Matthias de Groof: "As reparações económicas às antigas colónias não são um tema fácil, mas são uma questão de dignidade" /premium

Filho de uma belga nascida no Congo e neto de um médico que trabalhou naquela antiga colónia, Matthias de Groof estreia um documentário este domingo no Doclisboa sobre o polémico Museu de África.

O Museu Real da África Central fechou as portas em 2013 e iniciou obras de renovação com dois objetivos: modernizar o edifício e mudar a forma como apresentava as suas coleções, que era considerado polémico. O museu situa-se na Bélgica – em Tervuren, perto de Bruxelas – e durante décadas foi considerado o último bastião museológico do colonialismo europeu. A maioria das obras e artefactos ali exibidos tinham sido comprados ou trazidos à força do antigo Congo Belga (mais tarde Zaire e atual República Democrática do Congo).

Também conhecido como Museu de África, foi inaugurado em 1910 e tem origem na Exposição Internacional de Bruxelas de 1897, já depois de a Conferência de Berlim ter decidido que o território do atual Congo passaria a ser pertença do rei dos belgas, Leopoldo II. “Gerações inteiras vieram aqui e receberam a mensagem de que o colonialismo era uma coisa boa, de que levámos civilização e riqueza ao Congo”, disse no ano passado o diretor do museu, Guido Gryseels, dando voz à contestação e expondo os seus argumentos, dos quais muitos discordam.

A renovação terminou em 2018 e custou cerca de 65 milhões de euros. Se antes a exposição permanente do museu “estava datada e não tinha uma visão muito crítica” da era colonial, passou agora a “apresentar uma visão contemporânea e descolonizada de África”, dizem os seus responsáveis.

Quem acompanhou este processo de perto foi o realizador Matthias de Groof, de 38 anos, que desde pequeno ouviu histórias grandiosas sobre os tempos da colonização. O resultado está no documentário “Palimpsest of the Africa Museum”, que será exibido neste domingo em Lisboa – no Grande Auditório da Culturgest, às 15h30, no âmbito do DocLisboa, festival internacional de cinema documental, cuja 17ª edição começou na quinta, 17, e termina a 27 de outubro.

O filme integra a secção não-competitiva “Da Terra à Lua” e passa em conjunto com “A Story From Africa”, novo documentário do pioneiro do “cinema negro” Billy Woodberry.

Filho de uma belga nascida no Congo e neto de um médico que trabalhou naquela antiga colónia, Matthias de Groof está a fazer um pós-doutoramento na Universidade de Antuérpia sobre teoria pós-colonial e cinema belga.

De visita a Lisboa, falou com o Observador sobre o documentário, o passado colonial europeu e a devolução de bens culturais às antigas colónias, uma ideia que ganhou força há dois anos, quando o presidente Emmanuel Macron anunciou que França ponderava avançar nesse sentido. É um tema polémico, que colhe diferentes posições de antigas colónias portuguesas como Angola ou Cabo Verde e que tem gerado debate também em Portugal com a hipótese de um museu sobre os Descobrimentos e o que eles implicaram.

Como é que as pessoas têm reagido a este documentário?
Até hoje, houve duas exibições na Bélgica e esta, aqui em Lisboa, será a primeira exibição internacional. Tive opiniões muito diversas, porque há diversos pontos de vista incluídos no filme. O ponto de vista do narrador, das pessoas do museu, dos descendentes de africanos, o meu próprio ponto de vista. Por isso, diria que qualquer um pode ver-se refletido no filme, incluindo os que ainda mantêm uma mentalidade colonialista, os ativistas contestatários ou até aqueles que à partida não sentem qualquer interesse pelo tema. Penso que o filme mostra bem que se trata de um tema relevante, porque diz respeito ao papel que a Bélgica teve na história colonial.

A qual desses grupos pertence?
Sou uma figura híbrida, alguém que evoluiu. Fui colonizado, desde logo pelo meu avô, que me contava histórias exóticas e nostálgicas de tempos heróicos no Congo. Percebi mais tarde que essas histórias faziam parte de um discurso mais vasto que procurava legitimar o colonialismo. Ao ter consciência disso, descolonizei-me, digamos assim, e para isso também contribuíram as amizades que entretanto estabeleci com artistas congoleses, com aqueles que no passado foram sujeitos à colonização. A minha posição evoluiu, é hoje mais crítica, permite-me compreender muito bem o ponto de vista daqueles que estão preocupados com a exibição de artefactos da sua própria cultura.

Foi a sua história pessoal que o levou a fazer o filme?
A genealogia do projeto está muito ligada à minha viagem pessoal, sem dúvida. Foi o ambiente familiar que determinou o meu interesse pelo assunto. Cheguei a uma ideia paradoxal: podemos fazer o mal sem sermos más pessoas? É a velha pergunta da filósofa Hannah Arendt sobre o holocausto. Acho que faz sentido aplicar a mesma pergunta ao colonialismo. Como é que pessoas como o meu avô, que era médico e trabalhava no Congo, que no fundo esteve ao serviço do povo congolês e deu o próprio sangue para fazer transfusões, sem a barreira do racismo, como é que ele, afinal, serviu também o sistema colonial que, de um ponto de vista moral, era um sistema infame. Como lidar com esta contradição? Foi esta contradição que despertou o meu interesse por este tema. Acho que não se pode entender o colonialismo sem ter em conta pontos de vistas de pessoas como o meu avô, porque as narrativas deles ajudam-nos a digerir o que foi o colonialismo.

"O darwinismo social, baseado na ciência, na antropologia, etc., tentava convencer as pessoas disso, mas era uma invenção que procurava legitimar o colonialismo. Os museus, com as suas exposições pseudocientíficas, ajudaram nesse processo. Foram ferramentas ideológicas que levaram os povos a ser colonizados com a ideia de que o colonialismo é aceitável."

Está a dizer que os europeus serviram o colonialismo porque no fundo se limitaram a viver as suas vidas, é isso?
Diria que ele serviu o sistema de livre vontade. Servir o colonialismo foi uma missão ideológica que ele quis assumir. A prova disso é que, quando o Congo se tornou independente, em 1960, ele passou a sentir-se traumatizado, a missão ideológica colonialista foi-lhe amputada.

Mas ele estava contra o fim da subjugação dos outros?
Não, mas sentia que a própria independência do Congo era um erro, porque já não lhe permitia prosseguir a sua missão. O que quero dizer é isto: o meu avô e as pessoas da geração dele foram também eles colonizados, através de filmes e museus, por exemplo. O Museu Real da África Central, que mostro no meu filme, foi uma dessas instâncias que o aparelho do Estado criou para colonizar a mente das pessoas.

O colonialismo era uma ideia aceite pela sociedade europeia…
Havia quem aceitasse e havia quem estivesse contra.

Mas no fim do século XIX, quando esse museu começou a ser pensado, a própria ciência dava suporte à ideia de que havia civilizações mais avançadas do que outras?
O darwinismo social, baseado na ciência, na antropologia, etc., tentava convencer as pessoas disso, mas era uma invenção que procurava legitimar o colonialismo. Os museus, com as suas exposições pseudocientíficas, ajudaram nesse processo. Foram ferramentas ideológicas que levaram os povos a ser colonizados com a ideia de que o colonialismo é aceitável.

Como é que chegou a este documentário: foi uma encomenda do próprio museu, está relacionado com o seu percurso académico ou é apenas resultado do contexto familiar que já descreveu?
O museu não me pediu, eu é que lhes pedi autorização para poder filmar lá. Pareceu-me um sítio interessante precisamente por estar ligado à propaganda colonialista de que tenho estado a falar. Quando soube que o museu pretendia fazer uma renovação, fui pedir autorização. Há uma história engraçada. Em 2012, um amigo do Congo, Mekhar Azari, com quem já filmei em Kinshasa, foi-me visitar e num domingo à tarde achei que seria interessante levá-lo ao museu, isto antes da renovação. Foi uma ideia absurda. No fim, quando saímos, ele disse-me que aquele era um dos sítios mais horríveis em que tinha estado, e ele já testemunhou coisas horríveis na vida. Foi então que pensei que estava ali um tema interessante para um filme. Foi por isso que lhes pedi autorização, colaboram com boa vontade, tive acesso a tudo.

O realizador, Matthias de Groof

Como era o museu antes da renovação e como está agora?
O próprio orçamento testemunha que as prioridades foram a renovação do edifício, da infraestrutura: a fachada, a fonte de água, por aí fora.

Uma pessoa no documentário defende que não é possível mudar o museu por dentro sem mudar o edifício, porque o edifício é em si mesmo um símbolo da imponência de um país colonizador.
Penso até que a primeira razão que os levou a pensar em renovar foi a necessidade de reabilitar o edifício. Foi a partir daí que reconstruiram o edifício de acordo com o que tinha sido desenhado o arquiteto original, Girault [Charles Girault, arquiteto do Petit Palais de Paris], e o aproximaram da ideologia da descolonização.

Há uma ideologia da descolonização?
Depende da definição que lhe damos. O museu define descolonização como um processo em que a lógica e a história do colonialismo se tornam claras aos olhos das pessoas, vêm ao de cima, são vistas com um olhar crítico. Se falarmos de descolonização como um processo, podemos esperar que haja falhas, a ideia de processo permite isso. Há um risco nisto: pode tornar-se um logótipo, uma palavra da moda, uma marca, uma ferramenta que acaba por legitimar o oposto. É um paradoxo. O dinheiro que gastaram a remodelar o edifício juntamente como a retórica de descolonização pode apontar para um dogma colonialista, que pode servir para uma espécie de “mea culpa” histórico. Leopoldo II pode ser usado como o bode expiatório e distrair-nos dos colonialismos de hoje. O presente colonial está inscrito no nosso café, nos nossos telemóveis.

O museu poderia ter ido mais longe na renovação?
Claramente. Dou um exemplo: a forma como as pedras são exibidas no museu. Isto também responde à pergunta sobre o antes e o depois da renovação. Temos hoje um gabinete mineralógico muito bonito, com uma estética maravilhosa. Mas a história colonial por detrás disso está ausente, a história do trabalho, do sofrimento das pessoas que extraíram os minerais que usamos nos telemóveis. O museu continua a não relacionar a ambição de descolonizar com a necessidade de pensar o colonialismo atual.

O museu deveria ter ido mais longe?
A única forma de descolonizar um museu colonial, e de tornar o colonialismo um assunto central do debate, é fazer um museu que diga como funcionou colonialismo, em termos históricos e ao nível do nosso pensamento, da nossa maneira de entender o mundo, como funcionou em termos da nossa relação com a natureza, com os recursos, com os animais. Não são apenas as ciências sociais que têm o monopólio deste debate, também a biologia ou a geologia podem falar-nos do colonialismo.

"Não digo que as antigas colónias não têm as suas próprias responsabilidades, mas não podemos ignorar o efeito devastador que colonialismo continua a ter. As reparações económicas às antigas colónias não são um tema fácil, mas são uma questão de dignidade, de justiça e de futuro."

Pensa que o museu deveria ter devolvido objetos ao Congo?
As máscaras, as estátuas, os objetos culturais… Penso que a restituição de obras com origem no colonialismo, como forma de reparação, é uma necessidade óbvia. Talvez o museu tenha essa intenção.

E isso é correto?
Depende de quais estátuas ou quais máscaras. Por exemplo: as máscaras que foram roubadas e que hoje são reclamadas pelas sociedades, pelo Estado, deveriam ser devolvidas, sob um ponto de vista moral. Deve criar-se um quadro legal que o permita.

A devolução levanta questões como: devolver o quê, de que período, a que pessoas ou tribos ou Estados. Concorda que se trata de um assunto muito complexo?
É complexo por várias razões. Gostaria de deixar claro que a devolução de objetos, ou seja, o aspeto cultural, é apenas uma forma de reparação económica. Há académicos que estudam quanto é que as metrópoles coloniais lucraram com a extração de riquezas das colónias e como é que isso se deve refletir em reparações económicas. Os problemas começam quando pensamos a quem devolver. Será, neste caso, ao Estado da República Democrática do Congo, que para muitos congoleses é o inimigo número um?  Será que ao devolvermos os objetos às comunidades reabilitamos noções de nativismo? Mas quem somos nós para julgar, para impor um critério? Outro risco: a devolução de objetos pode servir para evitar as reparações económicas. Quando Emmanuel Macron esteve em Uagadugu [capital do Burkina Faso, em novembro de 2017], anunciou a devolução de objetos depois de os jornalistas lhe terem perguntado sobre reparações económicas. Ele disse que as reparações são um disparate e isso demonstra que a devolução de arte pode servir para nos distrair da reparação económica.

Não estamos a abrir a porta a um processo imparável? Não estamos a ser revisionistas, sem aceitar que a colonialismo fez parte da história da Europa?
Essa pergunta supõe que a história pode terminar, mas a história está sempre em movimento A reparação económica é uma forma de fazer justiça.

“Poderia ter feito um filme completamente diferente, com conflitos, pessoas a chorar, etc. Não o fiz porque não é interessante e estaria a abusar das pessoas e do museu.”

A interpretação que fazemos da história pode estar sempre a mudar, mas os factos históricos não mudam. Sabemos que muitos países europeus exploraram África. Dar dinheiro aos países explorados não será uma forma de reescrever esse passado, fazendo de conta que nada aconteceu?
Mas como é que funciona a justiça? Uma pessoa que vai a tribunal por ter sido violada e o juiz não diz que não será indemnizada porque os factos são os factos.

Talvez o juiz dissesse isso se a violação tivesse ocorrido há 200 anos.
A injustiça colonialista é tangível hoje, não é um passado remoto. Se virmos o colonialismo como alguma coisa que ficou lá atrás na história, distraímo-nos do colonialismo atual, que se vê no nosso café ou nos nossos telemóveis, resultado direto do papel que a Europa teve nas colónias. Não digo que as antigas colónias não têm as suas próprias responsabilidades, mas não podemos ignorar o efeito devastador que colonialismo continua a ter. As reparações económicas às antigas colónias não são um tema fácil, mas são uma questão de dignidade, de justiça e de futuro.

Acha que os debates sobre colonialismo que aparecem no seu documentário, com pessoas do museu e outros especialistas, foram influenciados pelo facto de as câmaras lá estarem?
Penso que sim. Seria ingénuo pensar que a câmaras não influenciam a forma como as pessoas se expressam. Mas filmei durante cinco anos e penso que se habituaram à minha presença. Não me tornei invisível, mas aceitável. Essa aceitação veio também da confiança que as pessoas tiveram em mim. Membros da diáspora congolesa confiaram que eu não me tornaria abusivo na montagem do filme. Poderia ter feito um filme completamente diferente, com conflitos, pessoas a chorar, etc. Não o fiz porque não é interessante e estaria a abusar das pessoas e do museu.

Houve pessoas a chorar durante os debates internos que o museu fez sobre a renovação?
Houve muito pior do que isso. Mas decidi não fazer um filme sobre isso. Não quis mostrar aspetos emocionais, mas dar ao espectador, sem grandes tomadas de posição, algumas ferramentas para pensar o que é um museu.

Reconhece que o seu pensamento também está situado numa época e que os pressupostos podem vir a mudar?
O meu pensamento tem mudado ao longo do tempo. Comecei por reconhecer que fui colonizado. Há quem julgue que a colonização foi a colonização dos países, sem perceber que o cinema ou os museus também colonizaram a nossa mente, neste caso, a mente dos belgas. Espero ter na vida outros momentos em que perceba que o meu pensamento é limitado, ou era limitado. Reconheço o potencial de mudar a maneira como penso.

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.