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ESTELA SILVA/LUSA

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Menos doentes mas em estado mais grave — e mais novos. No Hospital de São João a situação está sob controlo. “Ainda”, avisam os médicos /premium

Às urgências chegam menos doentes, mas em estado mais grave, e os efeitos já começam a fazer-se sentir nas UCI. Médicos afastam cenário de caos. Mas temem as próximas semanas.

Enquanto os hospitais do resto do país estão à beira da rutura, sem espaço para acomodar os doentes que não param de chegar ou profissionais de saúde suficientes para lhes prestar cuidados — sendo que os que não estão infetados ou em isolamento estarão exaustos ou à beira do colapso —, no Hospital de São João, no Porto, relataram vários médicos ao Observador, o cenário é outro.

Naquele que é o hospital de referência para toda a região, vivem-se dias relativamente calmos — sobretudo se comparados com o caos que, em março, a pandemia então com epicentro a norte provocou, quando atingiu o hospital e obrigou à reorganização de todos os serviços da noite para o dia, ao mesmo tempo que obrigava médicos e enfermeiros a aprender a lidar com a nova doença, que empilhava corpos em Itália.

Tanto em março como no outono, garantem Jorge Almeida, diretor do serviço de Medicina Interna, e Cristina Marujo, diretora do serviço de Urgência, a situação no São João foi consideravelmente mais complicada.

"É uma luta diária e as equipas estão desgastadas e cansadas, mas ninguém fica por internar. Internamos os doentes onde há lugar — tenho doentes espalhados pelo hospital todo — e a nossa produção cirúrgica nunca parou. Mas não posso dizer que estou a caminhar para a catástrofe. Tudo o que estamos a vivenciar em janeiro deste ano já vivenciámos em janeiro de 2019, 2018, 2017..."
Jorge Almeida, diretor do serviço de Medicina Interna do Hospital de São João

O que também não significa que agora seja um passeio no parque. “Não estou a dizer que estou bem. Estamos tão mal como estávamos no ano passado, não vejo diferenças. Estamos é realmente mais cansados”, diz Jorge Almeida, 55 anos, numa conversa via telefone, explicando que, desde outubro, teve de suspender as folgas do serviço e, a partir de dezembro, cancelou todas as férias.

“Neste momento tenho capacidade para 40 doentes Covid — claro que depois estendemos, hoje já tivemos de abrir mais um setor — e tenho 180 doentes não Covid, no total, são 220. No ano passado, nesta altura, tinha 290 doentes internados em enfermaria, fora as unidades de cuidados intermédios e AVC. Mas não havia Covid e eram doentes que, pelas suas características, podíamos juntar um bocadinho mais e o hospital sempre respondeu. Nós não estamos a trabalhar mais, estamos a trabalhar de maneira diferente”, explica o diretor do serviço de Medicina Interna.

“É uma luta diária e as equipas estão desgastadas e cansadas, mas ninguém fica por internar. Internamos os doentes onde há lugar — tenho doentes espalhados pelo hospital todo — e a nossa produção cirúrgica nunca parou. Mas não posso dizer que estou a caminhar para a catástrofe. Tudo o que estamos a vivenciar em janeiro deste ano já vivenciámos em janeiro de 2019, 2018, 2017… Era recorrente acontecer isto, com as gripes e com a mudança de temperatura — que as pessoas não valorizam muito, mas é impressionante, tanto no inverno como no verão.”

Já nas urgências, garante Cristina Marujo, não há filas de ambulâncias nem sequer grandes tempos de espera, com o sistema de triagem avançada criado entretanto a agilizar a distribuição dos doentes, que muitas vezes vão diretamente para as áreas de assistência, sem passar pela triagem normal. “Em dezembro, pré-festas, tínhamos um fluxo de doentes Covid que andava entre os 80/90 por dia, neste momento temos estado nos últimos quatro ou cinco dias sempre acima de 100. Não é nada de que não estivéssemos à espera e posso dizer que, em comparação com o que tivemos em novembro, não é nada de transcendente, temos capacidade e neste momento ainda temos uma das estruturas fechadas, a dos doentes mais leves”, explica a diretora do serviço.

As urgências Covid do São João estão a receber mais de uma centena de pacientes por dia, mas o serviço ainda tem capacidade para mais, diz Cristina Marujo

Apesar de serem muitos os doentes a chegar — em média um a cada 14 minutos —, a estrutura montada no hospital continua a ser suficiente, com uma equipa de cerca de 30 médicos, 115 enfermeiros, 6 técnicos de diagnóstico e terapêutica, 75 assistentes operacionais e 33 assistentes técnicos, em turnos extra impostos pela pandemia. “Estamos muito apreensivos, mas achamos que ainda estamos, apesar de tudo, suficientemente preparados para aguentar com mais doentes do que aqueles que estão a acorrer ao hospital neste momento”, garante Cristina Marujo, 52 anos.

O problema maior, admite, não será tanto a quantidade de doentes que estão a chegar às urgências do São João, mas o estado em que se encontram. “Em outubro e novembro, o grosso dos doentes eram muitos ligeiros, com sintomas minor [mais ligeiros], que rapidamente iam embora, e isso mudou. Agora há menos doentes, mas mais graves — o que necessariamente faz com que a percentagem de internamentos também seja maior.  A perceção dos colegas que estão na área dos doentes mais graves, onde estamos a receber cerca de 30 ou 40 doentes por dia, é que a maior parte dos que chegam são para internar.”

No outro extremo da cadeia, o intensivista Sérgio Gaião receia que esta calma — pelo menos na comparação com os restantes hospitais do país — revele no final mais uma tempestade, talvez até pior do que aquelas que assolaram o hospital portuense em março e no outono. “Tenho visto muitos doentes em cuidados intensivos, nunca vivi isto como intensivista”, confessa o médico ao Observador.

“A ruptura está próxima e a expansão de resposta é curta” alerta o diretor dos cuidados intensivos do Hospital S. João

Esta quinta-feira, ao programa “Luz ao Fundo do Túnel”, da Rádio Observador, José Artur Paiva, diretor do serviço de Cuidados Intensivos do São João e presidente do colégio da especialidade da Ordem dos Médicos, já tinha dado a entender que, apesar de ainda não ser considerada crítica, a situação nas UCI estava longe de ser ideal. “O Hospital de São João tem nesta altura, em termos daquilo a que normalmente se chamam unidades de cuidados intermédios e unidades de cuidados intensivos, 116 camas ativas e uma taxa de ocupação que anda entre os 90% e os 92%. É evidentemente superior à taxa de ocupação em que gostamos de funcionar, que anda entre os 80% e os 85%, mas tem permitido dar resposta a todos os doentes que precisam de medicina intensiva”, disse o especialista. “Ainda é ligeiramente possível crescer em camas mas não muito mais. Quando falamos de camas, falamos de camas e de recursos humanos — e esse é o elo mais complicado”, acrescentou.

“Para já conseguimos dar resposta às necessidades, mas tenho um bocado de medo das próximas duas ou três semanas”

O raciocínio é lógico: primeiro aumentam os casos de infeção, alguns dias depois começam a ser internados os doentes mais graves, duas semanas mais tarde os que pioraram chegam finalmente aos cuidados intensivos. “É o que está a acontecer agora. Estamos numa fase de aumento da procura de cuidados intensivos em relação há duas ou três semanas atrás. Não estamos cheios, temos as coisas bem planeadas e apesar de tudo — e de os profissionais estarem cansados — temos capacidade de resposta ainda. Para já conseguimos dar resposta às necessidades, mas tenho um bocado de medo das próximas duas ou três semanas”, alerta Sérgio Gaião, 40 anos, membro da equipa de ECMO, o aparelho extracorporal capaz de substituir as funções de coração e pulmões que é muitas vezes a derradeira hipótese para doentes com Covid-19 em estado muito grave.

Neste momento, explica o médico, não há um dia em que não seja admitido pelo menos um par de novos doentes nas UCI do São João. Noutros são bastante mais as solicitações: “Diria que agora temos entre duas e dez pessoas a entrar em cuidados intensivos por dia, varia consoante os dias”.

"Estamos numa fase de aumento da procura de cuidados intensivos em relação há duas ou três semanas atrás. Não estamos cheios, temos as coisas bem planeadas e apesar de tudo — e de os profissionais estarem cansados — temos capacidade de resposta ainda. Para já conseguimos dar resposta às necessidades, mas tenho um bocado de medo das próximas duas ou três semanas”
Sérgio Gaião, intensivista, Hospital de São João

Outro facto preocupante? O aumento do número de admissões para este tipo de tratamento revela que estão a chegar cada vez mais àquele hospital pacientes mais jovens em estado grave — apesar de à partida se saber que a Covid-19 é potencialmente mais perigosa para as faixas etárias mais avançadas.

“Esta doença não escolhe idades nem comorbilidades. Nós sabemos que é mais comum afetar pessoas mais idosas e com mais comorbilidades, disso não há dúvida. É menos provável uma pessoa de 40 anos, saudável, ter de ser internada com Covid em relação a uma pessoa de 87 anos com uma insuficiência cardíaca ou diabetes, por exemplo. No entanto, é possível. Essa tal pessoa de 40 anos, saudável, pode ter um estado de tal forma grave que tenha de ser internada. E o número atual de infetados é tão grande que acabamos por ver muitas dessas tais pessoas novas”, conta o especialista em medicina intensiva.

“Tenho visto muitos doentes em cuidados intensivos, nunca vivi isto como intensivista”, alerta Sérgio Gaião

“Há pessoas que não têm reserva fisiológica para aguentar os tratamentos que nós fazemos. Por esse motivo, só são admitidas em medicina intensiva — e isso sempre, não é só na era Covid — pessoas que consigam suportar os tratamentos, e que possam recuperar da doença e ter uma sobrevida esperada significativa. Isso quer dizer que em intensivos temos muitas pessoas novas e com poucas comorbilidades, são pessoas funcionalmente bem e saudáveis, a partir dos 20 e tal, 30 anos”, acrescenta Sérgio Gaião.

Muito recentemente, revela, recebeu no serviço, justamente para fazer tratamento com ECMO, vindo de um hospital da região, um paciente de apenas 31 anos. “Era um homem atlético, saudável, sem qualquer patologia, nem obeso é. Está muito doente, está em coma induzido e está ligado a uma máquina ECMO, o expoente máximo da gravidade possível. E não é o único. Temos muitas pessoas de 40 e 50 que estão em coma induzido, ligados a um ventilador e alguns deles ligados a ECMO.”

“Sobretudo a partir do início desta segunda vaga, a mortalidade dos doentes que estão com Covid em estado de tal forma grave que têm de ser ligados ao ventilador tem sido muito elevada. Portanto o nosso dia a dia é lidar com a morte dos doentes Covid”
Sérgio Gaião, intensivista, Hospital de São João

Se, na medicina intensiva, os finais infelizes já são uma hipótese sempre a pairar sobre as cabeças dos profissionais, agora, com a Covid-19, morte é uma palavra que lhes está sempre na ponta da língua. “Sobretudo a partir do início desta segunda vaga, a mortalidade dos doentes que estão com Covid em estado de tal forma grave que têm de ser ligados ao ventilador tem sido muito elevada. Portanto o nosso dia a dia é lidar com a morte dos doentes Covid”, reconhece Sérgio Gaião. “Há pouco tempo tivemos uma doente jovem, que veio igualmente de um hospital periférico, fomos buscá-la para colocá-la em ECMO. Teve um desfecho mau em poucos dias, era uma mulher de 40 e tal anos, saudável, sem antecedentes de relevo. Temos de ter um canto nosso menos emotivo e mais racional e frio para conseguir encarar as coisas como são. Se não conseguirmos fazer com que todas as pessoas sobrevivam, uma série delas sobrevive e é a isso que temos de nos agarrar.”

O cansaço não ajuda. A equipa, que em março custou a adaptar-se às novas condições de trabalho, com enfermarias de cirurgia geral a transformarem-se em unidades de cuidados intensivos, com todos os equipamentos e materiais necessários fora do lugar, agora está bem mais oleada, mas exausta. “Temos o nosso horário base, que habitualmente são as 40 horas, fazemos uma série de horas extra e depois há mais coisas aqui pelo meio, como as horas de prevenção do grupo ECMO. Ainda a noite passada recebi cinco telefonemas entre a meia-noite e as 7h da manhã, apesar de estar em casa, a descansar”, conta o intensivista.

“Não sei quantas horas estou a fazer por semana, depende das semanas. Muitas vezes, mesmo fora de horário, alguns de nós vamos ao hospital, porque há casos mais complexos que carecem de ajuda de todos. A nossa vontade de sermos mais proativos do que o horário que está no papel é grande e muito frequente também”, explica ainda Sérgio Gaião, invocando o espírito de missão a que o internista Jorge Almeida já antes tinha feito referência, como que a justificar as dificuldades que os hospitais do resto do país estão neste momento a sentir, com o aumento substancial dos casos de infeção.

"Nós não estamos a trabalhar mais, estamos a trabalhar de maneira diferente”, diz Jorge Almeida, diretor do serviço de Medicina Interna do São João

“Não é uma questão de trabalho exaustivo, como se vai dizendo por aí. Nós somos profissionais de saúde, nós estudámos e vivemos para isto, não estou a fazer nada que não deva fazer habitualmente. Sou médico, estamos estafados toda a vida. Não é que seja anti-herói, o resto do país é que está em março”, tinha defendido, garantindo que aquilo por que os hospitais de Lisboa e Vale do Tejo estão agora a passar não é diferente do que os profissionais do São João foram suportando ao longo dos últimos dez meses.

“O que eu não consegui perceber foi como é que a pandemia ainda não tinha chegado ao sul. Nós passámos um mau bocado em março, e depois foi muito grave em outubro, novembro e dezembro, agora finalmente apareceu em Lisboa. Foram muitos dias seguidos com temperaturas muito baixas, o que numa população que já está com menos cuidados de saúde, tem ainda mais impacto. Uma população que tem uma idade avançada e uma comorbilidade reconhecidamente grave que depois leva com 10 dias de frio extremo, isso é que levou de um momento para o outro a que não houvesse capacidade”, argumentou o diretor do serviço de Medicina Interna do maior hospital da região norte.

O relato de um médico no centro da pandemia: “Isto é um hospital destroçado”

De volta ao fim da linha, apesar de temer o dia em que simplesmente não haja mais espaço nem mãos capazes de expandir o serviço de cuidados intensivos, Sérgio Gaião prefere ver o copo meio cheio. Que é como quem diz esperar que arranque em força a campanha de vacinação e, até lá, ir recordando as histórias de sucesso — porque o fim muitas vezes também pode ser um novo início.

São os casos dos vários doentes com Covid-19 que nos últimos meses chegaram aos UCI “em péssimo estado” mas que “conseguimos que ficassem bem e que atualmente estão a ter uma vida normal”. E o exemplo em particular do rapaz de 20 e poucos anos que este verão foi admitido para ECMO sem SARS-CoV-2 mas com uma situação de falência cardíaca muito grave — ”Porque não nos podemos esquecer de que, no meio disto tudo, há doentes não Covid também”, faz questão de ressalvar. “Não recuperou do coração, mas conseguimos transplantá-lo sob ECMO e depois retirar-lhe o aparelho. Tinha casamento marcado para daí a um mês e meio ou dois e fez questão de manter tudo, se o internamento se prolongasse estava disposto a casar no hospital. Não foi preciso, teve alta a tempo. Já vimos fotografias dele, está casado, está bem.”

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