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João Pedro Morais/Observador

João Pedro Morais/Observador

"Medo", "respeito" ou vantagem eleitoral. Como foi a primeira campanha eleitoral da era Covid? /premium

Ruas semi-desertas, cotoveladas, máscaras e desinfetantes. Só Ventura faz comícios. PS tem manual de boas práticas. Medo ou respeito? Covid mudou tudo. Mas há sítios onde o porta a porta é tudo.

Reportagem em São Miguel, Açores

“Chega de máscaras”. “Estamos aqui fora juntos e depois vamos lá para dentro e temos de pôr a máscara?”. Com a máscara no queixo enquanto fuma uma cigarrilha, o secretário-geral do Chega Açores comenta o novo adereço obrigatório enquanto, à porta do restaurante “O Esgalha”, na Ribeira Grande, faz um compasso de espera para a chegada de André Ventura.

São 20h45, o jantar-comício estava marcado para as 20h30, mas os membros do partido que se encontravam pontualmente no local marcado tiveram de esperar pelas 21h20 para ver chegar o líder nacional — “o nosso guia”, como apelidou Carlos Furtado, que está em vias de ser eleito deputado na Assembleia Legislativa dos Açores. André Ventura lá chegaria, acompanhado da mulher, e não tardou até entrar na sala do piso superior do restaurante, onde cerca de 100 apoiantes do Chega nos Açores (112 pagaram entrada, segundo números da organização) o aguardavam: todos sentados em mesas de 10, com alguma distância entre elas, e todos, desta feita, com a máscara posta de forma exemplar, depois de, dias antes, as televisões terem captado imagens de André Ventura a dar beijos e apertos de mão a quem com ele se cruzava.

João Pedro Morais/Observador

Minutos antes, parte do staff do Chega tinha saído do hotel onde estava hospedado, em Ponta Delgada, numa carrinha de nove lugares, sem máscara nem distanciamento. “Chega de máscaras”, como diria o secretário-geral do partido nos Açores, que conduzia a carrinha, num gesto que contrastaria depois com a imagem dos militantes, no restaurante, a cumprir rigorosamente a regra quando as câmaras da televisão entraram no local.

Ao som de “Hey Jude”, dos Beatles, abafada pelos aplausos, André Ventura dá uma volta pelas mesas e cumprimenta, com acenos, todos os comensais. Os dois seguranças, que o acompanham para todo o lado, ficam à distância de segurança. Foi um jantar-comício à moda antiga o que aconteceu esta quarta-feira à noite em São Miguel, na reta final da campanha eleitoral para as legislativas regionais dos Açores. Acontecimento inédito numa campanha marcada pelo excessivo e rigoroso cumprimento das regras sanitárias, que levou quase todos os outros partidos a limitarem as suas ações de campanha a visitas institucionais ou a ações de contacto com a população, com meia dúzia de militantes munidos de bandeiras atrás.

7 páginas em letra miudinha: um “manual de boas práticas” para a primeira campanha da era Covid

Francisco César chega a Santa Bárbara, Ribeira Grande, e faz contagem de cabeças antes de a ação de campanha arrancar. Estão um pouco mais de 10 militantes a acompanhar o candidato naquele momento. O líder parlamentar do PS no Parlamento regional é diretor de campanha de Vasco Cordeiro e cabe-lhe a ele assegurar que as regras sanitárias são cumpridas para ninguém dar um passo em falso. “A campanha não pode ser perigosa, as pessoas têm de se sentir seguras e não podem ter medo de ir votar”, diz ao Observador.

Por isso é que os socialistas definiram um conjunto de regras minuciosas que passam por testar todos os candidatos que estão em ilhas onde há cadeias de transmissão local ativas, sendo que o teste é feito a cada 14 dias, ou no 1º e 6º dia caso os candidatos viajem de um sítio para outro. Outra das regras é relativa à concentração de pessoas em eventos. Foram proibidas nesta campanha socialista visitas a instalações, empresas ou unidades produtivas que impliquem contacto com utentes ou colaboradores: tudo ficou resumido a reuniões com dirigentes ou representantes de instituições, à porta fechada e com o mínimo de gente possível na sala.

João Pedro Morais/Observador

Mas há mais. O “Manual de Boas Práticas Sanitárias”, com sete páginas e letra miudinha, anota ainda as regras a aplicar nas atividades no terreno, mesmo que sejam na rua, ao ar livre. Há três equipas de 10 elementos espalhadas por cada ilha (no caso das ilhas maiores), sendo que cada equipa é composta apenas por um máximo de “cinco candidatos”, a que se juntam “elementos da estrutura local do PS/Açores em cada freguesia”. Número esse que, no total, “não deverá ser superior a 10”.

Todos devem usar máscara, há regras próprias para o transporte dos membros das equipas nos carros da campanha, para o manuseamento do material de campanha e até para o transporte dos candidatos, que devem evitar pôr as mãos no interior do veículo, devendo pôr as mãos no colo. Eis alguns exemplos:

“A circulação nos carros far-se-á, sempre que as condições atmosféricas o permitirem, com as janelas abertas, ou parcialmente abertas, promovendo-se assim a circulação e a renovação do ar no interior da viatura”;

“Recomenda-se a realização da viagem com as mãos sobre o colo, evitando-se contactos desnecessários com as superfícies interiores do veículo”;

“O desembarque faz-se a partir dos bancos dianteiros, no sentido dos bancos traseiros”;

“O material de divulgação é armazenado nas instalações do PS/Açores nas diferentes ilhas, sendo a sua manipulação limitada ao mínimo necessário”.

Regras apertadas — e de difícil cumprimento — que os socialistas dizem ser necessárias para dar “segurança” às pessoas, numa campanha onde privilegiaram as plataformas digitais, como as páginas de Facebook, que, por defeito do algoritmo, chegam apenas às pessoas que, à partida, já são apoiantes ou simpatizantes daquele partido.

O PS chegou a ponderar fazer o encerramento da campanha, na quinta-feira à noite, através de uma espécie de comício drive-in, onde a plateia seria composta por pessoas nos carros, a assistir às intervenções. Tudo dentro das regras sanitárias e no cumprimento do minucioso manual socialista. Mas nem assim avançou: o PS optou antes por um “evento online”, com mensagens gravadas (de Vasco Cordeiro, Carlos César e António Costa) e transmitidas no Facebook do partido. A via mais segura, portanto.

João Pedro Morais/Observador

Máscaras, álcool-gel e a caneta do costume

Nas ruas de São Miguel, José Manuel Bolieiro, o candidato do PSD ao governo regional dos Açores, vai hesitando nos cumprimentos a quem passa. “Agora tem de ser assim”, diz, apontando o cotovelo na direção da senhora que o ia cumprimentar. Uma caneta cor de laranja, um panfleto com as principais medidas do partido e um frasco de álcool-gel (outros partidos, como o PS ou o PAN optam por distribuir máscaras de tecido). São estes os brindes que a campanha social-democrata vai distribuindo estrada fora às poucas pessoas que encontra pelo caminho. Na terça-feira à tarde, em Ponta Delgada, foi preciso José Manuel Bolieiro andar uns bons metros até encontrar as primeiras pessoas a quem dirigir a palavra: homens que trabalhavam na construção civil em pequenas obras no meio da cidade.

A verdade é que, a meio da semana, as ruas estão vazias. Mas é assim que a campanha decorre, tímida e discreta, com os carros de cada partido a entoar os hinos de cada um para chamar a atenção. Esta sexta-feira, último dia de campanha, o PSD vai reunir com a direção da Santa Casa da Misericórdia do Nordeste, que detém o lar de idosos onde morreu a quase totalidade dos 15 óbitos registados no arquipélago desde o início do surto da Covid-19, e fará um “comício virtual” de encerramento da campanha, com José Manuel Bolieiro a discursar — ao vivo — e os demais candidatos do PSD a aparecerem no evento em vídeo, à distância.

João Pedro Morais/Observador

Também o PSD tem regras para os militantes não aparecerem todos na mesma ação de campanha, havendo um mecanismo de inscrição prévia para controlar os ajuntamentos. A verdade é que o número de casos ativos de Covid-19 nos Açores pouco passa dos 60 (40 em São Miguel), sendo que os Açores registaram pouco mais de 330 casos de Covid-19 desde que a pandemia chegou a Portugal (eram 332 à data de 22 de outubro). Mas nem apesar do aparente controlo da pandemia — para entrar nos Açores é preciso teste negativo prévio (ao encargo do Governo regional), que deve ser repetido ao fim de seis dias — os partidos arriscam passar uma mensagem errada de desleixo.

Uma questão de respeito ou uma questão de vantagem eleitoral?

“Mais vale ser excessivo na prudência do que negligente na ação”, afirma o candidato do PSD, José Manuel Bolieiro, ao Observador, admitindo que uma campanha nestas condições é menos “apaixonante” do que uma campanha pré-Covid. No Bloco de Esquerda, também António Lima, coordenador do BE Açores, admite a dificuldade acrescida. “É difícil, já não é muito habitual haver muita gente na rua nos Açores, mas nota-se nesta campanha que as pessoas estão mais resguardadas em casa”, diz ao Observador o candidato que vai encerrar a campanha no Faial.

Por um lado, todos reconhecem que seriam prejudicados se mostrassem uma atitude negligente face à pandemia, mas, por outro, todos reconhecem que isso acaba por dar vantagem ao PS, partido no poder. “Quem tem a alavanca do poder, está no exercício da autoridade, e ainda por cima faz muitas vezes o discurso do medo” tem vantagem perante os eleitores, diz ao Observador o líder do PSD/Açores.

Vasco Cordeiro, por outro lado, rejeita em entrevista ao Observador que uma campanha de mínimos seja benéfica para o PS e prefere apontar o “respeito” perante os açorianos afetados pela crise pandémica. “Um sinal de respeito para com as pessoas, trabalhadores, que ao longo destes meses fizeram muitos sacrifícios para preservar a saúde pública”, disse.

Em todo o caso, a campanha decorre e com alguma ajuda na sombra. Um dia depois de o PSD ter ido para o Corvo procurar convencer os 80 eleitores que poderão fazer a diferença na atribuição dos dois mandatos elegíveis naquela ilha, o PS apareceu com um trunfo na manga: Carlos César, que foi presidente do Governo regional pelo PS durante 16 longos anos, quase sempre em maioria absoluta, esteve naquela mesma ilha a bater a todas as portas para assegurar aqueles votos preciosos. Numa ilha com apenas 337 votantes (e nunca votam todos), a campanha porta a porta ganha outra dimensão. Mesmo em tempos de Covid-19. E sobretudo quando o presidente do Governo regional se pode dividir em dois: o atual e o antigo.

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