Dark Mode 151kWh poupados com o Asset 1
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia
i

Dyana Freiras, 32 anos, trabalha no hospital 12 de Outubro há quatro quatro anos, enquanto completa a especialidade em Medicina Familiar e Comunitária.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Dyana Freiras, 32 anos, trabalha no hospital 12 de Outubro há quatro quatro anos, enquanto completa a especialidade em Medicina Familiar e Comunitária.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Médicos em Madrid estão exaustos e sabem que tudo vai piorar. Angélica e Dyana contam como a história se está a repetir /premium

Nos hospitais já se vivem os níveis de lotação de abril e nos centros de saúde os médicos perdem a maior parte do tempo a passar baixas de Covid-19. Testemunhos de duas médicas que estão "exaustas".

    Índice

    Índice

Se esta segunda-feira o sindicato mantivesse a greve que chegou a convocar para os médicos dos cuidados primários, Angélica Gutierrez seria uma das muitas a aderir. Mas após “intensas” negociações, a Asociación de Médicos y Titulados Superiores de Madrid (AMYTS) desconvocou à última hora a paralisação após ter a garantia do Conselho de Saúde de que serão contratados mais profissionais para o serviço burocrático. Um trabalho que desde que começou a pandemia se tem vindo a acumular.

Nas contas de Angélica, 60% do que agora faz é “papel, papel, papel”. É estar agarrada ao telefone a passar baixas e a levantá-las, um trabalho de gestão “monótono e “cansativo mentalmente” e para o qual não devia perder tanto tempo, dada a falta de médicos que agora se sente em Espanha. Outra vez.

“Há uma parte da gestão para a qual os médicos não estavam preparados. Antes havia uma ou duas baixas, agora são baixas, e baixas, e baixas e isso é só papel. Medicina não fazemos, fazemos muitíssimas baixas, o seguimento. É estar agarrada ao telefone”, descreve. Segundo o comunicado do AMYTS, com o acordo agora firmado, a médio prazo os médicos dos cuidados de saúde primários serão libertados, permitindo assim que este serviço seja mais atrativo e não os leve a tentar mudar para outras áreas.

Mas não são só os médicos a estar descontentes. As condições nos centros de saúde têm levado muitas pessoas a protestar nas ruas. Na última quinta-feira foram 50 as manifestações junto ao centro de saúde de Madrid para pedir melhores cuidados sanitários. Como os médicos estão sobrecarregados com tarefas burocrática, os pacientes ficam por ver.

“Fora da nossa área. Saiam daqui”. Confrontos em Madrid após manifestação às portas de bairro confinado

“Não há outra solução”, constata Angélica ao Observador. Ao serviço do centro de saúde de Orcasitas, em Usera, uma das freguesias mais castigadas pelo novo coronavírus e com uma taxa de incidência de mais de mil casos positivos por cada 100 mil habitantes, nos últimos 15 dias, Angélica diz que cada um dos médicos do centro de saúde tem a seu cargo entre 1.200 a 1.500 pacientes. Basta fazer as contas, já que em cada turno, o de manhã e o da tarde, trabalham cinco médicos, e há cerca de 10 mil inscritos neste centro de saúde, sem contar com as crianças que são atendidas por pediatras.

Angélica Gutierrez seria uma das médicas a aderir à greve dos médicos marcada para esta segunda-feira, 28 de setembro.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Quando a pandemia entrou no centro de saúde, ainda em março, nem sequer havia material de proteção para os profissionais “Foi horrível, usávamos a mesma máscara durante uma semana, não havia batas, tínhamos que a desinfetar com lixívia a cada doente”, recorda. Depois ligavam para o hospital com casos de doentes que precisavam mesmo de assistência e do hospital vinha a resposta que estava cheio. No centro de saúde, porém, também nada podiam fazer.

“Íamos mandando continuamente doentes para o hospital, que estava saturado, mas é a eles que cabe fazer os tratamentos antivirais, os antibióticos e os corticóides. Esse tratamento tem que ser supervisionado pelo hospital. Não tínhamos outra forma. Então o hospital mandava muitas vezes as pessoas para as suas casas, onde ficavam internadas”, conta.

"Há uma parte da gestão para a qual os médicos não estavam preparados. Antes havia uma ou duas baixas, agora são baixas, e baixas, e baixas e isso é só papel. Medicina não fazemos.
Médica Angélica Gutierrez

A certa altura o hospital começou a interromper tudo o que eram cirurgias programadas e consultas. Doentes que depois recuperaram contaram a Angélica como tudo se passou. Dizem que chegaram a ser atendidos nos corredores, a ficar deitados no chão a soro. “Foi o caos”, diz.

Agora em setembro, com a chegada da segunda onda de casos, a situação está mais controlada. “Em março foi muito mais caótico que agora. Agora é mais controlado porque os doentes não chegam em massa, na altura vinham muitos e muito mal, com febre, cansados, com dificuldades respiratórias bem percetíveis”, descreve. “O que se vê é menos casos graves, o vírus tem menos força. Mais que isso, não estão todos doentes de uma vez. Podes ver uns e outros e vais mandando para casa e ver como a doença se vai complicando e acompanhando. Se se queixam de cansaço, febre, dizemos para virem ao centro de saúde. Fazemos um raio-x e e se tiverem pneumonia mandamos então ao hospital”.

Nos centros de saúde o que os médicos estão a fazer é a traçar o percurso do doente positivo e a perceber com quem ele esteve, para que essas pessoas também possam ser testadas. “As pessoas têm que fazer quarentena e ficar isolados e a sua família tem também que fazer o teste”, afirma.

O Hospital 12 de Outubro é um dos maiores hospitais da capital espanhola

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Esta é a situação atual, mas Angélica sabe que tudo se pode agravar à medida que o tempo muda. No outono, no inverno há mais “gripes, asmáticos, bronquites”. Agora quando lhe ligam com uma dor de garganta e febre, diz para esperarem uns dias. Já a perda de olfato e o cansaço excessivo são logo motivo de testes.

Nesta altura Angélica recebe material de proteção semanalmente, mas não sabe o que vai acontecer no futuro. Tem apenas uma certeza: “Vai piorar, estamos preparados mentalmente. Só não sei a nível de material e de força de mãos como será”, afirma.

Nos lares de idosos de Madrid, a pandemia foi uma tragédia — e teme-se que volte a ser. Relato de um enfermeiro português

Faltam médicos e não há onde ir buscá-los

À possível falta de material, junta-se a falta de profissionais.

Todos os dias Angélica se vê obrigada a escolher quem tratar. Quando chega é-lhe entregue uma lista dos 60 doentes que ligaram para uma linha telefónica e expuseram o que sentem. Só os casos mais graves dirigem-se diretamente ao centro de saúde ou ao hospital, evitando assim a concentração nos centros. Nesse mesmo dia Angélica tenta responder-lhes, no entanto nem sempre consegue chegar a todos e acaba a escolher os que têm sintomas mais graves, são mais velhos e têm doenças associadas como prioritários. Chega a ter que fechar o dia com uma dezena de doentes em falta, a quem só consegue ligar depois.

"Também entendo a dificuldade [em contratar médicos cuja habilitação não está homologada], porque se se quer uma boa saúde não pode contratar qualquer um".
Angélica Gutierrez

O governo tem optado por ir buscar estudantes aos últimos anos de Medicina, dar-lhes formação e pô-los ao serviço como rastreadores, a fazerem testes de Covid-19, para assim libertarem outros profissionais com mais experiência. Chegou também a ter a colaboração de médicos extracomunitários, a maioria da América Latina, cuja formação ainda não foi homologada em Espanha. A própria presidente da Comunidade Autónoma de Madrid, Isabel Dias Ayuso, nos pedidos que fez no início da semana passada ao governo central, num momento de tréguas, solicitou que 300 destes profissionais fossem efetivamente contratados — o que não pode acontecer à luz da lei atual. Segundo os jornais espanhóis, como o ABC,  há cerca de 3 mil médicos à espera de ver a sua formação confirmada em Espanha para poder exercer.

Centro de Saúde Reyes Magos num dos bairros confinados na cidade de Madrid.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Também entendo a dificuldade, porque se se quer uma boa saúde não se pode contratar qualquer um, que não se sabe se exerceu. Se não tem uma formação que os acredita, entendo a decisão”, opina Angélica. No próprio centro de saúde de Orcasitas, os médicos também se protegem e começaram a trabalhar de outra forma. Estão o mais afastados possível uns dos outros para evitarem contagiar-se caso fiquem doentes. É que todas as mãos contam e quando se trabalha com um limite de mãos, uma baixa médica de um deles pesa mais.

“O medico de família é o mais castigado porque é a porta de entrada, tem que saber de tudo, tem que atender este e aquele e saber o que se passa? Mas também temos médicos mais velhos e também ficamos doentes. Somos humanos”, explica.

No hospital 12 de outubro a lotação está quase esgotada

À porta de um dos hospitais de Madrid, o 12 de Outubro, que serve os bairros do sul onde agora mais infeções se registam, ainda não há muito movimento à entrada das Urgências. Normalmente é mais ao final do dia, quando saem do trabalho, que os doentes decidem ir ver o que se passa com eles, para não regressarem a casa sem saber o que significam os sintomas que sentem. Ainda assim vão chegando ambulâncias, com todos vestidos com fatos de proteção completos, não vão transportar entre eles um caso positivo de Covid-19.

Antes da pandemia chegar a Espanha já havia obras neste serviço de Urgências. Foram então colocados alguns contentores na rua, mesmo em frente à porta do serviço, para as consultas. Agora esses contentores servem apenas para receber casos de suspeitos e confirmações de Covid-19. Há mesmo algumas camas para os doentes que ali tenham que ficar mais algumas horas, depois de passarem pela triagem, no interior do hospital, onde são separados consoante os sintomas que apresentam.

As urgências do Hospital 12 de Outubro servem os bairros do sul onde agora mais infeções se registam

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Com as visitas ao hospital vedadas, é pela voz de Dyana Freitas, 32 anos, que sabemos o que se passa além daquelas paredes do hospital. Trabalha ali há quatro quatro anos, enquanto completa a especialidade em Medicina Familiar e Comunitária.

O cenário no interior do hospital, que descreve ao Observador durante uma breve pausa do trabalho, ainda não chegou ao que pior viveu em finais de abril. Chegaram a estar ali 300 doentes, sem espaço. Não havia cadeiras sequer para se sentarem, as camas estavam todas ocupadas, havia pessoas com fome e muito medo. “As pessoas estavam mesmo doentes e não podíamos ajudar muito mais”, conta. Chegou a questionar o que fazia. “Mas depois há o companheirismo, há a pessoas que sabem bem o que nos faz ter força para continuar”, lembra.

Agora, a 26 de setembro (dia em que falámos com ela), o hospital parece caminhar para um destino semelhante. “Estamos bastantes sobrelotados, não estamos ainda a níveis de abril, mas cada vez temos menos camas nas Unidades de Cuidados Intensivos e menos para o que seria o internamento normal. Estamos a ficar mais lotados”, resume. E isto numa altura em que se aproxima o inverno e com ele as gripes. “Gripes, coronavírus e sobretudo nas pessoas mais idosas. Uma pessoa jovem faz normalmente um internamento curto, um doente idoso com doenças cardíacas, diabetes, fica mais tempo e não se renova tão facilmente as camas”, explica.

"É aquela sensação de repetires o que já viste, depois ficas desanimado, o cansaço físico e aquela parte moral de não se ver a luz ao fundo do túnel. Essa parte tem sido muito difícil".
Médica Dyana Freitas

A juntar ao cenário previsível está o cansaço dos profissionais. Depois da primeira onda de casos, os profissionais de saúde conseguiram tirar alguns dias de férias, mas foram “férias curtas” e o regresso tem sido tudo menos “calmo e descansado”. “Não temos parado. Pensávamos que a nova vaga ia ser em outubro, novembro e dezembro com a gripe e tem sido antes, não estávamos preparados! Estamos a fazer horas extra, mais prevenções do que era normal, não temos pessoal suficiente a trabalhar para responder aos doentes”, descreve.

“É aquela sensação de repetires o que já viste, depois ficas desanimado, o cansaço físico e aquela parte moral de não se ver a luz ao fundo do túnel. Essa parte tem sido muito difícil”, desabafa.

A cada dia que passa, e os números de infeções na Comunidade Autónoma de Madrid confirmam-no, estão a chegar mais casos positivos ao hospital e os internamentos também estão a aumentar. Na última quinta-feira, houve 3.215 internamentos. Havia também 435 em Unidades de Cuidados Intensivos — ao todo foram já 4.859 os doente de Covid-19 que por aqui passaram. “Todos os dias estamos a ter mais casos e cada vez mais ingressos, as pessoas mais idosas estão a ficar doentes agora. Voltamos a ter os idosos outra vez”, diz Dyana.

"Estamos bastantes sobrelotados, não estamos ainda a níveis de abril, mas cada vez temos menos camas nas Unidades de Cuidados Intensivos e menos para o que seria o internamento normal. Estamos a ficar mais lotados"
Médica Dyana Freitas

Na quinta-feira registaram-se também 43 mortes no hospital, perfazendo já um total de 10.137 mortos por Covid-19 só na região de Madrid.

Esta segunda-feira, o Conselho de Saúde forneceu mais dados dando conta de que os internamentos nos hospitais de Madrid caíram 66% na última semana, passando de 591 casos entre 14 e 20 de setembro e os 264 registados entre os 21 e os 27 deste mês.

Doentes crónicos não estão a ser bem atendidos

Primeiro foi o medo, depois o cancelamento de consultas e exames e, ainda, o medo. E os doentes crónicos começaram a ir cada vez menos aos hospitais e apenas o fazem no limite. Para Dyana esse tem sido um dos problemas trazidos pela pandemia, onde o número de doentes disparou, mas os médicos se mantiveram os mesmos “com muito mais carga” de trabalho e doentes para assistir. “Consequência: as pessoas que têm doenças crónicas não estão a ser bem atendidas”, afirma convicta. “Como têm dificuldade em aceder às urgências, quando aqui chegam vêm muito pior, com a sintomatologia mais agravada”.

Segundo os números do Sistema de Monitorização da Mortalidade diária, entre 13 de março e 22 de setembro morreram em Espanha 249.902 pessoas, 44.979 (22%) mais do que se esperava e muitos mais do que os 31 mil registos de mortes por Covid-19. Não se sabe exatamente porque ocorreram estas mortes, mas os analistas contactados pelo El Mundo crêem que estão relacionados com a pandemia.

À porta dos Centros de Saúde as pessoas são obrigadas a formar filas por não lhes ser permitida a entrada devido à pandemia

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Uma investigação da Sociedade Espanhola de Cardiologia, por exemplo, concluiu que durante a pandemia duplicaram o número de mortes por enfarte: quando comparadas as mortes em 75 hospitais espanhóis, entre dois períodos — 1 e 30 de abril de 2019 e 16 de março e 14 de abril de 2020 — regista-se um aumento de 88%. A Sociedade de Neurologia concluiu também que em 58 unidades de saúde do país (que representam 75% destes serviços em toda a Espanha) atenderam-se menos 20% de casos de AVC. Também a Sociedade Espanhola de Oncologia Médica diz que houve menos 20% de casos de cancro, não que não tenham acontecido, mas que não foram diagnosticados.

Pessoas têm medo de ser despedidas e não cumprem as normas

A maior parte dos casos que têm chegado ao Hospital 12 de outubro são de pessoas que vivem em grandes agregados familiares e que partilham casas pequenas. Não têm, por isso, como isolar-se ou fazer uma quarentena sem qualquer contacto, acabando por contaminar toda a família. “Há casos de famílias inteiras infetadas”, diz. Depois há outra realidade: os convívios familiares, pessoas que não se viam há muito tempo e que agora se voltaram a juntar.

“Nos bairros do sul, o facto de existir um nível sócio económico muito baixo, faz com que famílias inteiras vivam dentro de um apartamento com poucas divisões, depois participam em convívios sociais, no trabalho, nos transportes e é muito difícil”, constata a médica interna, que lembra que nestes convívios não se usa máscara. Mesmo em casa, existe o hábito de cozinharem juntos e de até comerem tapas muitas vezes do mesmo prato, o que facilita os contágios.

Dyana acredita que se as pessoas cumprissem as regras e as normas, conseguiriam baixar o trabalho dos médicos, mas também percebe que há muita gente que tem medo de perder o emprego e o salário ao final do mês e que facilita.  Por outro lado, também considera que as restrições agora impostas pecam por tardias. “Estamos a ver o lobo vir e não estamos a fazer nada. A população tem que ajudar”.

Têm-se registado várias manifestações à porta da Assembleia de Madrid contra as medidas restritivas aplicadas a parte de Madrid.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Di-lo numa altura em que se têm registado várias manifestações à porta da Assembleia de Madrid contra as medidas restritivas aplicadas a parte da capital espanhola — medidas que o governo central gostava de ver alargadas a toda a região. “As pessoas são contra o confinamento e o uso das máscaras, dizem que é mentira. Não é mentira, estamos aqui a trabalhar e vemos o vírus todos os dias”, remata.

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.