigos que imediatamente vira a cara para o lado com ar de enfado. O grupo de rapazes afirma não ser do Bloco de Esquerda, mas dizem que vieram apoiar a candidata. Para estes jovens – que não vão acabar a noite sem dois beijinhos de Mariana Mortágua e uma foto com a candidata presidencial -, Marisa Matias tem “perfil de honestidade”, “é verdadeira” e “uma boa eurodeputada”, razões suficientes para virem até este jantar.

Marisa Matias diz que nesta campanha há “muito taticismo”. Ela que assumiu a sua candidatura como uma mulher de esquerda e com o apoio do seu partido de sempre, estranha que os candidatos se estejam a apresentar com “a cara para oposição” e lamenta “a falta de respeito” pelos eleitores numa disputa pelo centro onde, aparentemente, “ninguém é de nada”. “Temos de servir toda a gente, no sentido de defender a Constituição. Por isso, por respeito pelas pessoas que votam, devemos dizer ao que vimos”, considerou em declarações ao Observador.

"Temos de servir toda a gente, no sentido de defender a Constituição. Por isso, por respeito pelas pessoas que votam, devemos dizer ao que vimos"
Marisa Matias

Mais atrás, na longa fila para a inscrição no jantar, estava João Carlos, militante do Bloco de Esquerda. “A Marisa Matias é tudo que o Marcelo não é. Fala com as pessoas e sabe ouvir as pessoas, não se quer ouvir só a ela própria”, defende, enumerando os “valores, a solidariedade, a promoção da igualdade e dos direitos humanos” que o levam a apoiar a candidata do seu partido. É nessa diferenciação que esta candidatura aposta e tem na própria candidata, o melhor trunfo. Marisa Matias não se limitou a aparecer nas ações de campanha que o Observador acompanhou. Abraçou, tocou, questionou e riu-se muito.”Gosto de estar com pessoas, gosto mesmo de pessoas e de ter oportunidade de aprender todos os dias”, afirmou ao Observador.

Horas antes, um dos momentos que despertou mais risos na candidata, foi quando entrou na cozinha da Associação “Moinho da Juventude” na Cova da Moura. As cozinheiras, conhecidas por esquadrão C – “de cozinha ou coração” – receberam-na com entusiasmo, mas deram-lhe um recado: “Está muito magrinha. Fazemos boa cachupa, tem de a vir cá comer”. Ela respondeu que estava prometido e que costuma cumprir todas as suas promessas. Ficaram contentes com a visita de Marisa, que dizem conhecer da televisão e que elogiam por ser “muito bonita”, mas uma das mulheres atira que “é sempre assim em tempo de eleições”. Outras duas corrigem-na de imediato: “O Bloco de Esquerda vem sempre aqui. Vem cá muito aquele, o Louçã. E na Assembleia já estivemos com o Pedro, ai, aquele deputado”, disse outra das mulheres referindo-se a Pedro Filipe Soares, líder da bancada parlamentar do Bloco.

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Na cozinha da Associação “Moinho da Juventude”, Marisa Matias prometeu às cozinheiras voltar para comer cachupa

O dia de campanha da candidata, ladeada pelas bloquistas Mariana Mortágua e Helena Pinto, começou neste bairro conhecido pelos seus problemas sociais, mas onde, como explica Isabel Marques, coordenadora da associação, “as pessoas não se sentem tratadas como pessoas”. Quem passava ia apertando a mão à candidata, embora muitos não soubessem que estava a concorrer à Presidência da República e alguns até mencionaram que no dia anterior tinha estado no bairro “o outro senhor” – Edgar Silva visitou a Cova da Moura um dia antes de Matias. Foi por aqui que encontrou Áurea, mas também um homem que lhe segurou as mãos e disse: “Sabes como é que resolveram as coisas na Alemanha? Antes eram só homens a mandar, agora há mulheres. As mulheres têm melhor coração que os homens e não gostam de guerra”. Marisa Matias retorquiu e afirmou: “Mas olhe que as mulheres também vão à luta”.

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“As mulheres têm melhor coração”, disse morador do bairro a Marisa Matias

A candidata pertence ao exclusivo grupo de mulheres que se candidataram a Belém. Antes dela, só Maria de Lourdes Pintassilgo, pioneira dos direitos das mulheres e reformadora nas áreas da igualdade de género em Portugal. Agora concorre contra outra mulher, Maria de Belém, mas para além do género, não há muito mais que as ligue nesta campanha. Marisa Matias apertou com a sua adversária no debate televisivo por esta ter liderado a comissão de Saúde no Parlamento ao mesmo tempo que era consultora da Espírito Santo Saúde e as suas visões para o futuro do país também são diferentes. Mariana Mortágua relembrou que enquanto Maria de Belém disse que dissolveria a Assembleia da República por incumprimentos do Governo nacional para com Bruxelas, Marisa Matias fez frente ao “monstro anti-democrático” das instituições europeias.

Ainda na Cova da Moura, Marisa Matias apontou o dedo a outro culpado pela situação do país, afirmando que Cavaco Silva “falhou” na coesão social em Portugal, ao permitir que pais como os que vivem neste bairro não tenham serviços públicos para deixar os filhos quando vão trabalhar e por não apoiar associações, como o “Moinho da Juventude”, que abre diariamente a creche às 6 da manhã para que mães e pais possam ir trabalhar diariamente para Lisboa.

"O Marcelo é o alvo a abater. Veio com as favas contadas, mas agora está a perder terreno"
António, apoiante de Marisa Matias

A diferença entre os candidatos à esquerda vai ser crucial para o resultado das eleições de dia 24 de janeiro, com quatro candidatos neste campo político a disputarem o eleitorado que tradicionalmente pertence a três partidos. Com a campanha a correr “muito bem”, Marisa Matias está apostada numa segunda volta e na união da esquerda à volta do candidato que vá defender os valores deste campo político. Na mesa de António, a aposta era entre dois nomes para fazer frente a Marcelo no segundo turno: Marisa Matias ou Sampaio da Nóvoa.

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Na Voz do Operário, Marisa falou aos seus apoiantes

O candidato independente, mas apadrinhado por António Costa e pela máquina do PS, é uma das maiores ameaças ao eleitorado do Bloco de Esquerda, segundo mostram as sondagens mais recentes. Mas Marisa Matias não se parece deixar intimidar, criticando o posicionamento de Nóvoa. “Acho que é um mau serviço para a democracia fazer a demonização dos partidos. Os partidos têm problemas e limitações, são uma parte pequena do partido, mas seguramente eu não embarcaria num discurso populista. Não há nenhum candidato que não tenha ligação a um partido, ou porque já foi militante, ou porque recebe apoio”, refere Marisa Matias. A única independência que lhe interesse é “face aos interesses que põem em causa a independência do país”.

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