Mark Molesky, historiador: “O Marquês de Pombal tinha uma faceta tirânica e fez sofrer os portugueses” /premium

Porque é que um historiador americano fez um livro sobre o grande sismo que mudou a História de Portugal e da Europa? Eis a pergunta de partida para uma entrevista com o autor de “O Abismo de Fogo".

Acabado de chegar dos Estados Unidos, num hotel do Chiado, Mark Molesky contou esta semana ao Observador como nasceu o seu interesse pela História de Portugal — e, já depois do gravador desligado, disse que o objetivo do livro é o de “fixar uma versão definitiva” sobre o Terramoto de 1755, que destruiu Lisboa. “Um dos mais intensos sismos da história da humanidade, o maior alguma vez registado no oceano Atlântico e o mais forte a atingir o continente europeu”, regista a obra.

O Abismo de Fogo: O Grande Terramoto de Lisboa ou Apocalipse na Idade da Ciência e da Razão, assim se intitula, resulta de quase dez anos de investigação e escrita. Saiu nos EUA em 2015, sob o título This Gulf of Fire (editora Alfred A. Knopf/Penguin Random House), e pode agora ser lido em português, com tradução de Maria Luísa Jacquinet e edição da Relógio d’Água. São 542 páginas (dez capítulos e um prólogo), das quais 75 correspondem a notas e 32 a bibliografia.

É um ensaio académico, mas lê-se como se de um romance se tratasse, com uma prosa cuidada, cheia de imagens e sensações – até porque o autor prefere a “história narrativa” à “história analítica”. Um exemplo, nas primeiras páginas: “No decurso do dia anterior, milhares de crentes – muitos a pé, outros em frágeis carruagens de madeira puxadas por mulas ou burros – tinham chegado à capital vindos das aldeias e campos das regiões circunvizinhas. Num país onde a veneração dos santos era parte integrante da vida do quotidiano, a Solenidade de Todos os Santos (ou Dia de Todos os Santos) era feriado nacional e uma das mais valorizadas datas do preenchido calendário hagiológico do país. […] Às 9h00, os templos lisboetas transbordavam de crentes. […] Nas ruas congestionadas, havia grande movimento de gente. Eram muitos os que se encaminhavam para a tradicional missa cantada das 10 horas, com o seu coro repleto, a sua lúgubre procissão de religiosos e a apresentação anual de relíquias milagrosas. Já outros, ainda em casa, aprestavam-se a dar os últimos retoques a casacos, xailes, perucas empoadas e sapatos com fivelas. Ouros ainda, e não poucos, mantinham-se seguros nos seus leitos.”

De resto, os direitos de autor do livro foram comprados em Portugal ainda antes de a edição americana sair, mas deu-se a falência da editora lisboeta que os agentes literários de Mark Molesky tinham contactado; e a tradução, entretanto concluída, ficou em espera. Por fim, entraria em cena a Relógio d’Água e o editor Francisco Vale.

Durante a entrevista, além da fadiga da viagem, Mark Molesky evidenciou uma postura familiar e um estilo calmo e talvez tímido. Falou em inglês, a pedido do entrevistador, mas entrecortou com algumas expressões portuguesas, com sotaque brasileiro.

Nascido há 52 anos em Baltimore, nos EUA, foi criado nos subúrbios de Detroit e tem origem polaca, irlandesa e eslovaca. Fala alemão e português – que aprendeu no Brasil a partir de 1985 – e agora vive em Nova Iorque. Gosta de futebol e identifica-se como católico. Dá aulas na Universidade de Seton Hall, em Nova Jérsia, na costa leste dos EUA, tendo-se especializado em história intelectual e cultural da Europa, com doutoramento em 2000 pela Universidade de Harvard.

É um assíduo de Lisboa, já cá esteve pelo menos uma dezena de vezes, a primeira das quais por volta de 2006, quando iniciou a pesquisa documental que conduziu à obra. O Terramoto de 1755, garante, é um tema exótico para os americanos.

‘O Abismo de Fogo – O Grande Terramoto de Lisboa ou Apocalipse na Idade da Ciência e da Razão’, de Mark Molesky (edição Relógio d’Água, 2019)

Como é que um historiador americano acabou a escrever sobre o Terramoto de 1 de novembro 1755?
Vivi no Brasil durante um ano, quando era estudante, ao abrigo de um programa de intercâmbio. Isto no ano letivo de 1986/86, quando andava no liceu. Jogava futebol e lembro-me de ter visto a seleção brasileira na televisão em 1982. Não vi nos canais americanos, vi num canal canadiano, antes de haver televisão por cabo, a imagem chegava com dificuldade. Lembro-me de Zico, Sócrates e Falcão no Campeonato do Mundo. A partir daí comecei a ler sobre o Brasil e o Pelé.

O fascínio pelo Brasil começou pelo futebol.
O futebol, a língua, tudo isso. Tinha estudado espanhol, mas não queria vir para a Europa, queria conhecer as Américas. Além disso, já tinha tido contacto com alguns brasileiros que tinham ido estudar nos EUA. Os meus tios tinham negócios no Brasil. Havia várias pontes. Quando me mudei para lá, fui para São Luís do Maranhão, fiquei em casa de uma família tradicional brasileira e andava no Colégio Marista. Aliás, a minha “mãe brasileira” vai estar comigo aqui em Lisboa, para o lançamento do livro. Eu sou o “filho americano” dela. Ao regressar aos EUA, entrei na faculdade e comecei a estudar a história intelectual e cultural da Europa. A minha tese de bacharelato foi sobre o Terramoto de 1755, de que tinha ouvido falar brevemente numa conferência. Mais tarde, em Harvard, trabalhei de perto com um historiador britânico muito conhecido, Simon Schama, mas deixei este tema de parte. Ele influenciou-me sobretudo porque defende a “história narrativa”, ao estilo do século XIX.

O que é a “história narrativa”?
É comum nos EUA e em Inglaterra, menos comum na Europa continental. A história do século XX foi mais analítica, considerava-se que a narrativa era uma forma ingénua de fazer história, porque ouvia os atores e não aprofundava até à superestrutura. Schama, e outros, vieram dizer que talvez a “história narrativa” não fosse assim tão ingénua, que deveríamos voltar a ouvir os atores históricos.

"O fogo que se seguiu ao Terramoto foi uma tempestade ígnea, um tipo específico de fogo. O Grande Incêndio de Londres [1666] é considerado uma tempestade ígnea, mas o fogo a seguir ao Terramoto não. É a primeira vez que se aplica este conceito. Os testemunhos que temos permitem-me afirmá-lo com segurança."

É por isso que este livro é literatura?
É baseado em factos, não é ficção, e espero que não contenha erros. Mas, sim, a linguagem vem do mundo literário. Quis contar uma história de pequenas histórias. Temos a história geral e as histórias individuais. Procurei basear-me o mais possível em fontes primárias. Não quis dizer nada sobre o sismo, o maremoto e o fogo sem me basear em testemunhos da época.

Fez a pesquisa sozinho?
Praticamente sozinho. Aqui e ali recorri a alguma ajuda, como no caso das fontes russas. Não sei russo e por isso pedi a colegas que pudessem traduzir, mas fui eu quem procurou os documentos. Que eu saiba, até hoje ninguém tinha falado sobre a resposta dos russos ao Terramoto de Lisboa. Encontrei jornais russos de 1755 e a partir da pesquisa pelas palavras “Lisboa” e “terramoto”, em cirílico, fiz a pesquisa. É um dos aspetos inéditos do livro. Não sei se na Rússia já terão utilizado as mesmas fontes, creio que em inglês e português não utilizaram. Encontrei também em russo uma referência inédita, segundo a qual na manhã do Terramoto o Vesúvio, em Itália, começou a emitir fumo. Não sou cientista, mas durante a preparação deste livro consultei muita literatura técnica sobre sismologia, terramotos, tsunamis, etc.

Foi-lhe difícil ler em português antigo?
Não, porque os manuscritos do século XVII, em inglês ou português, são fáceis de ler, a caligrafia é boa. Houve duas fontes fundamentais, de dois padres oratorianos, uma que encontrei no Arquivo Municipal de Lisboa e outra na Biblioteca da Gulbenkian. São mais de 400 páginas escritas à mão, um manancial de relatos sobre o que se tinha passado.

"Havia relatos em jornais que diziam isso mesmo: Lisboa já nem existe", lembra Mark Molesky, a propósito do terramoto de 1755

Wikimedia Commons

É a primeira vez que um americano escreve um volume desta dimensão sobre o Terramoto de Lisboa?
Houve dois livros britânicos. Nos anos 50, T. D. Kendrick, e mais recentemente uma dupla de historiadores. Um deles diz que falou com um historiador português que lhe garantiu que só havia duas fontes escritas em português que valia a pena consultar. Não faz sentido. Obviamente, os portugueses escreveram bastante sobre o Terramoto. Além disso, viajei bastante à procura de outros documentos. Estive em Hamburgo, Berlim, Vaticano, Veneza, Génova, Paris, Londres, São Paulo, Los Angeles, Boston.

Teve dificuldade em aceder a alguns arquivos portugueses? Há a ideia de que alguns historiadores competem por certos temas.
Não me envolvi diretamente nessas competições, mas ouvi falar, através de historiadores portugueses mais jovens. Entrei nos arquivos e consultei o que estava disponível. Agora estou curioso para saber o que pensam os historiadores portugueses sobre o livro.

Qual é a tese principal do livro?
Que o Terramoto mudou completamente o país, foi extremamente importante. Em termos europeus, abriu uma janela para o século XVIII. Não diria que criou a Modernidade, era o que eu queria ter encontrado, mas não encontrei. Os debates que houve em torno da questão do Terramoto demonstram que o Iluminismo ia e Portugal a São Petersburgo, os portugueses estavam tão envolvidos no Iluminismo como os outros países, ainda que as pessoas não tenham propriamente mudado de opinião sobre a sociedade. Usavam, sim, o Terramoto para reforçar as ideias que já anteriormente defendiam. Uma das grandes novidades do livro está no facto de afirmar que o fogo que se seguiu ao Terramoto foi uma tempestade ígnea, um tipo específico de fogo. O Grande Incêndio de Londres [1666] é considerado uma tempestade ígnea, mas o fogo a seguir ao Terramoto não. É a primeira vez que se aplica este conceito. Os testemunhos que temos permitem-me afirmá-lo com segurança.

"Os americanos sabem muito pouco sobre Portugal, sabem talvez que Vasco da Gama era português. Essa foi uma das razões pelas quais decidi escrever. Espanha, sim, é mais conhecida. De qualquer forma, muitos amigos meus americanos têm vindo visitar Lisboa nos últimos anos, penso que a cidade está na moda para muitos turistas. Talvez o interesse por Portugal aumente."

Fala muito sobre o Marquês de Pombal e defende que sem o Terramoto ele nunca se teria tornado um estadista.
Não é uma ideia original minha. Curiosamente, algumas recensões que saíram acerca da versão do livro em inglês diziam que eu dava uma imagem benévola do Marquês de Pombal, outros disseram que eu o criticava demasiado ou que fui ambivalente. Sei que os portugueses se dividem sobre esta figura, o debate não é apenas académico, mesmo as famílias nobres expressam opiniões aguerridas sobre ele. Sou crítico da ditadura do Marquês de Pombal, o rei estava à mercê dele. Não foi a fase do terror, como na Revolução Francesa, não estou a dizer que ele foi o equivalente a Estaline ou Hitler, estava noutro campeonato, mas tinha uma faceta tirânica e fez sofrer os portugueses. Ao mesmo tempo, reconheço que nos dias e semanas que se seguiram ao Terramoto, o Marquês de Pombal terá sido um herói.

Diz a páginas tantas que o número de vítimas do Terramoto nunca foi oficialmente divulgado, porque as autoridades portuguesas temiam uma invasão. Que invasão?
Os Estados modernos teriam inflacionado os números, para obterem ajuda, mas no caso português penso que havia o medo de que houvesse ataques de piratas se se espalhasse a ideia de que a cidade estava devastada por completo. Havia relatos em jornais que diziam isso mesmo: Lisboa já nem existe [“The Public Advertiser”, Londres, 2 de dezembro de 1755]. O Marquês de Pombal não quis arriscar o ataque de outro Estado ou de piratas. Há uma carta de Pombal que apresenta uma estimativa oficial muito baixa [seis a oito mil mortos].

Parece uma atitude muito portuguesa: jogar com os números, não revelar tudo.
Não sei dizer como são os portugueses. Se essa afirmação faz sentido para si…

Refere que houve mais mulheres vítimas do Terramoto do que homens, por razões de incapacidade física de resistência. Esta perspetiva de género já tem sido abordada por outros autores que estudaram o Terramoto?
Não posso garantir, mas penso que é nova quando aplicada ao Terramoto de 1755. Esse facto, à partida, pareceu-me muito relevante e depois fui pesquisar e percebi que outros investigadores já tinham concluído o mesmo em relação a outras catástrofes. Se hoje houvesse um terramoto semelhante em Lisboa, penso que o número de vítimas seria equilibrado em termos de homens e mulheres, mas naquela época, quando havia uma discrepância maior de direitos entre homens e mulheres…

O autor, Mark Molesky

Mas escreve que há uma justificação de base biológica: “As mulheres são, em geral, mais baixas, mais lentas e fisicamente mais débeis do que os homens e, portanto, têm mais dificuldade em escapar às consequências diretas de um desastre natural”.
É verdade, mas os investigadores que consultei dizem que hoje haveria maior equilíbrio de género ao nível das vítimas.

As mesmas fontes consultadas por diferentes historiadores dão informações diferentes, mesmo que essas fontes já tenham sido analisadas várias vezes?
Completamente. Há sempre coisas novas. Ainda havia arquivos que eu poderia ter consultado.

Pensa voltar a escrever sobre o tema?
É possível, mas neste momento estou a pensar fazer um livro sobre o Brasil no século XVII e isso implicará falar de Portugal, claro. Nos últimos 20 ou 30 anos a história passou a interessar-me mais por temas globais, por perspetivas transnacionais.

Para o público americano o terramoto de 1755 é um tema exótico?
Sem dúvida. Os americanos sabem muito pouco sobre Portugal, sabem talvez que Vasco da Gama era português. Essa foi uma das razões pelas quais decidi escrever. Espanha, sim, é mais conhecida. De qualquer forma, muitos amigos meus americanos têm vindo visitar Lisboa nos últimos anos, penso que a cidade está na moda para muitos turistas. Talvez o interesse por Portugal aumente.

Uma vez que sabe português, interveio na tradução?
Sim, mas não traduzi qualquer parte. Desde o início, estive em contacto com a tradutora, Maria Luísa Jacquinet. Ela enviava-me coisas, eu envia-lhe a ela. Pedi alterações pontuais.

O registo literário, as expressões antigas, tudo isso é trabalho seu ou da tradutora?
É bom ouvir isso. Em inglês, usei alguns arcaísmos e palavras antigas e talvez a tradutora tenha pegado nisso. Atribuo-lhe total responsabilidade pela qualidade do texto em português. Alguns amigos portugueses que leram as provas tinham dúvidas sobre se algumas expressões seriam demasiado antigas e obscuras, mas fico contente por saber que afinal são bem entendidas.

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